A morte de Michael Jackson, um depoimento | Guilherme Pontes Coelho | Digestivo Cultural

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COLUNAS >>> Especial Michael Jackson

Quarta-feira, 5/8/2009
A morte de Michael Jackson, um depoimento
Guilherme Pontes Coelho

+ de 7100 Acessos
+ 5 Comentário(s)

"Morte é solução" ― já ouviu isso? Eu já, algumas vezes, de diferentes bocas e em situações diversas. Nunca concordei. "Solução" não parecia a palavra adequada. Concordo que a certeza da morte resolve algumas coisas, porque, afinal, é certo. Qualquer coisa que elimine inseguranças de uma equação garante a tranquilidade necessária para paz de espírito, e não confunda paz de espírito com esclarecimento ou evolução pessoal. Paz. Querendo ou não, a morte traz isso. É o ponto final.

Mas solução? A morte como solução é, ou parecia ser, de um niilismo absurdo. É como se ela, o fim inexorável, se transformasse em objetivo perseguido, porque é a solução do suposto problema da vida. Bizarro.

Só que há pouco mais de um mês, no dia 25 de junho, "morte é solução" não me pareceu tão estranho. Foi a morte de Michael Jackson.

***

Para quem nasceu em 1980 sempre existiu um Michael Jackson. Esses vultos colossais, dos quais Michael é um dos maiores exemplos, são entidades inatas no nosso universo pessoal. Eu lembro de ter perguntado quem é Pelé, quem é Maradona, quem é Madonna, quem foi fulano, quem foi beltrano. Mas Michael nunca precisou de apresentações. Eu tinha dois anos de idade quando ele lançou o Thriller. É como ser vacinado. Aquilo tudo, a música, a dança, o videoclipe, o astro, jamais me seriam objetos estranhos, mesmo eu não sendo um fã.

A familiaridade com o Rei do Pop é resultado menos de inclinações estéticas pessoais que de contexto histórico. Quando vi Axl Rose pela primeira vez foi fantástico. Foi um choque, mas um bom choque. Uma descoberta marcante, sobrepujada pela descoberta do metal, que foi parcialmente sobrepujado por outras coisas também "vistas pela primeira vez". Essas mudanças de apetite também foram temperadas pela presença da MTV e, depois, do Napster e congêneres. O período marcado pela hegemonia da televisão, que vai da terrível década de 80 à promissora década de 90, foi inventado por Michael. Popularidade era medida por exposição televisiva e nisso ele foi gigante. De tão intrínseco à tevê, era parte da paisagem e não me era surpreendente. Porque não existia um antes e depois do moonwalking. Eu cresci vendo aquilo. Porra, era quase um juízo analítico a priori.

No mundo que Michael ajudou a inventar, o da década de 90, ele começou a ser um estranho no ninho, fato que se tornaria mais pesado a cada dia. Os fãs podem argumentar que não é bem assim, que Dangerous vendeu muito bem, que isso, que aquilo. Mas o não tão vendável HIStory, de 1995, já mostra o quanto as coisas mudaram. Michael Jackson vender "mal" é vender vinte milhões de cópias. E depois, já no Terceiro Milênio, ele vende meia-dúzia de milhões com Invincible. Um fracasso de... milhões. Não há escala que meça essas proporções; não há espaço para uma entidade como essa neste mundo.

Musicalmente, eu estava muito envolvido com outras coisas nos anos 90, ele não me era uma realidade musical. Era, sim, uma realidade. Era sempre um assunto, sempre uma fofoca rentável. A brancura excessiva, o nariz clitoriano, a loucura, a pedofilia.

A etapa Dangerous inaugurada com o videoclipe "Black or White" foi a primeira que vi nascer, ao contrário das outras meio que "inatas", como disse antes. E fiquei boquiaberto, como sou até hoje, com o paradoxo da coisa toda. Como entender a pregação igualitária e antipreconceituosa vinda de uma pessoa que fez tanto esforço para extirpar seus traços originais? Como assim It doesn't matter if you're black ou white? Nunca fez sentido Michael pregar isso. Uso o verbo pregar sem pudor algum porque, além de um ídolo dessa magnitude atrair o fanatismo do culto, desde de "We are the world" que ele se dedicava a campanhas humanitárias ― hábito que se tornaria praxe entre pop stars. Uma duradoura influência dele sobre o mundo pop.

Mas até sua morte, o Michael Jackson que mais vi foi o louco. Aquela entrevista com Martin Bashir mostrou como aquele ser humano não vivia mais neste planeta há muito tempo. Nela, atribuiu sua transformação física a hormônios e disse que passara por apenas duas cirgurgias plásticas. Esses exemplos já são suficientes.

O que mais me impressiona em Michael Jackson, quando penso em seu sucesso incomensurável, é o fato de ele ter sido uma pessoa assexuada, fortemente andrógina. Mesmo quando eu era pequeno e o via contracenando com a mocinha do clipe de "Thriller", nunca achei que ele representasse perigo algum à integridade da donzela. Nem quando ele beijou Lisa Marie Presley eu imaginei isso (nem mesmo naquele clipe medonho deles dois seminus). Parecia um amigo-arroz, com aquela voz. Não conheço quem sinta paixões avassaladoras por ele, daquele tipo que sentiam por Elvis ou Lennon. Paixões loucas por Michael existem ao infinito, temos provas incontáveis disso. Era amado por homens, por mulheres, por crianças, por todos, da mesma forma, mas nunca eroticamente, no sentido mais corriqueiro da palavra. Isso é outra prova do quão invencível era seu talento: atingiu picos estratosféricos de reconhecimento sem fortes suportes estético-eróticos.

Aliás, ele era dançarino, o que inevitavelmente se liga a sexo, e, claro, uma de suas características mais marcantes ao dançar era justamente aquele movimento de quadril, muito mais explícito que os de Elvis ou qualquer dançarino voluptuoso. Mas convenhamos, aquilo, vindo de Michael, não era ofensivo, nem lascivo. Poderia ser sensual, mas não a ponto de mães tradicionalistas proibirem seus filhos de imitar ou de conservadores se ofenderem. Incrível.

Essa androginia assexuada tem a ver, sim, com a infância lacerada, como o bê-á-bá da psicologia ensina. Ele nunca saiu dela. Fica complicado formar uma identidade, digo, fica complicado deixar que sua identidade se forme naturalmente se o período de formação mais importante da vida do sujeito é conspurcado. E isso também tem tudo a ver com o fato de ele ter sido pedófilo. Os infinitos fãs não acreditam que Michael seria capaz de tocar crianças, mas acho pouco provável que um sujeito tão colossal como ele, tão marcado pela ausência apropriada de infância e por ter tido uma tão oprimida, tão obcecado em viver num mundo particular e tão acostumado a ver no mundo real uma criação sua, o que de fato foi, tão rico, tão infeliz, tão caprichoso, acho pouco provável que ele não tenha feito algo além de dividir platonicamente a cama com garotos.

Enfim, até a sua morte, o desajustado Michael foi a imagem que tinha dele. Mas ele morreu. Uma morte de causar terremotos. Por isso me veio um pensamento simplório à mente: morrer e causar tal impacto não pode ser obra de escândalos sexuais, nem de autopreconceito racial, nem de perdularismo estelar. Há algo muito maior envolvendo esta pessoa. Pensei nisso nos últimos trinta dias. Nem a pedofilia nem o autorracismo foram capazes de manchar os feitos deste homem.

Eis então a irrefutabilidade do gênio. Com sua morte percebi que o mundo audiovisual no qual minha geração cresceu é quase todo uma criação de Michael Jackson, mesmo não sendo um fã dele. De todos os ícones pop, Michael é o mais dominante. Che, Pelé, Lennon, Marilyn e outros clássicos do século XX não têm o carisma e a universalidade de Michael. É impressionante. Até seu funeral fora pioneiro, mesmo que bizarro. Mas, em se tratando de Michael, não poderia ser de outra forma.

"Morte é solução" ― lembra? Continuo achando que vida é que é a solução, mas só a morte assegura o que muitos de nós, conscientes ou não, queremos: deixar um legado. Nosso tempo é um legado de Michael Jackson.


Guilherme Pontes Coelho
Brasília, 5/8/2009


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
5/8/2009
08h47min
Antes de tudo, parabéns pelo texto. Michael guardava uma carta na manga antes de morrer, iria lançar seu próximo CD como video-game, sendo, novamente, revolucionário. Pena, morreu antes. Muita coisa vai aparecer, aguarde. Outra coisa, acho estranho as pessoas usarem para Michael a expressão "desajustado", "com problemas sexuais", "desequilibrado" etc. Existe alguém realmente ajustado nesse mundo, existe alguém sem perturbação sexual? O normalzinho não é apenas um ajustado à marra às tiranias das normas sociais? E o caso de Michael é que os holofotes estão sobre ele. Michael tem sido pensado a partir de sua vida pessoal e apenas pelo seu lado negro (e as doações fantásticas a instituições de caridade e crianças doentes de cânçer?). Há duas coisas a se pensar sobre Michael: seu talento (afinal, o que são suas músicas?) e sua relação com a indústria cultural (como alguém consegue tanta projeção, sendo adorado como um Deus?). Agora, Michael, como Elvis, tornou-se Mito. Portanto, eterno.
[Leia outros Comentários de jardel dias]
18/8/2009
01h39min
Michael Jackson sempre foi um símbolo sexual fortíssimo... Desperta sensações poderosas em mulheres de todo o mundo...
[Leia outros Comentários de Josefa]
20/8/2009
14h06min
Prezado Guilherme, MJ sempre teve um enorme impacto sobre o público feminino, sim. E, acredite, quando ele dançava, daquele jeito com o quadril, fazia a nossa imaginação ir a mil...
[Leia outros Comentários de Khassandra]
22/12/2009
23h14min
Caro Guilherme, seu artigo está de parabéns. Sou fã do Michael e adorei, apesar de não concordar em alguns pontos contigo. Michael, era sensual, sim. Conseguia despertar desejos calientes nas mulheres, sim, e ele sabia o quanto a sua dança era sensual. Houve uma preocupação dos pais, sim, nos EUA; por sinal, a Oprah perguntou em sua entrevista ao mesmo o porquê de ele pegar tanto na genitália. E ele disse que era porque deixava ser levado pela dança. Não acredito que ele era assexuado, ele apenas era uma homem recatado apenas isso e diga-se de passagem super cavalheiro.
[Leia outros Comentários de Sra. Jackson]
4/1/2011
18h47min
Caro Guilherme, hoje tornei a ler seu artigo e amei. Artista extraordinário, alma atormentada, gênio. Muita luz a Michael Jackson, e que ele descanse em paz. O amarei para sempre.
[Leia outros Comentários de Patrícia Bueno]
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