Cognição Estética contra o Logos (Parte I) | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 25/2/2014
Cognição Estética contra o Logos (Parte I)
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 1900 Acessos

Uma bomba lançada contra o logos. Os estilhaços da razão podem voar por toda parte. A editora Annablume publicou ano passado o livro Cognição estética: o complexo de Dante, de Marcos H. Camargo. Um projeto ambicioso, que pretende desmontar a ideia da superioridade da experiência intelectual sobre a experiência estética. São 300 páginas de reflexão contundente, radical, questionando o logocentrismo, que como sabemos, dominou os saberes da ciência, da filosofia, das artes e é preponderante na organização da vida humana dentro da organização dada pelos Estados. Ao "penso, logo existo" cartesiano, Camargo oporá "vejo, logo existo".

Cognição estética: o complexo de Dante é dividido em três partes, formadas por seis capítulos. Na primeira parte, Camargo traça o histórico do surgimento da lógica, sua relação com a constituição da supervalorização da linguagem escrita em contraponto à cultura visual. Na segunda parte, descreve o advento das mídias audiovisuais, inicialmente classificadas como lixo sensorial, e ressalta como a presença maciça das imagens no mundo contemporâneo nos faz rever o conceito de cognição, anteriormente ligado à escrita e que agora busca incorporar à nossa vida cognitiva os valores da imagem. Finalmente, na parte final do livro, discute-se o lugar que o estético passa a ter na experiência cognitiva, chamada pelo autor de "cognição estética". Vale desde já dizer que o livro não propõe a anulação do pensamento racional, lógico, mas aposta na complementação dos saberes estético e lógico, avançando na defesa da parte negligenciada, a da cognição estética.

Como compreender que a sociedade moderna, colocada sob o signo da civilização da imagem, conceda tão pouco espaço ao ensino de artes plásticas? Essa questão é colocada por Marc Jimenez em seu livro O que é estética? A resposta é que, apesar de vivermos mergulhados num mundo de imagens, acreditamos que essas imagens são apenas "lixo sensorial" e não espaço da cognição, como afirma Marcos Camargo. Não acreditamos que a imagem seja tão eficiente em nosso entendimento do mundo quanto o saber intelectual acumulado pelas ciências. O autor de Cognição Estética dá uma resposta radical a esse problema, pois vê justamente ali, na "insensatez" da estética a possibilidade de um "flerte paradoxal com a heterogeneidade do real, onde tudo flui".

A defesa do valor que a estética possa ter na existência humana não é nova. A primeira grande crítica foi realizada pelo romantismo alemão e teve como projeto o resgate da importância da arte e da intuição estética contra o que chamou de supervalorização da razão e da ciência.

Mesmo antes do romantismo, Descartes, o criador de um método baseado na análise, na classificação, na ordem e na organização, já advinha para o belo um lugar fora desse sistema da razão. Segundo Jimenez, "o belo para Descartes não é algo mensurável, pois depende demais dos caprichos do indivíduo. Mas, ao reconhecer o papel da subjetividade para determinar o que é belo ou agradável para a alma, o cartesianismo insiste na inconsistência de qualquer pesquisa que vise a definir as condições pretensamente objetivas da beleza ideal, do belo em si."

Ou seja, na explicação do próprio Descartes, "o belo e o agradável significam apenas uma relação entre nosso julgamento e o objeto, e pelo fato de os julgamentos dos homens serem tão diferentes, não se pode dizer que o belo tenha uma medida determinada". Nasce aqui a problemática do relativismo do gosto, que sempre é individual, dependendo da fantasia de cada um, ligado à sua memória, às suas experiências passadas. O que nos indica que o belo não pode ser mensurável pela ciência, pois a ciência visa ao universal enquanto o belo pertence à ordem do sentimento individual.

No reino da arte - onde o princípio da regularidade não é de uso comum, apelando-se mais para o imprevisto, o sentimento, a sensibilidade - pode a razão ser aplicada? Uma nova tradição que pensa um lugar diferente para a arte dirá que não.

Esta tradição, que recupera o valor da estética, se inicia com a obra de Baumgarten e Schiller, que desejou ver a arte ser levada à condição de uma ciência filosófica (com sua obra A educação estética do homem), e Kant, que ainda separava sensibilidade e entendimento na constituição do conhecimento (no seu livro Critica do juízo), chegando a Hegel (com sua Estética), Schopenhauer, que melancolicamente vai descobrir que o íntimo do mundo é inalcançável por conceitos, aceitando que corpo e sentimento podem proporcionar um conhecimento sem-fundamento e irracional do mundo (na sua obra Metafísica do belo), a Nietzsche, que deplorava que a arte se mostrasse apenas como "enfeite" da existência e não a máxima experiência do ser.

Para uma definição do vocábulo "estese", que vai contrapor sensação a conceito, Camargo avança numa crítica à tradição que vê na produção artística uma experiência inferior à do saber produzido pela reflexão racional.

"Estese é o que ocorre quando nos invade a sensação angustiante de algo que nos seduz, inquieta e nos afeta até o ponto de desorientar a conexão entre nosso pensamento e o mundo, pela interferência marcada pela alteridade da coisa (ou evento) que está diante de nós, manifestando-se com sua erótica inadequação que resiste ao logos".

O livro de Camargo, seguindo e aprofundando esta tradição, dirá que a arte, como espaço para a experiência do sensível, funda-se no reconhecimento dos limites do "pensamento racional" e numa rejeição da "causalidade", da "prova científica", da "lógica" e de uma "visão linear do mundo".

Na segunda parte da resenha, vamos expor os principais argumentos do livro de Camargo, nessa aventura paradoxal que é pensar o impensável da arte.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 25/2/2014


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