Michelle Campos e a poesia dentro do oco | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
33287 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Digestivo Cultural
O que é?
Quem faz?

Audiência e Anúncios
Quem acessa?
Como anunciar?

Colaboração e Divulgação
Como publicar?
Como divulgar?

Newsletter | Disparo
* Histórico & Feeds
TT, FB e Instagram
Últimas Notas
>>> Daily Rituals - How Artists Work, by Mason Currey
>>> Fernando Pessoa, o Livro das Citações, por José Paulo Cavalcanti Filho
>>> A Loja de Tudo - Jeff Bezos e a Era da Amazon, de Brad Stone
>>> Reflexões ou Sentenças e Máximas Morais, de La Rochefoucauld
>>> O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, o livro do ano
>>> Trágico e Cômico, o livro, de Diogo Salles
>>> Blue Jasmine, de Woody Allen, com Cate Blanchett
>>> The Devil Put Dinosaurs Here, do Alice in Chains
Temas
Mais Recentes
>>> O cão da meia-noite
>>> O problema da Petrobras são vários
>>> Joana a Contragosto, Mirisola em queda livre
>>> O fim do PT
>>> Doida pra escrever
>>> Por que o petrolão é muito diferente do mensalão
>>> Viagem a 1968: Tropeços e Desventuras
>>> Dando nome aos progres
>>> Sobre o caso Idelber Avelar
>>> O livro do Natal
Colunistas
Mais Recentes
>>> Copa 2014
>>> Copa 2010
>>> Idade
>>> Origens
>>> Protestos
>>> Millôr Fernandes
Últimos Posts
>>> Dia do Ram
>>> Escrever e defender o governo
>>> Mozart 11 com Barenboim
>>> Haddad merece no máximo nota 4
>>> Graça Foster também sabia
>>> Caminhos para Roma
>>> Por que Graça Foster vai cair
>>> A primeira formatura
>>> Privatiza, Presidente!
>>> Eric Santos 2014
Mais Recentes
>>> Lembranças de Ariano Suassuna
>>> Harold Ramis (1944-2014)
>>> Sergio Britto & eu
>>> Para o Daniel Piza. De uma leitora
>>> Joey e Johnny Ramone
>>> A Cultura do Consenso
>>> De Kooning em retrospectiva
>>> Delírios da baixa gastronomia
Mais Recentes
>>> Jaime Pinsky
>>> Luis Salvatore
>>> Catarse
>>> Chico Pinheiro
>>> Sheila Leirner
>>> Guilherme Fiuza
Mais Recentes
>>> O segundo e-book do Digestivo
>>> Momento cívico
>>> Digestivo Books
>>> Caixa Postal
>>> Nova Seção Livros
>>> Digestivo no Instagram
Mais Recentes
>>> O Espião que Sabia Demais
>>> Brasil em Contra-Reforma
>>> Machado de Assis: assassinado ou esquecido?
>>> O Mestre do seu Sistema
>>> O Agressor, de Rosário Fusco
>>> Vade Mecum Tributário
>>> Ofício x Formato
>>> Videogame também é cultura
>>> Quebrando Regras
>>> O Legado
LIVROS
Mais Recentes
>>> O Segredo do Sucesso é ser Humano
>>> O que restou de mim
>>> Caça ao Homem
>>> Pássaro da Tempestade
>>> A Humanidade e Suas Fronteiras
>>> Os Grandes Impostores
>>> Como Gata e Rato, Como Cão e Gata
>>> Os Fidalgos da Casa Mourisca
>>> O Príncipe
>>> Conversas
>>> Os piores dias de minha vida foram todos
>>> Coração de Mãe
>>> Entre o Silêncio e a Obra
>>> Transportes - História, Crises e Caminhos
>>> Embuscadoamor.com
>>> Um tal Lucas
>>> O Outono do Patriarca
>>> Um Corpo na Neve
>>> Cinquenta Anos Esta Noite
>>> Pedagogia dos Sonhos Possíveis
>>> Enquanto Deus não Está Olhando
>>> O Sopro dos Deuses
>>> A Viagem Iniciática ou Os 33 Graus de Sabedoria
>>> The Rolling Stones - A Biografia Definitiva
>>> O Legado
>>> O Trovador
>>> Prisioneiro da Sorte
>>> O Pergaminho Sagrado
>>> Pergunte a Deepak Chopra Sobre Amor e Relacionamentos
>>> Amor até debaixo d'água
>>> Viagem à Calábria
>>> Quase Casados
>>> Ter e não ter
>>> A Lei do Triunfo
>>> Panteão
>>> O Guerreiro do Oeste
>>> Katherine
>>> A Vingança da Amante
>>> Em Nome do Mal
>>> Por onde você anda?
>>> Os 13 Segredos
>>> Herança de Sangue
>>> O Mistério dos Deuses
>>> Quartos Fechados
>>> Ossos Perdidos
>>> Três Macacos
>>> Quebrando Regras
>>> Êxodo
>>> A Bíblia do Estilo
>>> A Espada de Medina
COLUNAS

Terça-feira, 26/6/2012
Michelle Campos e a poesia dentro do oco
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 2300 Acessos

A editora Scriptum, de Belo Horizonte, acaba de lançar o livro "O Oco da Porcelana", da poeta, artista plástica e ilustradora Michelle Campos. A edição é caprichosa, com uma bela capa e ilustrações internas da própria artista.

Há poemas de todos os tamanhos e tipos no livro: de versos livres a poemas em prosa, alguns com mais de 40 versos e outros com apenas um ou dois versos. O elemento principal do livro talvez seja o tom irônico que predomina sobre a revelação de sentimentos de amor, esperança, desilusões, incertezas etc. Há também a garganta solta, que critica a raison d´ être de nosso tempo vazio.

Umberto Eco define o pós-moderno como um Kunstwollen (um modo de operar) e não uma tendência que possa ser delimitada cronologicamente. Nesse sentido, a operação par excellence da arte de nossa época seria a ironia. Constitui-se como a maneira de se relacionar de forma não inocente com o presente, com nossos sentimentos, enfim, com nossa existência como um todo sem que se caia num sentimentalismo ingênuo e surrado, sem que se caia nos clichês para lá de repisados.

Com o pós-moderno, diz Umberto Eco, predomina a ironia, o jogo metalinguístico, a enunciação elevada ao quadrado. É possível até o leitor não entender o jogo e levar as coisas a sério, qualidade (e risco) da ironia. Mas para o autor uma coisa é séria, não se pode mais falar inocentemente de nada, nem do sentimento mais íntimo que nos corrói, pois uma autoconsciência de que tudo isso já foi dito nos obriga a criar o jogo da ironia como última possibilidade de dizer de verdade o que sente. A relação entre autor e leitor, então, é de que "ambos jogarão conscientemente e com prazer o jogo da ironia... Mas ambos terão conseguido mais uma vez falar de amor", diz Umberto Eco.

Pensando nos termos acima, não há melhor porta de entrada para o livro de Michelle Campos que o poema em prosa "Harakiri Mímico", onde a poeta interroga-se: "O que faço com meus suspiros? Guardo em uma bolsinha de cetim bordada de amargura?" Depois dessa dúvida, vem a enxurrada de interrogações sentimentais que terminam com a afirmação da razão da dor tão exclamada: "Eu devia estar feliz hoje, se naquele dia eu não tivesse te conhecido tão bem...". Do título ao jogo interrogativo, vê-se ao longo do poema uma encenação sem esperança do jogo do amor, tratado com ironia, única forma de poetizar sem pieguices as sentenças do desespero.

O título do livro, "O oco da porcelana", não pode ficar impune, afinal ele se casa perfeitamente com a foto da capa, onde aparece uma ruína de uma casa, onde apenas resta um cabide cor de rosa com uma roupinha de menina pendurada na parede. A palavra porcelana, em seu sentido rococó de brilho, sensibilidade, delicadeza, alinha-se ao rosa e à pureza do vestido infantil. Num jogo irônico a capa anuncia a inocência da infância como um projeto destinado ao fracasso, à ruína, revelando que por trás do charme da porcelana apenas o oco, o vazio, perdura. E é falar de dentro do oco que a poesia de Michelle Campos se propõe.

Parece haver um desencontro entre o poeta e o mundo. Embora essa frase já soe como um clichê, esse desentendimento é que cria a poesia que Schiller chamou de "sentimental". Michelle Campos não deixa de nos relembrar isso: "As palavras ainda me são mais fáceis. Que eu, você, espelhos, tudo". Da impossibilidade de comunicação brota muito de seus versos (característica de nosso mundo pós-moderno, com tantos celulares e internet e pouca comunicação real?). Assim ela diz, numa crueldade irônica: "Ele viu o espelho, ela viu o reflexo. E isso resume tudo".

O drama sentimental é sempre retomado, como ao traduzir a letra da música de Serge Gainsbourg, "Je t'aime, moi non plus", quando a poeta afirma, sem mais, nem menos: "Eu te amo,/ mas não mais". As dores da vida são ditas, linha por linha, numa coragem sem fim: "Hoje vesti o vestido lindo./ (...) Mas a tristeza... a tristeza em nós,/ de laços de fita, ovula uma sangria desatada".

Cura para a vida? Ironiza a poeta sobre suas possíveis saídas: "... e assim se deu minha cura (?)/ uma dose de verdade e um coração comprimido!". "Procuro todos os meus amigos e me abandono e em todos os copos ignoro meus deveres, visto elmo e armadura e lança na mão? ... Ou vou dormir insana, agoniada e masoquista e toco-me aflita." Como se não houvesse saída, apenas o poema pode existir, este que lemos.

Há vários poemas onde se retoma o tema sentimental da perda, da desilusão, do desencanto: "Loção pós-decepção", "Apatrita", "Samba", "Páginas em carne viva" etc. Em geral são exclamações de pequenas e grandes decepções que a vida gera, amores despedaçados, esperanças frustradas, dores repisadas, desesperos e o desejo de gritar contra tudo que atormenta, que fadiga, que faz doer.

Em "Mulher bélica", a impossibilidade amorosa tenciona os versos, jogando-os num campo de batalha: "Amor despedaçado!/ Nem a guerra doeria tanto... Os campos me são mais dóceis,/ com suas marchas imemoriais.../ Seria uma honra ter você em minha vida,/ mas antes de temer a morte, tememos sofre em paz."

Existem também deliciosos poemas quase panfletos, como "Apatrita" e "Maios", que discutem as grades que prendem as mulheres a valores para lá de superficiais. Mas a poeta grita, esperneia contra essa situação, em "Maios":

"Eu não sou uma vagabunda perdida/ Eu não saio, não fumo/ Sou uma recalcada santinha/ Mas não sou católica/ as prostitutas se parecem mais comigo/ do que as demais./ Eu não gasto um real em salão de beleza/ eu fico peluda/ não escolho as roupas que me deixam gostosinha para os homens/ meu cabelo é crespo e vai continuar/ lipoaspiração não é higiene/ eu não vou sofrer com agulhas, fome e academia./ Eu não vou me cortar/ não me filiarei a nenhuma religião machista ou de extorsão/ quem precisa de coleira apertada é cachorro doido, eu tenho ética./ Não vou posar de alternativa, suja e tribal./ eu não sou como vocês/ Eu não pago caro para construir uma aparência débil de conteúdo/ eu não escolho homem pelo carro, não quero ser admirada pela bunda/ não vou me tornar anoréxica, nem casar porque já estou na idade/ cansei de ser simpática por competição/ não sou marketing da sombra do que um dia quase fui/ não vivo para você/ não pintarei as unhas e frequentarei festas da moda/ não venderei minhas ideias por uma calça de marca/ pode me afogar, queimar e colidir meus valores, mas não mais pelos seus/ Não serei tão barata quanto você gostaria que eu fosse./ Tão fácil e tão domável/ permiti que você me manipulasse, descansei no sétimo dia./ Volte para seu vazio./ Eu te aniquilo."

Como diz o apresentador do livro, Adriano Menezes, na poesia de Michelle Campos, "entre a mordaça e o grito vence uma essência que transcende a busca intempestiva que nos bate forte no peito."

Essa essência é a poesia em si mesma, esse momento em que a humanidade grita por sua verdade, como nas palavras de Michelle Campos: "Devolva meu reflexo no espelho... Eu imploro!".


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 26/6/2012

Quem leu este, também leu esse(s):
01. O começo do fim da hegemonia 'de esquerda' de Julio Daio Borges
02. A Poesia em Noir de André Luiz Pinto de Jardel Dias Cavalcanti
03. 2011 e meus álbuns de Rafael Fernandes
04. O certo e o errado no ensino da Língua Portuguesa de Marcelo Spalding
05. Manet, o rebelde de casaca de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2012
01. Semana de 22 e Modernismo: um fracasso nacional - 6/3/2012
02. A morte de Sardanapalo de Delacroix - 31/7/2012
03. A origem da dança - 14/2/2012
04. Roland Barthes e o prazer do texto - 21/8/2012
05. Ode à Mulher - 20/3/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



>>> Leda Nagle recebe Ney Matogrosso no último Sem Censura ao vivo de 2014
>>> FOLHETIM DIGITAL O RIO E O MAR
>>> Além da pele: a beleza da alma e da família
>>> Estúdio Móvel recebe o diretor João Falcão nesta quarta (17)
>>> Série debate o amor e as diversas formas de casamento
>>> Retrospectiva 2014 no programa Observatório da Imprensa desta terça (16) na TV Brasil
* clique para encaminhar

Nova Fronteira
Cortez Editora
José Olympio
Globo Livros
Hedra
Arquipélago Editorial
Bertrand Brasil
Busca Sebos
Editora Record
Best Seller
Editora Conteúdo
Civilização Brasileira
Companhia das Letras
Primavera Editorial
Editora Perspectiva
Intrínseca
WMF Martins Fontes
LIVROS


50 ÍCONES QUE INSPIRARAM A MODA: 1990
Por R$ 28,95
+ frete grátis



AMOR ATÉ DEBAIXO D'ÁGUA
De R$ 35,00
Por R$ 20,89
Economize R$ 14,11



DIABLO III - LIVRO DE TYRAEL
De R$ 100,00
Por R$ 58,56
Economize R$ 41,44



A ARTE DE PENSAR CLARAMENTE - EDIÇÃO AMPLIADA
Por R$ 31,95
+ frete grátis



O OUTONO DO PATRIARCA
De R$ 40,00
Por R$ 34,95
Economize R$ 5,05



O ASSASSINO DO REI
Por R$ 58,95
+ frete grátis



LATITUDES PIRATAS
De R$ 43,00
Por R$ 39,95
Economize R$ 3,05



GUIA BARCELONA DE BICICLETA
Por R$ 18,95
+ frete grátis



CAÇADORES DE ZUMBIS 3 - DIA DO SUJAMENTO FINAL
Por R$ 28,95
+ frete grátis



ADMINISTRANDO MICRO E PEQUENAS EMPRESAS
Por R$ 68,95
+ frete grátis



busca | avançada
33287 visitas/dia
1,3 milhão/mês