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Quarta-feira, 9/4/2014
Proust, rugas e colesterol
Wellington Machado

+ de 2600 Acessos

Em certas horas de marasmo cultural, penso que eu poderia ter nascido no ano de 1955, por aí. Fosse assim, teria acompanhado na adolescência a melhor fase dos Beatles, os movimentos de contracultura, o movimento estudantil na França de 1968, Woodstock, Bob Dylan. Certamente teria sido hippie, cabeludo, numa comunidade alternativa vegetariana. Sempre achava que eram uns sortudos, os que acompanharam a efervescência cultural, as mudanças e conquistas sociais ocorridas neste período. Por outro lado, eu teria vivenciado o pior da ditadura militar no Brasil. Certamente teria sido preso, levado umas pauladas e, com muita sorte, sobreviveria para contar alguma história. Melhor não. Mas eu bati na trave na aproximação com esse período negro. Calhou de eu nascer no fim do ano de 1968, ali, pertinho do fatídico AI-5. Cheguei por aqui em péssima hora.

Isso quer dizer que eu já passei dos 40 anos - e já avisto os 50 se delineando em minhas retinas. Passar dos 40, para mim - ao contrário dos traumas simbólicos estigmatizados pela nossa cultura -, não foi nada além do que uma simples transposição do ponteiro de segundos de 23:59:59 para 0:00:01, no relógio de parede do meu quarto. A lenda de que "a vida começa aos 40" é uma falácia. A vida começa mesmo, creio, quando nascemos - e é quando começa a contagem regressiva para a morte, com interstícios de 70, 80, 90 anos, se a sorte andar ao lado.

Mas a morte não existe para nós; ela existe apenas para os outros. Como dizia Saramago, "se estou vivo, sou; se morto, não sou mais". Pode parecer excesso de otimismo, mas no que menos penso é na morte - hoje. Isso tem a ver com Proust, Joyce, colesterol, rugas e manchas. Explico.

Sobre colesterol e manchas
O colesterol mudou minha vida. "Colesterol" é modo de falar. As minhas taxas de colesterol, aos 35 anos, estavam uma bagunça. Eu estava fazendo tudo errado, na alimentação e no sedentarismo. Quando o médico me falou dos exames, tive a primeira sensação de que eu começava o processo de morrer. E eu não tinha lido Proust (Em busca do tempo perdido) ou Joyce (Ulisses) ainda.

"Essas manchas na sua mão são da idade; não saem mais. Quanto às rugas, o que temos a fazer é tentar amenizá-las", disse-me a dermatologista de 20 anos, sem que eu lhe perguntasse absolutamente nada. O engraçado de passar dos 40 anos é perceber a visão que os mais novos têm da gente. É comum ouvirmos algo como "ele 'já' tem 40 anos", como se a distância entre o referente e o referido fosse abissal. Lembrei de uma frase interessante (acho que do Veríssimo), que diz que a gente percebe que está ficando velho quando começa a ganhar meias de aniversário. Ainda não cheguei a este ponto, mas é interessante ver as pessoas me chamarem de "moço", palavra que curiosamente ganhou um sentido inverso da sua semântica.

Tentando prolongar um pouco a minha passagem pela Terra, comecei a comer salada e a andar cerca quatro quilômetros por dia, na esperança de encarar os sete volumes de Proust e, "por fim", me debruçar no tijolo indigesto (para muitos) do Joyce. Fiz, então, um projeto: viver até os 70 anos - se o destino não avacalhar com a brincadeira (o que vier além disto, estarei lucrando). Fui, portanto, caminhando, caminhando... cada vez mais rápido. De tanto caminhar, passei a correr. E não mais quatro quilômetros. Viciei. Passei pra cinco, seis, até chegar a sete quilômetros. Passei dos 38, colesterol ok, salada, bicicleta, corrida. Passei dos 40, sete quilômetros, corridas, saladas. Tudo se intensificou no mesmo ritmo: leituras, filmes, museus etc. Tudo ganhou ritmo de corrida: questões existenciais, reflexões sobre relacionamentos, filhos, longevidade. Menos Proust e Joyce, que me aguardam na estante.

O indivíduo no mosaico
Não existe vida estável. De repente, um homem se vê sozinho depois dos 40. Ela, para um lado; ele, para outro. Sem filhos - de certa forma até melhor. Não mais filhos agora, já passou da idade, pensa. Na verdade nunca soube ao certo se os queria. Pensa, lê, pensa, ouve. O amor acaba - em alguns casos; noutros é eterno. Pensa. Ouve. [Você não vai se casar novamente?] O que queremos nós, contemporâneos: estarmos juntos querendo ficar sós; ou estarmos sós querendo ficar juntos? Pensa, lê, dorme. Trabalho, chateação, supermercado, corrida, museus, saladas. Colesterol ok. Pensa. Vê. Andar a pé, não de carro. [Você não vai ter filhos? Vai se arrepender quando ficar mais velho...] Vai de metrô. Ouve. Traçar mapas imaginários, desenhá-los e percorrer ruas. Beber água.

A vida é um mosaico. Salada com bastantes folhas verdes. Fibras facilitam a digestão e eliminam impurezas. Lê. Pensa. Cenoura é bom para a pele, retarda as manchas e as rugas ampliadas na lupa da dermatologista de 20 anos. Tomar água. [Como é que você consegue viver sozinho?...] Colesterol ok. Sete quilômetros de madrugada. A vida contemporânea é solitária; diferente de solidão - diz um psicólogo famoso no jornal. Vida pocket, agilidade, mobilidade. A arte (estética) é a mais alta forma de sublimação humana. Vida "vivida" é um somatório de sensações. Sensações são como carimbos. "Carimbar" a vida de experiências. Todo janeiro: ler Proust e Joyce, anota na agenda.

Vida portátil. Mosaico. "Carimbar a vida": Kafka, Borges, Bach; um jantar com duas amigas, bate-papo no skype com um amigo distante. Miles Davis, Tarantino. Beber água irriga as células, aumentando a longevidade - para se chegar aos 70 anos. [Você não vai voltar para a sua ex? Tem se encontrado com ela?] Pesquisa aponta que os relacionamentos em que as pessoas vivem em casas separadas têm mais chance de serem bem-sucedidos. Pensa, lê. Cada um faz seu supermercado. [O que você acha da solidão?] Cada um tem seu carro. Ele corre; ela dorme. Os dois comem salada em suas casas. Eles se encontram no cinema. Dormem juntos. Mosaico. Lê. Ela viaja a negócios. Trânsito caótico. Separação, "solidão contemporânea". Lê no jornal que cresce o número de relacionamentos abertos, onde é comum a troca de parceiros dentro de um grupo fechado. Colesterol ok. [Você tem filhos?] Proust e Joyce na estante.

Solidão lúdica
Existe um consenso de que, após os 40 anos, a gente fica mais seletivo. Concordo com a tese, mas a encaro de outro ângulo. Sinto que passei a ter uma relação diferente com o tempo, uma necessidade de otimizá-lo em meio a esse mosaico que se nos apresenta. Para tanto, fiz da minha vida a mais minimalista possível: descartei e doei os excessos. Vida portátil, na sua essência.

Para dar conta dos meus "carimbos", tomei algumas medidas. A primeira decisão foi não acompanhar mais política. Passo batido nos jornais, sites e no noticiário na TV. É pura perda de tempo: os personagens são os mesmos, as práticas seculares não mudam. Abandonar essa corja me proporcionou um ganho de pelo menos uma hora por dia para, por exemplo, ler um clássico da literatura. Não me interesso mais. Voto nulo. Aliás, voto no voto facultativo.

A minha segunda decisão foi abandonar as redes sociais. Estava perdendo uma, duas horas por dia lendo muitas coisas que não me acrescentavam muito. A opção de ficar desconectado me isolou um pouco. Mas acho difícil ler Proust se estou perdendo duas horas lendo fragmentos nas redes sociais.

Woody Allen, numa das últimas cenas do filme Manhattan, aponta algumas coisas pelas quais vale a pena viver. Ele cita Groucho Marx, Luis Armstrong, Flaubert, Marlon Brando, Cézanne. É meio por aí. O tempo escoa pelos dedos como no relógio de Dalí. A vida após os 40, 50, 60 anos é exatamente o que se faz dela - e não o que ela nos apresenta. O mesmo Woody Allen, aos 79 anos, diz que trabalha (arduamente) para enganar a morte. Proust e Joyce ainda estão lá, dormindo na minha estante. Mas são projetos. Tratar a vida com uma pitada lúdica me fez acompanhar a transposição do ponteiro do relógio para os meus 40 anos de forma asséptica. Uma coisa eu posso afirmar: desconheço o tédio. Colesterol ok.


Wellington Machado
Belo Horizonte, 9/4/2014


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