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Quinta-feira, 18/4/2013
Era Meu Esse Rosto
Eugenia Zerbini

+ de 4100 Acessos

Era meu esse rosto (RJ, Record, 2012, 205 ps.) é o quarto romance de Marcia Tiburi. E um grande romance. Romance tomado como gênero literário, não uma história de amor (os autores mais jovens parecem constrangidos ao assumir que escrevem romances; preferem referir-se a suas obras genericamente, como obras de ficção). Escrito, segundo a autora, entre 1998 e 2011, por ela é considerado como aquele que cristaliza seu maior e melhor afeto.

A linguagem é primorosa, lírica e arrebatadora. Um convite à experiência da leitura em voz alta. Não muito alto, contudo, considerando várias confissões e muitos segredos que são contados no correr das páginas. O relato é por vezes tão sutil que à página só cabe ser virada por meio de um sopro, não com a concretude da mão.

"O mundo é feito de espaço. Nele jaz, inerte, uma pena. Enigma jocoso da pluma contra o chumbo do mundo. À esquerda, pela vidraça da janela está minha tia em seus eternos trinta anos. Dá de comer às divindades do quintal, põe-me grãos à mão e a cabeça de um pintinho a piar-me na boca dizendo-me fala-fala, ou é à boca de uma de minhas irmãs? Não sei".

É uma história de família, em que, sem tender para o realismo mágico, há personagens (ou a lembrança deles) que morrem mais de uma vez. Outro, mesmo morto, vaga pela casa. Esta última, por si só, é um personagem forte em toda a intriga. Tiburi não dá nome aos personagens, tratando-os como avó, avô, tia, tio, irmãs... Há um único nome, talvez a origem de tudo. A ausência de nomes estende-se às cidades em que a trama se desenvolve. Parte do enredo passa-se em V., cidade do Rio Grande do Sul, parte em outra cidade também chamada apenas por V. A falta de nomes confere tintas de arquétipo a cada um dos personagens e os ares de mito à geografia da ação.

Bastam, porém, algumas referências a um dos Vs. para que se identifique Veneza. Com isso, percebe-se que o narrador sai de V (possivelmente a gaucha Vacaria, cidade natal da autora) e volta para o V de La Sereníssima. A partir dessa decifração, domina o leitor o desejo de retornar ao início, em busca de outras chaves, adotando uma leitura mais atenta, contornando o deslumbramento despertado pela linguagem poética.

"Quando me dou conta o monstro está todo à minha frente. Moby Dick é a cidade. Emerge das águas disponível como uma prostitua desde que se possa pagar bem, ou é a maçã de feira que com um pouco de esperteza se pode roubar. Afundo na neblina a clarear a noite e vejo apenas o imenso cadáver que flutua, sobre o qual gôndolas flutuam com cadáveres sobre os quais flutuam cadáveres sobre gôndolas"...

Isso faz com que Era meu esse rosto não seja de leitura fácil. Seu texto é fragmentado e intercalado, podendo parecer um quebra cabeça para o leitor que almeja simplesmente uma boa leitura. Para outro perfil de leitor, aquele mais dedicado e que sabe como conquistar o texto, caberá um sorriso no final.

Como o verbo amar, na versão de Mario de Andrade, ler deveria perfilar-se junto aos verbos intransitivos, atividade individual e intransferível que é. Tendo em conta essa magia que se cria entre o leitor e o livro, há uma única restrição à belíssima obra recém lançada por Marcia Tiburi: o texto de apresentação, assinado por Regina Zilberman, professora da PUCRS e da UFRGS. A grandeza da obra de ficção independe da voz da autoridade, por mais prestigiosa que pareça. O recurso ao discurso competente é uma confirmação (ou será tique?) a que recorrem os acadêmicos nos rodapés e citações de seus trabalhos.

Como ótimo romance que é, esse quarto trabalho de ficção publicado pela autora (que também desenvolve carreira universitária de sucesso) mantém-se de pé por si mesmo, dispensando o selo de qualidade da Academia. Era meu esse rosto não precisa de muletas para cumprir seu caminho. Concluindo, a onírica fotografia da capa do livro merece aplauso, dando pistas para o conteúdo da obra. Conforme a autora, trata-se de fotografia de autoria de Luiz Eduardo Achutti, seu ex-professor. Curioso e inocente, um garotinho procura sua face refletida na água agitada que tem a seus pés.

Publicado em meados do ano passado, Era meu esse rosto é uma das apostas seguras na grande corrida dos prêmios de 2013.


Eugenia Zerbini
São Paulo, 18/4/2013


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