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Quarta-feira, 12/9/2012
Tarantino, Quentin
Humberto Pereira da Silva

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O cinema americano traz imediatamente à mente a ideia de cinema comercial e Hollywood a Meca de filmes produzidos como qualquer mercadoria posta no mercado. Por conseguinte, filmes americanos, mais que de qualquer outro país, são concebidos como produtos da indústria cultural. Ocorre que esse lugar comum, ainda que verdadeiro, não dá conta de um contra exemplo como o diretor Quentin Tarantino. Seus filmes satisfazem a exigências da indústria, mas, igualmente, são produzidos com uma liberdade criativa que encontra poucos paralelos nas últimas décadas.

Tarantino, portanto, desperta curiosidade. Como ele consegue usar as engrenagens da indústria e, ao mesmo tempo, se impor com um tipo de cinema autoral que faz o próximo Tarantino ser aguardado na mesma medida que um Blockbuster? Para apreciadores e curiosos pelo seu cinema, está à disposição "Quentin Tarantino" (Ed. LeYa, 384 pág.), organizado por Paul Woods, que lançou pela mesma editora "O estranho mundo de Tim Burton".

O livro de Woods recolhe textos originalmente publicados à época do lançamento de seus filmes; portanto, sua recepção crítica no calor da hora. Com isso, se oferece ao leitor caminhos para se entender o impacto de sua filmografia e, na mesma medida, como se forjou a imagem de um diretor cujo filme seguinte está sempre envolto em segredos e expectativas: só para lembrar, dele aguarda-se "Django Livre" (no Brasil, lançamento previsto para 18 de janeiro de 2013). O livro inclui também depoimentos dele próprio e de vários jornalistas que desnudam momentos de sua vida pessoal, suas influências e o que o motivou a conceber cenas que se tornaram emblemáticas à sua maneira de filmar.

Vale acentuar que se trata de um livro que realça, na mesma proporção, a desconstrução de lendas que cercam sua carreira e a construção da imagem de diretor fetiche da cultura pop. Assim, mostra-se que não é bem verdadeira a história de que sua cultura cinematográfica resume-se ao tempo em que trabalhava como balconista na Vídeo Archives. Mostra-se igualmente que é falsa a lenda de que ele saiu da locadora e, da noite para o dia, fez "Cães de Aluguel", ascendeu ao estrelato e tornou-se referência para a cultura pop e o cinema pós-moderno.

Depoimentos do próprio Tarantino - e de pessoas ligadas a ele - esclarecem que antes de "Cães de Aluguel" (1992) ele já estava ligado ao cinema. Sua intenção inicial era se tornar ator. É assim que ele desponta na série "Super Gatas" em meados dos anos 80, como imitador de Elvis Presley. Concomitante ao trabalho na Vídeo Archives, ele escrevia roteiros, como o de "Amor à Queima Roupa", e não media esforços para obter dinheiro o suficiente para dirigi-los. No entanto, suas tentativas de dirigir seu próprio filme não foram bem sucedidas: os direitos de "Amor à Queima Roupa" foram vendidos por uma bagatela e, lançado em 1993, acabou sendo dirigido por Tony Scott.

No livro é interessante notar, então, não só o universo no qual Tarantino circulava como as dificuldades que encontrou para conseguir dinheiro e finalmente dirigir "Cães de Aluguel". Além de "Amor à Queima Roupa", ele escreveu e vendeu os direitos dos roteiros de "Assassinos por Natureza" (1994), que acabou dirigido por Oliver Stone, e "Um Drink no Inferno" (1996), dirigido por Robert Rodriguez. "Cães de Aluguel" não teve a mesma sorte destes porque surgiu em seu caminho o ator Harvey Keitel, Tarantino já tinha um nome razoavelmente conhecido pela participação nas "Super Gatas" e dinheiro obtido com a venda de seus roteiros.

"Cães de Aluguel" catapultou imediatamente o nome de Tarantino ao cenário internacional. Exibido no Festival de Cinema Independente de Sundance, foi eleito o melhor filme independente de todos os tempos pela revista Empire. O que se tem a partir de então é o caminho que Tarantino tomou para absorver a recepção de seu filme de estreia, impor condições para realização de seus filmes seguintes e, principalmente, alimentar a aura de enfant gâté do cinema americano. Nesse sentido, o livro traz elementos para se apreender que ele forjou uma imagem que não dissocia seu nome e seus filmes, ou seja, há uma marca, uma etiqueta que garante a publicização de seu filme seguinte.

Segue-se com isso a facilidade com que Tarantino pessoalmente se envolve nos aspectos mais comezinhos da produção de um filme. De um lado, ele é dotado de uma sensibilidade rara para captar os anseios de um público que o toma por ícone: após "Jackie Brown" (1997), muitos achavam que sua verve havia espirado, mas "Kill Bill" (2004), realizado sete anos depois, selou as desconfianças. De outra parte, não se pode perder de vista que numa atividade tão segmentada como a indústria do cinema, ele destaca-se como diretor, roteirista, produtor e ator.

A habilidade para circular nos diversos níveis da indústria é em grande parte a razão pela qual Tarantino consegue realizar filmes com sua etiqueta. Ele controla aspectos como publicização e distribuição sem se submeter a caprichos meramente mercadológicos. Essa habilidade, quando se pensa em cinema independente, é rara. Dos diretores consagrados do cinema americano, Woody Allen é outra referência que transita em diversos níveis da indústria. Mas, convenhamos, o orçamento de seus filmes é menor que os de Tarantino e seu projeto de cinema menos arriscado. Enquanto Tarantino se renova, Allen praticamente repete a formula dos filmes anteriores.

"Quentin Tarantino" de Paul Woods, com isso, deve ser lido com atenção à cozinha, ou bastidores, e não à análise ou interpretação da obra. Os artigos e depoimentos do livro mostram um personagem da cultura pop. Um leitor ávido pela análise de filmes como "Pulp Fiction" (1994) ou "Bastardos Inglórios" (2009) se decepcionará. Mesmo quando o livro trata das diversas influências, referências e homenagens nos filmes de Tarantino, isso não vai além do que é amplamente divulgado e forma uma cultura comum sobre o seu cinema.

Deve-se ter em mente, contudo, que a atenção à cozinha não implica em futilidades ou picuinhas. A leitura do livro de Woods oferece dados importantes para se entender como um jovem cinéfilo se impôs num universo tão seletivo como a indústria de cinema. Por si só, esta seria uma boa razão para lê-lo, mas há outra que considero mais relevante: Tarantino será lembrado em grande parte porque impôs seu estilo num espaço cultural em que teve liberdade para fazer filmes sem sofrer grandes coerções.

Na trajetória de Tarantino, portanto, uma grande dose de loteria, mas o lugar que ocupa resulta de determinação e ousadia. Em debate recente entre diretores, produtores e distribuidores publicado pela Revista de Cinema , Fernando Meirelles, depois do fracasso comercial de "Xingu", que ele produziu, abandonou o projeto de "Grande sertão: veredas" com o argumento de que não terá público. "Quentin Tarantino" de Woods talvez nos ensine a pensar, na mesma medida, nas diferenças de temperamento cultural entre Brasil e Estados Unidos e nas razões por que Tarantino é cultuado, enquanto Meirelles é servil aos imperativos da indústria.


Humberto Pereira da Silva
São Paulo, 12/9/2012

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