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Terça-feira, 24/4/2012
Pina, de Wim Wenders
Wellington Machado

+ de 3000 Acessos

Quem vê o diretor Wim Wenders, aos 67 anos, filmando em 3D o documentário Pina (sobre a coreógrafa alemã Pina Bausch), parece estar diante de um diretor de vinte e poucos anos, detentor dos mais intricados conhecimentos da tecnologia cinematográfica disponível no mercado. A opção pela filmagem em 3D é apropriada ao filme, pois dá ao espectador a dimensão dos cenários profundos utilizados nos balés da coreógrafa.

Pina Bausch morreu em 2009, aos 69 anos. Além de coreógrafa reconhecida mundialmente, atuou como atriz no filme Fale com ela, de Pedro Almodóvar. Seria leviano de minha parte analisar criticamente os aspectos estéticos de sua coreografia - há inúmeros especialistas capacitados para fazê-lo. Mas, valendo-me da "lente" de Wim Wenders, nota-se a grandiosidade, a imponência da expressão corporal de Bausch. Seu corpo esguio, magricelo, já enrugado no fim da vida, se assemelha a uma corda bamba que balança livremente no ar. Seus seios pequenos e murchos, invariavelmente expostos em várias cenas, afastam qualquer possibilidade de sensualização do corpo, abrindo espaço para a pura observação estética. O espectador mal percebe que Pina está nua: o foco recai exclusivamente nos movimentos, nos quais as expressões faciais da coreógrafa têm a mesma importância que os dedos da mão, os ombros, os pés.

A "parceria" Wenders-Bausch é bem-sucedida devido ao foco narrativo escolhido pelo diretor. Ao invés de inflar o documentário com imagens da coreógrafa, ou apelar para uma retrospectiva cronológica - opção confortável que só iria iconizar mais a bailarina - o diretor optou por uma abordagem inovadora: Wenders preferiu "esconder" a biografada. A história de Pina é narrada por seus alunos, provenientes de várias partes do mundo, cada um no seu idioma. Cada depoimento é ilustrado com movimentos de cada dançarino, como se Pina "possuísse espiritualmente" aquele corpo. Há pouquíssimas imagens da coreógrafa no filme. Ela está presente "nos" alunos, nos cenários de areia, nas cadeiras vazias e nos objetos cuidadosamente distribuídos no espaço em cena.

A opção de Wim Wenders por "esconder" a biografada é oposta à que foi feita em Buena Vista Social Club (1998), um dos melhores documentários da história do cinema. Se podemos dizer algo - além de inúmeras coisas - sobre o diretor, é que ele não se repete. Se em Pina a biografada é abordada "de fora para dentro" (dos alunos "corporais" para a coreógrafa), em Buena Vista... os holofotes são dispersos e individualmente direcionados a cada personagem. As histórias pessoais de cada um daqueles músicos, abandonados e carcomidos pelo tempo na memória dos cubanos (Wenders praticamente os ressuscitou), desembocam em exuberantes apresentações (em conjunto) nos palcos pelo mundo afora. Pina é côncavo; Buena Vista... é convexo.

Wim Wenders é um diretor diferenciado, diria ímpar, entre os diretores contemporâneos. Ele é tão bom diretor de ficção (Asas do Desejo; Paris, Texas; O amigo americano são apenas alguns exemplos) como documentarista - além de Pina e Buena Vista..., Wenders realizou Um filme para Nick (1979), um comovente documentário-homenagem sobre seu ídolo, o cineasta Nicholas Ray. Expoente da geração que ficou conhecida como Novo Cinema Alemão (juntamente com Fassbinder e Herzog), Wim Wenders foi o diretor que mais vivenciou, entendeu e absorveu o aparato tecnológico que seu tempo lhe proporcionou. O diretor nunca rejeitou (como fizeram vários cineastas românticos) os recursos tecnológicos disponíveis. Pelo contrário, utilizou-os como meio facilitador e de barateamento de custos em suas produções. Wim Wenders fez sua estreia com O medo do goleiro diante do pênalti (1971) em película, filmou em digital Buena vista..., e agora ousa filmar em 3D o documentário sobre Pina Bausch. Wenders é um diretor "de ligação": da película ao 3D.

Grande parte do mérito do diretor como um esteta da imagem se dá pelo fato de ele ser um ótimo fotógrafo - habilidade que o credencia a trabalhar com cores vibrantes, tons escuros e locações em lugares inóspitos. É preciso captar "o olhar" de Wim Wenders em seus filmes. As locações estáticas em Pina (desertos, topos de montanhas, cidades vazias etc.) funcionam como apoio e um contraponto ao movimento dos corpos nas cenas. Essa acuidade no trato visual é evidente também em Paris, Texas, Palermo Shooting (filme que nem entrou no circuito brasileiro) e nas cores marcantes de Buena Vista....

Pina marca o retorno de Wim Wenders à Alemanha, após uma temporada americana de altos e baixos. É certo que o cineasta fez filmes menores (não é todo dia que se filma um clássico), mas mesmo estes valem a atenção do cinéfilo (grande parte de sua filmografia foi lançada em DVD). O diretor não tem compromisso com o entretenimento. Seus personagens são emblemáticos. Em Paris, Texas, um homem "desmemoriado" caminha perdido no deserto como se quisesse fugir de uma rusga antiga com a esposa. Em Asas do desejo, Wenders cria um anjo (sem nenhuma conotação religiosa) que sobrevoa Berlin, acompanha o cotidiano das pessoas e se encanta com uma artista circense, tornando-se novamente "humano".

Assistir à Pina (principalmente em 3D) é, além de aprender sobre a coreógrafa, juntar teatro, cinema e dança em um só lugar. O documentário é uma porta de acesso à filmografia de Wenders, especialmente para os que ainda não o conhecem devidamente. Para o cinéfilo que acompanha a trajetória do diretor, Pina é mais um candidato a clássico em sua filmografia.


Wellington Machado
Belo Horizonte, 24/4/2012


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