A arte da crônica | Luiz Rebinski Junior | Digestivo Cultural

busca | avançada
28111 visitas/dia
949 mil/mês
Mais Recentes
>>> TV Brasil estreia premiada série O Tempo entre Costuras nesta sexta (26)
>>> Baile da Melhor Idade no Pátio Alcântara
>>> Mattel apresenta lançamentos em livros na Bienal de São Paulo
>>> Companhia de Danças de Diadema apresenta "por+vir" na Galeria Olido
>>> Universidade do Livro oferece curso a distância de preparação e revisão
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A noite em que Usain Bolt ignorou nosso Vinicius
>>> Sobre os três primeiros romances de Lúcio Cardoso
>>> Meu querido mendigo
>>> Na hora do batismo
>>> Simone Weil no palco: pergunta em forma de vida
>>> Existe na cidade alguém, assim como você...
>>> Eleições nos Estados Unidos
>>> Os dinossauros resistem, poesia de André L Pinto
>>> A que ponto chegamos, EUA!
>>> Caiu na rede, virou social
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lançamento e workshop em BH
>>> Reid Hoffman por Tim Ferriss
>>> Software Programs the World
>>> Daphne Koller do Coursera
>>> The Sharing Economy
>>> Kevin Kelly por Tim Ferriss
>>> Deepak Chopra Speaker Series
>>> Nick Denton sobre Peter Thiel
>>> Bill & Melinda Gates #Code2016
>>> Elon Musk Code Conference 2016
Últimos Posts
>>> Todos à USP!
>>> O acumulador
>>> A ABSTRATA MARGEM
>>> Rua da infância
>>> Nada disso estaria acontecendo...
>>> 180°
>>> Espírito Olímpico
>>> O homem nu
>>> Casulo de névoas
>>> 24 de Agosto, um dia na recente historia do Brasil
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Chico Buarque falou por nós
>>> Os 100 maiores cientistas
>>> Um estranho incidente literário
>>> Em terra de cego, quem tem olho é Pelé
>>> Livros de literatura podem ser objetos de consumo?
>>> A juventude nas livrarias
>>> Elon Musk Code Conference 2016
>>> A deliciosa estética gay de Pierre et Gilles
>>> Como parecer culto
>>> Entrevista com Catarse
Mais Recentes
>>> A cartilha da nova mãe
>>> Vila dos Confins
>>> Showrnalismo- A notícia como espetáculo
>>> Arte de Ser Mulher- Manual de Consciência Corporal
>>> Freud- Estudo Crítico da Psicanálise.
>>> Revolução da Esperança
>>> Espírito de Miséria
>>> Jornada Xamânica ( Inclui CD para Meditação)
>>> O Simbolo da Transformação na Missa
>>> Planeta 15
>>> Angústia
>>> O Graal- Arthur e Seus Cavaleiros- Leitura Simbólica
>>> Tavares Bastos (Aureliano Cândido 1839-1875)
>>> Epitecto e a Sabedoria Estoica
>>> Ensaios de antropologia brasiliana
>>> Do Brasil Filipino ao Brasil de 1640
>>> Cenas Noturnas na Bíblia- Tardes e Manhãs, que conduzem ao dia perfeito
>>> Assuma o Controle de Sua Vida-Como dizer Não à Manipulação Emocional
>>> A conquista do deserto ocidental
>>> Individuação Junguiana
>>> Mar Morto
>>> Viagem ao centro da Terra
>>> Cordel para Crianças (Caixinha com 10 Títulos)
>>> 40 Anos de Teatro (Volume 3) - Mario Nunes
>>> 40 Anos de Teatro (Volume 2) Mário Nunes
>>> Curso de Cenografia - Di Cavalcanti
>>> Apolonia Pinto e o seu tempo - Coleção DIONYSOS
>>> Revista DIONYSOS - nº 5 (Fevereiro de 1955)
>>> Revista DIONYSOS - nº 26 (Especial: Teatro Oficina)
>>> Revista DIONYSOS - nº 24 (Especial: Teatro de Arena)
>>> Revista DIONYSOS - nº 22 (Os Comediantes)
>>> Revista DIONYSOS nº 16 (Teatro)
>>> Revista DIONYSOS - nº 25 (TBC - Teatro Brasilerio de Comédia)
>>> Revista DIONYSOS nº 23 (Teatro)
>>> Janeiro de Grandes Espetáculos - Origem e Perspectivas - 2ª Edição Revista e Ampliada
>>> Janeiro de Grandes Espetáculos - Origem e Perspectivas
>>> Incidentes em Antares - Érico Veríssimo
>>> Sabedoria Persa
>>> O Barão nas Árvores - Italo Calvino
>>> Solano Trindade - Poemas Antológicos
>>> A invenção de Hugo Cabret
>>> As Cem Melhores Crônicas Brasileiras
>>> Cidades Brasileiras - O passado e o presente
>>> Clarice - Uma vida que se conta
>>> Orações Que Deus Gostaria de Ouvir
>>> Paula Pryke Living Colour
>>> Herança Explosiva
>>> A um Passo do Armagedom
>>> O Estudo Bíblico Indutivo
>>> Sigueme Uno Como Crecer Espiritualmente
COLUNAS

Quarta-feira, 4/1/2012
A arte da crônica
Luiz Rebinski Junior

+ de 2700 Acessos

Humberto Werneck, em uma rápida entrevista, me diz que a crônica é "a vida ao rés do chão", evocando o célebre ensaio de Antonio Candido. Em tempos internéticos, o "causo literário" ainda resiste à superficialidade do mixuguês. E, em grande parte, por conta de Werneck, que se tornou uma espécie de militante de seu ofício: além de espalhar suas pílulas literárias pelos diversos meios de comunicação do país, o autor mineiro tem se esforçado para que a efemeridade crônica da crônica ganhe sobrevida, saia das páginas amareladas e tomadas por ácaros dos arquivos de jornais e reviva nas mãos de novas gerações por meio do livro, esse intrépido objeto que também ousa sobreviver aos tempos virtuais. É que além de cronista dos mais interessantes, Werneck tem se notabilizado por suas antologias, como a imperdível reedição ampliada de Bom dia para nascer, coletânea de crônicas de Otto Lara Resende, publicadas na Folha de S. Paulo no começo dos anos 1990.

E a dívida da crônica brasileira com Werneck não para de crescer: o escritor mineiro encabeça a recente coleção "Arte da Crônica", da avant-garde Arquipélogo Editorial, do timoneiro Tito Montenegro, que, além do livro de Werneck, Esse inferno vai acabar, já publicou Nós passaremos em branco, do curitibano Luís Henrique Pellanda, e Certos Homens, de Ivan Angelo.

O livro de Werneck traz 44 textos publicados em jornais - ah, os jornais, ainda o santuário da crônica! - como O Estado de São Paulo e Brasil Econômico. Se um dos combustíveis da crônica é a urgência do prazo de fechamento do jornal, sua danação, no entanto, é justamente a vida breve que tem. Por isso o livro, como uma fotografia, consegue eternizar o instante retratado pela crônica, esse texto fascinante e tipicamente brasileiro. Melhor para os leitores, que podem ler e reler textos magistrais, que parecem brotar do nada, como "Saudade da coxa de Catupiry", em que Werneck teoriza sobre a modernização dos tira-gostos, hoje irreconhecíveis em meio à infinidade de combinações que jogaram pra escanteio os tradicionais quitutes - entre eles a coxinha, o pastel e quibe, clássicos absolutos de qualquer festinha.

Ainda que muitos cronistas não gostem de ter seu ofício comparado a um trabalho meramente saudosista, a crônica tem na memória e na lembrança grande parte de seu sabor. Assim como aquela pegada cômica, em que a graça está justamente nas desventuras do próprio cronista, ou de algum "amigo" inexistente - sim, porque, assim como na ficção, na crônica há espaço para uma ou outra lorota, claro. Tente não rir de "A gente se acostuma", texto em que Werneck consegue falar do velho clichê que se refere ao nosso "jeitinho" sem fazer apologia ou crítica social.

"Meu amigo Paulo Leite tem seis lâmpadas no teto do banheiro, e faz tempo que cinco estão queimadas, o que no chuveiro o obriga a se posicionar assim meio de lado sob o único foco de luz hoje operante. Se também esse entregar os pontos, o banho noturno do conhecido fotógrafo passará a ser tomado em Braille." Taí um bom cronista: fala de coxinha e lâmpadas queimadas sem ser piegas ou chato. Herdeiro dos grandes cronistas mineiros - de Sabino a Paulo Mendes Campos -, Werneck nos faz acreditar quer tudo é possível - e fácil - com a escrita ao transformar um feijãozinho ralo em uma poderosa feijoada.

No livro há ainda momentos impagáveis, como o lado B de entrevistas saídas "Do caderno de um repórter". Estão lá pequenas histórias sobre grandes entrevistados de Werneck, gente "miúda" como Nelson Rodrigues, Carlos Drummond e Vinícius de Moraes. Textos que, puxados pelo fio da memória, renderiam um belo livro solo.

Nós passaremos em branco

Se Werneck é o alquimista que transforma o comezinho em grande tema, Luís Henrique Pellanda encarna o caçador de tipos em Nós passaremos em branco. Seu habitat é o centro de Curitiba, e sua matéria-prima homens e mulheres eclipsados pelo cotidiano, invisíveis para a maioria da população, que emergem nas crônicas como seres complexos - às vezes místicos, às vezes misteriosos. Não importa apenas contar uma boa história, o escritor dá aos seus personagens contornos épicos, com toques sobrenaturais, traz à tona detalhes que nos escapam, mas não ao cronista. Ao transformar o árido território por onde transitam seus personagens em um palco de alguma beleza, Pellanda reafirma a crença na própria literatura: sabe ele que o grande escritor vive constantemente afrontado pelas pequenezas da vida. Assim surgem os desgraçados que povoam a "Antologia dos demônios de Curitiba", uma série de oito textos que apresenta tipos que povoam o centro da capital paranaense, personagens tão fascinantes quanto esdrúxulos. Estão lá "O Diabo da Cruz Machado", "O morcego da Ermelino" e o "Encosto Bilheteiro", um time de párias de fazer inveja a João Antônio e que deixaria Malagueta, Perus e Bacanaço com caras de coroinhas.

"Há uma numerosa legião de pequenos diabos trafegando pelo centro de Curitiba, responsável, cada um deles, por uma tentação distinta, mesquinha e também pequena. O fato de serem miúdas essas tentações, a ponto de parecerem envergonhadas de sua condição rasteira, não significa, no entanto, que impliquem em perdas desprezíveis. Porque, para Deus, não obstante sua grandeza imensurável, nada é realmente pequeno", escreve o cronista em "O Encosto Bilheteiro".

Mais do que caçar almas penadas de existência torta, Pellanda faz o que, desde Dalton Trevisan, nenhum escritor curitibano havia feito: redesenhar o centro de Curitiba com contornos literários. E há conhecimento de causa nisso. Pellanda conhece as duas pontas da coisa: o centro de Curitiba e o terreno arenoso da escrita, ajudado nisso tudo pela experiência de repórter. O cronista também subverte a urgência da crônica ao burilar seus textos como se fossem contos. Parágrafos lapidados com paciência de artesão, como em "Conan, o milagreiro", crônica que traz a frase escolhida para dar título ao livro. Não é preciso saber onde funcionava o Cine Plaza, em Curitiba, nem ter assistido ao filme The Doors, de Oliver Stone, para se deixar levar pelo corte certeiro do texto do escritor, que relembra a pré-estreia do filme de Stone em uma cidade provinciana, com jovens carentes por uma mísera aparição de uma lenda do rock, ainda que falsamente encarnado por um galã de Hollywood.

"Em suma, o tempo voa, o dia destrói a noite, a noite divide o dia e nós passaremos em branco. Era o sonho de Manuel Bandeira, morrer completamente. Jim Morrison se foi em 1971, há quarenta anos, duas vezes duas décadas, e nos deixou uma única certeza: não há nenhuma vantagem prática em estar enterrado no Père Lachaise, ao lado de Balzac, Chopin, Camus e - ó esperança! - Kardec."

Ainda hoje, depois de uma tradição gloriosa, que fez da crônica um gênero idiossincrasicamente brasuca, não nasceu cronista que saiba explicar o que ao certo é a crônica. Mas não precisa. Livros como os de Werneck e Pellanda, caro leitor, nos traduzem exatamente os diversos sabores desse gênero delicioso.


Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 4/1/2012


Mais Luiz Rebinski Junior
Mais Acessadas de Luiz Rebinski Junior em 2012
01. A arte da crônica - 4/1/2012
02. Os contos de degeneração de Irvine Welsh - 17/10/2012
03. O senhor Zimmerman e eu - 9/5/2012
04. O caminho rumo ao som e a fúria - 1/2/2012
05. Luz em agosto - 15/8/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




SOBRE EL TEATRO DADA E SURREALISTA
HENRY BEHAR
BARRAL
(1971)
+ frete grátis



CRIME NA CATEDRAL E QUATRO QUARTETOS - PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA DE 1948
THOMAS STEARNS ELIOT
OPERA MUNDI
(1970)
+ frete grátis



PARA ZOAR VASCAÍNO
MÁRIO BRITO DUKE
LEITURA
(2009)
+ frete grátis



O MÉTODO S.M.I.L.E. - 2ª EDIÇÃO
MARCELO PINTO
SER MAIS
+ frete grátis



O MÁGICO DE OZ (TEXTO INTEGRAL)
L. FRANK BAUM
ÁTICA
(2006)
+ frete grátis



IDENTIDADE JUVENTUDE E CRISE
ERIK H. ERIKSON
ZAHAR
(1976)
+ frete grátis



ROQUE SANTEIRO OU O BERÇO DO HERÓI
DIAS GOMES
EDIOURO
(1991)
+ frete grátis



EL TEATRO RUSO (DEL IMPERIO A LOS SOVIETS)
MARC SLONIM
EDITORIAL UNIVERSITÁRIA - BUENOS AIRES
(1965)
+ frete grátis



20 ANOS DA COLEÇÃO CÍRCULO DE POESIA
PEDRO TAMEN (ORGANIZADOR)
MORAES
(1977)
+ frete grátis



UM DIA NA VIDA DE IVAN DENISSOVITCH - PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA DE 1970
ALEXANDER SOLJENITZYN
OPERA MUNDI
(1973)
+ frete grátis





busca | avançada
28111 visitas/dia
949 mil/mês