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Quinta-feira, 24/3/2011
As revoluções e suas histórias
Tatiana Mota

+ de 2400 Acessos

A face do mundo islâmico pode mudar, ou assim espera-se. O continente europeu acompanha com muita atenção os movimentos nos até agora 11 países que fazem parte das revoltas contra ditaduras seculares, que estão há décadas no poder. Para mim, nascida e criada no Brasil, a cultura desses países sempre me pareceu muito distante. Hoje em dia acostumei-me a ver nas ruas das grandes cidades europeias pessoas ligadas à cultura Islâmica, as mulheres e moças com seus véus, os jovens com o cabelo meio raspado e os senhores discretos de barba grisalha. Há no continente europeu pelo menos 5% de pessoas ligadas ao Oriente Médio e/ou provenientes desses países que no momento enchem suas ruas de protestantes. Essa presença por aqui, combinada com a sensação de estar vivendo mais um momento histórico, faz com que eu tenha também grande interesse em acompanhar os desenvolvimentos dessa revolução.

Os grandes jornais do Brasil cobrem com eficiência o que ocorre nestes países. O que tenho de minha visão pessoal a acrescentar se relaciona à força da juventude para mover tantas barreiras que hoje e sempre fazem parte da vivência humana neste planeta. Não é estranho imaginar que antes dos anos 1950 os jovens ocidentais eram apenas preparados para a vida adulta? Não havia nada próprio de sua época e apropriado para a sua idade, para se curtir o "ser jovem", e desde cedo havia trabalho e/ou casamento. Surgiu uma geração considerada por muitos insana, que quebrou muitos desses paradigmas da época. Não posso aplaudir todas as práticas dessa geração, mas devo reconhecer que eles mudaram a face do mundo entre os anos 50 até os anos 70.

Até mesmo aqui na Holanda a época foi tão marcante quanto nos Estados Unidos, França, Brasil e outros. Havia facções de jovens mais intelectualizadas e outros mais causadores de problemas, os Nozem's e os Provo's, respectivamente. A famosa Dam, a praça mais frequentada pelos turistas em Amsterdam, era na época ocupada por esses jovens, que às vezes até dormiam junto ao monumento da praça em protesto. E assim também podemos lembrar nossos revolucionários brasileiros, reinventando nossa cultura e lutando contra a ditadura.

Essa geração é tão marcante, a dos meus pais, que sempre me senti de uma época menos relevante e conformista. A única marca revolucionária que posso apresentar no meu currículo foi ter pintado meu rosto de verde e amarelo e ter protestado a favor do "impeachment" do ex-Presidente Collor de Mello. Mesmo consciente de que o movimento "cara pintada" é taxado de ter sido manipulado pelas forças políticas opositoras de época, ainda fico feliz em ter estado lá exatamente nesse momento tão importante, chegando a acompanhar o momento derradeiro prostrada em frente ao Congresso Nacional até o último voto.

Percebo que a juventude residente nos países de cultura islâmica em revolução no momento vive mais dificuldades que todas as gerações ocidentais até o momento mencionadas. A corrupção que suga os recursos que deveriam pertencer aos cidadãos nós temos em comum, mas, para mim, a falta de liberdade é uma dor muito grande. O excelente filme No one knows about Persian Cats, no qual o diretor Bahman Ghobadi tenta mostrar como jovens iranianos tentam fazer sua música, dá uma ideia de como a liberdade é cerceada em tais países. Uma banda de heavy metal ensaia reclusa em uma fazenda em meio a vacas nervosas, outra banda "indie" procura passaportes no mercado negro para conseguir se apresentar na Europa; shows secretos em suas cidades, CDs proibidos, repressão e morte, tudo para que eles possam expressar sua arte da maneira que bem entendem. Infelizmente não se pode dizer mais de outros direitos relacionados, como, por exemplo, a liberdade de imprensa e da própria personalidade, pois de certa forma a identidade com esse nível de repressão já nasce pré-fabricada.

Mas esse grupo que está agora vivendo seus 20 anos, vejo que ele é diferente. Muitos dos jovens que conheço são bem mais engajados e interessados com o que ocorre à sua volta. Essa parece ser a maior força nessa revolução de agora nos países do Oriente Médio. Enfrentam os mercenários de Kadhafi, a polícia, os apoiadores dos governos totalitários, perdendo até a vida, se for necessário. As redes sociais e celulares devidamente acionados, quando não bloqueados, são utilizados para comunicar o que ocorre a cada dia ou organizar passeatas neste estado de quase guerra civil. Duvido que o Sr. Zuckerberg, com seu "singelo" objetivo de conectar as pessoas, não poderia imaginar o alcance de sua rede social. Os bilhões que o valor capitalista atribui a essa rede são, a meu ver, secundários, se vistos pelo prisma desse potencial de ajudar a transformar o que está à sua volta.

Na Tunísia já conseguiram a renúncia do presidente, sendo esse o primeiro país o qual o nível de protestos começou recentemente a se intensificar. Curiosamente, o estopim para tudo foi o caso de um jovem, um rapaz de 17 anos que sofreu uma proibição de comerciar seus produtos e respondeu a isso atentando radicalmente contra a própria vida, vindo a falecer e se transformando em mártir. Depois veio o Egito com a surpreendente renúncia de Mubarak, no dia 18 de fevereiro. Agora, a Líbia espera a saída de Kadhafi do poder enquanto milhares de pessoas perecem diante das forças mercenárias. Os demais países em protesto veemente e punição governista radical.

Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egito, Jordânia, Cisjordânia/Faixa de Gaza, Iraque, Irã, Behrein e Iêmen. São muitos países, cada um com sua particularidade, muitos interesses em jogo. Não se pode dizer que o impulso de mudança resultará no resultado que almejam esses jovens, mas ninguém poderá tirar deles a força que têm demonstrado em tentar escrever uma história diferente nas páginas de sua nação. Espero que essa história seja muito própria deles. O modelo democrático de construção do estado e a garantia dos direitos fundamentais do cidadão é muito apropriado para qualquer país que ainda não o tenha, bem como a separação entre a religião e o estado, mas muitos dos países que se encontram do chamado lado ocidental do mundo não podem se vangloriar de fazê-lo com propriedade. Que eles possam então usar esse modelo apenas como base para construir seu próprio governo respeitando sua cultura.

Lágrimas, sangue, mas também belos sonhos de um futuro melhor. Creio ser um momento extraordinário para todas essas pessoas e para todo o mundo. Acompanhemos com atenção e solidariedade, esperando que os mais nobres sonhos de cada um se concretizem.

Nota da autora
Para saber mais sobre a situação dos países, sugiro acompanhar as notícias via site da BBC.


Tatiana Mota
Hilversum, 24/3/2011


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Desastromania no Estrangeiro de Ram Rajagopal
02. A boa e a média em 2005 de Ana Elisa Ribeiro


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