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COLUNAS

Terça-feira, 1/12/2009
Fórum das Letras de Ouro Preto
Rafael Rodrigues
+ de 900 Acessos

Recentemente, procurando informações na internet a respeito de um hotel ― e não as encontrando ― comentei com minha noiva a respeito da importância que tem o boca a boca ― ou, traduzindo isso para a linguagem virtual, os comentários, posts e textos pessoais sobre seja lá o que for. Uma marca, um restaurante, uma pousada. Pode parecer que não, se formos comparar com temas capitais, como política, religião, miséria etc., mas é de extrema importância relatar impressões, emitir opiniões a respeito até de uma marca de meia, por exemplo. Se a meia é boa, se não é, se rasga fácil, essas coisas. Porque pode acontecer de, um dia, alguém fazer uma busca no Google sobre determinada marca de meias e não encontrar nada ― e ela pode até ser uma boa meia. Ou não, como diria o narrador-filósofo global Cleber Machado.

Pareço brincar e até fiz troça nos últimos trechos do parágrafo acima, mas falo sério. O tal hotel perdeu dois potenciais hóspedes, justamente porque não encontramos nenhum comentário a seu respeito. Portanto, aproveito a ocasião para recomendar uma pousada na qual ficamos hospedados na viagem que fizemos a João Pessoa, em 2008, a então Pousada Nego ― pronuncia-se "Négo", remete à inscrição que há na bandeira da Paraíba ― hoje Pousada Manaíra. A localização mudou ― e, óbvio, também as instalações ―, mas os proprietários são os mesmos. Gente muito boa e atenciosa, contam com um serviço muito bom e um café da manhã excelente. De verdade, não estou ganhando nada para dizer isso.

É por essas e outras que, mesmo tendo passado quase um mês de seu término, resolvo escrever aqui sobre o Fórum das Letras de Ouro Preto, que aconteceu entre os dias 29 de outubro e 02 de novembro deste ano. Foi a 5º edição do Flop, que é promovido pela Universidade Federal da cidade mineira e idealizado pela escritora Guiomar de Grammont.

As biografias foram o foco dessa edição, cujo "título" foi "A Biografia Literária do Brasil começa aqui", mas elas não foram o único gênero discutido durante as mesas. Crítica literária, o desafio de se fazer um caderno ou uma revista de cultura, as relações entre ficção e jornalismo, entre outros temas, também foram abordados em conversas que contaram com gente do quilate de José Castello (escritor, crítico literário e colunista de O Globo), Manoel da Costa Pinto (crítico literário), João Gabriel de Lima (editor de Bravo!), Ruy Castro (biógrafo de Nelson Rodrigues e outras personalidades), Humberto Werneck (escritor, jornalista e biógrafo de Jayme Ovalle), Frei Betto (escritor), Gonçalo M. Tavares (escritor português), entre outros convidados.

A programação, diversificada e intensa, foi impossível de ser totalmente aproveitada, mas o que pude assistir me agradou, e muito. Com exceção de uma única mesa, com os escritores e jornalistas Guilherme "Meu nome não é Johnny" Fiúza e Paulo César "Roberto Carlos em Detalhes" de Araújo, que não rendeu o que poderia.

Mas essa cobertura, "em tempo real" ou "jornalística", digamos assim, já foi feita por mim durante o evento. Além de repetitivo, escrever novamente sobre as mesas que assisti seria um "trabalho de português", como dizem. Portanto, este texto, muito mais pessoal e informal do que os últimos ― e peço até desculpas ao leitor por isso ― é mais uma espécie de recomendação: quem puder ir ao próximo Fórum das Letras, vá.

Já disse uma vez, em outro espaço, e faço questão de repetir agora: não há dúvida de que o Fórum das Letras de Ouro Preto se estabelece como um dos mais importantes e melhores eventos literários do Brasil. Principalmente no que se refere à organização. Qualquer evento é passível de falhas, atrasos, furos etc., mas a impressão que tive, do Flop, foi a de que eles tentaram ― e conseguiram ― fazer com que o mínimo de imprevistos acontecessem. Por não ter ainda o status que tem a Flip, por exemplo, que apesar de ser o maior e mais prestigiado evento literário brasileiro, em certos momentos é sufocante, literalmente ― a quantidade de pessoas que vai a Parati nos dias da Flip, mais por badalação que por interesse em literatura, é assustador ―, o Flop dispõe de uma certa informalidade que, espero, não se perca. Era fácil, por exemplo, não apenas encontrar Guiomar de Grammont assistindo as mesas, mas até mesmo puxar uma conversa com ela ― infelizmente não tive oportunidade de fazer isso. Nos restaurantes, era raro não encontrar alguém da organização do evento, ou mesmo algum escritor convidado ― certo, na Flip isso também acontece muito, mas há uma pequena diferença: em Ouro Preto você se sente mais à vontade para cumprimentar ou tentar conversar com alguém. Na Flip, as coisas são um tanto mais "complicadas", certas pessoas parecem entrar numa espécie de "cápsula anticontato" ou algo do tipo. O clima, em Ouro Preto, não é de badalação ― que parece ter tomado conta da Flip. O sentimento é outro, de maior aproximação, intimidade e até mesmo diversão.

Lá, fiquei hospedado na Pousada Solar de Maria, que foi inaugurada há pouco mais de dois meses. Não obstante a recente inauguração, é uma belíssima pousada. Além de bonita, confortável, aconchegante, também tem um café da manhã formidável e funcionários sempre dispostos a ajudar. Enfim, uma maravilha.

A única coisa da qual me arrependo foi de não ter aproveitado a cidade, não ter conhecido Ouro Preto. É um pecado passar por lá e não fazer isso, eu sei, mas fui lá para cobrir o evento, fui a trabalho. Na minha cabeça não havia tempo de sair para fazer nada que não fosse assistir a mesas, escrever sobre elas e, quem sabe, entrevistar convidados. A depender da maneira que você analise a situação, é um pensamento tacanho. Mas, para mim, foi o certo a fazer. Recusei o convite, por exemplo, de ir à casa onde morou por um tempo a escritora Elizabeth Bishop. Mas, na próxima ida ao Fórum, não deixarei de visitá-la.

É necessário, também, dissertar um pouco sobre as ladeiras de Ouro Preto. São muitas, e algumas são enormes, íngremes demais. Às vezes via uma vovó ou um vovô descendo uma delas e ficava angustiado, quase parando para acompanhá-los visualmente ou mesmo perguntando se não precisavam de alguma ajuda. Mas, como pude depois comprovar, quem precisava de ajuda mesmo era eu. Existe uma arte, um método para andar naquelas ladeiras. Você não pode subir ou descer rapidamente. O certo, pelo que pude ver e experenciar, é ser lento tanto na subida quanto na descida. E estar calçado com um tênis de amortecedor muito bom.

Voltando à organização do evento, que ficou a cargo da ETC Comunicação, tenho a obrigação de explicitar que a imprensa foi muitíssimo bem tratada lá. A sala de imprensa era enorme, com muitos computadores à disposição de jornalistas e convidados, tanto que somente em uma ocasião não encontrei um computador vago. (E olha que eu ia lá três, quatro vezes por dia.) Como se isso não bastasse, houve até algumas "mordomias", como água, cafezinho e lanchinhos. Talvez para quem estava trabalhando recuperar o fôlego e a energia gastos nas ladeiras...

Para quem gosta de literatura, mas foge da badalação que chega a quase contaminar alguns eventos, o Fórum das Letras de Ouro Preto é o ideal. Não vejo a hora de chegar a próxima edição.


Rafael Rodrigues
Feira de Santana, 1/12/2009

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