Séries da Inglaterra; e que tal uma xícara de chá? | Renato Alessandro dos Santos | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 1/8/2017
Séries da Inglaterra; e que tal uma xícara de chá?
Renato Alessandro dos Santos

+ de 600 Acessos

Estive a ver nestas férias, enquanto meus pés passavam frio, algumas séries britânicas na Netflix. Hoje, quando muitos vêm achando que o cinema parece já ter dito tudo, a televisão deu uma cambalhota, e voltando a parar em pé, como tudo que nos últimos anos vem mudando, ela acabou tirando do cinema alguma coisa, e certo é que há de parar bem essa história um dia à sétima arte, porque fermentações assim sempre trazem mudanças que, maturando, transformam leite em queijo, e enquanto à coivara criativa o cinema vai sobrevivendo, há algo de muito frescor no reino da Inglaterra; da Dinamarca, também, mas vamos nos contentar com o que vem da ilha. Paranoid, Marcella, River, Doctor Foster, Hinterland e Happy Valley dão um voto de confiança à inteligência do espectador, que, quando se dá conta, não quer deixar de ver outra série britânica. Que tal uma xícara de chá? Tea with me.

O que a gente procura em uma série? Aquele envolvimento que quando menos se percebe já não se larga mais? Um vício? Alguém nos puxando a um colar precipitado de corpos? Entretenimento? Algum aprendizado? Um pouco disso tudo, quem sabe? Quando somos fisgados, isto é, ao acontecer, há dramaturgia, ou um mergulho vertical, fundo, na alma humana, com a riqueza de detalhes que se vê num ato falho, num objeto esquecido sobre o criado-mudo que a câmera mostra quase ao acaso, numa coceira que leva a uma mordida e à solução de um crime.

O mais importante é quando o espectador imerge no drama representado, da mesma forma que aquelas plateias gregas no tempo de Sófocles entendiam o sofrimento por que Édipo passava, ao furar os olhos, levando-as a um estado de espírito que só a arte é capaz de oferecer. Vem a TV milênios depois, e o que se vê ainda é tragédia por toda parte: corpos de gente morta por asfixia, traições, adultérios, sequestros, filhos matando mães, os dez mandamentos, os sete crimes capitais e um copo de cólera tudo misturado, e quando mergulhamos mais fundo encontramos um pouco do que somos naquele dramalhão todo, e aí a TV passa a ocupar o tempo das pessoas mais do que deveria, deixando-as longe dos livros, mas, não, de uma arte dramática que, primeiro no teatro, depois no cinema e mais tarde na sala de casa, nos leva a uma experiência que, em vida, jamais teríamos, ou apetece a ideia de assaltar um banco, alvejar alguém com uma arma, levar um tiro?!



A primeira boa surpresa é Paranoid, que retrata detetives de um departamento de polícia que, ao investigar a morte de uma médica em um parque infantil, esfaqueada enquanto crianças correm ao redor, descobrem um ninho de mafagafinhos onde cabem a indústria farmacêutica e um crime internacional. Todos os olhos são para Nina, uma investigadora de 30 e poucos anos que passa por uma separação e pela descoberta de que está grávida. Tudo é muito bem conduzido pela direção, com atores que lembram gente vivendo dias ruins, como nós todos. É uma série de abordagem bastante psicológica, desossando a natureza humana, característica que se esparrama por todas as outras mencionadas aqui, o que não poderia ser diferente, quando o que mais há, nelas, é o indivíduo à mercê de seus demônios, como Marcella, outra série conduzida por uma narrativa que retrata a personagem-título, uma investigadora que busca solucionar os crimes de um serial killer, enquanto lida com o divórcio; o problema é que ela passa a ter apagões em que faz lá o que tem de fazer e dos quais, depois, não se lembra; o espectador, nesse jogo, fica sem saber se ela tem ou não culpa no cartório, algo que resulta em uma bela carta na manga dessa série, que, como River, Doctor Foster e Hinterland, está também na primeira temporada no serviço de streaming.



River é um mergulho na mente do introvertido personagem-título, que conversa sozinho, doido varrido, pensam as pessoas que o veem quando cruzam com ele, mas nós sabemos que o homem vê mesmo abantesmas, convivendo com eles. É uma série que traz o espectador bem pertinho do personagem, e há tantas camadas submersas na personalidade desse investigador, que a gente só pode acompanhar a série como se tivesse uma taça de vinho a ser sorvida nesses dias em que o frio congela lá fora e aqui dentro. Ah, a balança não pende para o sobrenatural, caso tenha pensado assim por causa dos fantasmas.



John River (considere as sugestões que o nome carrega), como toda grande personagem, tem em si mesmo o inimigo, e o passado, ou melhor, a morte de alguém de quem ele gostava muito, não o abandona, e adivinhe quem vem trazer boas novas sempre. Vê-lo rebolando o esqueleto, com os músculos de um rosto que não sorri há tempos, dançando na rua “I love to love (but my baby loves to dance)”, de Tina Charles (sempre pensei que essa canção fosse do ABBA), é dessas cenas que valem uma série inteira.



Doctor Foster é o peixe fora d’água aqui, em meio a essas séries de investigação criminal. Trata de traição, daquele dar de costas a um casamento de anos. A história envolve a gente, que fica ao lado da mulher, e o episódio final é tão surpreendente que até poderia ser inverossímil, se não fosse o ser humano a caixinha de Pandora que é; os personagens são bem construídos, e o enredo vai muito bem conduzido pela direção. É uma série que, por ser pouco conhecida e instigante, ao final, o espectador sai recompensado pela descoberta com uma pequena alegria, como aqueles 60 minutos que a gente pega de volta, no último dia do horário de verão.



Hinterland traz cemitérios celtas, assassinatos, equipes forenses e gente em migalhas. São apenas quatro episódios, com uma hora e meia de duração cada um. É sombria e mais galesa (Y Gwyll) que inglesa, misturando as duas línguas, algo que com legendas nem notamos, e o nome (hinterlândia) traz em si alguma coisa que situa o País de Gales bordejando a Inglaterra, como um perímetro distante da urbanidade de Londres e arredores, uma vez que a investigação criminal e o mistério ocorrem na roça, nos ermos vales sufocados pelo céu cinza do País de Gales.



Por fim Happy Valley, em sua segunda temporada. Mais uma vez a delegacia de polícia, mas com uma policial veterana que vai se tornando um duro osso de roer a quem não cai em sua graça, enquanto uma teia de transtornos, nela, vai acumulando fios. A mulher carrega um trauma e a cada dia tem de lidar com ele, com umas mortes escabrosas que vão pululando e com o tráfico de drogas local, tudo no interior inglês, com aqueles carros com o volante do lado errado; ah, e por causa do aparente frio eterno a roçar os ossos, sempre em desconforto, toda hora é adequada para se tomar uma xícara de chá, e como gostam de tea os personagens de Happy Valley. Até cabe um ponto de exclamação aqui.



Terminadas as férias, do lado de cá, na terra do sol onde este inverno de 2017 ainda continua a gelar a pele, uma xícara de chá não cai mal, enquanto no conforto e na proteção da casa nunca é tarde para rever algum episódio de Black Mirror, a cereja no arranha-céu das séries inglesas, com aquele retrato ácido de mal-estar da sociedade, de arrepiar os braços que nem quando a gente come um bolo de chocolate com overdose de açúcar.

Nota do Autor
Renato Alessandro dos Santos é editor do site tertuliaonline.com.br


Renato Alessandro dos Santos
Batatais, 1/8/2017


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