Três filmes sobre juventude no novo século | Guilherme Carvalhal | Digestivo Cultural

busca | avançada
37163 visitas/dia
993 mil/mês
Mais Recentes
>>> Série Bravos! apresenta a trajetória da artista maranhense Thabata Lorena
>>> Caminhos da Reportagem discute preconceito, tabu e silêncio em torno do suicídio
>>> Jornalista Mário Magalhães debate biografias no Trilha de Letras da TV Brasil
>>> 3ª MOSTRA DE CINEMA CHINÊS
>>> CIENTISTA POLÍTICO E SOCIAL JULIO AURÉLIO LANÇA VIVER EM REDE COM DEBATE NA CASA DE RUI BARBOSA
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Notas de leitura sobre Inácio, de Lúcio Cardoso
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto
>>> O Wunderteam
>>> Fake news, passado e futuro
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
>>> Da varanda, este mundo
>>> Estevão Azevedo e os homens em seus limites
>>> Séries da Inglaterra; e que tal uma xícara de chá?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> É de fibra
>>> O indomável Don Giovanni
>>> Caracóis filosóficos
>>> O mito dos 42 km
>>> Setembro Paulista
>>> Apocalipse agora
>>> João, o Maestro (o filme)
>>> Metropolis e a cidade
>>> PETITE FLEUR
>>> O fantasma de Nietzsche
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Entrevista com Guilherme Fiuza
>>> A literatura de Giacomo Casanova
>>> Dom Quixote, matriz de releituras
>>> Rejoicing in the Hands
>>> Entrevista com o poeta Régis Bonvicino
>>> Pascal e a condição humana
>>> Alberto Caeiro, o tal Guardador de Rebanhos
>>> O gato diz adeus
>>> Ascese, uma instalação do artista Eduardo Faria
>>> Rousseau e a Retórica Moderna
Mais Recentes
>>> A Mão E A Luva
>>> Revista Planeta n° 7
>>> Larry Clabb ( o silencio de Adão )
>>> Fragmentos De Uma Luta Ecológica
>>> Educação Na Constituição E Outros Estudos
>>> Álbum De Casamento - Quarteto De Noivas 1
>>> Pássaro Contra A Vidraça
>>> Os últimos dias de Jesus
>>> Depois do calvário
>>> A Queda - As Memórias De Um Pai Em 424 Passos
>>> James Dean Por Ele Mesmo
>>> Jesus de Nazaré
>>> A Grande Jogada
>>> Aumente O Poder De Sua Memória
>>> A Infância de Jesus
>>> Revista Iate Nº 29
>>> Olhos Insanos
>>> Jesus de Nazaré - Da entrada em Jerusalém até Ressurreição
>>> A Estética dos Odores - O Sentido do Olfato no Cuidado de Enfermagem Hospitalar
>>> Um Homem Célebre - Machado Recriado
>>> A Casa Civil
>>> Práticas Corporais - Volume 2
>>> À Margem De Alice
>>> Project Para Profissionais
>>> Do Lazareto Dos Variolosos Ao Instituto De Infectologia Emilio Ribas: 130 Anos De História Da Saúde Pública No Brasil
>>> Sal da Terra
>>> Deus Existe?
>>> Luz do Mundo - o Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos. Uma conversa com Peter Seewald
>>> A Ideia Central das Epístolas de Paulo Perdoai vos uns aos Outros
>>> Racionalidade da Fé Cristã Argumentos para sua Defesa
>>> O Fator Integridade
>>> O Cânon das Escrituras
>>> A Ideia Central das Epístolas de Paulo O Encargo Central de Paulo
>>> Uma Vida com Propósito e Qualidade de Vida + Um Casal que Coopera com Deus
>>> A Ideia Central das Epístolas de Paulo Pastorear o Rebanho de Deus
>>> O Plano de Deus para as Nações
>>> O Imutável Amor de Deus
>>> Sucesso e Fracasso de um Líder
>>> A Manifestação do Espírito
>>> 40 Lições Essencias para a Vida Cristã Volume 1
>>> Sobre o Céu e a Terra: As reflexões do novo Papa sobre a família, a fé e o papel da Igreja
>>> Compreender a Igreja hoje
>>> Platero E Eu
>>> O Piano
>>> Blue Like Jazz - Nonreligious Thoughts On Christian Spirituality
>>> A Prece Ucraniana na Pressa da Cidade- as renegociações das práticas religiosas ucranianas nos espaços da cidade de Curitiba, a partir de 1960
>>> Harmonia
>>> O Muro
>>> Tetralogia Monstro
>>> O Poder da Mulher que Ora
COLUNAS

Quinta-feira, 3/11/2016
Três filmes sobre juventude no novo século
Guilherme Carvalhal

+ de 1600 Acessos



Há dois filmes sobre juventude pós-ano 2000 bastante significativos. Um é dos Estados Unidos, Na Natureza Selvagem (2007, de Sean Penn). O outro é o alemão Os Edukadores (2004, de Hans Weingartner).

Essas duas obras são repletas de um romantismo juvenil que beiram a ingenuidade. No filme alemão, um trio de jovens se dedica a uma militância rebelde (anticapitalista, socialista, ou alguma terminologia do gênero). Eles invadem a casa de pessoas ricas, reviram seus móveis e deixam um recado politizado. Já Na Natureza Selvagem traz a história real de Chris McCandless, um jovem estadunidense de classe média e boa instrução que se cansa da vida em sociedade e viaja rumo ao Alasca por considerar que a vida em meio à natureza reserva maior felicidade para ele. Sujeito citadino, não consegue se virar em ambiente inóspito e morre.

Esses dois filmes se assemelham no ponto de mostrar uma pulsão juvenil por rebeldia canalizada por uma causa sem sentido, ou sem utilidade prática. Fazendo mais jus ao nome que o filme estrelado por James Dean, são rebeldes sem causa. Isso porque a geração de 1950 até 1970 ainda enfrentava uma relação forte de autoridade que seguia da casa ao governo. Foi a geração do movimento hippie, das revoltas de 1968, etc. Uma geração que se posicionou em vários extremas, da luta contra ditaduras na América Latina, contra a Guerra do Vietnã nos Estados Unidos, contra o regime socialista em Praga ou simplesmente contra o status quo na França.

Já a geração pós-2000 é de uma rebeldia bem menos direcionada, e até bastante conservadora, pode-se dizer. Foi uma juventude que cresceu beneficiada pelos ganhos da geração anteriores, pelas liberdades e pelos direitos. Também é uma geração que nasceu dentro de um mundo globalizado, tendo logo na infância um vídeo game japonês e brinquedos com o selo Made in Taiwan. É a geração que formou o público-alvo desses dois filmes: bem esclarecida, gozando de muitas vantagens em relação à geração de seus pais e com esse instinto de rebeldia sem um bom equalizador.

A essa lista adiciono um terceiro, Elefante (2003, de Gus Van Sant), também dos Estados Unidos. Aqui, a questão da juventude é problematizada com outra visão, mostrando as muitas relações em uma escola tendo como ponto chave dois garotos que entram armados e causam uma chacina. Claramente inspirado no massacre de Columbine, coloca no cerne as frustrações de uma juventude materialista em que o consumo se sobrepõe às relações afetivas e que essa troca resulta em um senso de desorientação que descamba em violência.

Se os dois primeiros nos ajudam a construir uma visão mais próxima à política da juventude posterior à queda do muro de Berlim, enfocando o âmbito das questões públicas, o terceiro tem uma abordagem mais próxima do íntimo, mostrando relações mais privadas. É a questão afetiva, a ideia de desencaixe social existente no adolescente, a relação com os mais velhos e as expectativas de vida que guiam o roteiro.

Esse tipo de abordagem não é uma novidade no cinema. Desde James Dean e Marlon Brando que essas histórias juvenis carregadas de drama começaram a ganhar espaço. Filmes como Amor, sublime amor, Hair e Sem Destino colocaram em evidência a existência de uma juventude ávida por aventura, discordando da “caretice” e querendo construir uma nova percepção de realidade.

Na década de 1980 essa ideia de juventude nos cinemas deu uma mudada. O tom dramático deu espaço a algo mais jocoso, como na série Porky's, em Clube dos Cafajestes, e nos filmes de John Hughes (criando um estilo de humor que existe até os dias atuais). Algumas exceções como Cristiane F. foram produzidas, mas a concepção de juventude na era Madonna e Michael Jackson esteve mais perto da exacerbação do estilo e do consumo do que na questão política.

A década de 1990 retomou essa ideia da juventude perdida e decepcionada. Do suicídio de Kurt Cobain ao sucesso de Kids, a evidência de uma juventude desnorteada começava a se fazer presente. Da politização dos tempos hippies à rendição do consumismo, nasceu um novo filho, o do jovem sem base e sem referência em um mundo em que drogas e violência abundam. Por outro lado, a juventude também é mostrada de uma maneira plastificada, como na indústria de vídeo clipe da MTV ou na série American Pie. Nesses casos, persiste o jovem quer vive por conta dos pais, atrás de sexo e dos prazeres mundanos, encarando um mundo capitalista à sua frente quando a vida adulta chegar.

Os três filmes mais recentes que citei trazem uma perspectiva interessante nessa abordagem de uma juventude e sua relação com o mundo, pois formam uma retomada de uma visão do jovem enquanto alguém também imbuído de um sentido de politização. Gus Van Sant é um cineasta que mescla paixão pela juventude com uma fina percepção de mundo. Sean Penn tem em seu currículo como ator o filme Picardias Estudantis, uma comédia adolescente da década de 1980, mas que traz dramas profundos, como aborto. De certa maneira, os anos 2000 levaram quem se formou durante os períodos anteriores a propor uma visão diferenciada desse tema nas telonas, indo além do pastiche e da visão de juventude perdida.

Essa mescla de rebeldia descambada com uma vida desencantada formam um painel interessante para notar-se movimentos que eclodem, até porque nos últimos anos surgiram movimentos juvenis por vários cantos do mundo. Das manifestações convocadas pelo Pussy Riot em Moscou à Primavera Árabe que descambou na queda de ditaduras como Ben Ali na Tunísia, Mubarak no Egito e Kadafi na Líbia, uma nova relação com a política se formou, boa parte dela movida pela capacidade de comunicação produzida pela internet e pela geração que cresceu com a globalização.

Falar dessa geração pressupõe pensar em jovens bem diferentes de suas gerações anteriores. É uma geração que cresceu com TV, internet e vídeo games, cuja formação de valores ultrapassa a esfera de sua família, igreja e escola, historicamente os baluartes da formação do indivíduo. Os anseios dessa geração extrapolam as barreiras fronteiriças e seus sonhos de consumo se ampliam, associando-se essa perspectiva individual a um mundo menos seguro para as realizações, em que a violência nas cidades é uma ameaça constante e um colapso financeiro como o de 2008 podem transformar carreiras e projetos financeiros em pó.

Outro ponto dessa relação da juventude pós-2000 com os três filmes é o fator anacronismo. Gus Van Sant apresentou um filme genuinamente retratando o momento presente, porém quanto aos outros dois vale uma ressalva. Chris McCandless viveu suas aventuras no começo da década de 1990. Já a história de Os Edukadores parece ter saído da Guerra Fria. Foram filmes que chamaram a atenção da juventude contemporânea, mas possuem um contexto muito forte de tempos passados. Isso reverbera ao notar-se que a simbologia dessa rebeldia juvenil atual é muito motivada pelo passado. Grupos feministas enaltecem Frida Kahlo e grupos de esquerda se valem de Che Guevara. Em um movimento de ocupação de escolas, os adolescentes cantavam Pra não dizer que não falei das flores. A juventude atual carece de ícones e, para supri-los, busca-os no passado.

É com esse mundo complexo que se formou após a queda do muro de Berlim, a chamada nova ordem mundial originada a partir do momento em que a União Soviética se desmantelou, que os três filmes se comunicam. É essa geração, que passou seu início de carreira em meio a uma crise econômica e que vê muitas das esperanças irem abaixo através de maquinações no mercado financeiro, que se encantou com o romantismo meio abobalhado de Chris McCandless. É sobre as frustrações de uma juventude desnorteada por uma época desprovida de utopias que Elefante se refere. E é a busca por utopias, mesmo que vazias, o tema principal de Edukadores.


Guilherme Carvalhal
Itaperuna, 3/11/2016


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O dia que nada prometia de Luís Fernando Amâncio
02. Nuvem Negra* de Marilia Mota Silva
03. A Coreia do Norte contra o sarcasmo de Celso A. Uequed Pitol
04. A pérola do cinema sul-americano de Guilherme Carvalhal
05. O que vai ser das minhas fotos? de Ana Elisa Ribeiro


Mais Guilherme Carvalhal
Mais Acessadas de Guilherme Carvalhal em 2016
01. Submissão, oportuno, mas não perene - 5/5/2016
02. Brasil em Cannes - 30/6/2016
03. Dheepan, uma busca por uma nova vida - 28/7/2016
04. Os novos filmes de Iñárritu - 17/3/2016
05. O quanto podemos compreender - 15/12/2016


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




DONNIE DARKO - EDITORA DARKSIDE
EDITORA DARKSIDE
DARKSIDE
(2016)
R$ 25,00



A ARTE DA SEDUÇAÕ
NELMA PENTEADO
MANDARIM
(2000)
R$ 10,00



NOVO MUNDO - CARTAS DE VIAGENS E DESCOBERTAS
AMÉRICO VESPÚCIO
L&PM
(1984)
R$ 27,00



ENCONTROS SOCIOAMBIENTAIS COM LENINE
VÁRIOS AUTORES
MAMELUCO
(2014)
R$ 40,00



BENJAMIN, ADORNO, HORKHEIMER E HABERMAS - OS PENSADORES
COLEÇÃO OS PENSADORES
ABRIL CULTURAL
(1980)
R$ 12,00



NÓS SOMOS TODOS IMORTAIS
PATRICK DROUOT
NOVA ERA
(1996)
R$ 8,99



A ÚLTIMA DANÇA
ED MCBAIN
RECORD
(2003)
R$ 10,00



SILAS MALAFAIA ( LIÇÕES DE VENCEDOR)
SILAS MALAFAIA
CENTRAL GOSPEL
(2017)
R$ 20,00
+ frete grátis



DESCUBRA SEUS PONTOS FORTES
MARCUS BUCKINGHAM E DONALD O. CLIFTON, PH.D
SEXTANTE
(2006)
R$ 13,00



QUARTA-FEIRA DE CINZAS
ETHAN HAWKE
EDIOURO
(2003)
R$ 12,00
+ frete grátis





busca | avançada
37163 visitas/dia
993 mil/mês