Sabemos pensar o diferente? | Guilherme Carvalhal | Digestivo Cultural

busca | avançada
20716 visitas/dia
829 mil/mês
Mais Recentes
>>> TV Brasil exibe especial 'Sonho Meu' em homenagem a Dona Ivone Lara nesta sexta (20)
>>> Alexandre Hallais, um dos escritores mais evidentes da atualidade fecha parceria com a Soul Editora
>>> Juiz federal estreia na literatura com contos sobre heróis históricos
>>> Alessandro Ferrari Jacinto e Marisa Folgato lançam 'Alzheimer' na Livraria Martins Fontes
>>> Programa de Edição de Textos de Docentes da Unesp 2018
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Nobel, novo romance de Jacques Fux
>>> De Middangeard à Terra Média
>>> Dos sentidos secretos de cada coisa
>>> O pai da menina morta, romance de Tiago Ferro
>>> Joan Brossa, inéditos em tradução
>>> Sebastião Rodrigues Maia, ou Maia, Tim Maia
>>> 40 anos sem Carpeaux
>>> Minha plantinha de estimação
>>> Corot em exposição
>>> Existem vários modos de vencer
Colunistas
Últimos Posts
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
>>> Psiu Poético em BH esta semana
>>> Existem vários modos de vencer
>>> Lauro Machado Coelho
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
Últimos Posts
>>> Pierrô
>>> Lugar comum
>>> Os galos
>>> Cenas do bar - Wilsinho, o feio.
>>> Desenhos a lápis na poesia de Oleg Almeida
>>> Eloquência
>>> Cenas do bar - Vladimir, o solteiro.
>>> Deu na primeira página...
>>> Palavra vício
>>> Premissas para reflexão
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Parangolé: anti-obra de Hélio Oiticica
>>> Adagio ma non troppo
>>> E Benício criou a mulher...
>>> As 48 Leis do Poder, por Robert Greene
>>> Gramado e a ausência de favoritismo
>>> Na Campus Party 2009 II
>>> Mecanismos Internos: Ensaios sobre Literatura, de J.M. Coetzee
>>> A verdadeira resistência
>>> Dicas para a criação de personagens na ficção
>>> Joan Brossa, inéditos em tradução
Mais Recentes
>>> Tríade Deutsch Perfekt - revistas
>>> Os Terceiros 2000 anos
>>> João Ternura
>>> Fauna de Venezuela
>>> El Libro De La Salsa
>>> Criando filhos ( o modo de Deus )
>>> Uma sustentável revolução na floresta
>>> il Riso in Tasca
>>> Trilogia Deutsch Perfekt- cidades da Alemanha- Hamburg-Koln, Dusseldorf ( 28 Seiten Spezial Nordrhein-Westfalen
>>> Ele viu os Céus abertos
>>> Curso de Estradas
>>> Mecânica dos Solos e suas Aplicações
>>> Construções de Concreto - Vol. 4
>>> Construções de Concreto - Vol. 3
>>> Construções de Concreto - Vol. 1
>>> Construções de Concreto - Vol. 5
>>> El Engaño Populista
>>> Los Brujos de Chávez
>>> Venezuela Energética
>>> Bumerán Chavez
>>> Estado Delincuente
>>> Boves El Urogallo
>>> Cuco
>>> A Bolsa e a Vida - 1ª Edição
>>> Função ceo a descoberta do prazer
>>> Função ceo a descoberta do amor
>>> As cores do amor
>>> Pecaminoso
>>> Coleção Beltranianas - Comunicação e Problemas Luiz Beltrão Parte III
>>> Silicone XXI
>>> Casas Junto Al Mar
>>> Minha Experiência em Brasília
>>> Meu pé de laranja lima
>>> Desenho de Paisagem Urbana
>>> Canaa
>>> Curso de Propriedade Intelectual Para Designers
>>> O Brasil Não Existe!
>>> Apartamentos Urbanos
>>> Arquitetura e Design. Sergio Rodrigues
>>> A Hora Futurista que Passou e Outros Escritos
>>> Uma História da Pintura Moderna
>>> Olhar Sobre o Passado - Volume 1
>>> Quase Vegetariano
>>> Macário
>>> A Dieta de Sonoma
>>> Electra(s)
>>> Anos 70
>>> Édipo Rei de Sófocles
>>> Design e Comunicação Visual
>>> Cézanne: Miniguia de Arte
COLUNAS

Quinta-feira, 21/9/2017
Sabemos pensar o diferente?
Guilherme Carvalhal

+ de 2800 Acessos



Toda a atual celeuma em torno da exposição Queermuseu não é inesperada. O Brasil, por tradição, é composto por uma ampla dificuldade de formar um pensamento dialético, em uma sociedade composta por pessoas enfurnadas em suas bolhas e incapazes de interagir com o que existe fora dela. De tempos em tempos essas dificuldades de dialética se demonstram, fenômeno atualmente explanado ao extremo com o advento das redes e das mídias sociais digitais, que tiram pequenos pensamentos dos cômodos residências e lançam online.

Padre Landell de Moura, na virada do século XIX para o XX, é uma demonstração de como nos tempos da crença na ciência enquanto libertação do homem, o Brasil andava na contramão do fluxo. Cientista à frente de seu tempo, foi pioneiro na transmissão radiofônica, porém encontrou forte resistência tanto por parte da população quanto por parte do poder público (seu laboratório chegou a ser atacado, sendo chamado de satanista devido às suas ideias). Poderia ter entrado para a história como um dos maiores inovadores da ciência, mas essa dificuldade dialética atrapalhou e o relegou a herói local.

Podemos constatar essas manifestações nos mais amplos aspectos. Nosso país já constatou pedido de prisão contra Sófocles, a população do começo do século XX assistiu espantada aos médicos querendo vaciná-las à força, teve apresentadora de televisão atestando o uso de cúrcuma ao invés de pasta de dente, e segue uma sequência de crenças em xamanismo e resistência ao pensamento científico (a recente crença na capacidade da fosfoetanolamina curar o câncer baseado em evidências não-científicas nos mostra isso).

Compreender essa falta de dialética está estritamente ligado a todo um passado de desigualdades sociais, de uma população sem acesso a educação e afunilada em contextos de limitação de pensamentos, sem a condição de interagir com um plano mais amplo. O xamanismo medicinal, seja na tradição indígena ou em diversas outras, como nas oriundas de religiões europeias e africanas, se manifesta entre pessoas para quem a medicina científica não pode ser acessada. A figura do curandeiro será próxima a quem a do médico é distante. O afastamento institucional leva as pessoas a se virarem com o que tem, e o pensamento dialético passa longe.

De igual forma, o aspecto da educação formal causa danos diretos. Um exemplo é a baixa capacidade de pensamento matemático e, por conseguinte, de pensamento lógico, fruto da má educação. Esse prejuízo oriundo da escola gera uma sociedade para quem o questionamento acaba inexistindo. O resultado disso é a crença em argumentos rasos, o populismo político, o baixo empreendedorismo. Junte, ainda, a dificuldade em absorver conteúdo relacionado a história, artes, literatura: o resultado é bastante negativo.

Outro aspecto de cunho histórico é quanto à relação do indivíduo com a sociedade. Somos um país “forjado”. Falamos da formação de vilas e cidades em que suas elites muitas vezes contavam com total poder sobre o indivíduo. Falamos de uma ampla população oriunda de escravos africanos removidos de sua terra, de sua cultura, de sua língua, de sua sociedade. Isso todo sob um complexo administrativo nascido na metrópole, criando uma sociedade de cima para baixo, com suas normas e regras impostas sem saber o que a plebe queria.

Vivemos então o reflexo dessa formação: pessoas que não se relacionam naturalmente com a sociedade, mas de maneira mecanicista, artificial. Uma população que não compreende as próprias leis (o caráter disciplinador de um sistema legal feito apesar da população, e não para ela). O próprio pensar a coisa pública e zelar por ela é difícil ao brasileiro, já que ele próprio não se sente pertencente a ela. Direitos são transformados em privilégios por uma casta de elite política, utilizando toda essa falta de pertencimento para se perpetuar em suas posições.

A isso tudo, podemos somar impactos recentes da modernização. A sociedade midiática nos últimos anos tem tornado cada vez menor a pluralidade cultural das pessoas, notoriamente no aspecto musical. Há uma forte enxurrada de uma mesmice repetitiva, sendo vedado o plural. O conteúdo de cinema e, de certa forma em seu arrasto, o literário, cada vez mais é exclusivamente focado em conteúdo de natureza anglófila, em especial dos Estados Unidos. As favelas do Rio de Janeiro, localidades onde nasceu o samba, hoje se veem sem ele, cada vez mais exclusivo para uma classe média intelectual.

Esse somatório de fatores nos levam a compreender como o Brasil é uma sociedade onde pensar o diferente, em que pensar os contrapontos, é algo bastante difícil. As manifestações hoje em dia são notórias: baixa pluralidade no fazer político, restrições a uma exposição de artes, até mesmo a opressão através da violência de grupos de umbanda e candomblé por parte de traficantes influenciados por pastores.

Fico pensando como seria caso Francis Bacon (o pintor) ou Pasolini tivessem nascido no Brasil. Ou então se um gênio do calibre de Einstein tentasse pelo nosso universo pensante proferir uma teoria que colocasse abaixo as plenas convicções existentes até então pela física. Assim, temos um país que tende a permanecer na retaguarda dos avanços em todas as formas de pensamento.

Infelizmente, não se pode acreditar que estejamos dando passos a fim de alcançar uma mudança significativa. Uma pesquisa bem atual aponta que menos da metade dos adultos do Brasil não chegam ao ensino médio. O presente momento de crise indica que a tendência para os próximos anos não será de maior investimento em educação, e é bastante improvável que algum mudança consistente em questões de cidadania seja motivada pela iniciativa privada. Seguiremos sendo uma sociedade em que o pensar diferente será visto com espanto e rejeição. E continuaremos quebrando o laboratório de Landell de Moura.


Guilherme Carvalhal
Itaperuna, 21/9/2017


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Nobel, novo romance de Jacques Fux de Jardel Dias Cavalcanti
02. Dos sentidos secretos de cada coisa de Ana Elisa Ribeiro
03. Joan Brossa, inéditos em tradução de Jardel Dias Cavalcanti
04. Sebastião Rodrigues Maia, ou Maia, Tim Maia de Renato Alessandro dos Santos
05. Corot em exposição de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Guilherme Carvalhal
Mais Acessadas de Guilherme Carvalhal em 2017
01. Sabemos pensar o diferente? - 21/9/2017
02. Aquarius, quebrando as expectativas - 6/4/2017
03. Mais espetáculo que arte - 16/3/2017
04. A pós-modernidade de Michel Maffesoli - 8/6/2017
05. Literatura, quatro de julho e pertencimento - 20/7/2017


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




PESSACH: A TRAVESSIA - CARLOS HEITOR CONY (LITERATURA BRASILEIRA)
CARLOS HEITOR CONY
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
(1967)
R$ 10,00



O PENSAMENTO VIVO DE HEITOR VILLA-LOBOS
JOÃO CARLOS RIBEIRO
MARTIN CLARET
(1987)
R$ 10,00
+ frete grátis



BUNNY YEAGERS DARKROOM: PIN-UP PHOTOGRAPHYS GOLDEN ERA
PETRA MASON
RIZZOLI NEM YORK
(2012)
R$ 200,00



RESGATE NO TEMPO - 13ª EDIÇÃO - COLEÇÃO VEREDAS
SÍLVIA CINTRA FRANCO
MODERNA
(1990)
R$ 6,00



COMO FUNCIONA UM BEBE?
REGINA GARIBALDI
RUBIO
(2003)
R$ 8,49



CISCO CCNA - GUIA DE CERTIFICAÇÃO DO EXAME CCNA
WENDELL ODOM
ALTA BOOKS
(2002)
R$ 19,99



ORGANIZAÇÃO DE BANCOS DE DADOS
A.L. FURTADO; C.S. DOS SANTOS
CAMPUS
(1980)
R$ 10,00



DONOS DA BOLA (CONTOS BRASILEIROS SOBRE FUTEBOL)
EDUARDO COELHO (ORG.)
LÍNGUA GERAL
(2006)
R$ 8,00



NOVO GLOSSÁRIO DE INFORMÁTICA
CONRADO F. CAMPOS
CIÊNCIA MODERNA
(1995)
R$ 21,80



REFORMA AGRÁRIA - TERRA PROMETIDA FAVELA RURAL OU KOLKHOZEZ?
ATILIO GUILHERME FAORO
VERA CRUZ
(1987)
R$ 16,99





busca | avançada
20716 visitas/dia
829 mil/mês