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Quarta-feira, 29/2/2012
Emagrecer sem sofrer? Isso é papo de revista
Adriana Baggio

+ de 2600 Acessos

Imagine um futuro em que não existe mais a raça humana na Terra. O cataclisma foi repentino. Nas cidades do desolado planeta sobraram apenas os edifícios e as bancas de jornal. Os exemplares das revistas foram preservados, congelando a época da extinção humana nas datas estampadas nas capas.

Tempos depois, habitantes de outro planeta descem ao nosso para estudar os restos da civilização. Querem tentar compreender a cultura do povo dizimado, seus hábitos, seus valores. Apesar da quantidade de livros, estudos científicos e de uma infinidade de produtos do conhecimento humano preservados, encontram nas bancas um material mais rico do que qualquer outro.

Uma situação em especial os intriga: dispostas lado a lado nas bancas, algumas revistas apresentam fórmulas para emagrecer, enquanto outras celebram a gastronomia, trazem receitas culinárias e indicam os melhores lugares das cidades para comer e para beber. Apesar de não terem que se preocupar com isso (alguém já viu um ET gordinho?), os visitantes sabem da relação indissociável entre magreza e comida — ou falta dela. Sem conseguir entender, chegam a uma conclusão: essa raça humana só podia ser esquizofrênica.

O mundo ainda não acabou e eu sou terráquea da gema, mas a situação também me intriga. Como é que uma mesma sociedade pode atribuir tanto valor, simultaneamente, à boa forma e à boa mesa? Como é que pode estar na moda, ao mesmo tempo, ser magra e ser quituteira de mão cheia? Na verdade, não pode. Se o ideal de vida está atrelado à conquista desses dois valores, não é difícil se sentir, no mínimo, infeliz.

Mas entre manter o peso e comer bem, digamos que a segunda tendência é a mais natural. Nem vou entrar na questão de a comida ser combustível para a manutenção do corpo. Comida é cultura. Do preparo do alimento até sua degustação, a culinária pode proporcionar diversos tipos de satisfação. O prazer está na combinação dos ingredientes até transformá-los em um prato, no compartilhar esse alimento com a família e os amigos, sem falar, é claro, no prazer puro e simples de comer algo gostoso e que se deseja muito. O problema é que a comida atua sobre o corpo, que no padrão da sociedade contemporânea, é um corpo esfomeado.

Não contentes em propor, semana após semana, mês após mês, fórmulas e receitas de emagrecimento para sua audiência, os próprios jornalistas se transformaram em cobaias de tais procedimentos. Em 2011, os telespectadores do Fantástico puderam acompanhar em rede nacional o programa de dieta e exercícios do casal de apresentadores, assim como o resultado do sacrifício: formas mais esguias e mais alinhadas aos padrões corporais das personalidades midiáticas.

A boa e nova forma do corpo da apresentadora Renata Ceribelli renderam-lhe ainda a capa de uma edição da revista Claudia. Parece, no entanto, que os quilos perdidos não foram, sozinhos, suficientes para o padrão da revista. Na edição seguinte, a publicação ensinava como fazer a mesma pose adotada pela jornalista na fotografia da capa. Tal postura, junto aos recursos de iluminação e de produção, ajudava a "emagrecer". Claudia deve ter gostado da repercussão: em janeiro de 2012, foi a própria redatora-chefe da revista quem expôs às leitoras sua jornada de emagrecimento.

Nos primeiros parágrafos da matéria, a redatora Sibelle Pedral conta como "pirou" no trânsito de São Paulo ao ver um quindim — seu doce preferido — estampado em uma van, e que faz seis meses que não come açúcar e nem farinha branca. Mais para frente, tentando mostrar que ir jantar fora é compatível com uma dieta tão restritiva, diz que vai ao seu restaurante italiano preferido — porque adora pizza e bruschetta — e pede uma carne com salada. E mesmo com tantos relatos de sacrifício e privação, o título da matéria é "Perdi 21 quilos e não sofri". Hã?

Fazer dieta é sofrido sim. Há comidas maravilhosas em cada esquina. Depois que você passa da adolescência, comer fora é um dos melhores programas para se fazer sozinha, a dois ou com um monte de gente. Eu e meus amigos conversamos de comida enquanto comemos. É lógico que, exceto por um ou outro abençoado com a magreza genética, o restante não poderia ser capa de Claudia. Mas como esse não é o propósito de vida de nenhum de nós e o colesterol até que vai bem, aceitamos com mais ou menos tranquilidade os quilos e as dobras que as refeições deixam em nossos corpos. Acho que eu ficaria melhor com uns 10 quilos a menos. Mas o preço a pagar em termos de felicidade não compensa. Por que fazer comida, partilhá-la com os amigos e comê-la me faz muito feliz.

Há muitas facetas cruéis nessa valorização doentia da forma física. Uma delas é esse discurso de que as dietas são fáceis ou acessíveis. Respeito muito quem precisa seguir uma dieta por razões de saúde — ou mesmo estéticas, quando a pessoa é tão infeliz com seu corpo que a privação da comida é um preço menor do que aquele cobrado pelo espelho ou pelo olhar alheio. Então, não venha me dizer que você fica seis meses sem comer açúcar ou farinha branca e que isso não é sofrido. Não venha me dizer que é tranquilo ter que pedir grelhado e rúcula no restaurante que prepara as massas que você adora — especialmente se o seu marido também "briga com a balança", mas nem por isso faz a mesma dieta que você (mais um trecho do depoimento de Sibelle Pedral).

Se você quer ou precisa encarar uma dieta, não aceite que digam que isso é fácil. É fazer pouco da sua dedicação. E que a dieta seja feita pelos motivos certos e autênticos, porque um sacrifício desses não merece ser tão banalizado.



Adriana Baggio
Curitiba, 29/2/2012

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