Michelle Campos e a poesia dentro do oco | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
58412 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Digestivo Cultural
O que é?
Quem faz?

Audiência e Anúncios
Quem acessa?
Como anunciar?

Colaboração e Divulgação
Como publicar?
Como divulgar?

Newsletter | Disparo
* Histórico & Feeds
TT, FB e Instagram
Últimas Notas
>>> Daily Rituals - How Artists Work, by Mason Currey
>>> Fernando Pessoa, o Livro das Citações, por José Paulo Cavalcanti Filho
>>> A Loja de Tudo - Jeff Bezos e a Era da Amazon, de Brad Stone
>>> Reflexões ou Sentenças e Máximas Morais, de La Rochefoucauld
>>> O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, o livro do ano
>>> Trágico e Cômico, o livro, de Diogo Salles
>>> Blue Jasmine, de Woody Allen, com Cate Blanchett
>>> The Devil Put Dinosaurs Here, do Alice in Chains
Temas
Mais Recentes
>>> Lendo Virgílio, ou: tentando ler os clássicos
>>> Predadores humanos
>>> O gosto da cidade em minha boca
>>> Abominável Mundo Novo
>>> I-ching-poemas de Bruna Piantino
>>> Liberdade
>>> 10 coisas que a Mamãe me ensinou
>>> Bruxas no banheiro
>>> Quero ser Marina Abramović
>>> O Jagunço degolado
Colunistas
Mais Recentes
>>> Copa 2014
>>> Copa 2010
>>> Idade
>>> Origens
>>> Protestos
>>> Millôr Fernandes
Últimos Posts
>>> Zé Rodrix, 5 anos depois
>>> Daniel Piza Eterno
>>> Conheça o AgroTalento
>>> U2 no metrô
>>> Homenagem a Pipol
>>> LEM na TV Cronópios
>>> Sobre o Dia das Mães
>>> Lançamento de István Mészáros
>>> Maria Rezende no Sesc BH
>>> Ristridi
Mais Recentes
>>> Lembranças de Ariano Suassuna
>>> Harold Ramis (1944-2014)
>>> Sergio Britto & eu
>>> Para o Daniel Piza. De uma leitora
>>> Joey e Johnny Ramone
>>> A Cultura do Consenso
>>> De Kooning em retrospectiva
>>> Delírios da baixa gastronomia
Mais Recentes
>>> Jaime Pinsky
>>> Luis Salvatore
>>> Catarse
>>> Chico Pinheiro
>>> Sheila Leirner
>>> Guilherme Fiuza
Mais Recentes
>>> O segundo e-book do Digestivo
>>> Momento cívico
>>> Digestivo Books
>>> Caixa Postal
>>> Nova Seção Livros
>>> Digestivo no Instagram
Mais Recentes
>>> Fecha os olhos e canta
>>> Lembranças de Ariano Suassuna
>>> Glauber e o Golpe: da esperança ao desencanto
>>> Maffesoli, Redes Sociais e o Mundo Reencantado
>>> Maffesoli, Redes Sociais e o Mundo Reencantado
>>> Cuidar, cogitar, tratar, amar
>>> Cinema em Atibaia I
>>> Procure Saber e o ocaso da MPB
>>> Como fomos tratados pela bíblia dos cinéfilos
>>> Jean Baudrillard
COLUNAS

Terça-feira, 26/6/2012
Michelle Campos e a poesia dentro do oco
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 2400 Acessos

A editora Scriptum, de Belo Horizonte, acaba de lançar o livro "O Oco da Porcelana", da poeta, artista plástica e ilustradora Michelle Campos. A edição é caprichosa, com uma bela capa e ilustrações internas da própria artista.

Há poemas de todos os tamanhos e tipos no livro: de versos livres a poemas em prosa, alguns com mais de 40 versos e outros com apenas um ou dois versos. O elemento principal do livro talvez seja o tom irônico que predomina sobre a revelação de sentimentos de amor, esperança, desilusões, incertezas etc. Há também a garganta solta, que critica a raison d´ être de nosso tempo vazio.

Umberto Eco define o pós-moderno como um Kunstwollen (um modo de operar) e não uma tendência que possa ser delimitada cronologicamente. Nesse sentido, a operação par excellence da arte de nossa época seria a ironia. Constitui-se como a maneira de se relacionar de forma não inocente com o presente, com nossos sentimentos, enfim, com nossa existência como um todo sem que se caia num sentimentalismo ingênuo e surrado, sem que se caia nos clichês para lá de repisados.

Com o pós-moderno, diz Umberto Eco, predomina a ironia, o jogo metalinguístico, a enunciação elevada ao quadrado. É possível até o leitor não entender o jogo e levar as coisas a sério, qualidade (e risco) da ironia. Mas para o autor uma coisa é séria, não se pode mais falar inocentemente de nada, nem do sentimento mais íntimo que nos corrói, pois uma autoconsciência de que tudo isso já foi dito nos obriga a criar o jogo da ironia como última possibilidade de dizer de verdade o que sente. A relação entre autor e leitor, então, é de que "ambos jogarão conscientemente e com prazer o jogo da ironia... Mas ambos terão conseguido mais uma vez falar de amor", diz Umberto Eco.

Pensando nos termos acima, não há melhor porta de entrada para o livro de Michelle Campos que o poema em prosa "Harakiri Mímico", onde a poeta interroga-se: "O que faço com meus suspiros? Guardo em uma bolsinha de cetim bordada de amargura?" Depois dessa dúvida, vem a enxurrada de interrogações sentimentais que terminam com a afirmação da razão da dor tão exclamada: "Eu devia estar feliz hoje, se naquele dia eu não tivesse te conhecido tão bem...". Do título ao jogo interrogativo, vê-se ao longo do poema uma encenação sem esperança do jogo do amor, tratado com ironia, única forma de poetizar sem pieguices as sentenças do desespero.

O título do livro, "O oco da porcelana", não pode ficar impune, afinal ele se casa perfeitamente com a foto da capa, onde aparece uma ruína de uma casa, onde apenas resta um cabide cor de rosa com uma roupinha de menina pendurada na parede. A palavra porcelana, em seu sentido rococó de brilho, sensibilidade, delicadeza, alinha-se ao rosa e à pureza do vestido infantil. Num jogo irônico a capa anuncia a inocência da infância como um projeto destinado ao fracasso, à ruína, revelando que por trás do charme da porcelana apenas o oco, o vazio, perdura. E é falar de dentro do oco que a poesia de Michelle Campos se propõe.

Parece haver um desencontro entre o poeta e o mundo. Embora essa frase já soe como um clichê, esse desentendimento é que cria a poesia que Schiller chamou de "sentimental". Michelle Campos não deixa de nos relembrar isso: "As palavras ainda me são mais fáceis. Que eu, você, espelhos, tudo". Da impossibilidade de comunicação brota muito de seus versos (característica de nosso mundo pós-moderno, com tantos celulares e internet e pouca comunicação real?). Assim ela diz, numa crueldade irônica: "Ele viu o espelho, ela viu o reflexo. E isso resume tudo".

O drama sentimental é sempre retomado, como ao traduzir a letra da música de Serge Gainsbourg, "Je t'aime, moi non plus", quando a poeta afirma, sem mais, nem menos: "Eu te amo,/ mas não mais". As dores da vida são ditas, linha por linha, numa coragem sem fim: "Hoje vesti o vestido lindo./ (...) Mas a tristeza... a tristeza em nós,/ de laços de fita, ovula uma sangria desatada".

Cura para a vida? Ironiza a poeta sobre suas possíveis saídas: "... e assim se deu minha cura (?)/ uma dose de verdade e um coração comprimido!". "Procuro todos os meus amigos e me abandono e em todos os copos ignoro meus deveres, visto elmo e armadura e lança na mão? ... Ou vou dormir insana, agoniada e masoquista e toco-me aflita." Como se não houvesse saída, apenas o poema pode existir, este que lemos.

Há vários poemas onde se retoma o tema sentimental da perda, da desilusão, do desencanto: "Loção pós-decepção", "Apatrita", "Samba", "Páginas em carne viva" etc. Em geral são exclamações de pequenas e grandes decepções que a vida gera, amores despedaçados, esperanças frustradas, dores repisadas, desesperos e o desejo de gritar contra tudo que atormenta, que fadiga, que faz doer.

Em "Mulher bélica", a impossibilidade amorosa tenciona os versos, jogando-os num campo de batalha: "Amor despedaçado!/ Nem a guerra doeria tanto... Os campos me são mais dóceis,/ com suas marchas imemoriais.../ Seria uma honra ter você em minha vida,/ mas antes de temer a morte, tememos sofre em paz."

Existem também deliciosos poemas quase panfletos, como "Apatrita" e "Maios", que discutem as grades que prendem as mulheres a valores para lá de superficiais. Mas a poeta grita, esperneia contra essa situação, em "Maios":

"Eu não sou uma vagabunda perdida/ Eu não saio, não fumo/ Sou uma recalcada santinha/ Mas não sou católica/ as prostitutas se parecem mais comigo/ do que as demais./ Eu não gasto um real em salão de beleza/ eu fico peluda/ não escolho as roupas que me deixam gostosinha para os homens/ meu cabelo é crespo e vai continuar/ lipoaspiração não é higiene/ eu não vou sofrer com agulhas, fome e academia./ Eu não vou me cortar/ não me filiarei a nenhuma religião machista ou de extorsão/ quem precisa de coleira apertada é cachorro doido, eu tenho ética./ Não vou posar de alternativa, suja e tribal./ eu não sou como vocês/ Eu não pago caro para construir uma aparência débil de conteúdo/ eu não escolho homem pelo carro, não quero ser admirada pela bunda/ não vou me tornar anoréxica, nem casar porque já estou na idade/ cansei de ser simpática por competição/ não sou marketing da sombra do que um dia quase fui/ não vivo para você/ não pintarei as unhas e frequentarei festas da moda/ não venderei minhas ideias por uma calça de marca/ pode me afogar, queimar e colidir meus valores, mas não mais pelos seus/ Não serei tão barata quanto você gostaria que eu fosse./ Tão fácil e tão domável/ permiti que você me manipulasse, descansei no sétimo dia./ Volte para seu vazio./ Eu te aniquilo."

Como diz o apresentador do livro, Adriano Menezes, na poesia de Michelle Campos, "entre a mordaça e o grito vence uma essência que transcende a busca intempestiva que nos bate forte no peito."

Essa essência é a poesia em si mesma, esse momento em que a humanidade grita por sua verdade, como nas palavras de Michelle Campos: "Devolva meu reflexo no espelho... Eu imploro!".


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 26/6/2012

Quem leu este, também leu esse(s):
01. O sublime Ballet de Londrina de Jardel Dias Cavalcanti
02. Eu matei Marina Abramovic (Conto) de Jardel Dias Cavalcanti
03. Um mês depois de Julio Daio Borges
04. A jornada do herói de Gian Danton
05. 'Um Conto Chinês' e o absurdo da vida de Carina Destempero


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2012
01. A origem da dança - 14/2/2012
02. A morte de Sardanapalo de Delacroix - 31/7/2012
03. Semana de 22 e Modernismo: um fracasso nacional - 6/3/2012
04. Roland Barthes e o prazer do texto - 21/8/2012
05. Ode à Mulher - 20/3/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



>>> Última Semana do Circo Dux em São Paulo
>>> Exposição 'Caretas de Casa Nova' prorrogada até 28 de junho no Museu do Pontal
>>> Espaço Público destaca a vida, luta e perseverança da escritora Conceição Evaristo
>>> Observatório da Imprensa recebe o cineasta Vicente Ferraz e o músico João Barone
>>> Centro de Artes UFF celebra Fernando Pessoa e o Centenário de lançamento da Revista Orpheu
>>> Fala Escritor recebe Grupo Ágape em grande estilo para lançar livro
* clique para encaminhar

José Olympio
Hedra
Editora Perspectiva
Editora Record
Nova Fronteira
Intrínseca
Bertrand Brasil
Globo Livros
Best Seller
Arquipélago Editorial
Cortez Editora
Primavera Editorial
Companhia das Letras
Editora Conteúdo
Civilização Brasileira
WMF Martins Fontes
LIVROS


APRESENTACAO DA POESIA BRASILEIRA
BANDEIRA, MANUEL

De R$ 75,00
Por R$ 37,50
50% off
+ frete grátis



O VERÃO E A CIDADE
CANDACE BUSHNELL

De R$ 39,90
Por R$ 19,95
50% off
+ frete grátis



O GIRASSOL NA VENTANIA
MARCO DE CURTIS

De R$ 34,00
Por R$ 17,00
50% off
+ frete grátis



EM DEFESA DO FAZ DE CONTA
SUSAN LINN

De R$ 38,00
Por R$ 19,00
50% off
+ frete grátis



E ENTÃO PAULETTE...
BARBARA CONSTANTINE

De R$ 24,90
Por R$ 12,45
50% off
+ frete grátis



O ANJO VAGABUNDO
LOMONT FILHO

De R$ 30,00
Por R$ 15,00
50% off
+ frete grátis



BANHO DE BICHO
ROSÂNGELA LIMA

De R$ 31,00
Por R$ 15,50
50% off
+ frete grátis



DO POVO PARA O POVO
ROGER OSBORNE

De R$ 60,00
Por R$ 30,00
50% off
+ frete grátis



ROLAND BARTHES
ÉRIC MARTY

De R$ 50,00
Por R$ 25,00
50% off
+ frete grátis



ADOÇÃO CONSENTIDA
DALVA AZEVEDO GUEIROS

De R$ 43,00
Por R$ 21,50
50% off
+ frete grátis



busca | avançada
58412 visitas/dia
1,3 milhão/mês