Hebreus e monstros, parte I | Guilherme Pontes Coelho | Digestivo Cultural

busca | avançada
29366 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> LANÇAMENTO DO BLOG DO JUSTINO
>>> Curso de História da Arte Latino Americana na FAAP
>>> Sérgio Mamberti será homenageado nesta segunda (21) na Alesp
>>> PIONEIRA NO ENSINO DAS ARTES, FAAP OFERECE NOVA PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS E PRÁTICAS CURATORIAIS
>>> Oxigênio Hardcore Fest 2017
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Da varanda, este mundo
>>> Estevão Azevedo e os homens em seus limites
>>> Séries da Inglaterra; e que tal uma xícara de chá?
>>> A fotografia é um produto ou um serviço?
>>> A noite iluminada da literatura de Pedro Maciel
>>> Apontamentos de inverno
>>> Literatura, quatro de julho e pertencimento
>>> O Abismo e a Riqueza da Coadjuvância
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 4. Museu Paleológico
>>> Um caso de manipulação
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> Pétalas neon
>>> À Lígia
>>> Um biombo oscila entre o côncavo e o convexo
>>> Síndrome da desesperança
>>> Simbiose
>>> Grafologia
>>> Premiadas
>>> Plagas e pragas
>>> Elas por elas
>>> Ritmo binário
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O engano do homem que matou Lennon
>>> Exibir sem mostrar
>>> It's my shout
>>> É batata!
>>> Solaris, o romance do pesadelo da ciência
>>> Eu blogo, tu blogas?
>>> Cidade de Deus
>>> Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares
>>> O desafio de formar leitores
>>> Lugar Nenhum
Mais Recentes
>>> Para sair do Século XX
>>> A terra e o céu de Jacques Dorme
>>> Mito e Metafísica
>>> Ponto de Impacto
>>> Cabeça de Porco
>>> Um romântico incorrigível
>>> Constituintes da Ciência da Religião: Cinco ensaios em prol de uma disciplina autônoma
>>> O espectro disciplinar da Ciência da Religião
>>> Estudo das Religiões: Desafios contemporâneos
>>> Religião no Brasil: Enfoques, dinâmicas e abordagens
>>> História das religiões: Desafios, problemas e avanços teóricos, metodológicos e historiográficos
>>> Imaginário da Magia. Magia do Imaginário
>>> Transformações. Ensaios sobre culturas e sociabiliddes
>>> A morte branca do feiticeiro negro. Umbanda e Sociedade Brasileira
>>> Manual de Sociologia da Religião
>>> Tolerância e Intolerância nas manifestações religiosas
>>> História de Nossa Senhora do Desterro
>>> Memórias de Gustav Hermann Strobel. Relatos de um pioneiro da imigração alemã no Brasil
>>> Memória de uma Colônia Italiana: Colombo - Paraná, 1878-2013
>>> Sociologia da religião: enfoques teóricos
>>> Nome de toureiro - 7ª ed.
>>> Diário de Classe - 2ª ed. Nova Ortografia
>>> O caminho do poço das lágrimas
>>> O Homem Demolido
>>> Uma Viagem aos Contos Clássicos Ingleses- Leituras Perfumadas 6
>>> Além do Véu e Fora do Arraial
>>> Os Grandes Enigmas de Nossa História - 12 Volumes
>>> Fertilidade do Solo
>>> Pragas do Coqueiro e Dendezeiro
>>> O Preparo do Solo: Implementos Corretos
>>> Contabilidade Introdutória
>>> Manual de Fitopatologia Vol. I e Vol. II
>>> Conservação e Atração das Aves
>>> Inseticidas e Acaricidas
>>> Construções Rurais - Volume 1 e 2
>>> Mecanização Agrícola Preparo do Solo
>>> A semente da Vitória
>>> Steve Jobs
>>> Cuidado do Corpo Curando a Mente
>>> Curso de Direito Romano - Tomo I
>>> Manual Geral da Redação Folha de São Paulo
>>> Vocabulário Jurídico Vol. V
>>> Ecologia, Meio Ambiente e Poluição
>>> Receituário Caseiro: Alternativas para o controle de pragas e doenças de plantas cultivadas e de seus produtos
>>> Watchaman nele ( o homem espiritual v. 3 )
>>> Watchaman nele ( o homem espiritual v. 2 )
>>> ''Ele é o Senhor e dá a Vida''- Creio no Espírito Santo 2
>>> Operação Cavalo 5 de. Tróia Cesaréia
>>> Era Lisboa e chovia- 2ª ed.
>>> Watchman nee ( O homem espiritual volume 1 )
COLUNAS

Quarta-feira, 11/8/2010
Hebreus e monstros, parte I
Guilherme Pontes Coelho

+ de 3200 Acessos

O Senhor lhe ordenou que voltasse ao Egito para libertar Seu povo da tirania do faraó. A ordem foi tão inesperada quanto a própria aparição do Senhor, manifesto numa incandescência não inflamável, que envolvia uma sarça sem consumi-la. Moisés, depois de ouvir perplexo a voz do Senhor, calçou as sandálias (fora ordenado que as retirasse, pisava em solo sagrado) e voltou para casa, suponho que ainda sentindo no espírito as reverberações das palavras EU serei contigo que emanava do mato candente, e contou à sua esposa, Zípora, num misto de entusiasmo e estupefação, o encontro inesperado que tivera enquanto cuidava do rebanho. Narrou o encontro, lhe disse a missão de que estava irresistivelmente incumbido. Ela, convencida por ele dos propósitos de Deus, disse que o acompanharia. E foram ao encontro do faraó, montados sobre o mesmo camelo.

Um desígnio imposto pelo Senhor já é, por si, uma coisa difícil de suportar. No caso de Moisés, era muito mais. Quando saiu de Midiã com o propósito de libertar os hebreus, ele imaginava que o faraó a quem teria de dar a notícia ("Olha, desculpa, mas vou levar todos os escravos hebreus comigo para a Terra Prometida. Sabe como é, foi Ele quem mandou.") fosse seu próprio pai, o homem que o criou, marido da mulher, sua mãe, que o tirou do rio Nilo, ainda bebê, de dentro de um cesto de junco, calafetado com betume e piche.

Moisés e Zípora são recebidos no palácio. A corte toda fica surpresa ao ver, depois de anos desaparecido, Moisés, outrora um príncipe desordeiro, vestido como um dueiro midianita. Surpreso também o próprio príncipe-pastor: o agora faraó é seu irmão Ramessés, que o recebe com ternos abraços. Este encontro traz felicidade imediata ao novo faraó. Ele sempre adorou o irmão baderneiro. Moisés sumira no deserto logo depois de matar, acidentalmente (ao contrário do que está em Êxodo 2.22), um capataz egípcio. O reaparecimento de Moisés quando o então faraó é Ramessés não poderia ser mais conveniente: o soberano poderia perdoar todo e qualquer crime, de quem quer que fosse. O que efetivamente fez, perdoou o crime do irmão.

Os planos de Deus e o destino dos israelitas, contudo, seriam obstáculos grandes demais, maiores que o amor fraterno que havia entre o jovem faraó e o enviado especial do Senhor.

* * *

A história de Moisés e de como ele liderou a fuga dos hebreus do Egito está no Êxodo, segundo livro do Pentateuco, no Velho Testamento. A narrativa acima tem algumas licenças, mas não são minhas. São dos roteiristas do filme O Príncipe do Egito, animação de estreia da Dreamworks, e filme predileto da minha filha, hoje com três anos e oito meses. O curioso é que não somos cristãos nem judeus (nem mesmo batizados), sequer ensinamos a ela o Pai Nosso, nem qualquer coisa similar. Mas sempre que assistimos a este filme juntos, o que aconteceu praticamente todos os dias das férias, vejo os olhinhos dela brilharem quando Moisés firma o bordão na areia e as águas do Mar Vermelho se abrem "qual um muro à sua direita e à sua esquerda" (Êxodo 14.22).

Ela já foi adicta a outros filmes. O Mágico de Oz, Branca de Neve, A Princesa e o Sapo (este, pela trilha jazzística, muito adequado ao gosto musical da criança), Wall-E e, insolitamente, O Cavaleiro das Trevas. Mas com "a história do Moisés" é diferente, é mais intenso. Eu tenho de contar a história a ela na hora de dormir da mesma maneira como é narrada no filme, ela exige. Cada vez que lhe conto, fico impressionado com o fascínio que a jornada do Moisés tem para ela. É o herói da menina. Um herói sem espada nem escudo, sem cavalo branco nem armadura reluzente; herói de chinelos e barba, carregando um cajado, estimulado por uma força absoluta e que em primeiro lugar busca o diálogo. Um herói muito próximo da ingenuidade.

Mas O Príncipe do Egito não é um filme exatamente ingênuo. É um tanto cruel, na verdade. Essa é sua maior virtude. A maneira como a décima praga do Egito é encenada é exemplo disso. A décima praga é a morte dos primogênitos, "desde o primogênito de Faraó, que se assenta no seu trono, até ao primogênito da serva que está junto à mó, e todo o primogênito dos animais" (Êxodo 11.5). No filme, o filho do faraó é atingido pela praga. Quem lhe trouxe a morte, no contexto do filme, foi seu próprio tio Moisés. Você pode achar que é muito para uma criança lidar. Porém, mesmo eu, que sou contra catequizações religiosas, percebo que a riqueza espiritual e a técnica narrativa do filme suavizam o infanticídio divino (há mais cenas de infanticídio na fita, inclusive). Além do mais, dramaticamente, todas as desgraças que caem sobre o faraó o tornam um dos personagens mais trágicos que já vi no cinema "infantil", porque ele não é vilão, um vilão puro e simples, daquele tipo de antagonista cuja única função é criar obstáculos na vida do mocinho, como a Malévola, da Bela Adormecida; nem mesmo daquele outro tipo similar, que até tem motivos, mas que são mesquinhos, como a madrasta da Branca de Neve. Embora o filme seja de Moisés, o faraó Ramessés é reconhecido em suas razões. Herdeiro do trono, pressões e responsabilidades de mil anos sobre si, ama um irmão que está encarregado lhe destruir o império, tem de lutar contra uma força incomensurável. Seu filho morre, seu reino desmorona, seu irmão o trai, o deus dos hebreus o derrota. Trágico.

* * *

A maneira como os conflitos infantis são tratados no cinema mudou. Evoluiu. O cinema evoluiu, inclusive esteticamente.

(Não faço coro com os pessimistas, o cinema está cada vez melhor. Sempre que algum cinéfilo lhe disser que não há mais filmes como antigamente, seja lá quando tenha sido este "antigamente", diga que poucos filmes nascem clássicos: a importância de um filme na história do cinema e na vida do espectador, por suas características básicas (a história contada e como foi narrada), se cristaliza com o tempo. Blade Runner foi um fracasso quando lançado. Iron Giant, já que falo de cinema infantil, ainda espera por ser redescoberto e virar cult.)

Há filmes classificados como "infantis" cujos conflitos, personagens, cenários e tramas são para todas as idades. Ratatouille. Filmes que não subestimam as crianças. O mais importante: filmes que não matam a própria riqueza estética porque tem de passar um ensinamento. Up ― Altas Aventuras. Apenas contam uma história.

Se há um filme perfeito, que respeita o espectador, criança ou adulto, que conta uma história cativante e que, preenchendo todos os requisitos da jornada arquetípica, narra como um pequeno herói adquire confiança, compreensão e maturidade, sem deixar de ser criança!, este filme é Onde vivem os monstros.

Nota do Editor
Guilherme Montana mantém o Montana, Blog.


Guilherme Pontes Coelho
Brasília, 11/8/2010


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A busca de Marta Barcellos
02. Kindle, iPad ou Android? de Vicente Escudero
03. Ferreira Gullar ou João Goulart? de Wellington Machado
04. Patriotada às avessas de Luiz Rebinski Junior
05. As concubinas do sultão de Diego Viana


Mais Guilherme Pontes Coelho
Mais Acessadas de Guilherme Pontes Coelho em 2010
01. Nas redes do sexo - 25/8/2010
02. A literatura de Giacomo Casanova - 19/5/2010
03. O preconceito estético - 29/12/2010
04. O retorno à cidade natal - 24/2/2010
05. O mundo pós-aniversário - 3/2/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O POETA E A INQUISIÇÃO - GONÇALVES DE MAGALHÃES
GONÇALVES DE MAGALHÃES
MEC/SNT
(1972)
R$ 8,00



POR QUE NÃO CONSEGUIMOS SER BONS?
JACOB NEEDLEMAN
CULTRIX
(2009)
R$ 9,90



O SENHOR É MEU PASTOR. SALMO 23
IRAMI B. SILVA (RESP. EDIT. & REV.)
SCIPIONE
(1991)
R$ 10,00



O VISCONDE PARTIDO AO MEIO
ITALO CALVINO
COMPANHIA DE BOLSO
(2011)
R$ 9,90



A ABORDAGEM GESTÁLTICA E TESTEMUNHA OCULAR DA TERAPIA
FRITZ PERLS
ZAHAR
(1981)
R$ 24,90



AS FÉRIAS DE TEREZINHA
ROUXINOL DO RINARÉ E RAFAEL LIMAVERDE
IMEPH
(2013)
R$ 12,00



A TURMA DA MÃO PRETA EM A CASA MISTERIOSA E O TUNEL DO TRAFICANTE
HANS JURGEN PRESS
ATICA
(1997)
R$ 5,00



THE NOTEBOOK
NICHOLAS SPARKS
VISION
(2004)
R$ 20,00



SIDARTA - HERMANN HESSE (LITERATURA ALEMÃ)
HERMANN HESSE
RECORD
R$ 8,00



O APLAUSO FINAL
MONIQUE RAPHEL HIGH
RECORD
(1981)
R$ 2,30





busca | avançada
29366 visitas/dia
1,1 milhão/mês