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COLUNAS

Terça-feira, 20/3/2012
Ode à Mulher
Jardel Dias Cavalcanti

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Eu que sou homem, reparo nas mulheres. Fui gerado no ventre de uma, portanto lhes devo a vida e, consequentemente, imenso respeito e admiração.

A mulher é objeto de admiração cósmica, como também objeto de desprezo por seres que se autodenominam homens, mas que por sua relação cruel com as mulheres deveriam ser chamados de bestas-fera. Algumas culturas (pagãs) a transformaram em deusa, outras (judáico-cristãs) a transformaram em bruxa, feiticeira diabólica, que deveria ser queimada viva.

Pitágoras dizia que existe um principio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um principio mau que criou o caos, as trevas e a mulher. Algumas religiões, seguindo essa lógica perversa, a transformaram na perigosa fonte do mal.

As cortes rococós a deixavam ser um ser livre, alado, vivendo no luxo e na luxúria, mas nem tanto, como nos ensinou Starobinsky, que percebeu o sentido da estratégia masculina do elogio: "Todo um sistema extremamente refinado de atenções, de deferências, de lisonjas se desenrola para chegar de maneira segura ao êxtase da satisfação animal". Como confessa um herói de Bijoux Indiscrets, citado por Starobinsky, "sempre mulheres, e de todo tipo, raramente o mistério, muitos juramentos e nenhuma sinceridade".

Agnès Michaux escreveu um Dicionário misógino, onde expõe frases de pensadores, escritoes e artistas famosos que em algum momento escreveram frases onde expressam seu ódio às mulheres. Baudelaire, por exemplo, escreveu: "A mulher tem fome e ela quer comer. Sede, e ela quer beber. Ela está no cio e ela quer ser fodida. Faça-se justiça! A mulher é natural - ou seja, abominável". Ou Pierre Belfond, que diz: "Nas mulheres, os pensamentos só se elevam quando seus seios caem". E Charles De Gaulle: "Criar um Ministério da Condição Feminina? E porque não um Subsecretariado de Estado do tricô?" E por aí vai...

Em defesa das mulheres foi necessário que a filósofa francesa Simone de Beauvoir escrevesse um tratado que ficou famoso: O segundo sexo. Dizia a autora: "Abrem-se as fábricas, os escritórios, as faculdades às mulheres, mas continua-se a considerar que o casamento é para elas uma carreira das mais honrosas e que as dispensa de qualquer outra participação na vida coletiva".

Simone de Beauvoir acreditava que a liberdade da mulher começa quando ela conquista sua liberdade material, financeira. Muitas mulheres modernas têm provado o gosto da liberdade econômica, podendo sair de casamentos apodrecidos pela violência, prepotência e descaso afetivo masculinos.

Em razão de sua liberdade econômica, outros aspectos da existência tem se apresentado para as mulheres, como o estudo, as viagens, os amores, as carreiras interessantes, as amizades para além da prisão familiar.

Mulheres foram tratadas historicamente como cidadãos de segunda classe. Somente em 1867, Stuart Mill fazia, diante do Parlamento, a primeira defesa oficialmente pronunciada do direito do voto feminino.

O escritor Alexandre Dumas Filho aconselhava ao marido traído uma única atitude para com a esposa infiel: "Mate-a". Quantas mulheres não padeceram nesse mundo o assassinato justificado sob a lei da falsa-moral elaborada pelo macho ferido.

Mulheres foram transformadas em santas quando se recolheram, mas também foram julgadas como putas quando viveram livremente. Algumas mulheres foram para o convento, anulando boa parte do sentido e da riqueza de suas existências, outras percorreram o mundo, amaram desavergonhadamente vários homens, participaram da vida social como professoras, cientistas, filósofas, médicas, dançarinas, chefes de Estado, arquitetas e economistas, etc.

Há imagens enternecedoras de mulheres: como o amor da mãe favelada (aqui e na África) que chora com seu coração partido por não poder dar uma xícara de leite ao seu bebê, que não consegue dormir por causa da fome, num mundo onde algumas pessoas bebem champangne em taças de ouro e compram barcos que valem milhões. No outro dia, heróicamente, essa mulher faz de tudo para conseguir trazer o leite para seu filho, da submissão a um trabalho mal pago ou, quando sem saída, o ato de se prostituir.

Mulheres têm voz divina quando cantam. Maria Callas, Ella Fitzgerald, Elis Regina, Janis Joplin, Amy Winehouse, fazem nosso coração disparar, se elevar, se transportar para outros mundos. Seria impossível imaginar um mundo sem as vozes femininas.

Mulheres são seres fisicamente tão belos que sua beleza desperta a inveja em outras mulheres. Mesmo as que a convenção chama de feias, são belas a um bom observador. Aquele andar delicado, o gesto de arrumar o cabelo, o desenho das costas, a forma dos pés, os dedos das mãos coroados por anéis, os olhos pintados, os lábios limpos ou tingidos de batom, a maneira de sentar, a dança sensual, o rebolado, as pernas fortes, nada disso é patrimômio apenas das chamadas mulheres belas.

Existem mulheres lindas, com pés horríveis. Existem mulheres com rostos feios, mas que andam como uma deusa. Há mulheres gordinhas que nos tocam como se tivessem varinhas mágicas nos dedos. Há mulheres lindas, perfeitas do ponto de vista clássico, mas que são seres humanos tão desprezíveis em sua vacuidade que não despertam o encanto e o respeito de ninguém.

Sobre as mulheres muitos pintores criaram obras de arte magníficas, poetas criaram versos extraordinários, músicos criaram composições extasiantes. Nuas, vestidas, saindo da água, como deusas da antiguidade ou virgens santíssimas, elas habitaram o panteão das artes desde sempre.

Mulheres criaram obras de arte e reflexões admiráveis: Camile Claudel, Virginia Woolf, Safo, Sylvia Plath, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Pina Bausch, Emile Dickson, Susan Sontag, Marilena Chauí, Hanna Harendt, Rosa de Luxemburgo, etc.

Atrizes de cinema sempre nos fazem amá-las, por sua beleza e por sua capacidade de criar emoções grandiosas.

Leonardo da Vinci dizia que se não fosse o belo rosto dado pela natureza às mulheres a raça humana não se reproduziria, pois seus genitais eram para o pintor algo difícil de se admirar e ver.

Desmond Morris, estudioso do comportamento humano, escreveu um belo livro que se chama "A mulher nua", onde comenta a cada capítulo o significado biológico e simbólico de cada parte do corpo feminino: cabelos, lábios, ombros, braços, genitais, mãos, cintura, pés, costas, etc. Sobre a fêmea disse: "Toda mulher tem um corpo belo - belo porque é o brilhante coroamento de milhões de anos de evolução, fruto de surpreendentes ajustes e sutis refinamentos que o tornam o mais extraordinário organismo existente no planeta".

Foi criada uma peça de teatro, que virou depois filme, onde uma parte da mulher fala sobre sua existência fantástica e perturbadora: o "Monólogo da vagina".

John Lennon chamou as mulheres de "o negro do mundo", por ter consciência histórica do mal que sofreram e sofriam ainda nesse mundo. Mas nem um ser foi tão maltratado quanto a mulher que além de ser fêmea, nasceu negra. Pois duas formas de desprezo que a sociedade dirigiu à mulher se deve simplesmente ao fato delas terem nascido mulheres e negras. Racismo e machismo sempre andaram de mãos dadas.

O Brasil tem tido na mulher enorme força política, a Senadora Marta Suplicy, a presidenta Dilma Roussef, as ministras do atual governo comprovam. Marta Suplicy foi uma das principais vozes femininas a se manifestar publicamente em favor da participação social da mulher na sociedade brasileira, discutindo sempre a questão da defesa de todos os direitos femininos num país atrasado que trata suas mulheres como seres inferiores. Questões como direito ao divórcio, direito ao prazer, proteção social, aborto, foram amplamente discutidos por Marta.

A mídia nunca tratou bem as mulheres, seus códigos simbólicos desprezam a mulher sonhada por Simone de Beauvoir. Mulheres aparecem na mídia para vender aparelhos domésticos como fogão, geladeira, produtos de limpeza, como se esse fosse o território ideal para as mulheres em suas casas. Ninguém notou que homens já limpam a casa, cozinham, passam suas roupas, cuidam dos filhos?

De outra forma, as mídias tratam as mulheres como pedaços de carne num açougue, quando as expõem como se fossem apenas bundas, sem vontade, prontas para servir, em propagandas de cerveja, por exemplo. Boa parte da (des)educação masculina para que se veja a mulher apenas como objeto sexual parte de programas de televisão e de propagandas de TV, que as torna apenas uma peça publicitária machista e de mau gosto.

Com tanto apelo, nem as mulheres escapam de acreditar que se não forem um belo pedaço de bunda não serão nada nesse mundo. Boa parte da explicação para os casos de estupro, que aumenta vertiginosamente entre adolescentes, pode ser explicado por esse tipo de educação, que ensina que a mulher é apenas um vaso de descarga para a libido masculina.

A mulher pobre brasileira ainda não tem o direito sobre o próprio corpo. O direito ao aborto não lhe foi ainda assegurado. Milhares de abortos clandestinos, que deixam sequelas nas mulheres, são feitos em razão de gravidez por estupro. Apenas a classe alta tem direito ao aborto no Brasil, em clínicas sofisticadas e higienizadas. Uma falsa-moral ainda faz do Estado um protetor apenas de uma elite rica.

Uma das conquistas femininas é a criação da Delegacia das Mulheres, espaço onde a mulher pode expor os maus tratos que sofre por trás dos muros do lar, antes inviolável espaço para torturas silenciosas e proteção para homens violentos, e colocar seu espancador sob vigilância policial.

Apesar de tudo de ruim que a história lhe deu, a mulher preserva seu charme, mistério, inteligência e sensibilidade. Não como natureza particular da fêmea, pois o homem também possui esses mesmos encantos e atributos. Depois de saber de todos os males que a mulher enfrentou nesse mundo, podemos nos perguntar como sobrevivemos ainda como espécie? A resposta, clara e objetiva: por causa da força da mulher, da sua capacidade de enfrentar dificuldades e obstáculos.

Dados eloquentes sobre as mulheres hoje: "Existem no mundo entre 100 milhões e 140 milhões de mulheres submetidas à amputação genital e, a cada ano, 3 milhões de meninar correm o risco de passar por esse ritual". Além, claro, de morrerem por infecção, já que os instrumentos usados no corte são giletes velhas e espinhos infectados, etc.

Outro dado: Nos paises subdesenvovidos 70% das pessoas iletradas são mulheres.

A sociedade como um todo lucraria enormemente se deixasse a mulher ter o seu direto pleno de viver: ser dona do próprio corpo, das próprias idéias e poder participar plenamente do destino da sociedade, enquanto ser livre, não enquanto capacho de idéias obtusas criadas pelo seu opressor, o homem.

Não existe mundo livre, sem uma mulher livre.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 20/3/2012

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