Segunda-feira,
19/8/2002 Vida e obra de Euclides da Cunha Rodrigo Gurgel
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Quatro obras recentes ajudam a desvendar um pouco mais o incrível universo paralelo, construído por Euclides da Cunha em seu Os Sertões, cujo centenário comemoramos neste ano.
Primeiro, ainda em 2001, a Editora Hucitec publicou Ciência & Arte: Euclides da Cunha e as Ciências Naturais, de José Carlos Barreto de Santana, desvendando as relações de Euclides com a ciência de seu tempo. Depois, nos últimos meses, três outros autores trouxeram à luz obras de indiscutível fôlego: Adelino Brandão apresentou Euclides da Cunha: bibliografia comentada (Editora Literarte), enumerando e comentando, no mais completo trabalho desse gênero realizado até agora, uma bibliografia comparável apenas à de Machado de Assis; Manif Zacharias elucidou o vocabulário mais rico e intrincado da literatura brasileira em Lexicologia de Os Sertões (Editora Garapuvu); e, finalmente, Leopoldo Bernucci, num belíssimo esforço conjunto da Ateliê Editorial, Imprensa Oficial do Estado e Arquivo do Estado, presenteou os leitores e os estudiosos da saga euclidiana com uma, sob todos os aspectos, perfeita edição crítica de Os Sertões.
Contudo, o trabalho de desvendar o palimpsesto euclidiano mal foi iniciado. A obra apresenta possibilidades infindas de análise e, a cada página, oferece ao leitor atento uma intertextualidade inesperada, um ritmo embriagante, uma adjetivação elaborada como se o autor vivesse em permanente estado de delírio. O livro que retrata e denuncia a campanha do Exército brasileiro contra o arraial de Canudos permanece, apesar dos múltiplos esforços da intelligentzia brasileira, uma esfinge silenciosa em meio ao deserto das letras nacionais, no qual desponta apenas uma ou outra obra digna de ser avaliada como genial.
Na verdade, creio que apenas três outras poderiam ser colocadas ombro a ombro com Os Sertões: O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo; Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; e os contos de Machado de Assis, que, aliás, esperam, pacientemente, desde longos anos, por uma edição crítica.
Há quem discorde, é claro, dessa opinião, como o crítico Roberto Schwarz, para quem a obra pueril de uma Helena Morley guardaria, em relação a Os Sertões, acertos arrebatadores, enquanto que o texto euclidiano possuiria contornos, digamos, anômalos. O trecho da entrevista publicada na edição de 1º de Junho de 1997, no jornal Folha de S. Paulo, merece ser lembrado: "(...) de fato, me parece monstruosa a salada que junta naturalismo e parnasianismo, 'écriture artistique' e racismo científico, eloqüência épica e terminologia técnica. Por momentos, a mistura chega a ter um rendimento estético à revelia, pela enormidade da alienação. O lado nocivo surge quando se trata dos pobres, que, em lugar de serem percebidos na posição de classe complementar à de quem fala, são colocados na escala evolutiva das raças, das religiões, dos estratos geológicos, a uma distância de milênios, quase que fazendo parte de outra espécie."
Caminhando na contramão da crítica nacional, o professor Schwarz pactua com outras vozes solitárias, que já classificaram o estilo de Euclides como "gongórico", ou como um "cipoal".
Na onda de lançamentos deste ano comemorativo faltará, infelizmente, a obra que se tornaria indispensável à compreensão do homem Euclides da Cunha: a prometida e esperada biografia, já em fase de finalização, escrita pelo professor Roberto Ventura, que pesquisava o assunto há cerca de dez anos e que faleceu num acidente de carro no último dia 14 de agosto, retornando de São José do Rio Pardo, SP, onde participara de eventos da Semana Euclidiana.
Restam-nos, assim, para compreendermos a multifacetada personalidade desse republicano radical, a "Correspondência de Euclides da Cunha", coligida por Walnice Nogueira Galvão e Oswaldo Galotti (Edusp), e, dentre outros estudos, a biografia escrita por Sylvio Rabelo (Editora Civilização Brasileira/INL).
Ainda há, portanto, muito para ser descoberto na vida e na obra desse escritor, talhado para não se vergar aos modismos de qualquer espécie, inflexível tanto na pontuação, na qual as vírgulas revelam a respiração sincopada de um homem ansioso e atormentado, como no seu comportamento eminentemente ético, que acabou por condená-lo a uma estranha e injusta espécie de ostracismo em seu próprio país.