Simone Weil no palco: pergunta em forma de vida | Heloisa Pait | Digestivo Cultural

busca | avançada
37091 visitas/dia
862 mil/mês
Mais Recentes
>>> Bangalafumenga recebe amigos e ex batuqueiros para um encontro de felicidade no Carioca Club, dia 25
>>> SISEM-SP disponibiliza vídeos com conteúdo do 9º Encontro Paulista de Museus
>>> Em agosto, o Largo do Machado receberá a segunda edição do Hoje é dia de comer na rua
>>> ÀTMA - De que tamanho é o teu deserto?
>>> Vivo EnCena traz Paulo Betti a São Paulo com Autobiografia Autorizada
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A noite iluminada da literatura de Pedro Maciel
>>> Apontamentos de inverno
>>> Literatura, quatro de julho e pertencimento
>>> O Abismo e a Riqueza da Coadjuvância
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 4. Museu Paleológico
>>> Um caso de manipulação
>>> Brasil, o buraco é mais embaixo
>>> Nós que aqui estamos pela ópera esperamos
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 3. Um Jogo de Poker
>>> Retratos da ruína
Colunistas
Últimos Posts
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
>>> Ajudando um amigo
Últimos Posts
>>> Maturidade
>>> Ponto cruz
>>> Elevador divino
>>> Na hora do rush
>>> Cubica(mente)
>>> Adentrando o mundo humano - Pensamento
>>> Modelar(mente)
>>> Trans(corrente)
>>> Quanto às perdas III
>>> O pão nosso de cada dia
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O País da Fila
>>> Edvaldo Pereira Lima
>>> Editar bem, com Matinas Suzuki Jr.
>>> Palhaço
>>> Ópera fora do circuito
>>> Muito barulho por nada
>>> Leitura, curadoria e imbecilização
>>> Legião Urbana 1994
>>> Um menino à solta na Odisseia
>>> Gratitude
Mais Recentes
>>> A crítica de arte: como entender o contemporâneo
>>> Autoridade Espiritual
>>> Os botões de Napoleão
>>> O mestre das iluminuras
>>> Mensagem - 2ª ed. Texto Integral
>>> A catedral do mar
>>> Amanhecer
>>> Lua Nova
>>> Crepúsculo
>>> Fundamentos da Logoterapia. Na clínica psiquiátrica e psicoteraêutica (Vol. I)
>>> A história do conceito de "Latin America" nos Estados Unidos
>>> Os Lusíadas
>>> O faroeste (1860-1890)
>>> O herege
>>> A Moreninha (Clássicos Saraiva)
>>> Rio das flores
>>> Edição em Jornalismo - Ensino, Teoria e Prática -1ª ed.
>>> Comentários à lei sobre Desportos 2ª ed.
>>> Dicionário Descartes
>>> Dicionário Rousseau
>>> Discurso do Método. Comentários: Denis Huisman
>>> Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Comentários: Jean Francois Braunstein
>>> Cadernos do nosso tempo Fascínio e Repulsa
>>> Apresentação do mundo. Considerações sobre o pensamento de Ludwig Wittgenstein
>>> Condições da Liberdade. A Sociedade Civil e Seus Rivais
>>> Destinação Antropológica
>>> Antropologia. Ousar para reinventar a humanidade
>>> Tempus Fugit
>>> Abençoai o suborno!
>>> O Pós Guerra Fria No Mundo
>>> Os Iguais Sob O Arco-Íris
>>> Quem Mexeu No Meu Queijo?
>>> Estratégia Para O Sucesso
>>> Faz Escuro Mas Eu Canto
>>> Pai Rico Pai Pobre
>>> Bases Para Sua Conduta
>>> O Apanhador no Campo de Centeio
>>> Busca do Campo Espiritual pela Ciência
>>> O Pensamento de Assis Chateaubriand
>>> A História Íntima do Beijo (Sociologia/Antropologia Cultural)
>>> Noites Agradáveis - Straparola (Contos Renascentistas Italianos)
>>> Haverá uma ciência da Alma?
>>> Dias Melhores Virão
>>> O Desafio de nosso Tempo ( Change and Habit)
>>> Hobbes e a Moral Política
>>> Hobbes Leviathan. Uma Visão Teológica
>>> Brevilóquio Sobre o Principado Tirânico
>>> De Cive. Elementos Filosóficos a respeito do cidadão
>>> O Problema do Ser e outros ensaios
>>> Antropologia Filosófica
COLUNAS

Quinta-feira, 11/8/2016
Simone Weil no palco: pergunta em forma de vida
Heloisa Pait

+ de 1900 Acessos

Bonito de ver o espetáculo “A Última Dança”, no pequeno teatro Viga, em São Paulo, que fica em cartaz até o dia 15 de agosto. As cadeiras desconfortáveis e o cheiro de plástico queimado – intencional, acredito – fazem nosso corpo querer sair dali. Em contraposição, a beleza dos movimentos da atriz e a estranha delicadeza das máquinas espalhadas pelo palco nos fazem ficar. Nesse cabo de guerra, vamos aos poucos tomando consciência de estarmos lá, num processo semelhante ao que passou Simone Weil, cujos escritos e experiência inspiram a peça.

A peça faz a gente querer saber mais sobre ela, suas idéias, seu tempo, sua vida. Sobre seu irmão André Weil, um matemático brilhante que chegou a dar aulas na USP, ao final da guerra. Mas “a última dança” consegue evocar esse mal estar sublime que parece ser um dos pontos centrais do pensamento – e da vida – de Simone Weil.

Filósofa, professora e erudita, Weil voluntariamente se emprega em fábricas nos arredores de Paris nos anos 1930, em busca de um conhecimento visceral das tribulações do operariado, por quem militava. O drama da vida de Weil é maior que essa experiência. Uma judia que encontra no cristianismo refúgio espiritual; uma mulher brilhante que, rejeitando tanto a “carreira” feminina quanto a intelectual, se lança no ativismo político; uma refugiada que retorna ao palco de guerra como que por dever.

É na experiência fabril, entretanto, que a peça se firma, e isso é bom. O resto da biografia de Weil – ou melhor, da experiência – se revela nos gestos tão interessantes da atriz Natalia Gonsales, brigando com as máquinas, com o tempo, com as idéias. Natalia só não briga com a platéia. Resgatando outras figuras femininas e sua própria voz, com impressionante naturalidade, ela vai trazendo o público para a fábrica e para as reflexões da filósofa. Viramos um pouco Simone no processo, alcançando alguma graça, alguma ascensão, em meio ao ambiente degradado e cruel da produção industrial.

Se essa graça de Weil tem ressonâncias cristãs, de elevação espiritual em meio ao sofrimento, ou se pode ser uma espécie de aliá, elevação espiritual também, só que moderna, não temos como saber. Nessa aliá parodiada, Weil não sobe ao tablado para ler a Torá, a Bíblia, como na tradição judaica, mas responde à sirene da fábrica e se prostra diante da máquina, obra humana dos tempos daquele hoje. De um jeito ou outro, a graça é alcançada e a peça tem algo de sublime.

Tanto a peça como a vida de Weil estão repletas de entregas. Entrega aos operários, aos famintos, às vítimas da guerra, de modo visceral, talvez sem razão. Mas Weil não é só corpo, não pode ser apenas entrega. Não faria sentido o gesto que ignorasse todo o seu conhecimento e suas inquietações; é uma entrega com sabor de descoberta e não de martírio. É querer conhecer o outro, romper as barreiras que nos separam da experiência do outro que sente. Querer compreender a fábrica, a guerra, as revoluções, mas pelo seu avesso. Um saber feminino?

Reparei que a beleza da atriz não está nas partes do corpo, digamos, comercializáveis como nas pneumáticas mulheres de Aldous Huxley. Está nos gestos e nas mãos, esse nosso membro meio cerebral, meio corporal, exigido, maltratado, enfeitado, expressivo, frágil, forte. Sentimos pavor de que suas mãos se machuquem no processo fabril, como se perder a destreza fosse o pior perigo do mundo. Mãos que rezam e que escrevem.

E, se aquela entrega e sofrimento têm esse caráter também intelectual e especulativo, me dou o direito de ver a peça como um alerta mais que como expiação. Um alerta para os objetos que botamos na bimá, no altar de devoção. Que livros, que máquinas, que ideais, que objetivos, que organizações e que pessoas. O ano fabril de Weil pode ser interpretado, claro, como um ano em que ela se entrega à experiência do operário francês ainda desprotegido por leis trabalhistas adequadas. Pode ser interpretado como uma espécie de martírio. Já eu vi como a resposta a uma pergunta muito conceitual: o que acontece quando cultuamos a máquina como se ela fosse o Ensinamento, quando a colocamos no lugar da Torá?

Se a experiência de Weil é um modo corporal de fazer uma pergunta, como eu a entendo, a verdade é que sua pergunta, arcaica, permanece viva até hoje. Que acontece conosco quando botamos máquinas no altar? Ou ideais que lá não pertencem? Ou pessoas tão frágeis como nós? A peça, compartilhando a experiência física de Weil, repõe a pergunta, num jogo envolvente entre corpo e alma, razão e sentido, desejo e pavor.



Heloisa Pait
São Paulo, 11/8/2016


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Os Doze Trabalhos de Mónika. 1. À Beira do Abismo de Heloisa Pait
02. Minha finada TV analógica de Elisa Andrade Buzzo
03. Essas moças de mil bocas de Elisa Andrade Buzzo
04. Quem é mesmo massa de manobra? de Cassionei Niches Petry
05. Longa vida à fotografia de Fabio Gomes


Mais Heloisa Pait
Mais Acessadas de Heloisa Pait
01. A Garota do Livro: uma resenha - 16/6/2016
02. Os Doze Trabalhos de Mónika. 1. À Beira do Abismo - 13/4/2017
03. Simone Weil no palco: pergunta em forma de vida - 11/8/2016
04. Diálogos no Escuro - 4/8/2016
05. América Latina, ainda em construção - 3/7/2015


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




50 ANOS A MIL
LOBÃO E CLÁUDIO TOGNOLLI
NOVA FRONTEIRA
(2010)
R$ 20,00



O LADO BOM DA VIDA
MATTHEW QUICK
INTRÍNSECA
(2013)
R$ 11,90



VARIANTES NA VISUALIDADE
NELI KLIX FREITAS
UDESC
(2010)
R$ 15,00



UM RETIRO COM SÃO JOÃO E O ÊXODO - EQUIPE DE ITAICI
MANUEL EDUARDO IGLESIAS
LOYOLA
(1980)
R$ 8,20



SUA AMANTE SUA LEI MODERN SEXY
TRISH WYLIE
HARLEQUIN BOOKS
(2009)
R$ 3,50



LUCAS VENTANIA
VINICIUS DA VEIGA
CLUBE DO LIVRO
(1963)
R$ 7,00



CHUVA DE ROSAS
FREI PATRÍCIO SCIADINI
SHALON
(1998)
R$ 15,00



O VÍNCULO DO PRAZER
WILLIAM MASTERS / VIRGINIA JOHNSON
RECORD
(1975)
R$ 3,00



IT GIRL 6 - GAROTA EM TENTAÇÃO
CECILY VON ZIEGESAR
GALERA RECORD
(2010)
R$ 20,00



TSUBASA - RESERVOIR CHRONICLE - 01
CLAMP
JBC
(2003)
R$ 14,90





busca | avançada
37091 visitas/dia
862 mil/mês