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COLUNAS

Quarta-feira, 15/12/2010
Como acabar com um livro
Luiz Rebinski Junior

+ de 1800 Acessos

Há anos espero ver o senhor Charles Bukowski bem representado no cinema. Mas isso parece ser tão irreal quanto dizer que o Velho Safado nunca se embriagou na vida. Tá certo, não vou começar aqui aquela discussão interminável sobre o que é melhor, um livro ou sua adaptação pro cinema. Eu tenho a resposta na ponta da língua. Mas sei que os mais cinéfilos, ou mais equilibrados e menos radicais do que eu, têm argumentos pra me deixar na lona. Então prefiro não entrar nessa discussão.

Mas acontece que Bukowski, durante muito tempo, foi um dos meus escritores favoritos. E, tem outra, eu também gosto de cinema. Então é duro ver um autor tão original sendo retratado de forma pouco criativa. E não é por falta de tentativa. Entre os mais conhecidos, são três os filmes sobre seus livros ou obra. E eu não chamaria nenhum de "filmão".

Bukowski mesmo escreveu o roteiro de Barfly (1987), o longa-metragem estrelado por Mickey Rourke, que na época era um serelepe e bonito garotão a serviço de Hollywood. Talvez por isso ele não tenha convencido muito no papel de Chinaski. Rourke era muito bonito pra ser Chinaski. Talvez hoje, com sua cara de lutador decadente de telequete, ele faria melhor o papel do bebum Chinaski. O filme até dá uma empolgada em alguns trechos, como quando Chinaski conhece Wanda em um bar e podemos ver o próprio Bukowski no balcão, como mosca de bar. Mas, no geral, é fraco como meia dose de uísque em um copo abarrotado de gelo. Mas, ainda assim, é mais empolgante que Factótum (2005), o mais recente filme sobre a obra de Bukowski. O filme é tão modorrento que, a cada quinze minutos, eu arranjava uma desculpa para dar um "pause" e ir à cozinha tomar um copo d'água, mesmo sem um pingo de sede. Tá certo, o segundo romance de Bukowski, publicado em 1975, tem certa melancolia. Chinaski perambula sem eira nem beira atrás de subempregos que, tem certeza, logo vai largar. É um escritor iniciante que tenta lutar para manter viva a chama criativa.

O problema do filme, é que ele não consegue dar cabo à introspecção do personagem e sua descrença diante do futuro. O diretor Bent Hamer limou as passagens mais interessantes do romance para dar lugar a cenas em que Chinaski fica com cara de desânimo esperando ser despedido do emprego. E isso é tudo. As cenas mais interessantes do romance não têm ritmo nenhum no filme. Concordo que não deve ser fácil transformar em roteiro um livro de Bukowski. Seu jeito de narrar é muito peculiar, sua voz inconfundível. Mas, para uma trama sem muita ação, a melhor saída talvez seja um roteiro brilhante, com tiradas espirituosas e fluxos de pensamentos inteligentes que se entrelaçam com cenas bacanas. Mas Factótum não tem nada disso. Aliás, o livro nem está entre as melhores coisas de Bukowski, há romances mais bacanas. Erro na escolha.

Então voltamos mais uma vez no tempo em busca da gênese literária do senhor Bukowski. Crônica de um amor louco (1981) é um filme de arte que tenta condensar os contos do livro homônimo em uma história de decadência, bebedeiras intermináveis e um amor bandido entre um escritor fracassado e uma prostituta em crise existencial. O filme do italiano Marco Ferreri não é um primor, mas é a melhor ficção que vi sobre um livro de Bukowski. Ben Gazzara é igualmente o melhor Chinaski do cinema até agora. Dá pra sentir seu cheiro de álcool e fumaça do lado de cá da televisão. Cass, a personagem do conto "A mulher mais linda da cidade" é meio afetada, com um jeito sombrio que não combina muito com a juventude da atriz Ornela Muti. Mas Ferreri consegue alguns momentos poéticos e os cenários não sofrem com a mesma bagunça pré-fabricada de Factótum.

Bem, segundo o biógrafo Howard Sounes, Bukowski certamente tinha uma opinião bem diferente da minha. Ele odiou o filme de Ferreri e, se não gostou muito de Barfly, pelo menos era grato ao cineasta Barbet Schroeder por torná-lo conhecido do grande público. Um filme belga, que ninguém viu, chamado Crazy Love, era considerado por Bukowski a melhor adaptação de seu trabalho.

Tenho aqui comigo que o melhor filme sobre Bukowski ainda está a caminho. E acho que não é um filme sobre seus livros, mas sobre o próprio Bukowski. Sim, uma cinebiografia. As melhores coisas que vi do escritor em filme são sobre sua própria figura. Não estou dizendo que Bukowski é melhor do que sua obra. Não é. Mas uma desafortunada junção de fatores fez com que o cinema não fosse um lugar agradável para sua literatura. Talvez o roteirista e diretor certos ainda estejam por aparecer pra levar Cartas na rua pro cinema e fazer dele um filme tão bom quanto o livro. Mas talvez isso não aconteça e as pessoas continuem a escolher os livros errados do escritor para transformar em filme.

O certo é que o documentário The Charles Bukowski Tapes, feito por Barbet Schroeder enquanto tentava levantar dinheiro para a realização de Barfly, é melhor do que o próprio Barfly. Disparado. Nele, Bukowski aparece na casa de San Pedro, onde morou com a família. Em uma das passagens, mostra a Schroeder o lugar da sala onde seu pai tentara empurrar seu rosto contra o tapete. Passagem que narraria em um de seus contos.

Outro documentário, feito pela BBC e chamado The ordinary madness of Charles Bukowski, também é mais interessante do que as adaptações dos livros do escritor. Além de entrevistas com ex-colegas do tempo dos correios e com a ex-mulher Linda King, há uma passagem cômica em que Sean Penn mostra a antiga casa dos pais em que Bukowski participou de uma festa e, com a cara devidamente cheia, dançou com a matriarca dos Penn.

Bem, se serve de consolo, nem só Bukowski sofreu com o cinema. Seu ídolo literário, John Fante, teve pior sorte ainda. Robert Towne, que escreveu o roteiro de Chinatown, clássico do Polanski, simplesmente destruiu Pergunte ao pó, o melhor livro de Fante. E Salma Hayek e Colin Farrell foram seus cúmplices. Farrell está simplesmente patético no papel de Arturo Bandini ― se tentasse ser mais artificial, não conseguiria. O diretor não conseguiu transpor para a telona a ironia e o sarcasmo do texto de Fante ― talvez suas melhores qualidades como escritor. Bandini perdeu o brilho na pele de Farrell, que deixou, não se sabe onde, a hilariante soberba do grande escritor de um conto só.

Bukowski viu e participou de alguns dos filmes sobre sua obra. Fante, roteirista de Hollywood, nem isso. Talvez tenha sido melhor assim ― ou não.


Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 15/12/2010

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