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Segunda-feira, 8/7/2013
Da Tolerância Religiosa
Ricardo de Mattos

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"Existe uma coisa que nos falta! Não sei por que nome a possa chamar - mas não podemos encontrá-la furando as entranhas uns dos outros" (Georg Büchner).

Durante os anos de nossa graduação em Psicologia, verificamos a drástica redução do número de nossos colegas. Fatores que vão do financeiro - sempre! - à frustração de expectativas fizeram que a classe fosse reduzida de quarenta para pouco mais de quinze alunos. Perdida a ilusão do senso comum, de que o psicólogo deve apenas "compreender a pessoa e suas angústias", as exigências do curso foram demasiadas para alguns. Formar a chamada "visão do humano", ouvir o dito, captar o não dito, treinar o olhar, investigar e recorrer ao embasamento teórico escolhido - principalmente recorrer ao embasamento teórico disponível além do Google acadêmico - não tem a simplicidade que muitos gostariam.

Normas acadêmicas embasadas na legislação federal exigiram de todos nós o cumprimento de pesadíssima carga horária. Parte desta carga é cumprida na clínica universitária, com o atendimento de pessoas impossibilitadas de custear a terapia particular. A sessão deve ser realizada por uma dupla de alunos. Após alguns contratempos e muitos aborrecimentos com colegas que passaram pelo curso sem perceber a importância da Psicologia para a vida humana, fechamos a parceria com nosso colega Marcos. A princípio, o fato é curricular e neutro: são dois homens maduros, cientes da importância do curso que finalizam e dispostos a praticar o que até então limitava-se aos livros. Um caiu de amores pela Logoterapia e o outro cultiva barba freudiana. Todavia, o tempero circunstancial é o seguinte: um é pastor evangélico e o outro espírita.

"Isto é possível", pode-se observar, "porque o setting terapêutico não é local que se avente questões religiosas". De fato, não. Vemos que a questão espiritual vem ganhando corpo e consistência no campo da saúde. As pesquisas são realizadas de forma a abranger tanto o crente quanto o ateu, o que garante a não-vinculação religiosa e deturpações decorrentes - como, ademais, anelava Viktor Frankl. Aprendemos a discuti-las com o cliente apenas si a questão for diretamente posta. Propô-la, apenas com o intuito de cuidado integral. O que queremos destacar, contudo, é que dois indivíduos de orientações diversas - mas não distintas, pois ambos somos cristãos - podem e conseguem trabalhar juntos quando um bem maior se apresenta. Citamos como exemplo, também, o próprio Digestivo Cultural, querido balaio de gatos composto por pessoas de diversas e distintas orientações, mas que se respeitam em nome do trabalho com a cultura em sentido estrito.

Cada indivíduo é um ente provido da liberdade de decidir e da liberdade de agir consoante sua decisão. Esta liberdade de decidir e de agir pode realizar-se em plano e nível existenciais que parecem fantasiosos mesmo aos mais fanáticos libertários. O ser e sua liberdade encontram limites no outro e no mundo natural, limites que não são mera castração do indivíduo, mas oportunidades de definir o "eu" e o "não eu". Cada decisão é acompanhada de sua carga de possíveis consequências e novos rumos. Cada decisão é marcada pela transitoriedade, ainda que pareça duradoura quando observada de perspectiva temporal restrita. Quer-nos parecer que cada decisão não define o preto ou o branco, mas o início do processo leva do cinza a um ou outro.

Não é diferente no que se refere à transcendência. Conforme nossa visão de Deus, do homem e do mundo - e conforme nossa disposição de levar adiante nossas perquirições - fazemos opção entre crer ou não crer. Entre reconhecer ou não no ser humano uma dimensão maior que a material, determinada pelo ambiente e pela carga genética. Entre admitir ou não um sentido para o indivíduo e para a sociedade. A opção por crer leva a outros posicionamentos concernentes à forma e à intensidade com que isto se dará. Será criado vínculo com alguma instituição formal? Com qual delas? Este vínculo se dará por meio da contemplação ou do trabalho ativo, como a exemplo da divulgação? O indivíduo está disposto a dedicar sua vida à questão, ou reservará parcela de seu tempo? Suas opções restringirão ou ampliarão sua atuação social?

A religião, apesar de institucionalizada, desvirtuada de sua função original e desfigurada pelo homem - que por meio dela defendeu os mais escusos interesses - ainda é a primeira referência para o desenvolvimento espiritual. Entendemos que existam outras vias, com a arte, a filosofia e o trabalho voluntário, mas o primeiro lugar ainda é o religioso. E a religião, além do culto e da liturgia, é também uma forma de conhecimento, de compreensão do mundo. Pensamos nos inquisidores entronizados assistindo à queima de hereges anteriormente torturados. Pensamos nos cavaleiros medievos dirigindo-se para Jerusalém. Pensamos nos aviões de onze de setembro. Pensamos no Feliciano... Poucas vezes tivemos tantas oportunidades de ampliar nossa consciência a respeito do segundo mandamento mosaico: "Não tomarás Seu Santo Nome em vão". Qualquer pessoa que invoca a Deus para cometer a menor violência que seja contra seu irmão, toma em vão Seu Santo Nome. O obscurecimento de nossa visão, causado por todos estes desvios, faz-nos esquecer da mãe que agradece a Deus pelo filho; dos familiares que oram por aquele que se encontra hospitalizado; da pessoa que não mais suporta um vício, decide-se pela cura e seu primeiro gesto é um pedido ao Criador.

Todos nós fomos criados diretamente por Deus e encaminhados para esta jornada de evolução moral e intelectual. Isto não depende de crença ou Fé. O indivíduo poderá saber de cor as obras de Richard Dawkins e Christopher Hitchens. Poderá alegar que "o que é moral para você pode não ser para mim". Poderá preparar-se para o descanso eterno e não aceitar contradita. Não adianta: tem origem divina e está sujeito às leis da Natureza, entre as quais a da reencarnação. Portanto, nossa origem divina é razão suficiente para que cuidemos do outro como desejamos ser nós mesmos cuidados. E porque o outro vivencia momentos da alma que nós mesmos já vivenciamos um dia, ou haveremos de vivenciar, é que deveremos ter todo respeito possível por seu posicionamento quanto à transcendência. Quem ainda não quiser dar conotação espiritual a este imperativo, poderá encará-lo a partir de seu aspecto laico, entendendo o direito à livre consciência como um dos chamados "direitos humanos". Por "direitos humanos" podemos entender aqueles que todo indivíduo é portador tão somente por pertencer à espécie humana.

Evidentemente isto é o ideal, mas não o real neste mundo de provas e expiações. Olhando à volta, vemos o sectarismo e a perseguição mesmo entre pessoas que se dizem do mesmo credo, justamente quando deveriam ser irmanadas pela profissão comum de fé. Vemos casas da mesma denominação competindo financeiramente entre si, verdadeiras empresas do sagrado. Vemos "religiosos" insistindo em anátemas, excomunhões, esconjuros e pragas, contidos apenas pela lei civil. Entendemos haver uma escala crescente que vai da tolerância ao Amor, passando pela aceitação. Percebemos, porém, que mesmo o primeiro degrau ainda é difícil de transpor.

Dito popular presente em nossa família diz o seguinte: "Quem tem telhado de vidro não atira pedras na casa do vizinho". Ele pode revidar e atingir-nos naquilo que temos de mais frágil. De qualquer forma, estas reflexões acentuaram-se a partir da repercussão da entrevista de Silas Malafaia, bem como da desastrosa atuação de Marcos Feliciano perante a Comissão de Direitos Humanos. Afirmações de ambos soaram como preconceituosas para milhares, mas pareceram perfeitamente coerentes para outros milhares. Nossa preocupação são os resultados de eventual choque. Resultado para pessoas e para a questão da transcendência. Não são tais falas e atitudes que estimularão o homem a procurar algo além e acima de si.

Há no prefácio ao mais recente ensaio biográfico de Descartes, Os ossos de Descartes - A História do esqueleto por trás do conflito entre a fé e a razão, uma citação do sacerdote anglicano Colin Slee que, de certa forma, homologa o que escrevemos alhures: "Existe um triângulo, com fundamentalistas laicos em um canto, fundamentalistas religiosos em outro e os pensadores liberais inteligentes do anglicanismo, do catolicismo romano, batistas, metodistas e de outros credos - e até mesmo pensadores ateus - no terceiro". Mencionamo-la por três razões: (1) por resumir uma situação que nos parece evidente; (2) por mostrar que é possível o diálogo, visto que valores mudam a apresentação, mas conservam a essência; (3) como alerta, pois há os que dizem besteiras, mas há os que trabalham pelo bem comum, indo além dos rótulos.

Em entrevista à National Geographic de maio de 2013, o Dalai Lama defende o cultivo da paz interior mediante ensinamentos transmitidos mais pela educação que pela religião, reconhecendo "que ela é universal. Já a religião nunca poderá ser". Este pensamento encontra coerência com o exposto no livro O caminho para a iluminação. É um curioso livro em que o atual Dalai Lama - o 14.º na linha de sucessão e encarnação, conforme entendem os budistas - comenta outro texto que teria escrito em sua terceira encarnação, intitulado Essência do ouro purificado. Comentando seu texto, o 14.º Dalai Lama expõe: "As diferenças são apenas ornamentos colocados sobre a trama para deleitar praticantes com necessidades específicas. (...) 'Cada lama é a sua própria seita'. A diversidade é tanto linda quanto necessária".

Queremos continuar com esse encadeamento de ideias. Na vigorosa biografia de Schopenhauer escrita por Rüdiger Safranski, é citado o pregador e professor alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834). Ele teria afirmado que "não tem religião aquele que acredita em santas escrituras, mas aquele que não necessita delas e pode construir uma inteiramente por si mesmo". Embora seja um extrato, pode ligar-se ao pensamento do Dalai Lama e levar-nos a três conclusões: (1) que, si a jornada espiritual tem a mesma meta evolutiva, o caminho é exclusivo de cada espírito, o qual pode desenvolver-se de tal modo que pareça abrir uma nova estrada; (2) que cada caminho sendo exclusivo, dois espíritos podem caminhar em paralelo, mas nunca com sobreposição; (3) que os textos genericamente denominados "escrituras", sejam eles quais forem, são pontos de partida, não fins em si. Paulo de Tarso lembrou que a letra mata, mas o espírito vivifica. Cremos que a religiosidade - e depois, mais amplamente, a espiritualidade - se consuma quando a pessoa absorve de tal forma o espírito de um texto que sua vida passa a se dele o reflexo e desenvolvimento. Passa a ser o desdobramento, o meio de aplicação prática e casuística daquilo que absorveu. Aqui reencontramos uma Upanishad, um texto védico lido anos atrás, mas agora melhor compreendido:

"Tendo lido todos os livros,
"E tendo estudado a todos, mais e mais,
"O Sábio os deixa de lado (...)
"Como se abandona uma tocha
"Quando chega a luz".


Ricardo de Mattos
Taubaté, 8/7/2013


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