Poesia e Guerra: mundo sitiado (parte II) | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 1/11/2016
Poesia e Guerra: mundo sitiado (parte II)
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 1400 Acessos

Dando continuidade à leitura do livro O mundo sitiado..., de Murilo Marcondes, agora adentramos na leitura empreendida pelo autor sobre a poesia de Drummond, Cecília Meireles e a relação estabelecida entre poesia e artes plásticas.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Em Drummond, o autor de O mundo sitiado... vê o desenvolvimento de uma poesia que vai da introspecção ao desejo de participar dos acontecimentos do mundo. Do jovem poeta indiferente e cheio de soberba (“´artista puro`, murmurava dentro de mim a vozinha orgulhosa”), ao poeta que faz sua autocrítica e desvela seu sentimento de culpa, criando, nesse contexto, a poesia de “Sentimento do mundo”. O que levou Drummond a sair de sua casca protetora? O fato é que, seguindo o raciocínio de Hobsbawn “a Segunda Guerra Mundial foi uma aula de geografia do mundo”, para todos. Os poetas sentiram o cheiro de pólvora vindo de longe.



Segundo Murilo Marcondes, essa internacionalização a partir da guerra produziu uma espécie de pulsação comum, fazendo com que o conceito de “humanidade” ganhasse uma concretude no momento em que a própria humanidade se desagregava. Partindo da análise dos poemas de Drummond (principalmente “Carta a Stalingrado”) e do contexto de suas produções, Marcondes chega à conclusão de que “a experiência da guerra cristalizou ainda mais o que nele era uma aptidão antiga e interiorizada para a poesia como expressão do ´vasto mundo`”.

O que, então, alteraria a forma da poesia de Drummond em sua relação com as circunstâncias? Pode-se ver, na análise do poema “Visão 1944”, que a ausência de rimas e artificialismos “teria a ver com o próprio assunto, os ´desastres da guerra`, lembrando a postura de Brecht em “Tempos ruins para a lírica”: “Em minha canção uma rima/ Me pareceria quase ato de soberba?” Marcondes vê uma afinidade entre Drummond e a “Cartilha de Guerra” de Brecht, “mas sobretudo por questões formais”.

Concluindo, diz Marcondes, comentando a poética de Drummond, “o que importa reter aqui é que a estrutura fixa e regular do poema fornece um enquadramento da guerra”.

Ao contrário do que veio a acontecer com Apollinaire, em Drummond a bestialidade da guerra tornou-se forma literária ampliada. O poder do horror diante da criação do poeta pode ser exemplificado no comentário, citado por Marcondes, feito por J. G. Clark a respeito do poema “A trincheira” de Apollinaire: “nesse poema Apollinaire recuaria em seu experimentalismo, numa suposta demonstração de que a poesia moderna, em geral soberana em relação à realidade imediata, titubeia diante do horror”.

CECÍLIA MEIRELES

Cecília Meireles, tal como aponta Murilo Marcondes, também é uma poeta que dialogou com as circunstâncias da guerra. Há nela, também, o “sentimento do mundo”. Em suas crônicas e no seu papel de empreendedora de discussões sobre educação, vemos a pacifista em ação, tomada pelas dores do mundo: “Eu tenho esse mau costume de sofrer pelo mundo inteiro. (...) vejo diante de mim a cara daqueles homens desgraçados que já viram uma guerra, quando ainda eram jovens, e estão a ponto de ver outra.”



Marcondes pergunta no seu livro: “a linguagem tantas vezes forte e incisiva da jornalista tem correspondência efetiva na obra da poeta?” Valeria Lamego coloca uma questão: “É impossível que a jornalista irônica e a poeta lírica fossem duas pessoas e não permitissem que a farpa da militância, de uma, maculasse a lira da poesia “cristalina”, da outra”.

Arlindo Daibert, como anota Marcondes, “também defende a presença de um “incômodo permanente” na obra de Cecília Meireles, latente na “enganosa aparência de fragilidade e de delicadeza” e no “preciosismo” da forma”. Também Paulo Rónai reconhecia a capacidade da poeta em “sentir os grandes problemas do seu tempo”, apesar de não admirar os poemas de guerra de Cecília.

Murilo Marcondes avança dizendo que a poesia de Cecília Meireles talvez seja uma das “mais permeáveis aos acontecimentos da Segunda Guerra”. Embora Cecília Meireles seja uma poeta virtuose, o autor coloca os termos no seu lugar justo: “Mas entenda-se virtuosismo, aqui, no sentido mais positivo possível – como mobilização de técnicas inteiramente a serviço da configuração linguística da experiência, no caso experiência de observação minuciosa da realidade, na qual o inventário tão exato dos detalhes parece-nos, paradoxalmente, quase fantasioso.”

Os críticos parecem não perdoar a aderência à temática da guerra em Cecília, como é o caso do já citado Paulo Rónai e sua crítica à “poesia de circunstância” da poeta: “os poemas com que responde aos apelos do presente, seus versos sobre a guerra e em geral os que ´levam uma data` não atingem o patético dos cinco imateriais ´motivos da rosa`”.

Murilo vai empreender uma discussão mais ampla sobre essa presença da história na poesia de Cecília Meireles. A perspectiva de Cecília em relação à guerra “é, por excelência, civil, já que formulada a partir da experiência privada e doméstica”, que por fim produziu “um amálgama curioso entre retração a um espaço reservado e a atitude internacionalista”.

A aproximação da “pastora das nuvens” (Cecília) e o “fazendeiro do ar” (Drummond) se dá, para o autor, quando aparece o poema “Elegia sobre a morte de Gandhi”. No caso, o poema se aproxima de Drummond quando o “eu” passa a estar “na rua com os homens”. Mas ainda assim, a indisposição da poeta pelo mundo é grande: “Agora chego e estremeço./ E olho e pergunto. E estranho o aroma da terra,/ as cores fortes do mundo/ e a face humana.”

É aqui que Murilo Marcondes vê a face política de Cecília: “essa indisposição é criadora, isto é, autêntica fonte de poesia, além de ser, à sua maneira recolhida, profundamente política.”

Como não pensar, nesse sentido, na leitura que Adorno faz de Beckett ou, no caso mais próximo à temática da guerra, da poesia de Celan: “Os poemas de Celan querem exprimir o horror extremo através do silêncio. O seu próprio conteúdo de verdade torna-se negativo. Imitam uma linguagem aquém da linguagem impotente dos homens [...] A infinita discrição, com que procede o radicalismo de Celan, aumenta a sua força". (in: Teoria Estética). Para Adorno, o "horror extremo" da Segunda Guerra impossibilitaria uma representação idealista, com um sujeito lírico plenamente constituído.

Para penetrar no universo de Cecília a partir da questão de “como essa poesia, que afastou deliberadamente a presença forte do mundo, confrontou o acontecimento histórico mais trágico e espaventoso do século XX?”, Murilo Marcondes se introduz nas entranhas de poemas como “Pistoia, cemitério militar brasileiro” (que descarta “qualquer ênfase na glória militar”), “Lamento da noiva do soldado” (“que retrata a guerra da perspectiva individualista”), “Balada do soldado” e “Declaração de amor em tempos de guerra”, além de outros poemas, como “Guerra”.

Os poemas são analisados em suas estruturas linguístico-formais a partir da questão da recepção dos acontecimentos da guerra no contexto brasileiro. Como em “Guerra”, poema onde percebe-se que “a presença da guerra é sentida como excessiva, e a maior distância é já proximidade perturbadora.” É o que anotaria Adorno em sua “Teoria Estética”, quando diz que “os antagonismos não resolvidos da realidade retornam às obras de arte como os problemas imanentes de sua forma". As notícias de jornais aparecem para perturbar a paz bucólica da poeta (aquela que queria ser árvore), que vai ter que lidar com o “recado da loucura”, notícias essas “suficientes para ameaçar a calma e a inocência do lugar onde transcorrem os dias felizes”. “Uma sombra em meio à claridade”, ou “a presença do mal em meio à inocência”, resume Murilo Marcondes.

O livro O mundo sitiado... é um tratado enorme, bastante complexo em suas reflexões para que uma simples resenha dê conta de uma avaliação razoável. Deixamos, por exemplo, de comentar a leitura empreendida sobre a poesia de Murilo Mendes e Henry Michaux.

Antes de encerrarmos, no entanto, vale mais um rápido comentário sobre a questão da aproximação da poesia e das artes plásticas no livro de Murilo Marcondes.

POESIA E ARTES PLÁSTICAS

É bastante importante dentro do método de pesquisa e análise de Murilo Marcondes a introdução de outros gêneros artísticos na leitura de uma obra literária, pois faz-se assim a aproximação das sensibilidades criativas dentro de um tempo específico e de uma problemática que permeia as preocupações de vários artistas simultaneamente.

A aproximação entre poesia e artes plásticas na leitura, por exemplo, do melancólico poema “Lamento do oficial por seu cavalo morto”, de Cecília Meireles, quando o tema da natureza do cavalo (“animal encantado”) é apresentando como contraposto ao homem (esta besta-fera), vale-se da relação de sua poesia com leitura de obras de artistas como Swebach e Géricault.



Dentro dessa aproximação, Marcondes acrescenta o aporte teórico da historiadora Arlette Farge, que nos fala de uma “fadiga da guerra”, comum na poética de Cecília e dos pintores: “Dizer a guerra é também saber se desviar da habitual representação cruel ou heroica para sussurrar suas feridas”.

Também, para ficar em apenas mais um exemplo, quando Marcondes empreende a leitura do poema “Visão 1944”, de Drummond, buscando aproximação com uma obra de Lasar Segall da série “Visões da Guerra”, concentrando-se na ideia de “uma variante eficaz do motivo goyesco da visão intolerável da guerra (No se puede mirar). Em Segall “o espectador só sabe das vítimas por meio do olhar aterrado da mulher”. Nos versos de Drummond “Meus olhos são pequenos para ver/ todos os mortos, todos os feridos/ e este sinal no queixo de uma velha/ que não pôde esperar a voz dos sinos.”

Eis aqui uma aproximação que coloca a temática da guerra e de seus sofrimentos como inerente aos vários gêneros artísticos. A música também participa dessa aproximação, quando, por exemplo, Murilo Marcondes comenta a relação entre Murilo Mendes e a música de Olivier Messiaen e Arthur Honegger.

“CONSTRUA PIRÂMIDES”

O excelente trabalho de Murilo Marcondes, “O mundo sitiado...”, construído, pensado e repensado na tranquilidade de um longo tempo, que é o que é necessário à meditação profunda, vai de choque contra a política da produção das universidades de hoje, preocupadas em rechear currículos com trabalhos feitos à toque de caixa, sem profundidade, sem reflexão demorada e de qualidade. Vale aqui o conselho do escritor Guimarães Rosa aos jovens escritores: “Não fabrique biscoitos, construa pirâmides”.

O trabalho O mundo sitiado: a poesia brasileira e a Segunda Guerra, de Murilo Marcondes, é o que nós podemos chamar de uma grande pirâmide. Por muitas gerações será admirado.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 1/11/2016


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