Adaptação: direito ou dever da criança? | Marina Marcondes Machado | Digestivo Cultural

busca | avançada
35732 visitas/dia
993 mil/mês
Mais Recentes
>>> Big Band Infanto-Juvenil do Guri traz o melhor do Jazz para Casa-Museu Ema Klabin
>>> Pátio Alcântara realiza a '6ª Mostra de Orquídeas'
>>> Espetáculo 'Ana Bastarda' dança o feminismo no Brasil
>>> Série Bravos! apresenta a trajetória da artista maranhense Thabata Lorena
>>> Caminhos da Reportagem discute preconceito, tabu e silêncio em torno do suicídio
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Notas de leitura sobre Inácio, de Lúcio Cardoso
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto
>>> O Wunderteam
>>> Fake news, passado e futuro
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
>>> Da varanda, este mundo
>>> Estevão Azevedo e os homens em seus limites
>>> Séries da Inglaterra; e que tal uma xícara de chá?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> No compasso de espera
>>> O que sei do tempo V
>>> É de fibra
>>> O indomável Don Giovanni
>>> Caracóis filosóficos
>>> O mito dos 42 km
>>> Setembro Paulista
>>> Apocalipse agora
>>> João, o Maestro (o filme)
>>> Metropolis e a cidade
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> Meu Primeiro Livro
>>> O Conselheiro também come (e bebe)
>>> O Mistério dos Incas
>>> Black Sabbath 2013
>>> 20 anos do Dois
>>> Dentro da maré cósmica: Saint-John Perse
>>> Orquestra de Câmara F. Liszt
>>> perversão sexual
>>> Amy e a hipocrisia coletiva
Mais Recentes
>>> Revista de literatura
>>> Revista de literatura
>>> Vida acadêmica - Guia Prático do Universitário
>>> A Cidade de Mil Olhos
>>> A Saúde em Estado de Choque
>>> O Futuro do EU- um Estudo da Sociedade da Pós-Identidade
>>> Kathryn Kuhlman- uma Biografia autorizada
>>> Fundamentos de Engenharia de Petróleo
>>> Como Fazer Seu Filho Trocar O Não Pelo Sim
>>> Paratii: Entre Dois Polos
>>> Resposta Certa
>>> Lineamentos De Direito Eleitoral
>>> A Moda
>>> Comer Rezar Amar
>>> A Ponte
>>> Mais Coisas Que Toda Garota Deve Saber
>>> Agora estou sozinha... 3ª ed.
>>> A Invasão Cultural Norte Americana
>>> Manual De Ética, Redação E Estilo Zero Hora
>>> Feias, quase cabeludas
>>> Como Fazer As Pessoas Gostarem De Você À Primeira Vista
>>> Tópicos Em Bancos De Dados, Multimídia E Web
>>> O Papel Do Educador Na Era Da Interdependência
>>> Sexo Na Cabeça
>>> Comprometida - Uma história de amor
>>> O Livreiro De Cabul
>>> Disputas Antigas E Outras Citações
>>> O Levante de 44 - A Batalha Por Varsóvia
>>> BR 040 - Na Trilha Das Capitais Do Brasil
>>> Os Eleitos
>>> Cálculo Volume 2
>>> Tempo de travessia - O segredo das pedras II
>>> Contabilidade Geral Fácil
>>> Administração de Vendas - PLT
>>> Villa-Lobos e a Música Popular Brasileira: Uma Visão Sem Preconceito
>>> A Escola como Sistema Complexo- A ação, o poder e o sagrado
>>> Estudos afro-asiáticos 5 - O pensamento de Frantz Fanon...
>>> Os condenados da terra
>>> Mães Pais & Filhos
>>> Para Tarsila
>>> Corações Blues E Serpentinas
>>> Nunca Antes Na História Deste País
>>> Diário De Uma Encrenqueira - Pérolas Ou Pegas
>>> Terceirização E Multifuncionalidade
>>> Adequação Empresarial - Direção E Foco
>>> Anábase - História Da Gazeta Mercantil
>>> O Longo Inverno - A Batalha do Bulgre
>>> 30 Segundos de Televisão Valem Mais do que 2 Meses de Bienal de São Paulo - Isto é Bom ou é Ruim?
>>> Diário de Berlim Ocupada - 1945 - 1948
>>> As Leis Fundamentais Para O Crescimento Na Vida
COLUNAS >>> Especial Volta às Aulas

Sexta-feira, 15/3/2002
Adaptação: direito ou dever da criança?
Marina Marcondes Machado

+ de 5500 Acessos

Quem foi criança durante a década de sessenta, ou antes, talvez só conheça o jargão educacional da palavra “Adaptação” como uma vivência de pai e mãe, avô ou avó de crianças pequenas; e quem nasceu durante a década de setenta, e adiante, talvez não se lembre (pode ter ido para a escola muito pequeno), mas pais ou mães ou avós estiveram presentes nos primeiros dias de aulas para “fazer a adaptação” deles, como se diz. “Fazer a adaptação” foi um cuidado que o saber da psico-pedagogia passou a introduzir nas rotinas das escolas, especialmente nas de crianças muito pequenas (de zero a seis anos, as pré-escolas e creches). Faz parte de um cuidado com a experiência emocional e afetiva de separar-se de um tipo de vida para adentrar noutro tipo. Trata-se de um modo equivalente a um novo “desmame”: o adulto entrega sua criança aos cuidados de um sistema (professora, coordenadora, orientadora, cozinheira, vigia, etc etc) e a criança passa a viver a rotina daquele sistema, o que se contrapõe ao vivido até então -- usualmente um cotidiano caseiro, mais baseado no ritmo próprio da criança e da sua família. A “adaptação” serve, portanto, para que tanto a criança quanto o adulto se acostumem paulatinamente e se entreguem a esse modo de viver.

É preciso estar bem preparado para “fazer a adaptação”. Trata-se de um procedimento mútuo: estão se adaptando a uma nova realidade tanto a criança quanto seus pais... Por mais bem pensada e elaborada a decisão de levar um filho pequeno para a escola, o fato dele espernear, não querer ir, chorar muito e gritar na hora de dizer...”tchau”, são vividos pelos pais de maneira dolorosa (e muitas vezes até contraditória ou ambígua). O choro e a dificuldade inerente para se separar do modo antigo de viver questiona até o fundo do poço as nossas escolhas urbanas: a necessidade concreta de deixar as crianças em algum lugar propício ao seu desenvolvimento, culturalmente aceito e bem visto, e na maior parte das vezes, também caro prá chuchu. E há logo de cara, ainda em casa, o sufoco de tirar o pequeno da cama, impingindo a ele a rotina dura dos horários do relógio (“Que hora fecha o portão?”), sendo que a criança pequena vive talvez numa outra temporalidade, aquela do sol e da lua, do antes, do durante e do depois da chuva, da duração de uma onda do mar, e tirá-la dessa sintonia muitas vezes significa uma intromissão enorme.

Mas depois a criança se acostuma; ela se mostra mais maleável que nós, e quer ser grande e ter mochila e lancheira, mas quando volta com uma mordida marcada no braço ou um dentinho lascado por uma queda do escorregador... são os pais que não se adaptaram ainda! Pois cada pessoalidade tem seu grau de tolerância/intolerância, cada pai e cada mãe suportam bem ou mal, num grau maior ou menor, a separação de seus filhos pequenos e a distância dos cuidados durante o conflito ou a queda. É fato que deixá-los na escola, por mais bem escolhida que seja a opção educacional que o adulto fez, implicará sempre num grau de institucionalização da vida. E talvez esse seja o fato mais doloroso, do ponto de vista do adulto.

Do ponto de vista da criança, o que dói talvez seja a dúvida colocada no que já foi, no vivido até então: não estava tudo bem ficar em casa com a mãe ou a avó, passear com o cachorro e a empregada, passar um tempinho no primo e voltar para almoçar e dormir?? E se a adaptação está ocorrendo depois de um período de férias dos adultos, quanto pior! Não era uma maravilhosa vida, e para todos!, morar numa casa na beira da praia, fazer buracos na areia e boiar no mar? Como compreender esta opção dos pais de lhe imprimirem a vida urbana e institucional de uma hora para outra e de uma vez por todas? Como aceitar a mão e o colo de uma desconhecida, a professora? Pagando uma mensalidade salgada nós acreditamos garantir uma mão segura e um colo aconchegante para nossos filhos pequenos. Ainda assim, sofremos.

Cabe lembrar que poder fazer essa opção é possível apenas para uma minoria das crianças brasileiras. A maioria delas está em adaptação, no sentido darwiniano da sobrevivência (ou morte) por toda sua primeira infância. Muitas estarão institucionalizadas desde seu nascimento, e uma das coisas mais tristes de se ver nesse mundo é um bebê institucionalizado. Outras crianças estão ficando oito horas por dia em creches, muitas das quais com estrutura frágil, com dificuldades básicas de manutenção, sendo a principal delas: poucos adultos para grande número de crianças. Isso faz ser preciso considerar sempre “o Grupo” de modo a dar conta dos cuidados e de todas as atividades previstas. Estarão essas crianças, então, em adaptação à falta de “Pessoalidade” que tende a ser negada desde o primeiro dia de freqüência, no entanto negada para que todos tenham de fato o direito de serem atendidos. Da mesma forma que para os pais que podem pagar uma boa pré-escola, o serviço prestado tem um custo financeiro alto, também para o Estado boas creches devem implicar em investimento quantitativo e qualitativo: dinheiro e recurso humano. Porque, se todas as crianças pudessem ter um bom começo, superariam as inúmeras fases de adaptação que se apresentassem a elas, e diante da experiência relacional da mão segura e do colo aconchegante, se tornariam aptos a dar um salto, digno, à categoria de cidadãos. Para que, anos depois, sejam eles mesmos pais e educadores conscientes de suas opções, deveres e direitos em relação às crianças ao seu redor.


Marina Marcondes Machado
São Paulo, 15/3/2002


Mais Marina Marcondes Machado
Mais Especial Volta às Aulas
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O CASO THOMAS QUICK
HANNES RASTAM
RECORD
(2014)
R$ 19,99



NIETZSCHE
MICHAEL TANNER
LOYOLA
(2004)
R$ 12,90



CORPO E ANCESTRALIDADE - UMA PROPOSTA PLURICULTURAL DE DANÇA-ARTE-EDUCAÇÃO
INAICYRA FALCÃO DOS SANTOS
TERCEIRA MARGEM
(2006)
R$ 85,00



GRÉCIA ANTIGA: ÉPICA, LÍRICA E DRAMÁTICA (TEATRO/POESIA/DRAMATURGIA) - EM ESPANHOL
MIRTA AGUIRRE (ORG.)
INSTITUTO DEL LIVRO - CUBA
(1970)
R$ 20,00



SOU DOWN E SOU FELIZ
CHARLOTTE F. LESSA
CASA PUBLICADORA DO LIVRO
(2009)
R$ 9,00



ANGRA QUE O TEMPO LEVOU
MIGUEL ASSAD ISALTINO
SERMOGRAF
(2007)
R$ 149,99



AZUL: ESTRANHOS CAMINHOS
JOSÉ AFRÂNIO M. DUARTE
ARMAZÉM DAS IDEIAS
(2003)
R$ 7,00



THE FOUR HUNDRED
STEPHEN SHEPPARD
SECKER & WARBURG
(1979)
R$ 45,00
+ frete grátis



HOWARD HUGHES EM HOLLYWOOD
TONY THOMAS
FRENTE
(2004)
R$ 24,90
+ frete grátis



CÂNCER DE MAMA - UM GUIA COMPLETO PARA A VIDA APÓS O TRATAMENTO
HESTER HILL SCHNIPPER
GAIA
(2009)
R$ 19,90





busca | avançada
35732 visitas/dia
993 mil/mês