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Quinta-feira, 13/9/2012
O lilás da avenida sou eu
Elisa Andrade Buzzo

+ de 900 Acessos


ilustra: Renato Lima

Meu bem-querer se distancia de mim na avenida. Lilases lindos preenchem os vãos dos prédios e se desprendem dos luminosos dos bancos — ainda assim, nesta cidade cinza, a noite é colorida. E ela nada mais é do que a confusão de uma revoada que se prepara para o amanhecer. Preencho meu tempo aguardando no ponto de parada imiscuindo-me da paisagem paulistana num início de noite invernal, "todo me envolvo no lilás da noite", bem dizia o poeta Sosígenes Costa.

Apego-me a imagens tão ralas, diáfanas, a fios, inúmeros, frágeis e elásticos. Fios brancos e pretos constituem o emaranhado das ilusões, o intrincado das horas. Mas não é verdade que nesta avenida os fios estão debaixo da terra? e, mesmo assim, sei que estes fios retornarão, assim como hoje eles se mantêm subterrâneos, sorrateiramente, despontando sua cabeça insaciável, envolvendo o corpo. Os faróis dos autos, cegantes, luzes teatrais dançando na fúria do tráfego, uma mulher que vende balas sentada no ponto de ônibus com sua carriola decrépita e sombras circulando como que indistintas na meia-luz citadina.

As copas das árvores da pequenina floresta às minhas costas se desenha verde-escura, ensombreada pela má iluminação dos postes de lâmpadas brancas de vapor metálico, de um orelhão brota uma imensa flor rosa e lilás, fantástica, embebida por raro luar incandescente. Em vez de ruídos de mato, tresloucada noite me traz solfejos de trânsito. Possa ela guarnecer o ar de gases hilariantes, sensações desanuviantes.

Sobre tal ensejo, uma maré espessa, enevoada, se sobrepõe aos pensamentos de gente que trabalhou o dia todo e agora está neste breve interstício de vida, em que duas pontas pendem suspensas: o mundo público e o mundo privado. Trabalho e casa, casa e trabalho, o cotidiano, muitas vezes massacrante, tem como alívio, trégua, o leve trânsito de carros, ônibus e pedestres, confusão de pernas, esbarrões, cerveja, mesas nas calçadas, fumaça de cigarro.

Momento tardio em que podemos fazer tudo aquilo que queremos antes de — ir para casa, recomeçar, ser o que nos é instituído, ganhar o pão amassado. E diante dessa brevidade de liberdade, as pessoas caminham, umas aturdidas, outras gargalhando, de modo que não sabem o que fazer com esta dádiva momentânea que o capitalismo lhes impõe. Querem algo diferente e excitante e esta decisão deve ter algo de alucinada para alguns, premedita para outros, na rapidez do caminho até sua casa.

Então, naquele quarteirão que a avenida compreende, os seres de liberdade restringida caminham ao lado de grupos de skatistas e patinadores. Passam rasteiras aos pedestres pequenas rodas ruidosas estalando no chão, senhoras das calçadas. Aceitam sua recente soberania os passantes, entre a admiração e o sentimento de inutilidade e incômodo da repetição de suas manobras, nos bancos e canteiros de flores.

E esse mundo azul, lilás e sombreado da avenida reformada bem é aquele de Fantasia 2000, ao som da "Rhapsody in Blue". Distintas cidades, variadas épocas, no entanto, lá estão as calçadas novamente mal-iluminadas a despeito da pista fulgurante, a vida eternamente passageira e noturna, em compasso de espera. E, como suas personagens insatisfeitas, mas sonhadoras, estes paulistanos, nos poucos minutos que lhes restam, riscam seus fios no ringue da escuridão, patinam enfim, livres, leves e lilases.


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 13/9/2012

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