Michelle Campos e a poesia dentro do oco | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
33355 visitas/dia
846 mil/mês
Mais Recentes
>>> Venha conhecer o trabalho de Daniel Lie no Programa Arte- Papo da Fundação Ema Klabin
>>> Lançamento de Paulinas Editora convida crianças a conhecerem a vida de São Francisco
>>> Ana Salvagni e Eduardo Lobo apresentam 'Canção do Amor Distante' em Campinas
>>> Diálogos com um gênio da literatura mundial que marcaram toda a cultura ocidental
>>> 'Chet Baker, Apenas Um Sopro' com Paulo Miklos estreia dia 06/10 no CCBB/RJ
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Aqui sempre alguém morou
>>> Breve resenha sobre um livro hediondo
>>> Alice in Chains, por David De Sola
>>> Simpatia pelo Demônio, de Bernardo Carvalho
>>> Afinidade, maestria e demanda
>>> O Quixote de Will Eisner
>>> Era uma vez um inverno
>>> Caindo as fichas do machismo
>>> Uma livrada na cara
>>> YouTube, lá vou eu
Colunistas
Últimos Posts
>>> Diego Reeberg, do Catarse
>>> Ed Catmull por Jason Calacanis
>>> Lançamento e workshop em BH
>>> Reid Hoffman por Tim Ferriss
>>> Software Programs the World
>>> Daphne Koller do Coursera
>>> The Sharing Economy
>>> Kevin Kelly por Tim Ferriss
>>> Deepak Chopra Speaker Series
>>> Nick Denton sobre Peter Thiel
Últimos Posts
>>> Olhar perdido
>>> O que está acontecendo com elas ?
>>> Armaduras
>>> Etapas de uma pintura III (movie)
>>> Origâmis
>>> Eleições Municipais e o Efeito DunDum!
>>> Dente-de-leão
>>> MARINHA
>>> O que dizer depois da reunião de orientação
>>> Natureza do som
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O fim da revista Bravo!
>>> Parangolé: anti-obra de Hélio Oiticica
>>> Perfil
>>> Rubem Fonseca e a inocência literária perdida
>>> Ausência do mal?
>>> Bananalização
>>> Saint-John Perse: o oxigênio da profundeza
>>> Guimarães Rosa: linguagem como invenção
>>> A origem da dança
>>> 100 homens que mudaram a História do Mundo
Mais Recentes
>>> Educação, Teatro e Matemática Medievais
>>> Chá das cinco com Aristóteles e outros artigos
>>> Revolucione seu negócios
>>> O menino no espelho
>>> Factotum
>>> A condição judaica
>>> Radiônica e Radiestesia
>>> A vida na ponta dos pés
>>> Corinthians x Outros
>>> História da Música Brasileira
>>> Manual do candidato as eleições- Carta do bom administrador Público-Pensamentos Políticos
>>> Pesquisa operacional na tomada de decisões
>>> Deixados para Trás Teen - Vol. 2 - Segunda Chance
>>> Uma História De Trabalho E Superação - Votorantim 90 Anos
>>> Anjos e Demônios - A Primeira Aventura de Robert Langdon
>>> Dicionário de Nomes
>>> Memórias eróticas de Paris na Belle Epoque
>>> Ser Negro no Brasil Hoje
>>> Contos do dia a dia
>>> Direito de ser Feliz
>>> Só o Amor Consegue
>>> Giselle - A amante do inquisidor
>>> O Código da Vinci
>>> Os Homens que Não Amavam as Mulheres
>>> Primeiras Estórias
>>> Histórias e Conversas de Mulher
>>> De Moto Pela América Do Sul
>>> Humilhados E Ofendidos
>>> Memórias Perdidas
>>> Coraline
>>> A Revolução Dos Bichos
>>> Quase todos segredos de uma vida
>>> Lula É Minha Anta
>>> Moderna orientação de leitura e abordagem literária - Poesia e Prosa
>>> Direção de arte em propaganda
>>> Como Reconhecer a arte rococó
>>> E Por Falar Em Amor
>>> Chichapolitik - la prensa com Fujimori em las elecciones generales 2000 em el Perú
>>> Camilo Desconhecido (1918)
>>> Fazendo Meu Filme - Vol.1 - A Estreia de Fani
>>> O desencantamento da arte - a filosofia de Walter Benjamin
>>> A menina que roubava livros
>>> O Novo rádio
>>> Contos Fantásticos
>>> O diabo e a terra de Santa Cruz
>>> Operação Cavalo De Tróia 5
>>> A cabeça do Brasileiro
>>> A Lata - Solução de Futuro
>>> Economia para Leigos
>>> Acervo Nacional de Belas Artes
COLUNAS

Terça-feira, 26/6/2012
Michelle Campos e a poesia dentro do oco
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 2900 Acessos

A editora Scriptum, de Belo Horizonte, acaba de lançar o livro "O Oco da Porcelana", da poeta, artista plástica e ilustradora Michelle Campos. A edição é caprichosa, com uma bela capa e ilustrações internas da própria artista.

Há poemas de todos os tamanhos e tipos no livro: de versos livres a poemas em prosa, alguns com mais de 40 versos e outros com apenas um ou dois versos. O elemento principal do livro talvez seja o tom irônico que predomina sobre a revelação de sentimentos de amor, esperança, desilusões, incertezas etc. Há também a garganta solta, que critica a raison d´ être de nosso tempo vazio.

Umberto Eco define o pós-moderno como um Kunstwollen (um modo de operar) e não uma tendência que possa ser delimitada cronologicamente. Nesse sentido, a operação par excellence da arte de nossa época seria a ironia. Constitui-se como a maneira de se relacionar de forma não inocente com o presente, com nossos sentimentos, enfim, com nossa existência como um todo sem que se caia num sentimentalismo ingênuo e surrado, sem que se caia nos clichês para lá de repisados.

Com o pós-moderno, diz Umberto Eco, predomina a ironia, o jogo metalinguístico, a enunciação elevada ao quadrado. É possível até o leitor não entender o jogo e levar as coisas a sério, qualidade (e risco) da ironia. Mas para o autor uma coisa é séria, não se pode mais falar inocentemente de nada, nem do sentimento mais íntimo que nos corrói, pois uma autoconsciência de que tudo isso já foi dito nos obriga a criar o jogo da ironia como última possibilidade de dizer de verdade o que sente. A relação entre autor e leitor, então, é de que "ambos jogarão conscientemente e com prazer o jogo da ironia... Mas ambos terão conseguido mais uma vez falar de amor", diz Umberto Eco.

Pensando nos termos acima, não há melhor porta de entrada para o livro de Michelle Campos que o poema em prosa "Harakiri Mímico", onde a poeta interroga-se: "O que faço com meus suspiros? Guardo em uma bolsinha de cetim bordada de amargura?" Depois dessa dúvida, vem a enxurrada de interrogações sentimentais que terminam com a afirmação da razão da dor tão exclamada: "Eu devia estar feliz hoje, se naquele dia eu não tivesse te conhecido tão bem...". Do título ao jogo interrogativo, vê-se ao longo do poema uma encenação sem esperança do jogo do amor, tratado com ironia, única forma de poetizar sem pieguices as sentenças do desespero.

O título do livro, "O oco da porcelana", não pode ficar impune, afinal ele se casa perfeitamente com a foto da capa, onde aparece uma ruína de uma casa, onde apenas resta um cabide cor de rosa com uma roupinha de menina pendurada na parede. A palavra porcelana, em seu sentido rococó de brilho, sensibilidade, delicadeza, alinha-se ao rosa e à pureza do vestido infantil. Num jogo irônico a capa anuncia a inocência da infância como um projeto destinado ao fracasso, à ruína, revelando que por trás do charme da porcelana apenas o oco, o vazio, perdura. E é falar de dentro do oco que a poesia de Michelle Campos se propõe.

Parece haver um desencontro entre o poeta e o mundo. Embora essa frase já soe como um clichê, esse desentendimento é que cria a poesia que Schiller chamou de "sentimental". Michelle Campos não deixa de nos relembrar isso: "As palavras ainda me são mais fáceis. Que eu, você, espelhos, tudo". Da impossibilidade de comunicação brota muito de seus versos (característica de nosso mundo pós-moderno, com tantos celulares e internet e pouca comunicação real?). Assim ela diz, numa crueldade irônica: "Ele viu o espelho, ela viu o reflexo. E isso resume tudo".

O drama sentimental é sempre retomado, como ao traduzir a letra da música de Serge Gainsbourg, "Je t'aime, moi non plus", quando a poeta afirma, sem mais, nem menos: "Eu te amo,/ mas não mais". As dores da vida são ditas, linha por linha, numa coragem sem fim: "Hoje vesti o vestido lindo./ (...) Mas a tristeza... a tristeza em nós,/ de laços de fita, ovula uma sangria desatada".

Cura para a vida? Ironiza a poeta sobre suas possíveis saídas: "... e assim se deu minha cura (?)/ uma dose de verdade e um coração comprimido!". "Procuro todos os meus amigos e me abandono e em todos os copos ignoro meus deveres, visto elmo e armadura e lança na mão? ... Ou vou dormir insana, agoniada e masoquista e toco-me aflita." Como se não houvesse saída, apenas o poema pode existir, este que lemos.

Há vários poemas onde se retoma o tema sentimental da perda, da desilusão, do desencanto: "Loção pós-decepção", "Apatrita", "Samba", "Páginas em carne viva" etc. Em geral são exclamações de pequenas e grandes decepções que a vida gera, amores despedaçados, esperanças frustradas, dores repisadas, desesperos e o desejo de gritar contra tudo que atormenta, que fadiga, que faz doer.

Em "Mulher bélica", a impossibilidade amorosa tenciona os versos, jogando-os num campo de batalha: "Amor despedaçado!/ Nem a guerra doeria tanto... Os campos me são mais dóceis,/ com suas marchas imemoriais.../ Seria uma honra ter você em minha vida,/ mas antes de temer a morte, tememos sofre em paz."

Existem também deliciosos poemas quase panfletos, como "Apatrita" e "Maios", que discutem as grades que prendem as mulheres a valores para lá de superficiais. Mas a poeta grita, esperneia contra essa situação, em "Maios":

"Eu não sou uma vagabunda perdida/ Eu não saio, não fumo/ Sou uma recalcada santinha/ Mas não sou católica/ as prostitutas se parecem mais comigo/ do que as demais./ Eu não gasto um real em salão de beleza/ eu fico peluda/ não escolho as roupas que me deixam gostosinha para os homens/ meu cabelo é crespo e vai continuar/ lipoaspiração não é higiene/ eu não vou sofrer com agulhas, fome e academia./ Eu não vou me cortar/ não me filiarei a nenhuma religião machista ou de extorsão/ quem precisa de coleira apertada é cachorro doido, eu tenho ética./ Não vou posar de alternativa, suja e tribal./ eu não sou como vocês/ Eu não pago caro para construir uma aparência débil de conteúdo/ eu não escolho homem pelo carro, não quero ser admirada pela bunda/ não vou me tornar anoréxica, nem casar porque já estou na idade/ cansei de ser simpática por competição/ não sou marketing da sombra do que um dia quase fui/ não vivo para você/ não pintarei as unhas e frequentarei festas da moda/ não venderei minhas ideias por uma calça de marca/ pode me afogar, queimar e colidir meus valores, mas não mais pelos seus/ Não serei tão barata quanto você gostaria que eu fosse./ Tão fácil e tão domável/ permiti que você me manipulasse, descansei no sétimo dia./ Volte para seu vazio./ Eu te aniquilo."

Como diz o apresentador do livro, Adriano Menezes, na poesia de Michelle Campos, "entre a mordaça e o grito vence uma essência que transcende a busca intempestiva que nos bate forte no peito."

Essa essência é a poesia em si mesma, esse momento em que a humanidade grita por sua verdade, como nas palavras de Michelle Campos: "Devolva meu reflexo no espelho... Eu imploro!".


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 26/6/2012


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Super Campeões, trocas culturais de Brasil e Japão de Luís Fernando Amâncio
02. Caiu na rede, virou social de Fabio Gomes
03. O bosque das almas infratoras de Elisa Andrade Buzzo
04. Noturno para os notívagos de Ana Elisa Ribeiro
05. Ação Social de Ricardo de Mattos


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2012
01. A morte de Sardanapalo de Delacroix - 31/7/2012
02. Roland Barthes e o prazer do texto - 21/8/2012
03. Semana de 22 e Modernismo: um fracasso nacional - 6/3/2012
04. A origem da dança - 14/2/2012
05. Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte II) - 31/1/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O LEÃO FERIDO (LACRADO)
MIA SHERIDAN
ARQUEIRO
(2016)



AS LEIS DE ALLIE FINKLE PARA MENINAS, V. 2 - A GAROTA NOVA (LACRADO)
MEG CABOT
GALERA RECORD
(2016)



RUMO ÀS ESTRELAS- A VERDADE ARRANCADA DA FACE DO MUNDO PELA HIPOCRISIA DOS SÉCULOS
H. DENNIS BRADLEY( TRADUÇÃO DE MONTEIRO LOBATO)
LAKE
(1999)
+ frete grátis



NOVA GRAMÁTICA SEM SEGREDOS - TUDO SOBRE NUMERAL, PRONOME, ADVÉRBIO
LORENA MENÓN
ESCALA EDUCACIONAL
(2007)
+ frete grátis



FAMA: UM ROMANCE EM NOVE HISTÓRIAS
DANIEL KEHLMANN
COMPANHIA DAS LETRAS
(2011)
+ frete grátis



EDUCAÇÃO, TEATRO E MATEMÁTICA MEDIEVAIS
LUIZ JEAN LAUAND
ELOS
(1986)
+ frete grátis



O MATRIMÔNIO DO CÉU E DO INFERNO- O LIVRO DE THEL (BILINGUE)
WILLIAM BLAKE
ILUMINURAS
(1987)
+ frete grátis



ALCASSINO E NICOLETA - AUTOR ANÔNIMO MEDIEVAL
AUTOR ANÔNIMO MEDIEVAL
FRANCISCO ALVES
(1989)
+ frete grátis



AS REVISTAS DE ANO E A INVENÇÃO DO RIO DE JANEIRO
FLORA SÜSSEKIND
NOVA FRONTEIRA
(1986)
+ frete grátis



ENIGMA PARA DEMÔNIOS
PATRICK QUENTIN
FRANCISCO ALVES
(1997)
+ frete grátis





busca | avançada
33355 visitas/dia
846 mil/mês