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Terça-feira, 21/2/2017
Um Cântico para Rimbaud, de Lúcia Bettencourt
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 300 Acessos



Eu levei um ano e meio para ler O Regresso: a última viagem de Rimbaud, de Lúcia Bettencourt, publicado em 2015 pela editora Rocco. Não, o livro não tem 3.000 páginas. Tem apenas 191 páginas. Mas são 191 páginas de pura poesia. E não se lê poesia às pressas. E quando essa poesia tem o sabor de um pêssego maduro, deve-se devorá-lo com calma, sentindo prazer em cada um de seus detalhes, na observação da sua cor, na sua textura, no seu cheiro, na sua doçura, no seu caldo suave... O livro de Bettencourt é um Cântico dos Cânticos para Rimbaud.

O livro se propõe um encontro ficcional com o poeta Arthur Rimbaud. Apesar de ficcional o livro é embasado em informações objetivas sobre a vida do poeta e sobre a sua obra. No entanto, os dados objetivos são transfigurados pela escrita poética de Bettencourt que recria Rimbaud de uma forma absolutamente sensorial, num texto que vai da descrição sensual dos movimentos da natureza à revelação das aventuras e desventuras da existência física e espiritual do escritor.

Uma cópula literária como nunca se viu sobre Rimbaud, num fraseado poético que fala de si mesmo, ou seja, da própria natureza dessa escrita que recria o poeta: “Percorro com os dedos o seu corpo. Será que você advinha as palavras que traço? Jamais escrevo aquelas que me parecem muito solenes, desaconselháveis. Uma a uma, vou traçando as letras, usando ora as pontas dos dedos, essas almofadinhas macias e redondas, suaves, ou a ponta das unhas, que vão deixando na sua pele traços finos que depois apago com a língua.”

Luxo e voluptuosidade na escolha das palavras: quem ama o feio, através da literatura, bonito lhe parece. Rimbaud torna-se aleijado, seu corpo queimado, mal nutrido, sendo destruído pela doença que o matará, aparece para Bettencourt em todo seu horror, terror e desvario. Ao grande poeta, reduzido à uma existência física dolorosa, longe do mundo das letras, lhe resta repensar momentos de sua existência terrível, sempre passeando no inferno: “Revejo em minha infância os rostos sujos e famintos de crianças, maltratadas, brutalizadas, que, por sua vez, maltratavam os seres menores que elas, fossem irmãos mais novos, animais ou répteis e insetos. Com que requinte de crueldade aprisionavam pássaros e furavam seus olhos redondos como contas brilhantes!”

Rememorando o momento em que ainda a existência ganhava algum sentido, o poeta de Bettencourt mergulha em nostalgias melancólicas: “Houve um tempo em que as palavras serviam de consolo. Quando o real se tornava insuportável, um livro abria-se dócil e nos carregava em suas páginas mágicas para outros mundos, lugares em que o mal acabava sempre sendo castigado e onde todo sofrimento recebia sua recompensa, ainda na terra.” Corroído pela dor, pela solidão, pela desgraça que o abate, o sentido da existência é colocado em dúvida por Rimbaud: “Quantas vezes me perguntei por que existimos? Que Deus cruel e sádico terá criado esses bonecos cheios de sentimentos e emoções, para se divertir destruindo todas as suas ilusões?”

A literatura de Bettencourt não apela aos sentimentos fáceis, ao contrário investiga o coração amargurado de Rimbaud, trazendo para esse universo de sofrimento as sequelas reais da sua vida. Ao perder a perna, por exemplo, a descrição da tensão na natureza torna-se o preâmbulo para a descrição angustiosa do enterro de seu membro: “Na manhã úmida, o vento soprava inquietando as folhas das árvores, que sussurravam coisas incompreensíveis. (...) Impossível acreditar que tinha sido preciso fazer uma cerimônia fúnebre para um membro inútil! (...) Uma perna, numa cova, como uma semente que se planta.” Essa correlação entre natureza e natureza interior do personagem e entre objetos e a existência de Rimbaud faz a poesia surgir a todo momento no livro de Bettencourt.

A amargura não é só de Rimbaud, ela atravessa a vida de sua família, mãe e irmã, que o socorrem no fim da vida, visitando hospitais, acompanhando suas lamúrias, sua dor, seu desespero. Para encontrar o poeta é preciso encontrar a alma de sua família, o desespero de sua mãe solitária, mas desejosa da vida plena, como quando reclama da ausência do marido: “Queria a sensação dos bigodes louros esfregando-se em seu pescoço, queria sentir a pele firme e os pelos dourados que a cobriam, queria o cheiro do macho, seu gozo resfolegante, o calor que lhe abrasava as coxas e o ventre e lhe provocava risos e gemidos.”

O livro perpassa os vários momentos em que Rimbaud se angustia diante das feridas que o consomem e o impossibilitam de continuar sua vida de aventureiro. A difícil trajetória até o hospital e as más notícias que sua doença lhe traz, seu desespero depois do veredicto: “No dia seguinte eles vieram, os médicos. E, desta, vez, falaram. Nas suas vestes brancas, os longos aventais brancos, eles se achegaram, semelhantes a anjos. Abriram suas bocas e me condenaram. Achei que era o fim. Que aquele seria o pior momento, a queda. (...) abanaram as cabeças, negando as esperanças de seus olhos. A sentença foi unânime: Amputação.”

Através do texto de Bettencourt vamos entrando lentamente na alma do “adolescente indomável” que foi Rimbaud, na sua pior fase, a do regresso do poeta ao seu país, à sua família, às suas memórias. “Começo a perceber que meu regresso será meu ponto de partida.”



Morrendo o poeta, reinventa-se infinitamente o mito. “Talvez eles se interessem apenas pelo meu velho baú, companheiro de tantas viagens. (...) E meus papéis. Os papéis que cobri de tinta e de lágrimas, de ódio e esperança. E os livros: dicionários, manuais, guias geográficos.”

Bettencourt elabora o final da vida de Rimbaud a partir dos sentimentos de sua mãe e de sua irmã, solitárias no enterro do poeta: “Desnorteada, esvaziada, deixava-se embalar pelo balanço do trem e se agasalhava, friorenta, cobrindo-se com a manta de algodão que pertencera a seu irmão e que tinha, entranhados, cheiros exóticos, distantes."

A descrição do sepultamento enche-se de imagens dolorosas: “O trem chegou numa manhã enevoada, mas, enquanto descarregavam o caixão e o colocavam na carroça, sem luxos, o sol timidamente fez sua aparição. (...) Não havia ninguém mais acompanhando o corpo. Só elas duas, empoleiradas no banco da frente, e o caixão, pesado e escuro. Não havia flores para enfeitar o túmulo. (...) Agora, em novembro, não havia flores nos campos.” Isabelle quebrou um galho ainda verde de uma árvore ali perto e depositou-o sobre a terra que cobria o irmão. Ela chorava, torcia as mãos, e repetia ´pobre Arthur`. A mãe manteve-se calada. Ao fim, disse, como se aliviada: “descansou”.

Isabelle o descobre, como poeta, depois da sua morte. Descobre a eternidade que pairava sobre o cadáver do irmão: “Ela nunca tinha lido nada de seu irmão. Quando leu, a obra mudou sua vida. Descobriu ´o livro sem fim, aquele que jamais envelhecerá, que nunca sairá de moda, que será, sempre, atual`”.

E eterno, o menino poeta de Charleville, inspira esse O Regresso: a última viagem de Rimbaud, que nos dá Lúcia Bettencourt, na forma de um poema narrativo. E que os leitores amantes de Rimbaud não deixem de reencontrá-lo, iluminado, pela prosa sensível desse livro.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 21/2/2017


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