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Sexta-feira, 6/1/2012
O melhor filme de 2011
Marta Barcellos

+ de 2300 Acessos

O cinema em 2011 foi marcado por um debate com cara de Fla X Flu: você gostou mais de A árvore da vida ou de Melancolia? Veja bem, apreciar igualmente ambos é como torcer por um empate no Maracanã, revela total falta de personalidade. Mas não basta gostar e vestir a camisa. Para quem é chegado a discussões filosóficas (quase todo cinéfilo é), a questão ia além: qual dos dois filmes cumpre a promessa de desvelar artisticamente o sentido da vida, ou a inexistência dele?

Ligeiramente pretensioso? Pois é... Chegaremos já já neste ponto.

Primeiro, retornemos à polêmica da época do lançamento - quase simultâneo no Brasil - dos dois filmes. O parentesco entre as duas obras é evidente, e não faltou assunto em mesa de bar para quem teve a chance de assisti-los nos primeiros dias. Mas vale lembrar que a expectativa era alimentada também pela excentricidade dos cineastas em questão: Lars Von Trier havia elogiado Hitler - provavelmente de forma irônica, mas com elogio ao nazismo não se brinca - na coletiva de imprensa do lançamento de seu filme no Festival de Cannes. Como se diz, perdeu a chance de ficar calado. Um risco de Terrence Malick não corre: o cineasta queridinho dos atores-cabeça de Hollywood não é dado a piadinhas porque, além de anti-social, jamais concede entrevistas. Aliás, ia passar maus bocados se tentasse explicar os próprios filmes.

Antes que eu passe por torcedor de empate em jogo clássico, vou deixar claro: gostei mais de Melancolia. E não duvido que a crítica tenha se deixado influenciar pelas declarações de mau gosto de von Trier para considerá-lo inferior ao filme de Malick. Mas a questão que me interessa é outra. Enquanto nós, apreciadores do bom cinema, éramos atraídos por essa discussão, grandiosa no tema existencial, na trilha sonora e nas imagens espaciais, corria por fora um outro filme - este sim - sensacional. E sobre o sentido da vida.

Para discorrer sobre algo assim, nos ensinam os grandes artistas, é preciso abandonar a pretensão e a grandiloqüência, para abraçar a poesia. Se for possível fazer isso com uma boa dose de bom humor... bingo! Eis aí um grande filme.

Refiro-me aqui a Um conto chinês, o melhor filme de 2011. Chinês no título, mas argentiníssimo, no bom sentido cinematográfico. Aliás, mais argentino impossível, já que tem como protagonista ninguém menos do que Ricardo Darín, um ator que nesta época de rankings e retrospectivas deveria estar na lista de melhores da atualidade. Se você ficou confuso porque já começaram a surgir pretendentes ao Globo de Ouro ou Oscar, tire a prova pegando na locadora outros dois filmes recentes estrelados por ele: Abutres e O segredo dos seus olhos. Depois desse pacote triplo, não sobra chance para nenhum ator de Hollywood.

Dirigido por Sebastián Borensztein, Um conto chinês tem como protagonista um personagem rabugento e impenetrável. À medida que compreendemos Roberto, sua humanidade e a natureza das manias que o ajudam a sobreviver, descobrimos também a questão filosófica que o paralisou, desde que foi enviado para o combate na mais absurda das guerras, a das Malvinas, se é que dá para hierarquizar guerras como mais ou menos absurdas - todas o são. "A vida não faz sentido; ela é um grande absurdo", diz Roberto. Para provar a sua tese, Roberto não invoca o fim do mundo, como aqueles que apontam para a conclusão do calendário maia em 2012, ou para uma melancólica colisão com outro planeta. Nem se consola tentando achar um sentido na transcendência ou na graça, como em A árvore da vida. Roberto coleciona notícias. Absurdas.

Mas o absurdo da vida o desafia. Porque, a despeito da falta de sentido (ou talvez por causa dela), a vida não é preenchida apenas por existências e mortes absurdas (que por sinal povoaram 2011). Quando tudo já estava planejado, um chinês pode ser arremessado bem na sua frente, uma vaca pode cair do céu. Pergunte a um ficcionista a principal diferença entre a ficção e a realidade, e ele responderá: a ficção precisa parecer verossímil. A vida real não.

Transformar os absurdos da vida em arte é o nosso desafio em 2012, o ano em que o mundo de novo não vai acabar.

Se a vida não basta, como dizem o poeta e o filósofo, vamos reinventá-la, cada um a seu modo, na literatura, no cinema, na música. Em nossas instalações pessoais. Você não é um artista? Sem problemas. Aprenda a rir e se enternecer por Roberto, e não espere que um chinês lhe seja arremessado para enfim afirmar a vida e descobrir a arte. Principalmente, não se deixe embotar pelo ritmo frenético do trabalho, do consumo e da tecnologia que nos torna distraídos para a vida, ou para a falta de sentido dela.

Outro dia ouvi uma pessoa defender o entretenimento fácil, aquele "que apenas distrai". "Depois de trabalhar tanto, não quero ter que pensar. Só quero me distrair um pouco", defendeu. Lembrei-me de pessoas mais velhas que tenho tido a oportunidade de entrevistar lamentando o excesso de distração em vidas que agora prenunciam seu fim. "Passou muito rápido", dizem uns. "Não vi meus filhos crescerem", se entristecem outros.

Por isso, o meu voto para 2012 é que não sejamos distraídos. Estejamos atentos e intensos. Pensando, sim, no sentido da vida, e sobretudo buscando transformar toda essa confusão em narrativas maravilhosas como Um conto chinês.



Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 6/1/2012

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