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Quinta-feira, 30/8/2012
Rememórias e túmulos multimídia
Carla Ceres

+ de 1100 Acessos

Já se tornou tradição o mês de agosto levar meus familiares para um passeio sem volta. O último a partir foi um tio muito querido, noivo aos setenta e dois anos, preparando-se para o terceiro casamento. A despeito de seu pouco apreço pela fidelidade conjugal, falha que tantas tristezas causou às ex-esposas, a família já ensaia uma tentativa de dourar sua memória.

Por coincidência, soube de sua morte logo após rever The Final Cut, filme de 2004, que saiu no Brasil como Violação de Privacidade e, em Portugal, como Final Cut – A Última Memória. Para evitar confusão, usarei, daqui pra frente, o título original.

The Final Cut é um filme de ficção-científica mais voltado para o drama e a reflexão do que para extravagâncias tecnológicas. A história se passa em um futuro próximo, quando os pais com condições financeiras podem contratar os serviços da empresa Eye Tech, a qual colocará um implante Zoe em seus filhos, logo após o nascimento. Esse implante gravará todas as experiências do indivíduo até sua morte. A seguir, a Eye Tech entregará as imagens a um editor para que as transforme em um vídeo com os melhores momentos do falecido e o apresente em sua cerimônia fúnebre. Essas versões resumidas e idealizadas de uma vida inteira são conhecidas como rememórias. Suas exibições constituem-se num grande acontecimento social.

The Final Cut conta a história do editor de rememórias Alan Hakman (Robin Williams), a quem sua namorada Delila (Mira Sorvino) define como “um agente funerário, ou um padre, ou um taxidermista, todos juntos”. A palavra “editor” não define bem a parte mais importante do trabalho de Hakman. Sim, ele faz montagens de vídeos, mas o nome de sua profissão, em inglês, é “cutter”, “cortador”. Sua excelência profissional consiste em ter estômago para assistir a cenas revoltantes e cortá-las da rememória sem cair na tentação de revelar verdades inconvenientes sobre os mortos. A propósito, sua “ilha de edição”, uma aparelhagem futurista com aspecto antiquado, chama-se “guilhotina”.

Em termos de arquitetura, visual dos personagens e decoração, o filme parece uma reinvenção sombria do final da primeira metade do século XX. As exceções ficam por conta de poucos elementos, como os túmulos multimídia e as tatuagens em alto-relevo que os jovens usam para bloquear os implantes Zoe e impedi-los de gravar suas vidas.

Dois anos após o lançamento de The Final Cut, um projeto de túmulo multimídia foi patenteado nos Estados Unidos. De acordo com seu inventor, as pessoas poderiam gravar vídeos dizendo “tudo o que não tiveram oportunidade ou coragem de dizer em vida”, para quem visitasse suas sepulturas. Os cemitérios se transformariam em parques da memória, pelos quais os visitantes passeariam com fones de ouvido.

A ideia soa mais estranha para nós brasileiros do que deve parecer nos Estados Unidos, país afeito a parques temáticos e a elogios fúnebres que misturam melancolia com uma certa dose de humor. Tudo bem, cada povo tem sua maneira de lidar com a morte. Nós “bebemos o defunto”, jogamos baralho e contamos piadas com parentes e amigos, durante o velório. É o nosso jeito de contornar a tristeza. Depois os parentes brigam pela herança ou pagam as dívidas e assim se encerra a parte financeira do luto. Falta-nos o tino comercial de transformar morte em espetáculo.

No universo criado por Omar Naim, diretor e roteirista de The Final Cut, uma em cada vinte pessoas possui um implante Zoe e só será informada desse fato quando completar vinte e um anos. Aí poderá decidir o que fazer a respeito. Quem não gostar da surpresa pode fazer uma tatuagem que impeça futuras gravações. Pode também juntar-se a um dos grupos anti-implante que combatem a Eye Tech com base em argumentos do tipo: “Não há como medir o profundo efeito que o implante Zoe teve na forma como as pessoas se relacionam. Eu estou sendo filmado? Devo dizer isso ou aquilo? O que vão achar daqui trinta anos se eu fizer isso ou aquilo? E quanto ao simples direito de não ser fotografado? O direito de não aparecer na lembrança de um cara sem sequer saber que estava sendo filmado?”

Quando um advogado canalha da Eye Tech morre e a viúva contrata Hakman para editar sua rememória, ativistas anti-implante pressionam o editor para que lhes entregue imagens incriminadoras. O desfecho torna-se previsível a partir de um certo ponto, mas o filme faz jus ao prêmio de melhor roteiro no Deauville Film Festival. A crítica especializada não chegou a um acordo sobre seu valor, porém o simples fato de The Final Cut levantar discussões sobre privacidade que somente viriam à tona com o fenômeno Facebook já atesta sua relevância.

Nota do Editor
Carla Ceres mantém o blog Algo além dos Livros. http://carlaceres.blogspot.com/


Carla Ceres
Piracicaba, 30/8/2012

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