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COLUNAS

Terça-feira, 11/6/2002
No caminho de Sterne
Bruno Garschagen
+ de 1000 Acessos
+ 2 Comentário(s)

O título já estava definido quando o escritor irlandês Laurence Sterne (1713-1768) resolveu morrer deixando inacabada “Uma viagem sentimental através da França e da Itália” (Nova Fronteira, 158 páginas). Ter abandonado este mundo antes do previsto nos privou da rota italiana (apesar de algumas citações de passagens em Roma, Florença e Milão), mas o relato de sua incursão às entranhas do espírito francês — sofisticado, inteligente, trapalhão — nos transforma em gratos médicos legistas que sorriem ao resultado da autópsia.

Sterne não se priva em detalhar as características do então invejado estilo francês em detrimento de uma monótona descrição das ruas, vielas, becos, praças, que compõem o cenário. Não nos insulta com detalhes irrelevantes. Vai costurando com linha de seda os diálogos, interjeições, resignações, maldades, e nos apresenta uma fina colcha sem qualquer marca das cicatrizes deixadas pela agulha.

O pastor Yorick — alter-ego do escritor extraído de Hamlet, de Shakespeare — é o condutor da viagem. A pretensão inicial era percorrer França e Itália. Passeio recomendado pelo médico por conta de uma malfada tuberculose. A doença que causou sua morte também decretou o fim do romance no meio de um ato. Sabiamente, pressentindo que não terminaria seu relato, transferiu à imaginação do leitor descobrir o que ele fez com a fille de chambre (criada) da dama piemontesa de cerca de trinta anos que se colocou entre os dois no limiar de uma intimidade. Até então, estavam o três na contingência de compartilhar o mesmo quarto de uma pensão.

É Yorick que nos conta as sutilezas do relacionamento com os franceses. O pastor é um “avarento esclarecido” — daqueles que negam uma esmola e se ressentem —, cínico e um sedutor incorrigível. Se misturam no protagonista a capacidade de espezinhar um pobre monge em busca de alguns tostões para sua Ordem de São Francisco (se martirizando logo em seguida) e a de confessar sem pudores não haver neste mundo homem que ame as mulheres mais do que ele. Um sujeito que afronta placidamente; que completa aqueles raros clubes de esgrimistas que derramam uma lágrima a cada coração perfurado.

Pretenso sedutor, Yorick distribui galanteios às mulheres que lhe cruzam o caminho como um pizzaiolo salpica orégano sobre a massa. “Sim — e então — Vós, cujas cabeças frias como a argila e cujos corações indiferentes podem questionar ou dissimular suas paixões, dizei-me que transgressão é essa que faz com que o homem as tenha? ou como seu espírito pode ficar responsável, perante o pai dos espíritos, por uma conduta sua que não fosse aquela sob o impacto delas?”.

Vaidoso, se vê atingido na alma ao descobrir qualidades superioras de sedução em seu criado. Indigna-se ao saber que ele sairá com uma petit demoiselle que trabalhava para Monsieur lê Count de B****. La Fleur a conhecera e conquistara nuns poucos minutos em que acompanhou Yorick até a casa do conde para tentar obter o passaporte. “(...) como – só Deus sabe – ele se relacionara com a demoiselle no patamar da escada, enquanto eu estava ocupado com o meu passaporte; e como houve tempo suficiente para que eu atraísse o Conde para a minha causa, La Fleur conseguira fazê-lo ser o bastante para atrair a criada para a sua própria (...)”.

Sterne faz acrobacias com as frases. Fundamental se ater a cada verbo, imagem, travessão, para não deixar escapar sua visão mordaz emplacada nas expressões de duplo sentido e insinuações. Fica, então, a questão: quem é esse Yorick que desnuda sem piedade o perfil do escritor irlandês? Um sujeito culto; irônico; crítico, engraçado; que despreza a seriedade? Um pouco de cada. Um inglês. O homem que acha os franceses “um povo tão civilizado e cortês, e tão famoso por sua sensibilidade e sentimento refinado, que eu tenha que argumentar”, mas, por outro lado, que “certamente têm a fama de compreender mais o que seja o amor e de fazê-lo melhor do que qualquer outra nação na superfície da terra: mas, quanto a mim, eu os considero uns trapalhões errantes, e, na verdade, o pior grupo de atiradores que jamais submeteu à prova a paciência de Cupido”. A sutileza faz o homem.

“Uma viagem sentimental através da França e da Itália” traz a marca da linguagem sterniana. Frases cadenciadas, pensamentos enviesados, prosa extraída a ferro dos diálogos urbanos. “Se isso não resultar em nada — outra coisa não resultará — não importa — é uma experiência sobre a natureza humana — considero-me pago por meus sofrimentos — é o bastante — o prazer do experimento manteve meus sentidos e a melhor parte do meu sangue acesos, e fez adormecer a parte grosseira”. Essa forma de literatura serviria de influência, em menor e maior grau, ao nosso Machado de Assis e ao irlandês James Joyce. Se “Memórias póstumas de Brás Cubas” carrega de Sterne os curtos capítulos e reflexões filosóficas (Machado inclusive cita o escritor irlandês), “Ulisses” exagera na fragmentariedade e rapidez da linguagem, além das intervenções que recheiam uma conversa.

Foi em “A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy” que Sterne nos apresentou um dos primeiros romances modernos da literatura mundial. Trabalhou como um ourives nos jogos intertextuais, na livre associação de idéias, na dissolução do enredo, elementos hoje reconhecidos como modernos e pós-modernos. É este o livro que ecoou na obra de Machado e Joyce e reverbera até hoje em diversos escritores — inclusive em alguns que desconhecem sua existência. Com “Tristram Shandy”, um livro difícil e ostensivamente escrito para frustrar a expectativa do leitor, no que concordo com a análise do intelectual e tradutor José Paulo Paes, o escritor irlandês se tornou conhecido e admirado. Deste, “Uma viagem sentimental através da França e da Itália” funciona como um apenso, pois Yorick está lá, como o pastor bonachão da paróquia local que intervém regularmente nos diálogos do irmãos Shandy, Toby e Walter (tio e pai de Tristram). O curioso é que “Uma viagem...” foi lançado e relançado no Brasil muito antes de “A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy” ter sido traduzido por aqui. Trata-se ainda de um complemento a “Os sermões de Yorick”, que desagradou a cúpula da igreja anglicana a que pertencia Sterne.

Traduzido em várias línguas desde que foi lançado, a viagem sentimental de Sterne obteve mais sucesso do que sua obra principal. Misturando relato de viagem, novela e esquete humorístico, recebeu elogios de figuras como Goethe e Heine e imitadores como o português Almeida Garret em suas “Viagens na minha terra” e o francês Xavier de Maistre em sua “Viagem ao redor do meu quarto”.

Filho de um pobre alferes ou porta-bandeira do exército inglês Laurence Sterne passou a infância em barracas do acampamento militar. Nasceu na Irlanda por acaso. Confiado por seu pai aos cuidados de parentes em Yorkshire, pouco antes de partir para a Índias Ocidentais, onde morreria, o garoto estudou filosofia e humanidades em Cambridge. Após bacharelar-se em 1738, tomou ordens na Igreja Anglicana, mais por conveniência do que vocação, e conseguiu um vicariato em Yorkshire. Casou-se também por conveniência com a herdeira de uma família de proprietários rurais supostamente abastados — depois descobriu o engodo.

Nos anos seguintes, ganha uma filha e consegue sucessivas promoções na carreira eclesiástica graças ao aprumo com que escreve seus sermões. Não demorou a afetá-lo a afecção nos pulmões (que o levaria à morte), forçando-o a viajar em busca de ares mais benéficos. Entremeando os afazeres religiosos passou a escrever os romances que dois séculos mais tarde continuariam a perturbar a existência dos que se atrevem a incursionar em sua literatura numa viagem muito além do sentimental.





Bruno Garschagen
Cachoeiro de Itapemirim, 11/6/2002

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
11/6/2002
11h33min
Curiosidade inútil: o livro "Sentimental journey through France and Italy" está à venda em www.alibris.com, por U$ 2,999.95!! Abraços, Evandro.
[Leia outros Comentários de Evandro Ferreira]
11/6/2002
13h38min
Oi Evandro, boa a dica nesses tempos bicudos em que os tostões rareiam em bolsos furados. Grande abraço. Bruno.
[Leia outros Comentários de Bruno Garschagen]
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