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Sexta-feira, 4/5/2012
A polêmica da Feira do Livro de Bento Gonçalves
Marcelo Spalding

+ de 3900 Acessos

O Rio Grande do Sul orgulha-se de algumas coisas. Certo, certo, de muitas coisas. Mas de algumas nós temos razão, e entre elas está o nível educacional e de leitura do nosso povo. Não é grande coisa, mas é sensivelmente maior ao do restante do Brasil.

Isso se deve a muitos fatores, desde nossa colonização até os investimentos trabalhistas em educação. Contemporaneamente, porém, o que mais tem chamado a atenção por aqui são as Feiras do Livro e as visitas de autores a escolas, municípios, universidades e instituições. Graças ao sucesso da Feira do Livro de Porto Alegre, hoje centenas de municípios e outras centenas de escolas promovem Feiras, em geral reunindo alguns estandes, programação cultural e visita de autores locais. Nesse aspecto, a Câmara Riograndense do Livro tem sido de grande auxílio ajudando a organização e por vezes viabilizando a contratação, assim como o Instituto Estadual do Livro, IEL, que com seu programa Autor Presente leva autores a locais que não poderiam levá-los com recursos próprios.

Outro motivo do sucesso desse tipo de trabalho é que o autor, que por muito tempo visitou escolas pelo prazer de divulgar sua obra - ou pela pressão da editora para que o fizesse - tem agora institucionalizado o direito a um cachê. Nada demais, mas o bastante para custear suas despesas de viagem, compensar o tempo que ficará longe dos filhos, muitas vezes do emprego, sempre da escrita. Valor mais do que suficiente para profissionalizar o trabalho desses escritores, que hoje na sua maioria não se limitam a contar sua vida no microfone, e sim têm trabalhos preparados, como contações de histórias, apresentações musicais, apresentações multimídia, etc.

Toda essa movimentação permite que muitos escritores gaúchos tenham aí uma renda extra e continuem produzindo, escrevendo, organizando oficinas, investindo em seu trabalho. Não é por acaso, aliás, que o Rio Grande do Sul tem tantos escritores reconhecidos e premiados nacionalmente - do mestre Luiz Antonio de Assis Brasil, hoje Secretário de Cultura, ao jovem Daniel Galera. Mas esses são apenas alguns dos nomes mais conhecidos. Só em portal dedicado a catalogar Artistas Gaúchos temos uma relação de 371 escritores nascidos ou moradores do RS. É um número e tanto, ainda mais levando em consideração que faltam muitos dos mais conhecidos nessa lista, como os próprios Assis Brasil e Galera.

Pois bem, ocorre que neste ano, ao divulgar mais uma Feira do Livro de Bento Gonçalves, o prefeito anunciou que o patrono seria Gabriel, O Pensador. Até aí, tudo bem, o Estado já recebeu de braços abertos nomes como Ziraldo, Maurício de Sousa e o próprio Gabriel. O que causou estranheza é o valor do cachê divulgado na ocasião: R$ 170 mil reais. Sim, R$ 170 mil. Mais tarde os valores foram discriminados tentando mostrar que ali estava incluído o valor de um show, da compra de 2 mil exemplares de um livro a R$ 35,00 cada (tudo isso, sim) e o cachê do patrono em si. O problema, entretanto, não era mais a justiça ou não do cachê, muito menos a qualidade ou não do patrono.

Como relatado acima, há anos o Rio Grande do Sul tem construído aos poucos um mercado de trabalho para seus autores através dessas Feiras e lutado para estabelecer alguns valores mínimos a serem respeitados. E exatamente a Feira de Bento, ao contatar os autores no começo do ano, negociou com cada um separadamente alegando falta de verbas e estabelecendo um cachê fixo abaixo do valor de mercado. Para mim, por exemplo, ofereceram R$ 360,00 por uma oficina. Para quem fizesse palestra o valor máximo seria de R$ 1000,00, caso de Fabrício Carpinejar, um dos famosos escritores contemporâneos gaúchos.

Não é difícil imaginar que quando os autores descobriram o tal cachê milionário do Pensador, bancado pessoalmente pelo prefeito de Bento Gonçalves, como este fez questão de divulgar, ficaram indignados e promoveram uma revolta nas mídias sociais, vazando depois à imprensa. Principalmente depois que Fabrício Carpinejar escreveu uma carta aberta à organização da Feira cancelando sua participação:

"Querida Coordenação da Feira: estou cancelando minha participação na 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves. Lamento fazer isso por todo amor que guardo pelos leitores da cidade. É meu protesto pelo cachê absolutamente excessivo de R$ 170 mil destinado a Gabriel O Pensador. O artista (que eu admiro) não tem culpa de pedir o valor, porém a Prefeitura tem inteira responsabilidade de acatá-lo e não informá-lo da real capacidade cultural do município. O anúncio de pagamento ao músico é uma afronta às vésperas de pleito eleitoral. Literatura não deve ser feita para atrair público, e sim para formar público. Feira do Livro não é uma Oktoberfest, uma Fenavinho, uma plataforma popular de shows musicais e apresentações midiáticas. Feira é intensificar leituras em escolas e universidades ao longo do ano para propiciar debates e mesa-redondas com escritores durante uma semana." (leia na íntegra).

A celeuma estava criada. Aos poucos, a notícia saía da página cultural e ia para a página de política. Escritores participantes da Feira cobraram explicação dos organizadores, a Associação Gaúcha de Escritores lançou uma nota oficial no seu site, artistas de Bento e arredores começaram a se queixar, nas redes sociais, do tratamento dado a eles, com relatos de muitos que sequer foram recebidos pela organização do evento no começo do ano. Em Bento, o prefeito reunia-se com a organização da Feira sem muito a fazer. Vale dizer que ninguém jamais ligou para nós, escritores contratados para o evento, a fim de dar alguma explicação.

Até que "O pensador repensou", como estampou a manchete do nosso jornal diário. Gabriel, em decisão surpreendente e midiática, abriu mão do cachê e participará da Feira do Livro como patrono sem receber nada, apenas o custo de transporte e hospedagem. Um golpe de mestre que virou os microfones acusadores para o outro lado e lhe rendeu uma mídia positiva que não tinha desde o tal "Cachimbo da Paz", talvez. Antes disso, ligou para alguns escritores locais, como o próprio Fabrício e Cíntia Moscovich, a fim de desarmar os ânimos. Ouviu de todos que o problema não era com o patrono, e sim com a prefeitura que contratou o patrono dessa forma e, por outro lado, tratou os escritores locais com desdém. E de um dos escritores ouviu que ele tinha caído no meio de uma "briga de gaúchos", segundo disse em entrevista no Rio de Janeiro.

Dito assim, "briga de gaúchos" soa como pejorativo, e decerto quem disse a ele isso estava abasbacado em receber telefonema de tão célebre cantor e saiu-se com essa, tentando diminuir a importância da polêmica e ficar bem com o Pensador. Quem sabe não tomam um chope numa próxima ida ao Rio de Janeiro? Mas a briga, se existe, é por algo muito maior, é pela valorização profissional de centenas de escritores que mantêm a efervescência das Feiras locais, o interesse renovado do público-leitor, uma multidão de autores, muitos desconhecidos, que vão de sala em sala de aula divulgando não apenas seus livros, não apenas seu trabalho, mas o combalido prazer da leitura.

Esta é a briga de nós, gaúchos. Uma briga que episódios como este do cachê milionário só enfraquece. Hermes Bernardi Jr., outro dos escritores convidados para participar do evento, publicou recentemente uma carta aberta em que de certa forma resume o sentimento que ficou entre nós:

" Nós não queremos briga, senhor patrono. Queremos respeito pelo nosso ofício e cachês adequados ao trabalho de alimentar o imaginário do leitor, este sim, o show merecedor de muito mais do que cento e sessenta mil reais, num país acostumado a bundas e peitos à venda e em exposição nas bancas de revistas. (...) Nós, autores, não nos calamos. Nós, autores, queremos que façanhas como as praticadas pela prefeitura de Bento Gonçalves não sirvam de modelo a toda a terra. Façanhas como esta não podem ser multiplicadas, esvaziando a terra de tudo o que vimos plantando a bem do nosso leitor e de um olhar mais crítico ao viver em sociedade e trabalhar em favor dela."

O que se perdeu, com a superficialização desse debate em torno da contratação do Pensador, foi a oportuniade de rediscutir para que serve, afinal, uma Feira de Livro ou um evento literário? Para shows, performances, musicais? Para palestras de bombeiros, grupos religiosos, astronautas? Para tudo isso? Onde estão as universidades na organização das feiras e na formatação de sua programação? Enfim, perdeu-se a oportunidade de rediscutir o todo, banalizou-se uma instituição importante que é a do patrono e ficou um gosto amargo em cada autor que irá até Bento Gonçalves por R$ 360,00, R$ 500,00, R$ 800,00, sabendo que havia verba, segundo o próprio senhor prefeito, para muito mais.

Particularmente, lamento muito todo o ocorrido e tenho certeza que isso apaga parte daquela chama que temos pela literatura. Como se sabe, trabalhar profissionalmente com literatura é muito menos rentável que lidar com música, seguro de carros ou aulas particulares. E esse tipo de acontecimento nos leva fatalmente a refletir porque, afinal, estamos insistindo em ainda fazer literatura.



Marcelo Spalding
Porto Alegre, 4/5/2012


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