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Quinta-feira, 3/11/2016
Três filmes sobre juventude no novo século
Guilherme Carvalhal

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Há dois filmes sobre juventude pós-ano 2000 bastante significativos. Um é dos Estados Unidos, Na Natureza Selvagem (2007, de Sean Penn). O outro é o alemão Os Edukadores (2004, de Hans Weingartner).

Essas duas obras são repletas de um romantismo juvenil que beiram a ingenuidade. No filme alemão, um trio de jovens se dedica a uma militância rebelde (anticapitalista, socialista, ou alguma terminologia do gênero). Eles invadem a casa de pessoas ricas, reviram seus móveis e deixam um recado politizado. Já Na Natureza Selvagem traz a história real de Chris McCandless, um jovem estadunidense de classe média e boa instrução que se cansa da vida em sociedade e viaja rumo ao Alasca por considerar que a vida em meio à natureza reserva maior felicidade para ele. Sujeito citadino, não consegue se virar em ambiente inóspito e morre.

Esses dois filmes se assemelham no ponto de mostrar uma pulsão juvenil por rebeldia canalizada por uma causa sem sentido, ou sem utilidade prática. Fazendo mais jus ao nome que o filme estrelado por James Dean, são rebeldes sem causa. Isso porque a geração de 1950 até 1970 ainda enfrentava uma relação forte de autoridade que seguia da casa ao governo. Foi a geração do movimento hippie, das revoltas de 1968, etc. Uma geração que se posicionou em vários extremas, da luta contra ditaduras na América Latina, contra a Guerra do Vietnã nos Estados Unidos, contra o regime socialista em Praga ou simplesmente contra o status quo na França.

Já a geração pós-2000 é de uma rebeldia bem menos direcionada, e até bastante conservadora, pode-se dizer. Foi uma juventude que cresceu beneficiada pelos ganhos da geração anteriores, pelas liberdades e pelos direitos. Também é uma geração que nasceu dentro de um mundo globalizado, tendo logo na infância um vídeo game japonês e brinquedos com o selo Made in Taiwan. É a geração que formou o público-alvo desses dois filmes: bem esclarecida, gozando de muitas vantagens em relação à geração de seus pais e com esse instinto de rebeldia sem um bom equalizador.

A essa lista adiciono um terceiro, Elefante (2003, de Gus Van Sant), também dos Estados Unidos. Aqui, a questão da juventude é problematizada com outra visão, mostrando as muitas relações em uma escola tendo como ponto chave dois garotos que entram armados e causam uma chacina. Claramente inspirado no massacre de Columbine, coloca no cerne as frustrações de uma juventude materialista em que o consumo se sobrepõe às relações afetivas e que essa troca resulta em um senso de desorientação que descamba em violência.

Se os dois primeiros nos ajudam a construir uma visão mais próxima à política da juventude posterior à queda do muro de Berlim, enfocando o âmbito das questões públicas, o terceiro tem uma abordagem mais próxima do íntimo, mostrando relações mais privadas. É a questão afetiva, a ideia de desencaixe social existente no adolescente, a relação com os mais velhos e as expectativas de vida que guiam o roteiro.

Esse tipo de abordagem não é uma novidade no cinema. Desde James Dean e Marlon Brando que essas histórias juvenis carregadas de drama começaram a ganhar espaço. Filmes como Amor, sublime amor, Hair e Sem Destino colocaram em evidência a existência de uma juventude ávida por aventura, discordando da “caretice” e querendo construir uma nova percepção de realidade.

Na década de 1980 essa ideia de juventude nos cinemas deu uma mudada. O tom dramático deu espaço a algo mais jocoso, como na série Porky's, em Clube dos Cafajestes, e nos filmes de John Hughes (criando um estilo de humor que existe até os dias atuais). Algumas exceções como Cristiane F. foram produzidas, mas a concepção de juventude na era Madonna e Michael Jackson esteve mais perto da exacerbação do estilo e do consumo do que na questão política.

A década de 1990 retomou essa ideia da juventude perdida e decepcionada. Do suicídio de Kurt Cobain ao sucesso de Kids, a evidência de uma juventude desnorteada começava a se fazer presente. Da politização dos tempos hippies à rendição do consumismo, nasceu um novo filho, o do jovem sem base e sem referência em um mundo em que drogas e violência abundam. Por outro lado, a juventude também é mostrada de uma maneira plastificada, como na indústria de vídeo clipe da MTV ou na série American Pie. Nesses casos, persiste o jovem quer vive por conta dos pais, atrás de sexo e dos prazeres mundanos, encarando um mundo capitalista à sua frente quando a vida adulta chegar.

Os três filmes mais recentes que citei trazem uma perspectiva interessante nessa abordagem de uma juventude e sua relação com o mundo, pois formam uma retomada de uma visão do jovem enquanto alguém também imbuído de um sentido de politização. Gus Van Sant é um cineasta que mescla paixão pela juventude com uma fina percepção de mundo. Sean Penn tem em seu currículo como ator o filme Picardias Estudantis, uma comédia adolescente da década de 1980, mas que traz dramas profundos, como aborto. De certa maneira, os anos 2000 levaram quem se formou durante os períodos anteriores a propor uma visão diferenciada desse tema nas telonas, indo além do pastiche e da visão de juventude perdida.

Essa mescla de rebeldia descambada com uma vida desencantada formam um painel interessante para notar-se movimentos que eclodem, até porque nos últimos anos surgiram movimentos juvenis por vários cantos do mundo. Das manifestações convocadas pelo Pussy Riot em Moscou à Primavera Árabe que descambou na queda de ditaduras como Ben Ali na Tunísia, Mubarak no Egito e Kadafi na Líbia, uma nova relação com a política se formou, boa parte dela movida pela capacidade de comunicação produzida pela internet e pela geração que cresceu com a globalização.

Falar dessa geração pressupõe pensar em jovens bem diferentes de suas gerações anteriores. É uma geração que cresceu com TV, internet e vídeo games, cuja formação de valores ultrapassa a esfera de sua família, igreja e escola, historicamente os baluartes da formação do indivíduo. Os anseios dessa geração extrapolam as barreiras fronteiriças e seus sonhos de consumo se ampliam, associando-se essa perspectiva individual a um mundo menos seguro para as realizações, em que a violência nas cidades é uma ameaça constante e um colapso financeiro como o de 2008 podem transformar carreiras e projetos financeiros em pó.

Outro ponto dessa relação da juventude pós-2000 com os três filmes é o fator anacronismo. Gus Van Sant apresentou um filme genuinamente retratando o momento presente, porém quanto aos outros dois vale uma ressalva. Chris McCandless viveu suas aventuras no começo da década de 1990. Já a história de Os Edukadores parece ter saído da Guerra Fria. Foram filmes que chamaram a atenção da juventude contemporânea, mas possuem um contexto muito forte de tempos passados. Isso reverbera ao notar-se que a simbologia dessa rebeldia juvenil atual é muito motivada pelo passado. Grupos feministas enaltecem Frida Kahlo e grupos de esquerda se valem de Che Guevara. Em um movimento de ocupação de escolas, os adolescentes cantavam Pra não dizer que não falei das flores. A juventude atual carece de ícones e, para supri-los, busca-os no passado.

É com esse mundo complexo que se formou após a queda do muro de Berlim, a chamada nova ordem mundial originada a partir do momento em que a União Soviética se desmantelou, que os três filmes se comunicam. É essa geração, que passou seu início de carreira em meio a uma crise econômica e que vê muitas das esperanças irem abaixo através de maquinações no mercado financeiro, que se encantou com o romantismo meio abobalhado de Chris McCandless. É sobre as frustrações de uma juventude desnorteada por uma época desprovida de utopias que Elefante se refere. E é a busca por utopias, mesmo que vazias, o tema principal de Edukadores.


Guilherme Carvalhal
Itaperuna, 3/11/2016


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