A arte da crônica | Luiz Rebinski Junior | Digestivo Cultural

busca | avançada
36076 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Já estão disponíveis 36 livros digitais gratuitos da Unesp
>>> Natália Lage recebe Marcos Veras no Revista do Cinema Brasileiro
>>> Diversidade é tema de debate na FMP/Fase
>>> Festival do Minuto recebe inscrições de curtas-metragens com tema
>>> Banda Griot se apresenta no Centro Cultural Butantã
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Submissão, oportuno, mas não perene
>>> Tricordiano, o futebol é cardíaco
>>> Ação Social
>>> Antes que seque
>>> Etapas em combustão
>>> Antonia, de Morena Nascimento
>>> O suicídio na literatura
>>> 'As vantagens do pessimismo', de Roger Scruton
>>> E+ ou: O Estadão tentando ser jovem, mais uma vez
>>> Literatura engajada
Colunistas
Últimos Posts
>>> Temporada 2016 do Mozarteum
>>> Curso de projetos literários
>>> Patuá em festa
>>> Literatura: direito humano
>>> Geraldo Rufino no #MitA
>>> Portal dos Livreiros: 6 meses!
>>> Ryley Walker
>>> Leia Mulheres - BH
>>> Adagio ma non troppo
>>> Psiu Poético 30 anos
Últimos Posts
>>> Mão Inglesa
>>> A eterna valsa dos amantes
>>> Oficina em Belém em abril
>>> Assistindo ao Super-Homem com a Catarina
>>> Pedras que abrem caminhos
>>> -Habemus tocha....
>>> Ratazanas, moscas e abelhas
>>> Cabeça de Boi
>>> O trem da saudade
>>> Verdades sobre o mundo acadêmico
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O Mistério dos Incas
>>> Só é louco quem não é
>>> Nossa classe média é culturalmente pobre
>>> Sobre caramujos e Omolu
>>> Murdoch versus Google
>>> Autores & Ideias no Sesc-PR I
>>> Viral Loop, de Adam Penenberg
>>> Literatura engajada
>>> Duas formas de perder a virgindade no West End
>>> O delfim, de José Cardoso Pires
Mais Recentes
>>> ERA DOS EXTREMOS- O breve século XX 1914-1991
>>> DICIONÁRIO ESCOLAR DA LÍNGUA PORTUGUESA- com a nova ortografia
>>> HENRI BERGSON
>>> O SEGREDO LIVRO DA GRATIDÃO
>>> FREUD conflito e cultura- ensaios sobre sua vida, obra e legados
>>> O GRITO PRIMAL- TERAPIA PRIMAL- A CURA DAS NEUROSES
>>> PROFUNDA SIMPLICIDADE- Uma Nova Consciência do Eu Interior
>>> Desembarcando o Sedentarismo
>>> NÃO PERDOE CEDO DEMAIS- estendendo as duas mãos que curam
>>> CURSO ADIANTADO DE FILOSOFIA YOGUE
>>> O DUPLO CHAMAMENTO- O Declínio e a Restauração do Testemunho de Deus
>>> NOVA GRAMÁTICA APLICADA DA LÍNGUA PORTUGUESA uma comunicação interativa
>>> A FILOSOFIA PAGÃ- Do século VI a.C ao século III d.C- Volume 1
>>> A HISTÓRIA DO NASCIMENTO DE MARIA- PROTO EVANGELHO DE TIAGO
>>> O FIM DOS EMPREGOS- O declínio inevitável dos Níveis dos empregosea Redução da Força Global de Trabalho
>>> Marxisme et theorie de la personnalité
>>> REVIVAL
>>> MR MERCEDES
>>> COMO EU ERA ANTES DE VOCE
>>> DE VOLTA AO JOGO
>>> A Louca de Maigret
>>> O Burgomestre de Furnes
>>> Maigret e o Ministro
>>> A Fuga do Sr.Monde
>>> Maigret e o Corpo Sem Cabeça
>>> Mulher no Escuro
>>> Amigos, Amantes, Chocolate
>>> Morte de Um Holandês
>>> Uma Agulha Para o Diabo e Outras Histórias
>>> Unidos Para Sempre
>>> Pedaço do Meu Coração
>>> Anatomia de Um Crime
>>> Prenda-me, Por Favor
>>> O Homem dos Círculos Azuis
>>> Serena
>>> Beco dos Mortos
>>> Getúlio 1882-1930
>>> Revista Realidade
>>> Montenegro - As Aventuras do Marechal Que Fez Uma Revolução nos Céus do Brasil
>>> Além do Feijão Com Arroz
>>> Contos Escolhidos
>>> Bandeira de Bolso - Uma Anotologia Poética
>>> Às Cegas
>>> Microcosmos
>>> O Tempero da Vida e Outros Ensaios
>>> O Homem Eterno
>>> Bumerangue
>>> Rodolfo Theophilo - O Varão Benemérito da Pátria
>>> Dez Mil Guitarras
>>> A Auséncia Que Seremos
COLUNAS

Quarta-feira, 4/1/2012
A arte da crônica
Luiz Rebinski Junior

+ de 2600 Acessos

Humberto Werneck, em uma rápida entrevista, me diz que a crônica é "a vida ao rés do chão", evocando o célebre ensaio de Antonio Candido. Em tempos internéticos, o "causo literário" ainda resiste à superficialidade do mixuguês. E, em grande parte, por conta de Werneck, que se tornou uma espécie de militante de seu ofício: além de espalhar suas pílulas literárias pelos diversos meios de comunicação do país, o autor mineiro tem se esforçado para que a efemeridade crônica da crônica ganhe sobrevida, saia das páginas amareladas e tomadas por ácaros dos arquivos de jornais e reviva nas mãos de novas gerações por meio do livro, esse intrépido objeto que também ousa sobreviver aos tempos virtuais. É que além de cronista dos mais interessantes, Werneck tem se notabilizado por suas antologias, como a imperdível reedição ampliada de Bom dia para nascer, coletânea de crônicas de Otto Lara Resende, publicadas na Folha de S. Paulo no começo dos anos 1990.

E a dívida da crônica brasileira com Werneck não para de crescer: o escritor mineiro encabeça a recente coleção "Arte da Crônica", da avant-garde Arquipélogo Editorial, do timoneiro Tito Montenegro, que, além do livro de Werneck, Esse inferno vai acabar, já publicou Nós passaremos em branco, do curitibano Luís Henrique Pellanda, e Certos Homens, de Ivan Angelo.

O livro de Werneck traz 44 textos publicados em jornais - ah, os jornais, ainda o santuário da crônica! - como O Estado de São Paulo e Brasil Econômico. Se um dos combustíveis da crônica é a urgência do prazo de fechamento do jornal, sua danação, no entanto, é justamente a vida breve que tem. Por isso o livro, como uma fotografia, consegue eternizar o instante retratado pela crônica, esse texto fascinante e tipicamente brasileiro. Melhor para os leitores, que podem ler e reler textos magistrais, que parecem brotar do nada, como "Saudade da coxa de Catupiry", em que Werneck teoriza sobre a modernização dos tira-gostos, hoje irreconhecíveis em meio à infinidade de combinações que jogaram pra escanteio os tradicionais quitutes - entre eles a coxinha, o pastel e quibe, clássicos absolutos de qualquer festinha.

Ainda que muitos cronistas não gostem de ter seu ofício comparado a um trabalho meramente saudosista, a crônica tem na memória e na lembrança grande parte de seu sabor. Assim como aquela pegada cômica, em que a graça está justamente nas desventuras do próprio cronista, ou de algum "amigo" inexistente - sim, porque, assim como na ficção, na crônica há espaço para uma ou outra lorota, claro. Tente não rir de "A gente se acostuma", texto em que Werneck consegue falar do velho clichê que se refere ao nosso "jeitinho" sem fazer apologia ou crítica social.

"Meu amigo Paulo Leite tem seis lâmpadas no teto do banheiro, e faz tempo que cinco estão queimadas, o que no chuveiro o obriga a se posicionar assim meio de lado sob o único foco de luz hoje operante. Se também esse entregar os pontos, o banho noturno do conhecido fotógrafo passará a ser tomado em Braille." Taí um bom cronista: fala de coxinha e lâmpadas queimadas sem ser piegas ou chato. Herdeiro dos grandes cronistas mineiros - de Sabino a Paulo Mendes Campos -, Werneck nos faz acreditar quer tudo é possível - e fácil - com a escrita ao transformar um feijãozinho ralo em uma poderosa feijoada.

No livro há ainda momentos impagáveis, como o lado B de entrevistas saídas "Do caderno de um repórter". Estão lá pequenas histórias sobre grandes entrevistados de Werneck, gente "miúda" como Nelson Rodrigues, Carlos Drummond e Vinícius de Moraes. Textos que, puxados pelo fio da memória, renderiam um belo livro solo.

Nós passaremos em branco

Se Werneck é o alquimista que transforma o comezinho em grande tema, Luís Henrique Pellanda encarna o caçador de tipos em Nós passaremos em branco. Seu habitat é o centro de Curitiba, e sua matéria-prima homens e mulheres eclipsados pelo cotidiano, invisíveis para a maioria da população, que emergem nas crônicas como seres complexos - às vezes místicos, às vezes misteriosos. Não importa apenas contar uma boa história, o escritor dá aos seus personagens contornos épicos, com toques sobrenaturais, traz à tona detalhes que nos escapam, mas não ao cronista. Ao transformar o árido território por onde transitam seus personagens em um palco de alguma beleza, Pellanda reafirma a crença na própria literatura: sabe ele que o grande escritor vive constantemente afrontado pelas pequenezas da vida. Assim surgem os desgraçados que povoam a "Antologia dos demônios de Curitiba", uma série de oito textos que apresenta tipos que povoam o centro da capital paranaense, personagens tão fascinantes quanto esdrúxulos. Estão lá "O Diabo da Cruz Machado", "O morcego da Ermelino" e o "Encosto Bilheteiro", um time de párias de fazer inveja a João Antônio e que deixaria Malagueta, Perus e Bacanaço com caras de coroinhas.

"Há uma numerosa legião de pequenos diabos trafegando pelo centro de Curitiba, responsável, cada um deles, por uma tentação distinta, mesquinha e também pequena. O fato de serem miúdas essas tentações, a ponto de parecerem envergonhadas de sua condição rasteira, não significa, no entanto, que impliquem em perdas desprezíveis. Porque, para Deus, não obstante sua grandeza imensurável, nada é realmente pequeno", escreve o cronista em "O Encosto Bilheteiro".

Mais do que caçar almas penadas de existência torta, Pellanda faz o que, desde Dalton Trevisan, nenhum escritor curitibano havia feito: redesenhar o centro de Curitiba com contornos literários. E há conhecimento de causa nisso. Pellanda conhece as duas pontas da coisa: o centro de Curitiba e o terreno arenoso da escrita, ajudado nisso tudo pela experiência de repórter. O cronista também subverte a urgência da crônica ao burilar seus textos como se fossem contos. Parágrafos lapidados com paciência de artesão, como em "Conan, o milagreiro", crônica que traz a frase escolhida para dar título ao livro. Não é preciso saber onde funcionava o Cine Plaza, em Curitiba, nem ter assistido ao filme The Doors, de Oliver Stone, para se deixar levar pelo corte certeiro do texto do escritor, que relembra a pré-estreia do filme de Stone em uma cidade provinciana, com jovens carentes por uma mísera aparição de uma lenda do rock, ainda que falsamente encarnado por um galã de Hollywood.

"Em suma, o tempo voa, o dia destrói a noite, a noite divide o dia e nós passaremos em branco. Era o sonho de Manuel Bandeira, morrer completamente. Jim Morrison se foi em 1971, há quarenta anos, duas vezes duas décadas, e nos deixou uma única certeza: não há nenhuma vantagem prática em estar enterrado no Père Lachaise, ao lado de Balzac, Chopin, Camus e - ó esperança! - Kardec."

Ainda hoje, depois de uma tradição gloriosa, que fez da crônica um gênero idiossincrasicamente brasuca, não nasceu cronista que saiba explicar o que ao certo é a crônica. Mas não precisa. Livros como os de Werneck e Pellanda, caro leitor, nos traduzem exatamente os diversos sabores desse gênero delicioso.


Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 4/1/2012


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Sinédoque São Paulo de Duanne Ribeiro
02. Conto de amor tétrico ou o túmulo do amor de Jardel Dias Cavalcanti
03. 4 livros de 4 mulheres para conhecer de Ana Elisa Ribeiro
04. Proibir ou não proibir? de Cassionei Niches Petry
05. E Foram Felizes Para Sempre de Marilia Mota Silva


Mais Luiz Rebinski Junior
Mais Acessadas de Luiz Rebinski Junior em 2012
01. A arte da crônica - 4/1/2012
02. Os contos de degeneração de Irvine Welsh - 17/10/2012
03. O senhor Zimmerman e eu - 9/5/2012
04. Luz em agosto - 15/8/2012
05. O caminho rumo ao som e a fúria - 1/2/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




OS LUSÍADAS
CAMÕES
EDIOURO
(2016)



AUTOPERCEPÇÃO- O QUE PODEMOS APRENDER COM O SISTEMA IMUNOLÓGICO
GERALDO N. CALLAHAN
SENAC
(2002)



RE+COMEÇAR
JANDER GOMEZ
KAZUÁ
(2015)



FREUD CONFLITO E CULTURA- ENSAIOS SOBRE SUA VIDA, OBRA E LEGADOS
MICHAEL S. ROTH
ZAHAR
(2000)



ARQUIVOS DE NEURO - PSIQUIATRIA - VOL. 59 - N.º 2-B - JUNHO 2001
ANTONIO SPINA-FRANÇA (DIRETOR EXECUTIVO)
ACADEMIA BRASILEIRA DE NEUROLOGIA - ASSOCIAÇÃO ARQUIVOS DE NEURO-PSIQUIATRIA DR. OSVALDO LANGE
(2001)



A POÉTICA DO SILÊNCIO - JOÃO CABRAL DE MELO NETO E PAUL CELAN
MODESTO CARONE
PERSPECTIVA
(1979)



OS GRANDES FILÓSOFOS QUE FRACASSARAM NO AMOR
ANDREW SHAFFER
LEYA
(2012)



CURA DAS FERIDAS DO DIVÓRCIO
BARBARA LEAHY SHLEMON
RABONI
(1995)



A CAIXA VERMELHA
REX STOUT
COMPANHIA DAS LETRAS
(2004)



BRITISH ECONOMIC GROWTH
STEPHEN BROADBERRY E OUTROS
CAMBRIDGE UNIVERSITY PRESS
(2015)





busca | avançada
36076 visitas/dia
1,1 milhão/mês