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COLUNAS

Terça-feira, 12/2/2002
Reminiscências
Rafael Lima
+ de 1300 Acessos

É meu maior prazer vê-lo brilhar
Casa da Laura Alvim O Salão Carioca de Humor da Casa de Cultura Laura Alvim não é um concurso nem tão grande, nem tão prestigiado, nem tão antigo como o de Piracicaba, mas já completou 15 anos revelando talentos, distribuindo prêmios e ocupando lugar cativo no calendário humorístico de verão. Se é que ainda é possível rir no meio de atentado, seqüestro ou assassinato de homens públicos, para não falar no fundamentalismo de esquerda, que nos últimos 30 anos transformou o humor num instrumento essencialmente político e fez de cada chargista uma Dora Kramer do nanquim. Depois ficam por aí reclamando que a antiga e misteriosa arte do cartum está morrendo ninguém sabe porque, quando é só dar uma olhada nos catálogos dos anos anteriores para perceber uma nítida primazia das piadas com fundo social, entre os vitoriosos, sobre as simplesmente engraçadas (por mais engraçadas que fossem). Resmungos de lado – estamos falando de um salão de humor, caramba! – a exposição desse ano marcou um gol de placa ao pendurar os originais de Jano sobre o Rio de Janeiro, um álbum que eu gostaria de ter feito. O visitante em geral fica tão impressionado com a maestria na captura da alma das ruas que mal percebe a meticulosidade e a paciência extraordinária de seu trabalho: as pranchas têm praticamente o mesmo tamanho das páginas do álbum. Jano desenhou cada friso de fachada no Catete, cada cabecinha do Maracanã cheio naquele tamanho que se vê no álbum.
Visito o Salão da Laura Alvim, casa de cultura localizada num dos endereços mais caros do Rio, a Vieira Souto, desde seus primeiros dias. Foi lá que vi pela primeira vez os originais de gente que eu só conhecia de nome em página de fundo de jornal. Nos últimos anos, cheguei a freqüentar a cerimônia de abertura, evento particularmente indicado para apreciar desenho de humor, trocar palavras com algum cartunista predileto (eventual lenda viva), desopilar o fígado e se emocionar com as homenagens. Especialmente inesquecível foi a que fizeram ao Otelo Caçador, conhecido chargista de esportes - vamos deixar de nove horas: de futebol - das antigas, e que andou sumido na década passada (hoje em dia, parece que saiu de sua semi-aposentadoria desenhando camisetas de blocos de carnaval para voltar à ativa no Extra, o jornal popularesco das organizações Globo no RJ). Uma das bossas do Otelo era o diploma de perdedor, típica gozação praiana, você recortava do jornal de domingo e preenchia com o nome do seu amigo vascaíno, para entregar depois do jogo: Zico em campo era garantia de piada. Otelo é Flamenguista. Fanático. Reza a lenda que foi ele quem teria trazido o uruguaio Lanfranco para o Brasil, transformando-o em ,Lan, o cartunista que ficou mais famoso pintando mulatas que Di Cavalcanti... Quem abriu a noite foi o Jaguar, pedindo para "desligarem os celulares e as crianças", e convocando o próprio Lan para entregar a Otelo um troféu. Após subir no palco e fazer uma continência moleque, contou como eles se conheceram ainda no Uruguai, onde se fizeram amigos de infância. Após a noite de papo, ele diria ao Lan:
- Algum dia você vai para o Brasil, e vai morar no Rio. E vai ser Flamengo.

Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro
Mangue boys

Por um mero acaso não foi o último, mas o penúltimo show de Chico Science e Nação Zumbi no Rio. Ainda iriam tocar numa mega casa de espetáculos, dessas que hoje se chama ridiculamente de hall. Não há dúvida que estavam mais à vontade no Circo Voador naquele final de 96, um dos típicos shows arrebenta-quarteirão do Circo Voador, dos que não se entendia onde cabia tanta gente, dos que pareciam nunca acabar, tal a profusão de músicas no bis. Apenas a parede sonora da percussão Zumbi entrou no palco (acho que o Otto ainda fazia parte nessa época) e depois de uma pequena introdução, silenciou para a entrada no palco de Chico Science, calado, casmurro, numa inconcebível camisa azul de mangas longas para a primavera carioca; ergueu um braço e quando baixou, ao mesmo tempo em que cantava o primeiro verso, aconteceu. Foi como uma pancada para remover a poeira de um tapete estendido, uma onda de energia se propagando em todas as direções, para todas as pessoas. Um primitivo deus do trovão.
Cinco anos sem presenciar algo sequer parecido com isso.

Intelectual não vai à praia, intelectual bebe
5 anos sem ele. A primeira coisa a se saber sobre Paulo Francis é que seu nome real, aquele da carteira de identidade, era Franz Paul Trannin Heillborn. Paulo Francis fora o nome, “típico de ‘bailarino’ de teatro-revista”, com o qual Paschoal Carlos Magno, seu professor de interpretação, lhe batizara em 1951. Um nome eufônico para cartazes de teatro rebolado, que continuou sendo usado, até o fim da vida, nas incontáveis incursões jornalísticas. Entender Paulo Francis é entender essa confusa relação entre ator, personagem, autor, leitores e espectadores ao longo dos anos. Não me admira que essa revelação seja a primeira informação relevante da primeira página de seu livro de memórias, O Afeto que Se Encerra, o texto mais essencial para entender quem Francis foi.
Me lembro claramente do susto que tomei quando descobri que Paulo Francis, aquele engravatado comentarista de Nova York, tinha escrito no Pasquim. Dificilmente estava entre os meus preferidos, ficando atrás do Ivan Lessa, do Millôr, do Henfil, do Maciel, do Fortuna. Considero, paradoxalmente, a década de 70 seu melhor período no jornalismo, quando publicou os livros Paulo Francis Nu e Cru, Certezas da Dúvida, além de uma coletânea pela Editora Três. Comparados com aqueles textos, o estilo do Diário da Corte é corrido, superficial, embrulha-e-manda. Nunca fui leitor do Diário, muito menos leitor assíduo, de vigiar as bancas a cada quinta e domingo, mas é inegável que foi aquele formato lhe angariou mais prestígio, fama - e inimigos - do que bons livros, como o Dicionário da Corte bem o mostra.
Paulo Francis sempre foi um grande dum chato, ainda que tivesse em grande escala todas as qualidades que um chato tem. Jornalista, era a própria incorporação daquela frase de Kingsley Amis: “If you can’t annoy somebody, there’s little point in writing”. Abusava um pouco da paciência os leitores - como qualquer bom escritor, aliás. Incrível como se adaptou extremamente bem à televisão, fazendo da incomparável dicção um estilo. Inesquecível, a inserção no Jornal da Globo dizendo “aquiiiiiii em Nova Ioooorque está fazeeeeendo um frio chato...” Mas afinal, por que essa lembrança, se você não gostava dele, se preferia estar falando de Chico Science? Acho que por sua capacidade de suscitar discussões, de alavancar acalorados debates: para cada candidato a intelectual que apontasse o dedo em riste, acusando-o de vendido, outro apareceria para defender sua trajetória; para cada amante da língua que o acuse de ser mau escritor, outro apareceria citando seu arsenal de punch lines. Era um catalisador vivo de idéias, num mar de ociosidade. O tipo de autor de quem se colecionam frases. A minha? “As crianças são o proletariado extremo, porque em qualquer classe social estão sujeitas a caprichos humilhantes de adultos”. Se bem que a que titula essa nota - pelo menos atribuída a ele - também é antológica.

Nas pedras
Brrrr!
Que bebida você é?


Rafael Lima
Rio de Janeiro, 12/2/2002

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