O hiperconto e a literatura digital | Marcelo Spalding | Digestivo Cultural

busca | avançada
36458 visitas/dia
993 mil/mês
Mais Recentes
>>> ESCOLA PANAMERICANA REALIZA NOVA EDIÇÃO DO ARTESCAMBO
>>> Evento apresenta influência da gastronomia italiana na cultura de São Paulo
>>> Festival Cine Inclusão tem sessão de encerramento dia 23/9 na Unibes Cultural
>>> Exposição de Fábio Magalhães na CAIXA Cultural São Paulo termina dia 24 de setembro
>>> Vânia Bastos apresenta o premiado "Concerto para Pixinguinha", no Teatro Municipal Teotônio Vilela,
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Notas de leitura sobre Inácio, de Lúcio Cardoso
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto
>>> O Wunderteam
>>> Fake news, passado e futuro
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
>>> Da varanda, este mundo
>>> Estevão Azevedo e os homens em seus limites
>>> Séries da Inglaterra; e que tal uma xícara de chá?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> O indomável Don Giovanni
>>> Caracóis filosóficos
>>> O mito dos 42 km
>>> Setembro Paulista
>>> Apocalipse agora
>>> João, o Maestro (o filme)
>>> Metropolis e a cidade
>>> PETITE FLEUR
>>> O fantasma de Nietzsche
>>> O batom
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Sartre e a idade da razão
>>> Encontros (e desencontros) com Daniel Piza
>>> Para você estar passando adiante
>>> Para você estar passando adiante
>>> Melhores Blogs
>>> Torce, retorce, procuro, mas não vejo...
>>> Apontamentos de inverno
>>> Rio das Ostras (III)
>>> Leonardo da Vinci: variações sobre um tema enigmático
>>> 29ª Bienal de São Paulo: a politica da arte
Mais Recentes
>>> Fé em Busca de Compreensão
>>> Carta aos Romanos
>>> Enciclopédia da Vida Selvagem - Animais da Selva III
>>> Mary Poppins
>>> Antologia Da Literatura Fantástica
>>> Saco de Ossos - 2 volumes
>>> Olhe Para Mim
>>> Guia Prático Enem - Matemática E Suas Tecnologias
>>> A Sombra Materna
>>> Histórias Da Vida Inteira
>>> Honoráveis Bandidos - Um Retrato Do Brasil Na Era Sarney
>>> Eternidade Mortal
>>> Ambientes Da Democracia Ambiental
>>> Trinta Anos Esta Noite - O que Vi e Vivi
>>> Pimenta Do Reino Em Pó
>>> Machu Picchu
>>> Cidade Escola - Série Jovens Utopias Livro 3
>>> Dr. Clorofila Contra Rei Poluidor
>>> Trio Enganatempo - Sua Mãe Era Uma Neanderthal
>>> Através Do Espelho
>>> Watchman nee ( O Poder latente da alma )
>>> Oh! Dúvida Cruel 2
>>> Felicidade Em Um Mundo Material
>>> Coleção Enem & Vestivulares Volume 7 - Física
>>> Para Homens Na Crise Dos 40
>>> O Elo Perdido- Classe E Identidade De Classe
>>> Progresso Editora: Tribuna e Paixão de Pinto de Aguiar
>>> Criando Clientes
>>> Coroa Cruel
>>> Aurora Boreal
>>> Práticas Corporais - Volume 3
>>> A Rainha Vermelha
>>> Espada de Vidro
>>> Botânica Criptogâmica Volume 2 - Briofitos E Pteridófitos
>>> Abominação
>>> Afinal Por Que Nossos Alunos Não Aprendem?
>>> Branca de Neve tem que morrer
>>> Sexo: Bloqueios E Desbloqueios
>>> Dezessete Luas
>>> A Googlelização de Tudo
>>> Português Série Novo Ensino Médio Volume Único
>>> Talento Para Ser Feliz
>>> A livraria 24 horas do Mr. Penumbra
>>> Os Deuses Subterrâneos
>>> Pequim em Coma
>>> Para Gostar De Ler 29 - Nós E Os Outros
>>> O homem que foge
>>> Lincha Tarado
>>> Silas Malafaia ( lições de vencedor)
>>> Alongamento - Uma Abordagem Anatômica
COLUNAS

Quinta-feira, 8/4/2010
O hiperconto e a literatura digital
Marcelo Spalding

+ de 8200 Acessos
+ 2 Comentário(s)

A literatura digital é aquela nascida no meio digital, um objeto digital de primeira geração criado pelo uso de um computador e (geralmente) lido em uma tela de computador. Katherine Hayles, no livro Literatura Eletrônica: novos horizontes para o literário, define-a, em poucas linhas, como "obra com um aspecto literário importante que aproveita as capacidades e contextos fornecidos por um computador independente ou em rede".

A autora identifica diversas estéticas para este tipo de literatura, como ficção em hipertexto, ficção na rede interligada, ficção interativa, narrativas locativas, instalações, "codework", arte generativa e poemas em Flash. No que tange ao conto, pelo menos dois gêneros despontam na Era Digital como grandes possibilidades literárias já adaptadas ao novo meio: o miniconto e o que chamamos de hiperconto.

O miniconto encontrou na Web um ambiente propício devido a extensão e aos poucos se torna parte de projetos maiores, bem definidos e acabados, como o caso de Dois Palitos, de Samir Mesquita. Utilizando o Flash, Samir põe o internauta diante de uma caixa de fósforos aberta, e cada clique nos fósforos nos apresentará um miniconto da caixa. Mais do que textos dispersos, a unidade de layout e a brincadeira com os palitos de fósforo nos põe diante de um projeto literário uno, assim como quando abrimos um livro de contos ou poesias: mesmo entendendo que os textos são independentes, sabemos que houve um cuidado de composição por parte do escritor, que de alguma forma está refletido no objeto literário.

É um bom exemplo de uma estética que chega na internet a partir do texto impresso, encontra no novo meio espaço privilegiado de circulação e aos poucos é transformado por este meio, à medida que em obras como a de Mesquita deixam de ser mero exercício de concisão e convertem-se em estética para a produção de uma obra maior, completa, multilinear.

Outra possibilidade do conto nas novas tecnologias é o conto em que o leitor participa de sua evolução através de hiperlink, gênero que estamos definindo como hiperconto.

Um bom exemplo vindo do exterior é Inanimate Alice, de Kate Pullinger, uma narrativa linear produzida em Flash em que uma menina e sua mãe procuram desesperadamente pelo pai em certa localidade da China. Publicado em outubro de 2005 no site da autora e selecionado pelo volume I da Coleção Literatura Eletrônica, organizada por Katherine Hayles em 2006, utiliza as ferramentas tecnológicas como apoio à história narrada, com áudio, fotografias, imagens em movimento, ilustrações, pequenos vídeos, mapas. Forma e conteúdo, aqui, combinam de forma perfeita, pois a vida da menina de oito anos é completamente mediada pelos meios eletrônicos, chamando a atenção do leitor para o excesso de informações a que a menina está submetida (não por acaso a tela do celular da menina é recorrente ao longo da história, convertendo-se em cursor na tela, em certo momento, simulando uma máquina fotográfica). Essa familiaridade com os meios eletrônicos não impede que no capítulo "To do list", quando ela digita em seu celular coisas que gostaria de estar fazendo naquele momento, mencione andar de skate, brincar numa piscina com os amigos e cuidar de um cachorro, embora lembre nunca ter tido um cachorro para cuidar, o que evidencia ser a presença constante dos eletrônicos mais do que uma opção da menina, uma contingência das circunstâncias, o que poderíamos interpretar como uma crítica à sociedade contemporânea.

Experiência brasileira semelhante é a de Mauro Paz em seu desfocado. A obra também é uma narrativa em Flash que conta a história de um jovem rapaz, seus relacionamentos fugazes, seus sonhos, seus medos, sua angústia. A rapidez dos capítulos é também a rapidez da vida particular do protagonista, e a rapidez da contemporaneidade como um todo. Formalmente, a história tem sete capítulos não lineares, cada um com um visual elaborado e completamente diferente e estratégias narrativas também distintas. Há cartas, SMS, notícias de jornal e até uma criativa lista cerebral, em que cada área do cérebro nos remete a algo que o personagem está pensando naquele momento.

Em ambos os casos, porém, a narrativa está posta e o leitor não tem o poder de interferir no rumo dos acontecimentos. Já em experiência hipertextual que desenvolvemos com alunos de um curso de extensão em Narrativas para Web, na PUCRS, criamos uma história em que há oito possíveis finais, definidos a partir da escolha do leitor em três momentos decisivos. Publicado no site Hiperconto, Um estudo em vermelho utiliza análise combinatória para que os finais necessariamente tenham relação com o caminho escolhido pelo leitor ao longo do texto. A história começa com um e-mail enviado pelo leitor a um detetive informando que sua irmã sumiu. A partir daí o detetive responde sempre abrindo possibilidades, e se o leitor, por exemplo, afirmar que sua irmã é uma falsa, aceitar pagar o valor exorbitante pedido pelo detetive e quando perceber a fraude em vez de chamar a polícia resolver enfrentar ele mesmo o homem, acabará descobrindo que tudo fora armado e a irmã àquela hora estará muito longe com seu amante, o detetive. Já se o leitor, achando que sua irmã é uma falsa, resolver não pagar o detetive e ainda enfrentá-lo sem a polícia, pegará ambos na cama e matará os dois.

Este tipo de texto narrativo que explora a interatividade e os hiperlinks tem sido chamado pelos norte-americanos de hiperfiction. Nesse estudo, porém, optamos por chamá-lo de hiperconto em vez de hiperficção, assim como o termo miniconto no Brasil é mais comum do que minificção, apesar de em língua inglesa ser usado o microfiction.

O hiperconto seria uma versão do conto para a Era Digital. Sendo ainda um conto, de tradição milenar, requer narratividade, intensidade, tensão, ocultamento, autoria. O texto, naturalmente, ainda deve ser o cerne do hiperconto, preservando seu caráter literário. Mas um bom hiperconto será capaz de aproveitar as ferramentas das novas tecnologias para potencializar a história que conta da mesma forma que os livros infanto-juvenis, por exemplo, têm se utilizado da ilustração. Imagens, em movimento ou não, áudios, hiperlinks, interatividade e quebra da linearidade são apenas algumas das possibilidades do hiperconto. Claro que um bom hiperconto não precisa utilizar todos esses recursos ao mesmo tempo, assim como há filmes belíssimos sem efeitos especiais.

Naturalmente, esse tipo de trabalho nada mais é do que uma tentativa de explorar as novas ferramentas tecnológicas para produzir um texto literário narrativo, e a própria intenção de criar o site Hiperconto visa atrair outros autores de obras digitais para que enviem seus links e possamos, aos poucos, ter um corpus consistente desse tipo de produção em língua portuguesa.


Marcelo Spalding
Porto Alegre, 8/4/2010


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A noite em que Usain Bolt ignorou nosso Vinicius de Elisa Andrade Buzzo
02. Livrarias de Ricardo de Mattos
03. Silêncio de Ricardo de Mattos
04. A firma como ela é de Adriane Pasa
05. Liberdade de crença e descrença de Carla Ceres


Mais Marcelo Spalding
Mais Acessadas de Marcelo Spalding em 2010
01. A quem interessa uma sociedade alienada? - 2/9/2010
02. O hiperconto e a literatura digital - 8/4/2010
03. Free: o futuro dos preços é ser grátis - 11/11/2010
04. Bastardos Inglórios e O Caso Sonderberg - 27/5/2010
05. O espiritismo e a novela da Globo - 30/9/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
19/4/2010
07h01min
Excelente o artigo de Marcelo Spalding "O hiperconto e a Literatura Digital". O formato, cabe, sem dúvida, para o texto curto e as experiências com novas formas de prosa que possam ser criadas. Isso acontece com a poesia há pelo menos 50 anos. No caso, com a poesia eletrônica e digital. Recomendo aos leitores o livro de Jorge Luiz Antonio "Poesia Eletrônica: negociações com os processos digitais".
[Leia outros Comentários de Hugo Pontes]
21/4/2010
17h07min
O "Um estudo em vermelho" é um bom, porém simples, exemplo do hiperconto tratado no artigo. Entretanto, senti falta, por ser tratar de artigo sobre literatura digital e hipertexto, de links diretos para os demais exemplos citados. Propaganda do Google?
[Leia outros Comentários de José Frid]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




ANDRÔMACA - JEAN RACINE (EDIÇÃO BILINGUE) - TEATRO FRANCÊS
JEAN RACINE
EDIOURO
(1964)
R$ 20,00



ABRAÃO- UMA JORNADA AO CORAÇÃO DE TRÊS RELIGIÕES
BRUCE FEILER
SEXTANTE
(2003)
R$ 28,90



PSICANÁLISE DE TRANSTORNOS ALIMENTARES - VOL. 2
CYBELLE WEINBERG
PRIMAVERA
(2016)
R$ 27,00



IMPECÁVEIS PRETTY LITTLE LIARS
SARA SHEPARD
ROCCO JOVENS LEITORES
(2012)
R$ 12,90



O CAVALEIRO INEXISTENTE
ITALO CALVINO
COMPANHIA DE BOLSO
(2009)
R$ 15,00
+ frete grátis



TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA - PRINCIPIOS FÍSICOS E APLICAÇÕES
ALEXANDRE ARAÚJO
CORPUS
(2007)
R$ 46,90



A PESSOA COMO CENTRO - CARL R. ROGERS
CARL R. ROGERS E RACHEL L. ROSENBERG
EDUSP
(1997)
R$ 34,00



A PASSAGEM DE MAEL: UM AMIGO
RICARDO AMBROSIO
ALL PRINT
(2014)
R$ 16,00



PARIS NO SÉCULO XX
JÚLIO VERNE
ÁTICA
(1995)
R$ 9,00



ADVOGADOS, PATOS E ASSOMBRAÇÕES
MAURO TAVARES CERDEIRA
KOMEDI
(2004)
R$ 6,90





busca | avançada
36458 visitas/dia
993 mil/mês