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COLUNAS

Quinta-feira, 1/10/2009
Palácio dos sabores 1/5
Elisa Andrade Buzzo
+ de 600 Acessos

Um pequeno restaurante onde nos sentimos bem, decoração charmosa e tortas salgadas e doces de cair pra trás. Para comer no local ou levar pra casa. Os proprietários são muito simpáticos, recomendo! (...) tudo é artesanal, claro! (Opinião sobre o restaurante francês Palais de Saveurs)

Ele faz um esforço monumental e, sem uma gota de suor, mantendo a superfíce brilhante de seu minúsculo corpo flexível de ginasta, ergue o macarron [biscoito à base de amêndoas], vence seu peso e, descendo rapidamente em espiral pela perna da estante, foge por um buraco na parede, empunhando seu troféu flamejante. Latas e mais latas estão alinhadas nas prateleiras iluminadas como decoração de um palco sofisticado. Talvez seja o avermelhado das paredes e do carpete combinado com o metal reluzente, ou o inverno que inspirava a necessidade vital em todos animais de entrar nos recintos acalorados, competir e estocar comida para os dias em que as raízes morrerem. Mais on s'amuse, quand même! [De todo modo, nos divertimos!] Acaso a vitrinista não reparou que, fazendo uma decoração com pequenos biscoitos açucarados só poderia atiçar uma clientela ladrona e gourmant, quase invisível, que age em plena noite?

Daquela vitrine na rua Huguerie, ou arena improvisada, o camundongo parecia fazer parte de um reality show ― espetáculo disponível a diminuta plateia. Estamos em Bordeaux, cidade mundialmente conhecida por seus vinhos e a nona maior da França. Apesar disso, ela ainda é tão provinciana que encontramos nossa costureira no supermercado, amigos e conhecidos passeando ou de passagem pelo centro. E mesmo nos escondemos de jovens usando um sobretudo preto de bolinhas brancas igual ao nosso, trombamos com os mendigos de sempre, sedentos na catedral Saint-André ou na rua Vital-Carles. Se em sua origem de cidade galo-romana, Burdigala, Bordeaux ― ex-cidade medieval e clássica e atual patrimônio da humanidade ― é tão afeita à ruas estreitas que nem a modernidade das largas avenidas pôde conter, sorte nossa, pois se pode cortar caminho, fugir das companhias indesejadas. No entanto, optar por estas ruas escuras de paralelepípedos pode ser fatal na caçada que continua sendo a vida.

Enquanto o pequeno roedor degusta sua sobremesa na loja especializada em chás, me interessa contar um pouco dos costumes e o aprendizado que terei naquele jantar e em outras noites. "Você deseja um chá, uma infusão?", sempre oferecia aos clientes a dona do restaurante onde comia regularmente, o Palais de Saveurs. Minha vontade era contar o segredo: a procedência dos "ótimos chás da loja aqui ao lado", mas tamanha indelicadeza seria um atentado à finesse, ou então, pelo contrário, quem sabe não haveria estranheza em saber que há visitantes noturnos nos estabelecimentos franceses. Agora percebo, na lucidez que só a distância traz, que Coralie tinha as feições próximas a de animal da família dos roedores. Estava ali a resposta, na loja de chás e sua insistência em oferecê-los, polidamente, é claro; talvez pensando no orçamento doméstico naquele momento em que a crise assolava o país e especialistas começavam a escrever livros prevendo nosso insustentável modo de vida. Não, havia um recheio de indefinição em tudo ― o aluguel do espaço era caro, embora não estivesse nas ruas mais chiques da cidade, e o casal só conseguia se sustentar porque nas férias de julho Gilles Boulet cozinhava exclusivamente para uma rica família.

Um camundongo, quando ajeita os óculos franzindo o nariz, sempre alerta, em seu risinho permanente de dentes pequeninos, e no jeito speedy de falar atropeladamente, andar rapidamente equilibrando pratos ou travessas, como essa com uma torta, "um quilo de maçã, sem açúcar algum", medalha amarelada de casca reluzente que ela ostenta na vitrine da boa alimentação. Nestas horas começam a se desprender alguns fios de cabelo do laçarote que dá acabamento ao seu coque, ficando levemente desgrenhado. Coralie veste com a maior ingenuidade uma calça de couro justa, ou um shorts xadrez vermelho e preto, "é a última moda", diz à senhora aparentemente pouco escandalizada que compra pedaços de torta.

Se há algo que chama a atenção dos franceses são vitrines, as quais observam sem cerimônia alguma. Até mesmo alguns salões de cabeleireiro têm as suas, que mudam diversas vezes por ano. Não importa se as grades estão abaixadas nos finais de semana ― quando grande parte do comércio permanence fechada ―, dificultando a visão. Perscrutar o conteúdo de uma loja através dos buracos estimula os sentidos, e nos força a voltar num outro dia para enfim verificar seus objetos. Se a loja é nova nas redondezas, tanto melhor! Você verá pessoas olhando a vitrine de cima a baixo, medindo seu potencial como uma mulher tripudia outra com o olhar. Tamanho é o desejo de transparência, que é possível permanecer na vitrine dos restaurantes ― um tipo de varanda envidraçada na calçada ― enquanto se observa, não sem um sentimento de superioridade e, principalmente, é possível ser observado. Pode-se tratar de butiques, lojas de antiguidades, imobiliárias (já que os anúncios de venda e aluguel ficam dispostos para fora) ou vitrines de comida, a paixão nacional, como a que Coralie pousa a torta de maçã. E, assim, reparando na estupidez dos transeuntes ― que não podem se ver enquanto observam pelo vidro, a não ser pelo seu reflexo ou hálito nebuloso ―, não deixei de verificar a minha própria, ao vê-los babando, medindo as potencialidades de sabor dos doces e tortas do Palais de Saveurs; e me recordar da primeira vez em que mergulhei meu rosto em sua vitrine.


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 1/10/2009

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