Um Cântico para Rimbaud, de Lúcia Bettencourt | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
36458 visitas/dia
993 mil/mês
Mais Recentes
>>> ESCOLA PANAMERICANA REALIZA NOVA EDIÇÃO DO ARTESCAMBO
>>> Evento apresenta influência da gastronomia italiana na cultura de São Paulo
>>> Festival Cine Inclusão tem sessão de encerramento dia 23/9 na Unibes Cultural
>>> Exposição de Fábio Magalhães na CAIXA Cultural São Paulo termina dia 24 de setembro
>>> Vânia Bastos apresenta o premiado "Concerto para Pixinguinha", no Teatro Municipal Teotônio Vilela,
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Notas de leitura sobre Inácio, de Lúcio Cardoso
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto
>>> O Wunderteam
>>> Fake news, passado e futuro
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
>>> Da varanda, este mundo
>>> Estevão Azevedo e os homens em seus limites
>>> Séries da Inglaterra; e que tal uma xícara de chá?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> É de fibra
>>> O indomável Don Giovanni
>>> Caracóis filosóficos
>>> O mito dos 42 km
>>> Setembro Paulista
>>> Apocalipse agora
>>> João, o Maestro (o filme)
>>> Metropolis e a cidade
>>> PETITE FLEUR
>>> O fantasma de Nietzsche
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Entrevista com o poeta Régis Bonvicino
>>> Pascal e a condição humana
>>> Alberto Caeiro, o tal Guardador de Rebanhos
>>> O gato diz adeus
>>> Ascese, uma instalação do artista Eduardo Faria
>>> Rousseau e a Retórica Moderna
>>> Sartre e a idade da razão
>>> Encontros (e desencontros) com Daniel Piza
>>> Para você estar passando adiante
>>> Para você estar passando adiante
Mais Recentes
>>> Platero E Eu
>>> O Piano
>>> Blue Like Jazz - Nonreligious Thoughts On Christian Spirituality
>>> A Prece Ucraniana na Pressa da Cidade- as renegociações das práticas religiosas ucranianas nos espaços da cidade de Curitiba, a partir de 1960
>>> Harmonia
>>> O Muro
>>> Tetralogia Monstro
>>> O Poder da Mulher que Ora
>>> Historia Geral Da Africa, Vol.2 Africa Antiga
>>> Revista de Cultura Brasileña - Número 39, junho de 1975 (ESPANHOL/PORTUGUÊS)
>>> Perspectivas da Cultura Brasileira - Miguel Reale
>>> Cenas de um casamento sueco - Ingmar Bergman (Cinema)
>>> Movimento Brasileiro: Contribuição ao estudo do Modernismo - Maria Eugênia da Gama Alves Boaventura (Arte e Ciências Humanas)
>>> André Malraux: Três aspectos e uma síntese (A aventura, a política, a arte) Frederico dos Reys Coutinho (Literatura Francesa)
>>> A música na Revolução Francesa - Enio Squeff
>>> A Invasão Cultural Norte-Americana - Júlia Falivene Alves (Cultura)
>>> Arte-Educação no Brasil - Ana Mae T. B. Barbosa
>>> Informação. Linguagem.Comunicação. - Decio Pignatari (Comunicação)
>>> Mito e Realidade - Mircea Eliade (Filosofia)
>>> A Holanda no tempo de Rembrandt - Paul Zumthor (Artes Plásticas)
>>> Portinari: Exposição de sua obra de 1920 até 1948 (Artes Plásticas)
>>> O Surrealismo - Yvon Duplessis (Arte/Estética)
>>> Museu Lasar Segall - 50 obras do acervo (Artes Plásticas)
>>> Arte & Deformação - Como entender a estética moderna - Assis Brasil
>>> El Arte: Formas de la conciencia social - V. Kelle/M. Kovalson (Em Espanhol) (Arte e Política)
>>> A Perspectiva - R. Taton & A. Flocon (Artes Plásticas)
>>> Cultura de Massa e Política de Comunicações - Waldenyr Caldas
>>> Problemas del arte en la revolución - Carlos Ragael Rodríguez (Em Espanhol)
>>> Itinerario estético da la Revolución Cubana - José Antonio Portuondo EM ESPANHOL(Estética)
>>> O Livro Perdido de Enki-Memórias e Profecias de um Deus Extraterrestre
>>> A Igreja
>>> Blecaute - 28ª ed.
>>> O Populismo na Política Brasileira
>>> Livro de Colorir Reino Animal
>>> Nas Trilhas da Crítica - Coleção: Críticas Poéticas
>>> Fé em Busca de Compreensão
>>> Carta aos Romanos
>>> Enciclopédia da Vida Selvagem - Animais da Selva III
>>> Mary Poppins
>>> Antologia Da Literatura Fantástica
>>> Saco de Ossos - 2 volumes
>>> Olhe Para Mim
>>> Guia Prático Enem - Matemática E Suas Tecnologias
>>> A Sombra Materna
>>> Histórias Da Vida Inteira
>>> Honoráveis Bandidos - Um Retrato Do Brasil Na Era Sarney
>>> Eternidade Mortal
>>> Ambientes Da Democracia Ambiental
>>> Trinta Anos Esta Noite - O que Vi e Vivi
>>> Pimenta Do Reino Em Pó
COLUNAS

Terça-feira, 21/2/2017
Um Cântico para Rimbaud, de Lúcia Bettencourt
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 1900 Acessos



Eu levei um ano e meio para ler O Regresso: a última viagem de Rimbaud, de Lúcia Bettencourt, publicado em 2015 pela editora Rocco. Não, o livro não tem 3.000 páginas. Tem apenas 191 páginas. Mas são 191 páginas de pura poesia. E não se lê poesia às pressas. E quando essa poesia tem o sabor de um pêssego maduro, deve-se devorá-lo com calma, sentindo prazer em cada um de seus detalhes, na observação da sua cor, na sua textura, no seu cheiro, na sua doçura, no seu caldo suave... O livro de Bettencourt é um Cântico dos Cânticos para Rimbaud.

O livro se propõe um encontro ficcional com o poeta Arthur Rimbaud. Apesar de ficcional o livro é embasado em informações objetivas sobre a vida do poeta e sobre a sua obra. No entanto, os dados objetivos são transfigurados pela escrita poética de Bettencourt que recria Rimbaud de uma forma absolutamente sensorial, num texto que vai da descrição sensual dos movimentos da natureza à revelação das aventuras e desventuras da existência física e espiritual do escritor.

Uma cópula literária como nunca se viu sobre Rimbaud, num fraseado poético que fala de si mesmo, ou seja, da própria natureza dessa escrita que recria o poeta: “Percorro com os dedos o seu corpo. Será que você advinha as palavras que traço? Jamais escrevo aquelas que me parecem muito solenes, desaconselháveis. Uma a uma, vou traçando as letras, usando ora as pontas dos dedos, essas almofadinhas macias e redondas, suaves, ou a ponta das unhas, que vão deixando na sua pele traços finos que depois apago com a língua.”

Luxo e voluptuosidade na escolha das palavras: quem ama o feio, através da literatura, bonito lhe parece. Rimbaud torna-se aleijado, seu corpo queimado, mal nutrido, sendo destruído pela doença que o matará, aparece para Bettencourt em todo seu horror, terror e desvario. Ao grande poeta, reduzido à uma existência física dolorosa, longe do mundo das letras, lhe resta repensar momentos de sua existência terrível, sempre passeando no inferno: “Revejo em minha infância os rostos sujos e famintos de crianças, maltratadas, brutalizadas, que, por sua vez, maltratavam os seres menores que elas, fossem irmãos mais novos, animais ou répteis e insetos. Com que requinte de crueldade aprisionavam pássaros e furavam seus olhos redondos como contas brilhantes!”

Rememorando o momento em que ainda a existência ganhava algum sentido, o poeta de Bettencourt mergulha em nostalgias melancólicas: “Houve um tempo em que as palavras serviam de consolo. Quando o real se tornava insuportável, um livro abria-se dócil e nos carregava em suas páginas mágicas para outros mundos, lugares em que o mal acabava sempre sendo castigado e onde todo sofrimento recebia sua recompensa, ainda na terra.” Corroído pela dor, pela solidão, pela desgraça que o abate, o sentido da existência é colocado em dúvida por Rimbaud: “Quantas vezes me perguntei por que existimos? Que Deus cruel e sádico terá criado esses bonecos cheios de sentimentos e emoções, para se divertir destruindo todas as suas ilusões?”

A literatura de Bettencourt não apela aos sentimentos fáceis, ao contrário investiga o coração amargurado de Rimbaud, trazendo para esse universo de sofrimento as sequelas reais da sua vida. Ao perder a perna, por exemplo, a descrição da tensão na natureza torna-se o preâmbulo para a descrição angustiosa do enterro de seu membro: “Na manhã úmida, o vento soprava inquietando as folhas das árvores, que sussurravam coisas incompreensíveis. (...) Impossível acreditar que tinha sido preciso fazer uma cerimônia fúnebre para um membro inútil! (...) Uma perna, numa cova, como uma semente que se planta.” Essa correlação entre natureza e natureza interior do personagem e entre objetos e a existência de Rimbaud faz a poesia surgir a todo momento no livro de Bettencourt.

A amargura não é só de Rimbaud, ela atravessa a vida de sua família, mãe e irmã, que o socorrem no fim da vida, visitando hospitais, acompanhando suas lamúrias, sua dor, seu desespero. Para encontrar o poeta é preciso encontrar a alma de sua família, o desespero de sua mãe solitária, mas desejosa da vida plena, como quando reclama da ausência do marido: “Queria a sensação dos bigodes louros esfregando-se em seu pescoço, queria sentir a pele firme e os pelos dourados que a cobriam, queria o cheiro do macho, seu gozo resfolegante, o calor que lhe abrasava as coxas e o ventre e lhe provocava risos e gemidos.”

O livro perpassa os vários momentos em que Rimbaud se angustia diante das feridas que o consomem e o impossibilitam de continuar sua vida de aventureiro. A difícil trajetória até o hospital e as más notícias que sua doença lhe traz, seu desespero depois do veredicto: “No dia seguinte eles vieram, os médicos. E, desta, vez, falaram. Nas suas vestes brancas, os longos aventais brancos, eles se achegaram, semelhantes a anjos. Abriram suas bocas e me condenaram. Achei que era o fim. Que aquele seria o pior momento, a queda. (...) abanaram as cabeças, negando as esperanças de seus olhos. A sentença foi unânime: Amputação.”

Através do texto de Bettencourt vamos entrando lentamente na alma do “adolescente indomável” que foi Rimbaud, na sua pior fase, a do regresso do poeta ao seu país, à sua família, às suas memórias. “Começo a perceber que meu regresso será meu ponto de partida.”



Morrendo o poeta, reinventa-se infinitamente o mito. “Talvez eles se interessem apenas pelo meu velho baú, companheiro de tantas viagens. (...) E meus papéis. Os papéis que cobri de tinta e de lágrimas, de ódio e esperança. E os livros: dicionários, manuais, guias geográficos.”

Bettencourt elabora o final da vida de Rimbaud a partir dos sentimentos de sua mãe e de sua irmã, solitárias no enterro do poeta: “Desnorteada, esvaziada, deixava-se embalar pelo balanço do trem e se agasalhava, friorenta, cobrindo-se com a manta de algodão que pertencera a seu irmão e que tinha, entranhados, cheiros exóticos, distantes."

A descrição do sepultamento enche-se de imagens dolorosas: “O trem chegou numa manhã enevoada, mas, enquanto descarregavam o caixão e o colocavam na carroça, sem luxos, o sol timidamente fez sua aparição. (...) Não havia ninguém mais acompanhando o corpo. Só elas duas, empoleiradas no banco da frente, e o caixão, pesado e escuro. Não havia flores para enfeitar o túmulo. (...) Agora, em novembro, não havia flores nos campos.” Isabelle quebrou um galho ainda verde de uma árvore ali perto e depositou-o sobre a terra que cobria o irmão. Ela chorava, torcia as mãos, e repetia ´pobre Arthur`. A mãe manteve-se calada. Ao fim, disse, como se aliviada: “descansou”.

Isabelle o descobre, como poeta, depois da sua morte. Descobre a eternidade que pairava sobre o cadáver do irmão: “Ela nunca tinha lido nada de seu irmão. Quando leu, a obra mudou sua vida. Descobriu ´o livro sem fim, aquele que jamais envelhecerá, que nunca sairá de moda, que será, sempre, atual`”.

E eterno, o menino poeta de Charleville, inspira esse O Regresso: a última viagem de Rimbaud, que nos dá Lúcia Bettencourt, na forma de um poema narrativo. E que os leitores amantes de Rimbaud não deixem de reencontrá-lo, iluminado, pela prosa sensível desse livro.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 21/2/2017


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Longa vida à fotografia de Fabio Gomes


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2017
01. A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri - 9/5/2017
02. Amy Winehouse: uma pintura - 28/3/2017
03. Meshugá, a loucura judaica, de Jacques Fux - 17/1/2017
04. Um Cântico para Rimbaud, de Lúcia Bettencourt - 21/2/2017
05. A noite iluminada da literatura de Pedro Maciel - 25/7/2017


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




COMO LER A CARTA DE JUDAS- CORAGEM PARA LUTAR PELA FÉ
JOSÉ BORTOLINI
PAULUS
(2001)
R$ 18,00
+ frete grátis



O EXECUTIVO SEM CULPA
JOÃO ERMIDA
LUA DE PAPEL
(2010)
R$ 13,16



O ÚLTIMO E GRANDE DIA DA FESTA
DONG YU LAN
ÁRVORE DA VIDA
(2007)
R$ 5,00



A TESTEMUNHA OCULAR DO CRIME
AGATHA CHRISTIE
CÍRCULO DO LIVRO
(1986)
R$ 4,90



O HOMEM EM TEILHARD DE CHARDIN
CHAUCHARD
HERDER
(1973)
R$ 6,30



CIRCUITOS LINEARES
CHARLES M. CLOSE
LTC - LIVROS TÉCNICOS E CIENTÍFICOS
(1975)
R$ 65,00



O QUE FREUD NÃO EXPLICOU
MAURÍCIO SITA
SER MAIS
R$ 12,45
+ frete grátis



A REBELDE APAIXONADA
FRANK G. SLAUGHTER
NOVA CULTURAL
(1986)
R$ 3,00



LIBERTINOS LIBERTÁRIOS
ADAUTO NOVAIS
COMPANHIA DAS LETRAS
(1996)
R$ 89,90



O TEATRO DE ANTONIO ROCCO (TEATRO BRASILEIRO)
ANTONIO ROCCO
IMPRENSA OFICIAL
(2009)
R$ 7,00





busca | avançada
36458 visitas/dia
993 mil/mês