A ilha do Dr Moreau, de H. G. Wells | Ricardo de Mattos | Digestivo Cultural

busca | avançada
20983 visitas/dia
829 mil/mês
Mais Recentes
>>> COMPETIÇÃO TÍPICA DO SERRADOR DE TORA, DANÇAS HISTÓRICAS GERMÂNICAS, EXPOSIÇÕES... TUDO ISSO E MUITO
>>> Embaixador do Samba Paulista - Carlinhos do Cavaco
>>> O NOVO CZAR: ASCENSÃO E REINADO DE VLADIMIR PUTIN
>>> Juiz federal estreia na literatura com contos sobre heróis históricos
>>> Luiz Iria mostra como criar e editar infográficos
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Nobel, novo romance de Jacques Fux
>>> De Middangeard à Terra Média
>>> Dos sentidos secretos de cada coisa
>>> O pai da menina morta, romance de Tiago Ferro
>>> Joan Brossa, inéditos em tradução
>>> Sebastião Rodrigues Maia, ou Maia, Tim Maia
>>> 40 anos sem Carpeaux
>>> Minha plantinha de estimação
>>> Corot em exposição
>>> Existem vários modos de vencer
Colunistas
Últimos Posts
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
>>> Psiu Poético em BH esta semana
>>> Existem vários modos de vencer
>>> Lauro Machado Coelho
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
Últimos Posts
>>> Escriturar=costurar
>>> Pierrô
>>> Lugar comum
>>> Os galos
>>> Cenas do bar - Wilsinho, o feio.
>>> Desenhos a lápis na poesia de Oleg Almeida
>>> Eloquência
>>> Cenas do bar - Vladimir, o solteiro.
>>> Deu na primeira página...
>>> Palavra vício
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Para tudo existe uma palavra
>>> A maldição da internet no celular
>>> Dilbert
>>> Apesar da democracia
>>> Entrevista com Milton Hatoum
>>> Entre a simulação e a brincadeira
>>> Transformação de Lúcifer, obra de Egas Francisco
>>> Seleção, que sufoco
>>> Internet e Microblogs
>>> Discurso de formatura do Ensino Médio
Mais Recentes
>>> Se Arrependimento Matasse
>>> Temporada de Caça
>>> As Palavras de Gandhi
>>> Natação: Guia Passo a Passo
>>> O Corredor da vida
>>> Do-in Para Crianças
>>> Larousse da Terceira Idade
>>> Caderno de Literatura e Cultura Russa
>>> Descuidos, Anacronismos e Equívocos
>>> Padre Antônio Vieira - 400 Anos Depois
>>> Tipos e Aspectos do Brasil
>>> Modos de Governar
>>> Onde o Esporte Se Reinventa: Histórias e Bastidores dos 40 Anos de Placar
>>> Manual de Lazer e Recreação: O Mundo Lúdico ao Alcance de Todos
>>> High Voltage Tattoo
>>> Tattoo Mystique
>>> História do Novo Mundo: As Mestiçagens - Volume 2
>>> Ergonomia Cognitiva e Mente Incorporada
>>> A Instituição da Religião Cristã - Volume 1
>>> História do Futuro
>>> Democracia ou Bonapartismo
>>> Peregrinação - Volume 2
>>> Em Busca da Excelência: Como Vencer no Esporte e na Vida Treinando Sua Mente
>>> Celebrity Tattoos: An A-Z of A-List Body Art: 16 Temporary Tattoos to Wear
>>> O Primeiro Ano de Vida
>>> Literatura Infantojuvenil Africana e Afro-Brasileira
>>> Batizados no Espírito- A Experiência do Espírito Santo nos Padres da Igreja
>>> A Conquista do Reino de Deus
>>> Travessuras da minha menina má - volumes I, II e III
>>> O vício do amor
>>> Vinte anos. duas pessoas. Um dia
>>> À beira da sepultura
>>> Cinderela - Disney - Princess - Idioma: Inglês
>>> Destinada a sepultura
>>> O livro das coisas perdidas
>>> Os homens que não amavam as mulheres
>>> Lira dos vinte anos
>>> A menina que brincava com fogo
>>> A rainha do castelo de ar
>>> A garota na teia de aranha -
>>> Desejo:ate onde ele pode te levar?
>>> Che Guevara - personagens que maracram época
>>> Getúlio Vargas - personagens que marcaram época
>>> Ayrton Senna, personagens que marcaram época
>>> John Lennon, personagens que marcaram época
>>> Machado de Assis - personagens que marcaram época
>>> O Fim das Dietas
>>> O Que É Marxismo?
>>> Dieta das Emoções
>>> Serial Killers
COLUNAS

Segunda-feira, 12/3/2012
A ilha do Dr Moreau, de H. G. Wells
Ricardo de Mattos

+ de 6700 Acessos

"O que eles narram não é apenas engenhoso; é também simbólico de processos que de algum modo são inerentes a todos os destinos humanos" (Jorge Luis Borges).

Apresentamos nossas escusas a Zafón por adiarmos a coluna dedicada a mais um de seus livros e interpormos esta dedicada ao romance do inglês Herbert George Wells (1866-1946), recentemente reeditado no Brasil. Trata-se de um dos livros mais impressionantes que tivemos o prazer de ler e gostaríamos de aproveitar o calor das primeiras impressões para registrarmos nosso entusiasmo.

A ilha do Dr. Moreau foi escrito em 1896. Da infância trazemos a vaga lembrança de assistir uma adaptação cinematográfica da obra. O prefácio da nova edição revela outra de 1996. O enredo é relativamente conhecido: após o naufrágio do navio que o conduzia, o protagonista Charles Prendick é resgatado e vai parar em remota ilha do Pacífico, onde conhece o Dr. Moreau. Puxando o fio da memória, lembra-se de reportagem que lera em Londres, revelando as atrocidades cometidas por ele, o que levou ao seu autoexílio. Estabeleceu-se na ilha, contudo, não para penitenciar-se, mas para continuar seus experimentos sem interferência. E que experiências seriam estas? A transformação de animais selvagens em homens.

Prendick não desvenda os fatos imediatamente. Na escuna em que foi acolhido, estranha a presença de diversos animais - uma onça, um lhama, cães e coelhos - e a aparência do auxiliar do médico que cuidou de si. Este médico, Montgomery, por sua vez, é assistente de Moreau. No primeiro contato com o empregado de Montgomery, Prendick repara na parte inferior de seu rosto, que "se projetava para a frente, lembrando um focinho, e sua boca entreaberta mostrava dentes brancos que eram os maiores que eu já vi numa boca humana". Sentindo o esbarrão de Prendick, "virou-se com uma agilidade animal". Devido à latitude em que se encontrava, o personagem atribuiu a aparência do indivíduo - e dos demais que apareceram - às peculiaridades regionais de algum povo desconhecido dos europeus de então. Ninguém procura no extravagante a primeira resposta. Para sossegar sua estranheza, contentou-se com a solução oferecida pela geografia.

Desembarcando na ilha, não sem dificuldade e deparando-se com a recusa inicial de Moreau em recebê-lo, Prendick vê-se impedido de descansar devido à sucessão de urros que identificou como da onça da escuna. Afasta-se do quarto onde instalado e resolve explorar o local, como alternativa a continuar escutando aqueles uivos nos quais se concentrava "todo o sofrimento do mundo". Nesta forçada excursão, conhece parte do território. Vê cenas ininteligíveis, que desafiam sua resposta inicial aos tipos físicos encontrados. A outra parte ele conhecerá depois, fugindo de Moreau e Montgomery. Si os indivíduos encontrados não apresentavam características endêmicas, intui-se uma segunda hipótese, igualmente errônea mas alarmante: Moreau transformaria pessoas em animais?

Temendo ser o próximo, Prendick foge e alcança a outra parte da ínsula.Encontra uma aldeia que reúne os mais diversos e estapafúrdios tipos. Acomoda-se numa cabana onde a figura de aspecto idoso incita os demais a repetir "A Lei" durante insólita e hipnótica ladainha:


"Não andar de quatro pés, essa é a Lei. Então não somos homens?
"Não beber com a língua, essa é a Lei. Então não somos homens? (...)


E assim por diante. O toque de mestre de Wells aparece neste capítulo na constatação: "Não havia sinal de fogo". Já presenciamos pessoas vivendo nas ruas, lado a lado com cães. Sabemos de outras que vivem entocadas em casas abarrotadas e imundas, como nem os roedores admitem, pois mudam-se quando a permanência é insustentável. Já passamos na calçada por indivíduos cujo odor anunciou a exclusão do banho de entre seus hábitos. Conhecemos outro que se alimenta exclusivamente do encontrado nas caçambas de lixo. Apesar do esforço, não conseguimos lembrar-nos de uma só espécie animal que faça uso do fogo. Vemos homens que vivam como animais, mas animais que vivam como homens é de tal forma inusitado que Prendick deparou-se com o indício mas não conseguiu assimilá-lo.

Fato e que, após algum transtorno, Moreau decide esclarecer seu hóspede. O "cientista" é descrito como corpulento, de barbas e cabelos brancos e rosto quadrado. Wells, antes de firmar-se como jornalista e escritor, foi aluno e professor-assistente na Midhurst Grammar School, estudando em seguida com Thomas Huxley (), o conhecido "buldogue de Darwin". Não conhecemos a relação de mestre e discípulo e podemos enganar-nos, mas a descrição de Moreau remeteu-nos ao retrato daquele. Seus motivos são expostos no capítulo XIV. Variam entre o positivismo científico do século XIX e o messianismo, agregando sofismas e argumentos de autoridade. Ao contrário de Huxley, Moreau não era nem cientista, nem humanista. Em nossa concepção, estes termos são sinônimos necessários. Temos na conta desta categoria de pessoas aqueles indivíduos que se dedicaram a ampliar os campos do conhecimento humano, ou mantê-los ampliados, ou ainda, levaram este conhecimento para aplicá-lo pelo mundo. São os Sabin, Curie, Edson e Franklin que ilustram nossa História. Moreau é o antípoda de Albert Schweitzer, por exemplo, prêmio Nobel da Paz de 1952. Schweitzer foi exímio organista, que se formou em Medicina com o específico intuito de levar alívio à África, onde aos rigores da natureza adicionou-se a inclemência dos que se apresentaram como colonizadores. Construiu e equipou ao menos um hospital com fundos levantados em concertos nos quais se apresentava.

Moreau soluciona em definitivo a dúvida de Prendick. O que ele via não eram homens e mulheres transformados em animais, mas o contrário. "São animais recortados e esculpidos até adquirirem novas formas". A crueldade seria idêntica, em nossa opinião. Percebe-se sua preocupação em comprovar suas ideias e sua indiferença à dor decorrente. Adquiriu a insensibilidade de Mengele ou daquele que manipula químicos visando produzir um abortivo eficiente. Seu intento declarado é único: "encontrar o limite extremo da plasticidade de uma forma viva". E só, sem aplicação prática em benefício de alguém, como questionou Prendick em outra passagem. Por maior sofrimento que causasse, reconhecia a vanidade de seus esforços e logo perdia o interesse pelos espécimes alterados.Rapidamente voltavam a ser o que eram antes, mesmo deformados. Eles regrediam.

Um dos mais cativantes representantes do povo animal - assim são referidos no livro - é o derivado de um cachorro São Bernardo. Ligou-se ao personagem quando ele ficou sozinho na ilha, montava guarda, protegia seu sono. Lembramos de Roger Grenier, no muitas vezes relido Da dificuldade de ser cão, citando o poeta Rilke: "Sua semelhança confidencial e admirativa é tal que alguns dentre eles parecem ter renunciado a seus hábitos mais antigos, adotando até nossos erros. É exatamente isso que os torna trágicos e sublimes". Outra figura é o homem-macaco, que despreza as palavras comuns e prefere repetir as que não entende, alegando desenvolver um grande pensamento. Após a leitura, desconfiamos que o sujeitinho escapou da ilha e veio ter ao Brasil, onde proliferou e seus descendentes hoje ocupam os mais diversos cargos.

Todos eles, contudo, regrediram. Parece-nos uma impropriedade vocabular falar em "regressão". Os "pacientes" de Moreau sequer deixaram de ser o que eram. Após o experimento, perderam a forma original, foram hipnotizados e condicionados. Em relação a estes seres, Moreau cometeu o mesmo erro dos ascetas: não se aperfeiçoa o espírito mutilando o corpo. Portanto, não haveria como voltar de um ponto que não foi atingido. Afastada a interferência humana, retomaram seus hábitos, fosse qual fosse o tempo transcorrido. Retomada definitiva, pois as parciais davam-se diariamente, à noite. Estamos convictos de que ao homem é impossível regredir - aqui, sim, no sentido próprio - a estágios animalescos e de dócil submissão a comandos acompanhados de reforços ou punições. Felizmente, todos os anos temos o Big Brother Brasil para sedimentar-nos a convicção. "Então não somos homens?".


Ricardo de Mattos
Taubaté, 12/3/2012


Mais Ricardo de Mattos
Mais Acessadas de Ricardo de Mattos em 2012
01. A ilha do Dr Moreau, de H. G. Wells - 12/3/2012
02. Aborto - 2/4/2012
03. Freud segundo Zweig - 25/6/2012
04. Deus: uma invenção?, de René Girard - 6/2/2012
05. A Virada, de Stephen Greenblatt - 8/10/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O SENTIDO DE ZEUS. O MITO DO MUNDO E O MODO MÍTICO DE SER NO MUNDO
JAA TORRANO
ILUMINURAS
(1996)
R$ 88,00



BRAGUINHA - SONGBOOK
ALMIR CHEDIAK
LUMIAR
(2002)
R$ 45,00



A SABEDORA DE SIDARTA - O BUDA
ANTONIO CARLOS ROCHA
EDIOURO
(1985)
R$ 7,50



DEMOCRATIZAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS: RESGATANDO A MEMÓRIA DOS MOV. SOC.
ILSE SCHERER-WARREN
UNIVALI
(1998)
R$ 3,00



A VOLTA DE SHERLOCK HOLMES
CONAN DOYLE
FRANCISCO ALVES
(1983)
R$ 6,00



A CHINA ANTIGA - GRANDES CIVILIZAÇÕES DO PASSADO
MAURIZIO SCARPARI
FOLIO
(2006)
R$ 20,00



MICROONDAS COM CAPRICHO
INGE SCHIERMANN
MELHORAMENTOS
(1990)
R$ 8,60



LIDANDO COM PESSOAS DIFÍCEIS
HARVARD BUSINESS SCHOOL
CAMPUS
R$ 14,90



DESENVOLVIMENTO INTERPESSOAL
FELA MOSCOVICI
LIVROS TECNICOS E CIENTÍFICOS EDITORA LTDA
(1985)
R$ 14,90



SADE UM ANJO NEGRO DA MODERNIDADE
GABRIEL GIANNATTASIO
IMAGINÁRIO
(2000)
R$ 10,00





busca | avançada
20983 visitas/dia
829 mil/mês