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Quinta-feira, 18/5/2017
Os Doze Trabalhos de Mónika. 2. O Catolotolo
Heloisa Pait


Leia a primeira aventura de Mónika, À Beira do Abismo.

Mónika subiu as escadas meio apreensiva com seu atraso, mas ninguém a esperava na porta da sala de aula. Abriu a sala, janelas, cortinas, botou o repelente na tomada e ficou esperando.

Justificava-se. Era reposição de greve, meados de janeiro. Como as outras faculdades não tinham aula, os ônibus que traziam alunos de cidades satélites não corriam. Quem tinha carro, vinha. Quem morava na cidade, também. Além disso, o curso era optativo, ou seja, só era dado no quarto ano. E no quarto ano a evasão já se fazia sentir.

Mónika gostava de números, e tinha estimado, levando em conta as graduações duplas, que apenas 27,38% dos ingressantes se formavam. Mas os números vinham da seção de alunos, de onde um funcionário tinha sido afastado por manipular o bolão semestral de jubilamentos alterando notas e faltas. Mónika sabia que seus números não eram exatos.

Pior é se não viesse ninguém e ainda ficasse doente.

Yasmin entrou na sala com o corpo inclinado, a cara meio desanimada, Mónika matou a charada na hora: catolotolo. A aluna sentou numa cadeira longe da professora, deu um bom dia desanimado e ficou em silêncio, esperando a aula começar. Mónika também ficou em silêncio, esperando alguma coisa acontecer.

– Como vai, Yasmin?

– Bem, professora, e a senhora?

Mónika sempre tinha um certo receio dessas perguntas. Outro dia mesmo um orientando havia perguntado isso e ela desatou a chorar.

– Bem. Mas você está com uma cara meio desanimada. Tudo bem mesmo?

– Não, professora. Acordei com febre e com o corpo todo duro. Nem andar direito estou andando. Vim porque...

– Catolotolo? Está dando catolotolo no campus, eu vi numa lista de discussão dos professores.

– Que é isso?

– Tipo dengue, mas dá uma dor nas juntas. Não mata, mas debilita.

Ficaram as duas em silêncio. Havia uma jovem doente, e uma adulta em boa saúde. Sabiam que não havia escapatória, a única coisa civilizada a fazer era a adulta cuidar da outra.

– Vamos ao médico, Yasmin? Acho que ninguém vem na aula.

– É verdade, ninguém vem. Sabia que eu escolho os cursos assim, professora? Se a sala está vazia, eu entro. São os melhores professores. O Nestor, a senhora.

– Que Nestor? Você tem aula com o aviador?

– Que aviador? Não, o Nestor Kaingang.

– Ah, o Nestor...

Desceram até a portaria do prédio, Mónika deixou a chave da sala e disse que ia levar a aluna no médico. Foram andando lentas até a saída do campus, e lá pediram carona.

O carro era do catedrático da faculdade, um marxista de idade já avançada, que havia escrito um livro. Entraram.

– Professor, a aluna está adoentada, conhece algum médico na cidade?

– Vou deixar vocês no posto de saúde.

– Mas vai estar lotado, melhor particular.

O catedrático proferiu um longo discurso sobre a valorização do serviço público e os efeitos do neoliberalismo sobre a solidariedade humana. Mónika teve medo. E se fosse ele que estivesse por trás das acusações da diretora? E se fosse ele o mentor de tudo?

De quê, afinal, poderiam acusá-la? De não dar “certos autores” em aula?

Em Ambaíba havia muitas clínicas de cirurgia plástica, vários pet shops, alguns escritórios de advocacia. Também uma clínica de olhos muito bonita na avenida principal, numa casa antiga e bem preservada. Além das fertilizações. Mas Mónika não se lembrava de ver clínico geral ou pediatra. Nem infectologista.

– Pára aqui! – ela gritou.

Tinha visto uma placa muito sóbria com um nome, Dr. Frederico Szmere, na transversal. Abriu a porta de trás, ajudou a aluna a sair e se despediu da cátedra sem agradecer a carona.

Na sala de espera, muita gente. Deu seu nome e o nome da aluna para a secretária, perguntou a especialidade do médico, que na pressa não tinha checado, e se sentou. O médico abriu a porta de seu consultório, passou os olhos sobre todos, chamou o próximo paciente, deu um dinheiro para a secretária, olhou novamente para os presentes na sala de espera com um jeito severo e voltou ao consultório.

A secretária pediu licença e voltou depois de quinze minutos com garrafas de Gatorade para todos, inclusive os acompanhantes. Limpou o termômetro com álcool e tirou a temperatura de cada um.

– O doutor Frederico pediu para dar dois comprimidos de Tylenol para quem está com febre muito alta – explicou.

Estavam acomodadas, hidratadas e medicadas. Talvez levasse a manhã toda, mas o Dr. Frederico inspirava confiança. Mónika então sugeriu:

– Yasmin, assim sem preparo, posso falar da história da Hungria, quer?

– Quero.

Mónika, confortável no sofá fixo da sala de espera, começou a falar de seu avô, um advogado importante de Budapest nas primeira metade do século XX. Tinha clientes grandes, industriais, senhoras da sociedade, muitos judeus. O que o colocava em contato com negócios internacionais, até na América. E garantia para a família uma vida bem confortável, até a subida do governo pró-alemão. Com a guerra, foi o caos. Os clientes deportados tinham deixado recursos em seu nome, que ele usava para que outros conseguissem sair do país ou ao menos ficassem presos ali por perto. Ao final da guerra, não tinha nada. Alguns voltaram perguntando dos depósitos, aos poucos, às vezes filhos, sobrinhos. Ele não tinha nada. Não tinha nem recibos. Não argumentava. Ficava em silêncio, até que o herdeiro visse as paredes sem pintura, as cortinas puídas, e também em silêncio fosse embora.

Não podia mais advogar. Não conseguia pedir uma procuração para alguém, não conseguia pedir confiança e muito menos cobrar por isso. Então os amigos lhe arrumaram um posto na defensoria pública, onde recebia um salário miserável mas ao menos não precisava cobrar. Estudava e se preparava para representar seus clientes como se solicitassem grandes empréstimos internacionais, mas eram causas pequenas. E perdidas, pois os jovens juízes animados com o novo governo tinham sua própria lógica, à margem da razão e do direito.

– E sua avó?

– Boa pergunta, minha avó. Minha avó era sensacional, eu a conheci bastante. Tinha crescido no bem-bom, o mundo tinha mudado algumas vezes ao longo de sua vida mas ela continuava vivendo no bem-bom. Depois da guerra, para complementar o salário do meu avô, deu aulas de piano até cansar. Cobrava pouco pois ninguém tinha dinheiro, era o socialismo. Mas dava muitas aulas. Foi chamada para dirigir uma escola estatal de música, ia toda arrumada, colar de pérolas e tal, como se fosse um trabalho beneficiente. Tratava as alunas como se fossem todas filhas da nobreza ou grandes herdeiras. E eram mesmo! Eu cheguei a ter aulas nessa escola, era divertidíssimo, Yasmin! Tudo caindo aos pedaços e minha avó lá, chique. E a música era boa. Eu não sabia tocar, mas tinha meninas que sabiam e o lugar era mágico mesmo. Nossa, minha avó no piano era uma coisa de emocionar. Recitais.

– Eram os pais do seu pai?

– Não, da minha mãe. Do meu pai, quer dizer, da família do meu pai não sei nada. Nem minha mãe sabia.

– E quando vocês chegaram no Brasil?

O médico abriu a porta do consultório mais uma vez, e já era hora da Yasmin.

– Dr. Frederico, essa é a Yasmin, hoje na aula ela não estava muito bem e resolvi trazê-la aqui, pois o senhor me foi muito bem recomendado. Eu sou professora da...

– Não precisa se apresentar, Mónika – o médico disse, com um tom um pouco impaciente, como se falasse com uma adolescente exibida. – Diga, Yasmin, quando você começou a se sentir mal?

Yasmin falou dos sintomas, da febre, das dores, de como havia melhorado com o Tylenol e as histórias da professora. O médico receitou mais Tylenol, líquidos, repouso, perguntou se Yasmin tinha dúvidas. Mónika já sentia fome, e interrompeu:

– Ela pode comer de tudo, doutor?

– Sim – o médico falou seco e anotou o celular no verso da receita.

– Mas se a Yasmin passar mal, eu não moro na cidade...

– Anotei o celular no verso da receita, Mónika, como você pôde ver – o médico respondeu já irritado, e terminou a consulta tranquilizando a jovem: – Yasmin, apenas se cuide, que isso vai passar, você é jovem e não vai ser nada. Qualquer coisa estranha, me telefone. Se tudo correr bem, volte aqui em um mês, para ver como andam suas articulações.

Saíram felizes do consultório como se tivessem passado na prova e, a convite de Mónika, foram se esbaldar na lanchonete mais famosa da cidade.

Esta é uma obra de ficção; qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência


Heloisa Pait
São Paulo, 18/5/2017


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