A escrita boxeur de Marcelo Mirisola | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
30533 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda Silibrina apresenta Jazz brasileiro no Teatro Brincante
>>> Festival Ferrock movimenta a Ceilândia
>>> Dragão7 apresenta-se em Bauru, Lencóis e Garça nos 10 Anos do Circuito Cultural Paulista
>>> Show com grupo Tambora faz um mergulho na obra de compositoras de diversos países da América Latina
>>> Pianista revelação, Juliana D'agostini mostra seu talento no Natal Musical do VillaLobos
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A poesia afiada de Thais Guimarães
>>> Manchester à beira-mar, um filme para se guardar
>>> Noel Rosa
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Notas de leitura sobre Inácio, de Lúcio Cardoso
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto
>>> O Wunderteam
>>> Fake news, passado e futuro
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> Rios inversos
>>> Você pertence a um não lugar
>>> Olho d'água
>>> A música da corrida
>>> Retalhos da vida
>>> Limbo
>>> Transmutações invisíveis
>>> Quem te leu, quem te lê
>>> Bom dia e paz
>>> O que sei do tempo II
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Lula e o Genocídio Negro
>>> Para entender Paulo Coelho
>>> Souza Dantas, Almoço e Chocolate
>>> Conto de amor tétrico ou o túmulo do amor
>>> Conto de amor tétrico ou o túmulo do amor
>>> Conto de amor tétrico ou o túmulo do amor
>>> Proxxima: primeiro dia
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Ária da Rainha da Noite
>>> Let us protect you in the labyrinth
Mais Recentes
>>> Não Morda A Isca: Como Escapar Da Pornografia
>>> Ensino de Ciencias e Cidadania
>>> Temas Transversais e a Estratégia de Projetos
>>> Sagarana
>>> Justiça e Esperança para Hoje
>>> Atlas Geográfico Escolar
>>> Trocando a Negação pela Graça de Deus
>>> Passagem para o Poético
>>> Atlas Geográfico Melhoramentos
>>> Morri para Viver Meu Submundo de Fama, Drogas e Prostituição
>>> Em Manhattan do terceiro Mundo
>>> Dança do fogo estudo sobre o Desejo
>>> Itinerário Espiritual de Santa Tereza de Ávila
>>> O Demônio e a Sra. Prym
>>> Inimigo Rumor 20
>>> Viena, Guia visual da Folha
>>> A Cura
>>> Pensamento Complexo: suas aplicações à liderança, à aprendizagem e ao desenvolvimento sustentável
>>> Dictionnaire D'Analyse du Discours (1ª ed.)
>>> Defenda seus direitos
>>> O momento da sua virada
>>> Uma Viagem Aos Reinos
>>> Trilha para os Jovens
>>> Titan - O mundo de aventuras fantásticas
>>> Sonhos Lúcidos
>>> Raiva. Seu Bem, Seu Mal
>>> O Shadowdale Vale Das Sombras
>>> O perdedor
>>> O livro secreto da maçonaria
>>> O livro da quituteira
>>> O caso Schreber
>>> O Caminho do mago
>>> Lobisomem O - Apocalipse - Rpg
>>> Livro do Mestre - Advanced Dungeons e Dragons
>>> Gurps. Modulo Básico
>>> Francisco de Assis e Francisco de Roma: Uma Nova Primavera na Igreja
>>> Forgotten Realms 3 Guia De Campanha Para Undermontain
>>> Cinema: O Divã e a Tela
>>> Até os Felizes Sofrem
>>> Assessoria de Imprensa
>>> As Virtudes da Casa
>>> Além do bem e do mal
>>> Aleister Crowley - A Biografia de um Mago
>>> A realização espontânea do desejo
>>> Belo Desastre
>>> Nao deixe para depois o que voce pode fazer agora
>>> Ecos Dos Mortos
>>> O pai sessenta minutos
>>> A Noite dos Quatro Furacões
>>> Caixa de Pássaros
COLUNAS

Terça-feira, 1/12/2015
A escrita boxeur de Marcelo Mirisola
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 1600 Acessos


A metáfora de um país que nunca acaba de ser construído, onde "cada construção já é ruína", está não só na capa mas por todo o novo livro de Marcelo Mirisola: "Paisagem sem reboco", publicado pela editora carioca Oito e Meio.

Não adianta entrar no ringue achando que vai ganhar. Logo no primeiro round, o maior boxeador da literatura brasileira contemporânea, Marcelo Mirisola, vai esfacelar suas crenças, suas certezas, suas pieguices, seu bom mocismo mental (ou padrão politicamente correto e burro), seu retardamento cultural, seu modus vivendi de anta... tudo vai cair na lona, e logo na primeira porrada. Como disse Aldir Blanc, "Mirisola não é odara" e se você enfrentá-lo "perderá os dentes".

"Não existe vacina para a babaquice", escreveu Mirisola no seu livro de crônicas "O Cristo Empalado". O seu estilo, ele confessa no livro citado, "existe para infernizar a vida daqueles que não têm talento". Não é diferente em "Paisagem sem reboco", onde o empalamento continua... inclusive contra aqueles que frequentem o brechó da literatura brasileira.

Em "Paisagem sem reboco", o autor publica crônicas, ensaios e contos que já foram anteriormente publicados em outros veículos como jornais, revistas, sites. Segundo o autor, como "não deu para enfiar tudo no Cristo", o livro que agora publica é uma espécie de continuação daquele.

Mirisola não se recusa a falar de sua escrita ao comentar o que é o seu novo livro: "o que falta de reboco a essa paisagem, sobra de personalidade. Uma personalidade esquizofrênica (...) mas original, pulsante, cheia de novos empalamentos e desaforos para satisfazer e/ou contrariar (tanto faz) os mais diversos gostos e preencher os mais insuspeitos orifícios."

Talvez não exista escritor no Brasil que goze de tamanha liberdade de falar sem freios, ou que saiba o lugar reservado à liberdade que só a literatura pode proporcionar, como Marcelo Mirisola. Ele sabe disso: "Ora, sou um écrivain! (...) O que mais eu poderia querer? Aqui, tenho a liberdade para tripudiar de mim mesmo, virar o mundo do avesso, mentir e dissimular e até ir em busca da verdade (...) aqui não preciso acreditar em mim, e - às vezes - amparado pela verossimilhança, dispenso redes de proteção, posso desdenhar dos céus e sobrevoar abismos infernais, somente aqui, como escritor, sim, porque adquiri essa condição - não é para qualquer pangaré, vou logo avisando (...)".

Com essa liberdade ele calça suas luvas/escritura de boxeur e faz valer o preço da liberdade (que pode ser dura para ele em consequências no grande monde literário), desfazendo os mitos que nos rodeiam, como, para ficar apenas em um exemplo, o da alegria brasileira: "O ódio sempre esteve presente -e, embora nunca tenha sido prerrogativa de preto, branco, nem de monge, nem de executivo, ele, o ódio brasileiro, sempre foi muito bem preservado em escaninhos, divisões, muros e camadas de hipocrisia. Negá-lo é fomentar mais ódio. As pessoas o guardam como se fossem joias de família. Quem quiser pode chamar de alegria brasileira."

Esse ódio, que camufla-se como um camaleão, desnuda-se na prosa de Mirisola: "O importante é não esquecer que o ódio nos espreita e carrega milhões de disfarces e boas intenções, o ódio brasileiro afaga, convida pra ir jantar e é o melhor anfitrião do mundo, o ódio é doce como uma compota caseira e sempre concorda contigo, ele é o rei dos elogios e às vezes aponta pequenos defeitos para valorizar as virtudes que nem você sabia que tinha, o ódio é surpreendente e encantador, ele tem muita paciência, o ódio é desprendido e jamais vai perder o timing, ele é a Vovó da Casa do Pão de Queijo, ele é o bom vizinho que planeja seu fim toda vez que o beija na face e, uma hora - pode escrever - ele vai dar o bote e estragar tudo, de leste a oeste e de norte a sul. Ininterruptamente."

Rancorosas algumas vezes (oh! - e como é necessário), com humor outras vezes (humor negro também), as crônicas e contos do livro vão golpeando aqui e ali nosso fígado, fazendo ver sob o ponto de vista que, na maioria das vezes, tememos ver. Mas com o olho inchado (tantas porradas) avançamos na leitura, aprendendo a ver torto aquilo que o mundo insiste em ver (falsamente) como certo.


Mesclando palavras-bílis com divertidas tiradas irônicas, o livro não nos cansa jamais em sua crítica radical. Três pequenos exemplos onde o pensamento se dobra nessa via de mão dupla: "Mas, pensando bem, em qualquer época e circunstância, eu não resistiria à subversão. Fazer o quê? Eu olho pra bunda das gostosas." Ou: "confete e arte para todo mundo, consta que, agora, vender a alma é sinônimo de qualidade de vida, postura mesmo, que emana credibilidade e crédito." E no texto "Qual é a droga?", onde fala da inutilidade da polícia e da falsa moral em relação às drogas ilegais:

"Você percebe que aqueles caras que vestem fardas e cultivam a ordem, a disciplina e a hierarquia não servem para nada; na realidade eles não passam de crianças sádicas e fetichistas que fazem tanto sentido quanto o traficante e os heróis da Marvel que tomam conta dos seus sonhos de Cinderela. Pare pra pensar: um meganha que enquadra suspeitos e se dirige a outro meganha como tenente, cabo, capitão, um cara que prende e faz uso de algemas e técnicas de imobilização, um sujeito que acorda de madrugada para se perfilar diante de um pedaço de pano colorido, o mesmo tipo que obedece a ordens unidas, que desfila de boina na avenida, pense comigo: para que um xarope desses, que depende de uma voz de comando até para se manter sobre as duas pernas, presta na vida? Para cuidar de mim é que não é./ Um apelo. (...) Abram franquias do Parque da Mônica, chamem a SuperNanny, deem massinhas e pincéis atômicos para entreter essas crianças mal-humoradas que adoram uma fardinha./ E, do outro lado e ao mesmo tempo, transformem os traficantes em comerciantes, livrem os viciados da marginalidade e deixem o capitalismo cuidar do resto. Se funciona com o Carrefour, o Wallmart, as Casas Bahia e as Lojas Americanas que vendem DVDs da Ivete Sangalo e do Gustavo Lima, porque não ia dar certo com as outras drogas?"

Outro capítulo interessante do livro de Mirisola é sobre o linchamento equivocado de Gerald Thomas no episódio no programa Pânico e as consequências dessa atitude fascistóide nas tramas rocambolescas da coletividade brasileira. "A volúpia de dedurar, buscar refúgio no coletivo e apontar o dedo virou marca registrada nos anos zero-zero e - parece - tem tudo para se consolidar ferozmente nos próximos anos."

Mesmo não fazendo parte do "cordão dos puxa-saco ilustrados, todos em uníssimo cacarejando Géééérald, Géééérald. Como se o Géééérald fosse o esperma sagrado do Santo Graal via nossa goela abaixo, puta porre dos infernos", Mirisola vai em defesa do diretor de teatro e questiona a posição "linchamento do bem" de Laerte, "o travesti da revista Piauí, mimo de dez entre dez intelectuais", que "aproximou Gerald Thomas da figura infame do Paulo Maluf".


Então, diz Mirisola sobre Laerte: "O cara que salva - a palavra é essa mesmo, salva - o mundo com seu humor, de uma hora para outra, se transforma num inquisidor medieval e condena a outra parte baseado em superstições. Laerte caiu feito um pato na armadilha do suposto inimigo porque - tese minha - existe uma fixação justiceira que o cega e diz de antemão e preconceituosamente que toda e qualquer piada que trata de minorias é desqualificadora pela própria natureza (superstição). (...) Justo Laerte acabou se transformando numa espécie de Torquemada da piada alheia".

E Mirisola, dando um banho em qualquer sociólogo de academia, aponta, contracorrente, através dessa crônica, os perigos que incorremos nesses "linchamentos do bem": "a patrulha que não dá trégua e acusa e condena sem fazer distinção apenas porque se sente ameaçada em sua pureza quando, na verdade, ela mesma - na prática - se torna instrumento efetivo do mal que atribui ao adversário."

O espaço de uma resenha é pequeno para desvendar o espírito crítico e mordaz de Mirisola que aparece em "paisagem sem reboco". Deveríamos falar das entradas renovadoras em leituras de Tolstói, Orwell e Kafka, e dos contos e crônicas que descascam as paredes artificiais de um Brasil de celofane, mas que esconde nas suas incongruências uma realidade sem reboco, mas o espaço impede. O que sugiro é que se compre o livro para aprender a pensar sem os entraves dos superegos que abundam por aí, sejam eles móveis (camburão), intelectuais (o grande monde da cultura), ideológicos (o politicamente correto) etc, etc etc.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 1/12/2015


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O bom e velho formato site de Fabio Gomes
02. Ler para ficar acordado de Cassionei Niches Petry
03. O suicídio na literatura de Cassionei Niches Petry
04. O Novo Museu da Estação da Luz: uma Proposta de Heloisa Pait
05. Nunca fomos tão vulgares de Julio Daio Borges


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2015
01. Daumier, um caricaturista contra o poder - 24/2/2015
02. Eu matei Marina Abramovic (Conto) - 17/3/2015
03. Gerald Thomas: cidadão do mundo (parte final) - 28/7/2015
04. Gerald Thomas: cidadão do mundo (parte I) - 2/6/2015
05. Fake-Fuck-Fotos do Face - 18/8/2015


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




ENEIDA - VIRGÍLIO (LITERATURA LATINA)
VIRGÍLIO
ABRIL CULTURAL
(1983)
R$ 18,00



MULHER E LITERATURA
LÚCIA HELENA VIANNA (ORG.)
UFF- ABRALIC
(1992)
R$ 23,90



MIMO - EL ARTE DEL SILENCIO
PETER ROBERTS
TTARTTALO
(1990)
R$ 55,00



REVISTA BRASILEIRA DE ALERGIA E IMUNOPATOLOGIA VOL 18 Nº 2 MARÇ/ABRIL
NÃO INFORMADO
S.B.A.I
(1995)
R$ 3,00



ALÉM DO VÉU E FORA DO ARRAIAL
DONG YU LAN
ÁRVORE DA VIDA
(1999)
R$ 6,10



SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS
LÉA CARUSO - ESPÍRITO JOSÉ
IDE
(2015)
R$ 29,15



RESPOSTA A JÓ
C.G. JUNG
VOZES
(1986)
R$ 32,00



LÁGRIMAS DE COMPAIXÃO
PIERRE WEIL
PENSAMENTO
(2005)
R$ 10,80



OS HOMENS E A HERANÇA NO MEDITERRÂNEO
BRAUDEL
MARTINS FONTES
(1988)
R$ 30,00



REVISTA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA - 1 (CADERNO ESPECIAL)
VÁRIOS
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
(1967)
R$ 4,00





busca | avançada
30533 visitas/dia
1,1 milhão/mês