Os Doze Trabalhos de Mónika. 12. Rumo ao Planalto | Heloisa Pait | Digestivo Cultural

busca | avançada
24651 visitas/dia
954 mil/mês
Mais Recentes
>>> I CONCURSO DE CAIPIRINHA PAULISTA AGITA MERCADÃO
>>> Ian Carvalho lança EP 'Morpheo In Eros'
>>> Semivelhos lança inédita 'Vai Chover'
>>> O que há na mente de Deus?
>>> Antropólogo discute autonomia dos símbolos e seu papel na criação da cultura
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Piada pronta
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. Epílogo. Ambaíba
>>> Claudio Willer e a poesia em transe
>>> Paul Ricoeur e a leitura
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 12. Rumo ao Planalto
>>> Dilúvio, de Gerald Thomas
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 11. A Quatro Braçadas
>>> Crônica de Aniversário
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 10. O Gerador de Luz
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 9. Um Cacho de Banana
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lauro Machado Coelho
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
Últimos Posts
>>> Bojador
>>> Inversões
>>> Estado alterado
>>> Templo
>>> Divagações
>>> Convicto
>>> Ação e reação
>>> Fio de Eros IV
>>> Fio da meada
>>> Interlocutores
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 9. Um Cacho de Banana
>>> Discos que me mudaram
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Ensaio sobre a Cegueira, por Fernando Meirelles
>>> ConaLit
>>> A Música Erudita no Brasil
>>> Porque assim é São Paulo
>>> Marçal Aquino: o Rei do Clima
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Crowdsourcing, o livro de Jeff Howe
Mais Recentes
>>> Aritmética da Emília - edição comentada
>>> Mangá - O Livro Monstro do Mangá
>>> O Fim da Pobreza
>>> A Dieta do Suco
>>> A Dieta do arroz
>>> Bilionarios
>>> Acento em português - abordagens fonológicas
>>> Livro de um Desconhecido
>>> Questões de linguagem: passeio gramatical dirigido
>>> Pororoca, pipoca, paca e outras palavras do tupi
>>> Português ou brasileiro?
>>> Pesquisar no labirinto: a tese, um desafio possível
>>> Sete erros aos quatro ventos
>>> Sociolinguística quantitativa
>>> Semântica para a educação básica
>>> Todo mundo devia escrever
>>> Tradução: história, teorias e métodos
>>> Linguística computacional
>>> História concisa da semiótica
>>> A semântica
>>> Estrangeirismos: Guerras em Torno da Língua
>>> Quarto de Badulaques
>>> Raimundo de oliveira ( O progresso da Apostasia )
>>> A Revelação dos Sete Selos
>>> Fundamentos da economia
>>> Guia Prático de Conjugação de Verbos
>>> Cotidiano: Conhecimento e Crítica
>>> Estágio & Supervisão
>>> Educação, Ideologia e Contra Ideologia
>>> Wittgenstein - Os Pensadores
>>> Schelling - Os Pensadores
>>> Heidegger - Os Pensadores
>>> As Dores da Alma
>>> Animais da Fazenda - Brinque
>>> Cartilha do Bem
>>> Meninos em Guerra
>>> Reino Dividido- Uma Introdução à Bíblia- Volume 4
>>> A Assustadora História da Medicina
>>> A Sabedoria do Sutra de Lótus Volume 2
>>> Reflexologia- Um Método para Melhorar a Saúde
>>> Apocalipse - A Revelação de Jesus Cristo- Crescer e Amadurecer
>>> Ensaios (Sobre Arte e Literatura) - Olívio Montenegro
>>> Madre Coraje y suas hijos - Bertolt Brecht (Teatro alemão) - Em ESPANHOL
>>> Brasil: Manual de Instruções - Ziraldo (Literatura Infanto-Juvenil)
>>> Storia del Teatro Antico (Grécia e Roma) - Giovanni Antonucci (Em Italiano)
>>> A rosa do povo & Claro enigma (Carlos Drummond de Andrade - Roteiro de Leitura)
>>> Seu Creysson - Vídia e Óbria (Casseta e Planeta) - Humorismo
>>> O melhor de Vinicius de Moraes (Poesia brasileira)
>>> O prazer das palavras 1 - Um olhar bem humorado sobre a Língua Portuguesa - Cláudio Moreno
>>> 20 Poemas de amor y una canción desesperada - Pablo Neruda (Literatura Chilena) Em ESPANHOL
COLUNAS

Sexta-feira, 9/2/2018
Os Doze Trabalhos de Mónika. 12. Rumo ao Planalto
Heloisa Pait

+ de 200 Acessos

Leia a primeira aventura de Mónika, À Beira do Abismo.

Uma das tarefas de Mónika era a participação em bancas de mestrado e doutorado, onde se exigia o máximo de um professor universitário: demonstrar erudição sem desagradar o orientador, que numa próxima banca poderia se vingar reprovando seu aluno. Não era tarefa fácil. Ainda mais para Mónika, que se envolvia com os assuntos tratados de um modo visceral demais.

Essa banca em especial apresentava desafios adicionais, mas na sua carreira isso não se traduziria em pontos extra. O aluno havia entregue a tese no prazo, mas a tese era uma bosta. Aí, uma semana antes da defesa, enviou por email outro texto, pouco mais curto, pedindo que a banca ignorasse o anterior. Na defesa, indiferente aos apelos do orientador, insistia em ser avaliado pelo segundo texto que, ele dizia, era a sua grande obra, começada ainda na época da graduação.

Pelo que relatava, o aluno tinha tido duas trajetórias paralelas: uma, entregando o que os professores queriam, e outra escrevendo o que lhe dava na telha. Falou de uma monografia alternativa, que era simples descrição de toda a geografia da América do Sul. Tinha uma tese de mestrado alternativa, recuperando viagens solitárias pelo globo, especialmente as feitas por mulheres. E, no doutorado, empreendera ele mesmo a viagem, que relatava no texto.

– Descobri que agora é questão de vida ou morte, professores. Se eu defender essa bosta que vocês nos obrigam a escrever, me acabo no álcool, na sarjeta. Droga não curto. Mas bebo. – E completou, solene: – Meu pai morreu na garrafa.

A banca argumentava. De uma coisa Mónika estava certa. A tese original era uma bosta.

– Colegas, o rapaz tem razão. A tese é uma bosta.

O aluno não esperou. Aproveitou a deixa e começou a apresentar o segundo texto. O doutorando os levava para o extremo sul do continente, o último canto do planeta a ser colonizado. Falava das montanhas, dos bichos, das gentes. Falava muito dos caminhos, das pousadas onde parava, ficava semanas, se tornava um local, arrumava amigos, namorada, padrinho e trabalho. Sabiam todos que estava de passagem, e talvez por isso colocassem nele todos os desejos. As mulheres se entregavam para sempre, pois sabiam que não o acompanhariam na velhice. Os padrinhos lhe davam todas as bênçãos, pois não teriam tempo para se decepcionar. Tudo era eterno, sublime, verdadeiro, fugaz. As velhas lhe contavam segredos de família, tomavam-lhe as mãos e batiam-nas de leve com as palmas, como se sedimentassem um elo fortíssimo. Que se romperia. Ou não.

Andava pelo Andes, experimentava coisas. Comia raízes e rezava com os locais. Não antropologizava. Não pesquisava, não analisava, não tratava de objetos de pesquisa nem de sujeitos da ação. Apenas vivia e descrevia como um fantasma vivo. Dormia quando tinha sono, comia quando tinha fome, transava quando surgia quem e escrevia quando não tinha nada. Sua metodologia era essa: vou escrever quando não há mais o quê fazer, quando for a única coisa que resta.

Nas cidades, não escrevia, portanto. Ia se jogando de casa em casa, fazia bicos e de vez em quando verificava num internet café se a greve já tinha terminado, pois não podia perder a matrícula. Nas cidades sempre havia o que fazer.

Morou 3 semanas numa favela em Cochabamba, ajudando um vendedor de miçangas a carregar suas coisas pelos bairros nobres e fugir da fiscalização quando preciso. Comeu bem lá, engordou, seguiu viagem. Numa tese normal não diria, mas no relato pode dizer: não gostou de Cochabamba. Achou tudo triste, pobre e melancólico. As roupas coloridas e as almas cinzentas. E estava no texto: em Cochabamba eu acordava triste, passava o dia triste e ao final do dia a tristeza beirava o intolerável. Se eu não saísse logo dali, talvez não conseguisse sair mais. Então saí.

O relato escrito era excelente. Mas o relato ao vivo era excepcional. Mónika ria, chorava, pensava, sonhava, seguia com o aluno os passos pelo continente. O melhor é que não havia política. Não havia tese. O melhor era ver aquele desprendimento todo, que podia ao invés de garantir, lhe roubar uma carreira. Olhou para o aluno com espanto e sofrimento. Não havia grupos, gados acadêmicos como nas outras teses, apenas gentes. Deu-se conta de que um verdadeiro scholar estava lhe dando o privilégio de ouvi-lo. Interrompeu o relato sem pensar:

– Vocês está nos dando o privilégio de lhe ouvir.

Os colegas ficaram um pouco incomodados. A idéia era sempre adular o orientador e humilhar o candidato com leves reparos. O aluno percebeu que tinha um interlocutor. Retomou gaguejando até assimilar o elogio.

Mónika tinha o olhar sério, a testa franzida. Quem diria, olhando para ela, que se imaginava retribuindo o prazer que ele lhe dava agora com aquela viagem ao fim do mundo? Nenhum documentário, nenhum livro de história, nada levaria Mónika tão longe, nada. Nem mesmo se ela pegasse a mochila e fosse agora para Cochabamba. Talvez aquela fosse a primeira vez que de fato aportava na América, aquela defesa em Ambaíba. Estava entregue.

O relato acabou. A banca queria ainda discutir se ia avaliar esse ou o outro trabalho. Mónika atropelou a conversa e perguntou para o doutorando:

– E esse texto é todo seu? – ela temia apenas o plágio.

– Tudo menos o que não é.

Havia uma cena onde o aluno relatava escalar um pico com um australiano que o estuprou, a quem ele teve que seguir por dois dias inteiros pois se não o fizesse se perderia na montanha. Mónika havia lido relato idêntico num livro de viagens.

– O que não é?

– A cena do estupro, veja na nota de rodapé.

Nota de rodapé era uma coisa que Mónika não lia por princípio. Mas, de fato, havia uma única nota. Dizia: Essa história copiei de um livro. O resto não. Acho que fui fiel aos fatos, ou ao que me lembro deles.

– Por que você copiou uma história de um livro?

– Pra saber se o resto é verdade.

Os dois sorriram. Estavam exaustos. Perceberam naquele momento que o texto era verdadeiro. A prova era o trecho plagiado, uma mentira em cor distinta. Olharam-se satisfeitos. A nota era dez, para os dois. Penélope e Ulisses.

– O resto é verdade – ela confirmou. E ia então garantir, com inesperada habilidade, a aprovação do trabalho junto aos demais membros da banca. Continuou:

– Agora, por que você não botou no texto a parte em que você pega o ônibus lá em Pelotas, vai até Goiânia e depois anda até Brasília? Bonito ouvir você contar da sua exaustão – um Cristo planaltino? – desboroando no concreto da Praça dos Três Poderes.

– Não sei professora. Não sei. – Era aquele momento onde o autor percebe que o leitor leu seu texto, por ter feito a mesma pergunta que ele. – Será que senti essa parte meio falsa?, não sei. O concreto quente, eu exausto, mas não era ápice algum, eu só pensava em água, banho, sorvete. Eu não estava ali...

– A viagem tinha acabado.

– É, pode ser. É, a viagem tinha acabado...

– E não pode dizer isso no texto? – Mónika pergunto brava – Não pode incluir? Tem até a ver com seu trabalho original sobre o neoliberalismo e os condomínios fechados.

– Acho que sim. É só escrever, né? Uma palavra, e aí a outra...

Como o ritual mandava, o candidato saiu da sala e com ele o cachorro que o acompanhou ao longo do doutorado. Ficava em Ambaíba durante as viagens, melancólico, mas sabia que o dono voltaria. Agora, havia escutado atento a defesa. Pressentia, talvez, algum fim. O dono seria doutor. Aguardaram nas escadas do prédio, um olhando para o outro, o rabo do cão inerte.

Mónika impôs ao orientador sua condição: aprovava se o candidato finalizasse a tese com a peregrinação à Brasília. Era seu jeito de fazer política, invertendo as coisas. Quem queria a aprovação era ela, mas com a exigência eles que entravam na defensiva.

E que custava escrever umas linhas tortas sobre Brasília?

Esta é uma obra de ficção; qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência


Heloisa Pait
São Paulo, 9/2/2018



Quem leu este, também leu esse(s):
01. Piada pronta de Luís Fernando Amâncio
02. Claudio Willer e a poesia em transe de Renato Alessandro dos Santos
03. Paul Ricoeur e a leitura de Celso A. Uequed Pitol
04. Os Doze Trabalhos de Mónika. Epílogo. Ambaíba de Heloisa Pait
05. Os Doze Trabalhos de Mónika. 11. A Quatro Braçadas de Heloisa Pait


Mais Heloisa Pait
Mais Acessadas de Heloisa Pait em 2018
01. Os Doze Trabalhos de Mónika. 7. Um Senador - 4/1/2018
02. Os Doze Trabalhos de Mónika. 8.Heroes of the World - 11/1/2018
03. Os Doze Trabalhos de Mónika. 9. Um Cacho de Banana - 18/1/2018
04. Os Doze Trabalhos de Mónika. 10. O Gerador de Luz - 25/1/2018
05. Os Doze Trabalhos de Mónika. 11. A Quatro Braçadas - 1/2/2018


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




YEAR BOOK DE ORTOPEDIA Y TRAUMATOLOGÍA EN ESPAÑOL
MARK B CONVENTRY
PANAMERICANA
(1976)
R$ 89,00
+ frete grátis



LUA NOVA
STEPHENIE MEYER
INTRÍNSECA
(2008)
R$ 12,00



O PROPÓSITO DO PENTECOSTES
T.L. OSBORN
GRAÇA
(2001)
R$ 9,80



CALDER
JACOB BAAL TESHUVA
PAISAGEM
(2018)
R$ 40,00



INTRODUÇÃO AOS VERDADEIROS FILÓSOFOS
JEAN-YVES LELOUP
VOZES
(2003)
R$ 31,20



SÃO JORGE DOS ILHÉUS
JORGE AMADO
RECORD
(1983)
R$ 13,30



TRILOGIA MIRIAM BANDEIRA (NÓS, CORTES E ENTREATOS)
MIRIAM BANDEIRA
ESDEVA
(1989)
R$ 100,00



REPRESSÃO E SUBVERSÃO EM PSICOSSOMÁTICA
CHRISTOPHE DEJOURS
JORGE ZAHAR
(1997)
R$ 47,80
+ frete grátis



DE PUERIS (DOS MENINOS)
ERASMO
ESCALA
(2008)
R$ 3,00



A JORNADA CAMINHADA DIÁRIA COM DEUS VOL. 02
RICARDO AGRESTE
ZTRES
(2011)
R$ 10,00





busca | avançada
24651 visitas/dia
954 mil/mês