A arte da crônica | Luiz Rebinski Junior | Digestivo Cultural

busca | avançada
39499 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> TV Brasil transmite Rio H2K Battles neste domingo (29/5)
>>> PediaSuit e réptilterapia em pauta no Programa Especial
>>> Matheus Nachtergaele conversa com Liliane Reis no Estúdio Móvel
>>> Caminhos da Reportagem visita Igrejas que recebem a comunidade LGBT
>>> Em Porto Alegre, feriadão terá mateada, exposição e muitas atrações gratuitas para toda família
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Ler para ficar acordado
>>> Abdominal terceirizado - a fronteira
>>> 80 anos de Alfredo Zitarrosa
>>> Nunca fomos tão vulgares
>>> Submissão, oportuno, mas não perene
>>> Tricordiano, o futebol é cardíaco
>>> Ação Social
>>> Antes que seque
>>> Etapas em combustão
>>> Antonia, de Morena Nascimento
Colunistas
Últimos Posts
>>> Adriane Pasa no Canadá
>>> Temporada 2016 do Mozarteum
>>> Curso de projetos literários
>>> Patuá em festa
>>> Literatura: direito humano
>>> Geraldo Rufino no #MitA
>>> Portal dos Livreiros: 6 meses!
>>> Ryley Walker
>>> Leia Mulheres - BH
>>> Adagio ma non troppo
Últimos Posts
>>> Da razão do poema
>>> Uma proposta indecente na academia
>>> Arroz com rapa
>>> Descascando o abacaxi na Nova Inglaterra
>>> Quando nos tornamos únicos.
>>> O Jogo dos tronos na versão brasileira.
>>> Enchendo o porquinho.
>>> Ceifadores
>>> Eterna carestia
>>> Transparências
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Literatura, Interação e Interatividade
>>> Literatura, Interação e Interatividade
>>> Podres de Mimados, por Pondé
>>> Literatura, Interação e Interatividade
>>> Literatura, Interação e Interatividade
>>> Literatura, Interação e Interatividade
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> Como detectar MAVs (e bloquear)
>>> Como detectar MAVs (e bloquear)
>>> Anauê
Mais Recentes
>>> A VIRGEM MARIA NOSSA SENHORA
>>> EL HOMBRE QUE RIE
>>> Oposição - Série Stellium
>>> OS JUDEUS- FÉ E DESTINO
>>> A NOVA ALIANÇA
>>> PRESENTE E FUTURO-TomoX/1 Volume X: Civilização em mudança
>>> DO MITO PARA A RAZÃO- Uma dialética do saber
>>> DIAGNOSIS OF MAN
>>> A epístola aos EFÉSIOS
>>> Pensando Espiritualmente versão abreviada de A Graça e o Dever de Pensar Espiritualmente
>>> à sombra das MAIORIAS SILENCIOSAS - o fim do social e o surgimento das massas
>>> Trilogia Miriam Bandeira- Nós, Cortes, Entreatos
>>> La filosofia del no- Ensayo de una filosofia del nuevo espiritu cientifico
>>> O PEREGRINO QUERUBÍNICO ou Epigramas e Máximas Espirituais, para levar à contemplação de Deus.
>>> História da Filosofia, Ideias,Doutrina-Vol 4- O ILUMINISMO - O Século XVIII
>>> O CAMINHO DA CURA- Despertando a Sabedoria Interior
>>> CAMINHO E TESTEMUNHO ( Volume V)- 1 Corintios- uma proposta para grupos de estudos bíblicos
>>> FEIJOADA NO COPA
>>> FOLHA MOSTRA AS COPAS
>>> Zico Conta A Sua Historia
>>> O Tocador De Tuba. Chico Anísio. Humor. Piadas. Livro Novo!
>>> REVISTA PLACAR
>>> GIBI OS HEROIS RENASCEM O RETORNO SÉRIE COMPLETA COM 04 GIBIS
>>> VOLTA AO LAR- Como resgatar e defender sua criiança interior
>>> SEGUNDO AS ESCRITURAS-Estrutura fundamental do Novo Testamento
>>> AS EPÍSTOLAS DE JOÃO
>>> Trilogia Watchman Nee-O Caminho da Salvação 3,4,5
>>> AJUDA-TE PELA ANÁLISE TRANSACIONAl- a arte de viver bem com a terapia da redecisão
>>> A ONTOLOGIA ONÍRICA- confluências entre magia, filosofia, ciência e arte
>>> Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus- As Meditações de Anna Catharina Emmerich( 1820-1823)
>>> TERAPIA DE VIDA PASSADA-uma abordagem profunda do inconsciente
>>> NO PRINCÍPIO- GÊNESIS-1-11
>>> PSICOFISIOLOGIA
>>> Angelus Silesius- A Mediação do Nada- Não pertences ao todo se fixo e teu ser
>>> Guerrilha do Araguaia - Relato de um Combatente
>>> Orvil - Tentativas De Tomada Do Poder
>>> A Verdade Sufocada
>>> CONSOLO PARA QUEM ESTÁ DE LUTO
>>> Esboço Geral da Economia de Deus e O VIVER ADEQUADO de um HOMEM-DEUS
>>> O mesmo mar
>>> Alta fidelidade
>>> Monsieur Pain
>>> As avós
>>> Todos os homens são mentirosos
>>> Formas breves
>>> Carlota Fainberg
>>> Santa Maria do circo
>>> Os pinguins de Sr. Popper
>>> Coração hipotecado
>>> Fora de órbita
COLUNAS

Quarta-feira, 4/1/2012
A arte da crônica
Luiz Rebinski Junior

+ de 2600 Acessos

Humberto Werneck, em uma rápida entrevista, me diz que a crônica é "a vida ao rés do chão", evocando o célebre ensaio de Antonio Candido. Em tempos internéticos, o "causo literário" ainda resiste à superficialidade do mixuguês. E, em grande parte, por conta de Werneck, que se tornou uma espécie de militante de seu ofício: além de espalhar suas pílulas literárias pelos diversos meios de comunicação do país, o autor mineiro tem se esforçado para que a efemeridade crônica da crônica ganhe sobrevida, saia das páginas amareladas e tomadas por ácaros dos arquivos de jornais e reviva nas mãos de novas gerações por meio do livro, esse intrépido objeto que também ousa sobreviver aos tempos virtuais. É que além de cronista dos mais interessantes, Werneck tem se notabilizado por suas antologias, como a imperdível reedição ampliada de Bom dia para nascer, coletânea de crônicas de Otto Lara Resende, publicadas na Folha de S. Paulo no começo dos anos 1990.

E a dívida da crônica brasileira com Werneck não para de crescer: o escritor mineiro encabeça a recente coleção "Arte da Crônica", da avant-garde Arquipélogo Editorial, do timoneiro Tito Montenegro, que, além do livro de Werneck, Esse inferno vai acabar, já publicou Nós passaremos em branco, do curitibano Luís Henrique Pellanda, e Certos Homens, de Ivan Angelo.

O livro de Werneck traz 44 textos publicados em jornais - ah, os jornais, ainda o santuário da crônica! - como O Estado de São Paulo e Brasil Econômico. Se um dos combustíveis da crônica é a urgência do prazo de fechamento do jornal, sua danação, no entanto, é justamente a vida breve que tem. Por isso o livro, como uma fotografia, consegue eternizar o instante retratado pela crônica, esse texto fascinante e tipicamente brasileiro. Melhor para os leitores, que podem ler e reler textos magistrais, que parecem brotar do nada, como "Saudade da coxa de Catupiry", em que Werneck teoriza sobre a modernização dos tira-gostos, hoje irreconhecíveis em meio à infinidade de combinações que jogaram pra escanteio os tradicionais quitutes - entre eles a coxinha, o pastel e quibe, clássicos absolutos de qualquer festinha.

Ainda que muitos cronistas não gostem de ter seu ofício comparado a um trabalho meramente saudosista, a crônica tem na memória e na lembrança grande parte de seu sabor. Assim como aquela pegada cômica, em que a graça está justamente nas desventuras do próprio cronista, ou de algum "amigo" inexistente - sim, porque, assim como na ficção, na crônica há espaço para uma ou outra lorota, claro. Tente não rir de "A gente se acostuma", texto em que Werneck consegue falar do velho clichê que se refere ao nosso "jeitinho" sem fazer apologia ou crítica social.

"Meu amigo Paulo Leite tem seis lâmpadas no teto do banheiro, e faz tempo que cinco estão queimadas, o que no chuveiro o obriga a se posicionar assim meio de lado sob o único foco de luz hoje operante. Se também esse entregar os pontos, o banho noturno do conhecido fotógrafo passará a ser tomado em Braille." Taí um bom cronista: fala de coxinha e lâmpadas queimadas sem ser piegas ou chato. Herdeiro dos grandes cronistas mineiros - de Sabino a Paulo Mendes Campos -, Werneck nos faz acreditar quer tudo é possível - e fácil - com a escrita ao transformar um feijãozinho ralo em uma poderosa feijoada.

No livro há ainda momentos impagáveis, como o lado B de entrevistas saídas "Do caderno de um repórter". Estão lá pequenas histórias sobre grandes entrevistados de Werneck, gente "miúda" como Nelson Rodrigues, Carlos Drummond e Vinícius de Moraes. Textos que, puxados pelo fio da memória, renderiam um belo livro solo.

Nós passaremos em branco

Se Werneck é o alquimista que transforma o comezinho em grande tema, Luís Henrique Pellanda encarna o caçador de tipos em Nós passaremos em branco. Seu habitat é o centro de Curitiba, e sua matéria-prima homens e mulheres eclipsados pelo cotidiano, invisíveis para a maioria da população, que emergem nas crônicas como seres complexos - às vezes místicos, às vezes misteriosos. Não importa apenas contar uma boa história, o escritor dá aos seus personagens contornos épicos, com toques sobrenaturais, traz à tona detalhes que nos escapam, mas não ao cronista. Ao transformar o árido território por onde transitam seus personagens em um palco de alguma beleza, Pellanda reafirma a crença na própria literatura: sabe ele que o grande escritor vive constantemente afrontado pelas pequenezas da vida. Assim surgem os desgraçados que povoam a "Antologia dos demônios de Curitiba", uma série de oito textos que apresenta tipos que povoam o centro da capital paranaense, personagens tão fascinantes quanto esdrúxulos. Estão lá "O Diabo da Cruz Machado", "O morcego da Ermelino" e o "Encosto Bilheteiro", um time de párias de fazer inveja a João Antônio e que deixaria Malagueta, Perus e Bacanaço com caras de coroinhas.

"Há uma numerosa legião de pequenos diabos trafegando pelo centro de Curitiba, responsável, cada um deles, por uma tentação distinta, mesquinha e também pequena. O fato de serem miúdas essas tentações, a ponto de parecerem envergonhadas de sua condição rasteira, não significa, no entanto, que impliquem em perdas desprezíveis. Porque, para Deus, não obstante sua grandeza imensurável, nada é realmente pequeno", escreve o cronista em "O Encosto Bilheteiro".

Mais do que caçar almas penadas de existência torta, Pellanda faz o que, desde Dalton Trevisan, nenhum escritor curitibano havia feito: redesenhar o centro de Curitiba com contornos literários. E há conhecimento de causa nisso. Pellanda conhece as duas pontas da coisa: o centro de Curitiba e o terreno arenoso da escrita, ajudado nisso tudo pela experiência de repórter. O cronista também subverte a urgência da crônica ao burilar seus textos como se fossem contos. Parágrafos lapidados com paciência de artesão, como em "Conan, o milagreiro", crônica que traz a frase escolhida para dar título ao livro. Não é preciso saber onde funcionava o Cine Plaza, em Curitiba, nem ter assistido ao filme The Doors, de Oliver Stone, para se deixar levar pelo corte certeiro do texto do escritor, que relembra a pré-estreia do filme de Stone em uma cidade provinciana, com jovens carentes por uma mísera aparição de uma lenda do rock, ainda que falsamente encarnado por um galã de Hollywood.

"Em suma, o tempo voa, o dia destrói a noite, a noite divide o dia e nós passaremos em branco. Era o sonho de Manuel Bandeira, morrer completamente. Jim Morrison se foi em 1971, há quarenta anos, duas vezes duas décadas, e nos deixou uma única certeza: não há nenhuma vantagem prática em estar enterrado no Père Lachaise, ao lado de Balzac, Chopin, Camus e - ó esperança! - Kardec."

Ainda hoje, depois de uma tradição gloriosa, que fez da crônica um gênero idiossincrasicamente brasuca, não nasceu cronista que saiba explicar o que ao certo é a crônica. Mas não precisa. Livros como os de Werneck e Pellanda, caro leitor, nos traduzem exatamente os diversos sabores desse gênero delicioso.


Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 4/1/2012


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Zizitinho Foi Para o Céu de Marilia Mota Silva
02. O chamado de Cthulhu de Gian Danton
03. Canção de som e fúria de Carina Destempero
04. O goleiro que ganhou o Nobel de Celso A. Uequed Pitol
05. A filosofia mínima de Luís Augusto Fischer de Marcelo Spalding


Mais Luiz Rebinski Junior
Mais Acessadas de Luiz Rebinski Junior em 2012
01. A arte da crônica - 4/1/2012
02. Os contos de degeneração de Irvine Welsh - 17/10/2012
03. O senhor Zimmerman e eu - 9/5/2012
04. Luz em agosto - 15/8/2012
05. O caminho rumo ao som e a fúria - 1/2/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




PANORAMIC PHOTOGRAPHY
JOSEPH MEEHAN
AMPHOTO ( EUA )
(1996)



DE GARABANDAL PARA O MUNDO
ALICE GÉRIN ISNARD TAVORA
LAFAYETTE
(1971)



HISTÓRIA DA SALVAÇÃO- NOSSA PRÓPRIA HISTÓRIA
J.H.P.FLORES
LOUVA- A DEUS
(1982)



O BEIJO DA MORTE
IRA LEVIN
ABRIL CULTURAL
(1983)



A QUEDA
DIOGO MAINARDI
RECORD
(2012)



O SER DE DEUS E AS SUAS OBRAS- A PROVIDÊNCIA E A SUA REALIZAÇÃO HISTÓRICA
HEBER CARLOS DE CAMPOS
EDITORA CULTURA CRISTA
(2001)



CAIM E ABEL
JEFFREY ARCHER
DIFEL
(1983)



TRADE, GROWTH, AND INEQUALITY
CHRISTOPHER BLISS
OXFORD UNIVERSITY PRESS
(2008)
+ frete grátis



CONTRAVIDA
AUGUSTO ROA BASTOS
EDIOURO
(2001)
+ frete grátis



CONCRETO PROTENDIDO
WALTER PFEIL
EDC
(1991)
+ frete grátis





busca | avançada
39499 visitas/dia
1,1 milhão/mês