Quarta-feira,
18/9/2002 Murilo Mendes, poeta ilimitado Rodrigo Gurgel
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Em meio ao caos paulistano, incrustado, qual ilha afrodisíaca perdida num mar de predadores, numa discreta rua da Vila Mariana, encontra-se o Museu Lasar Segall. E lá, só até 27 de outubro, a exposição Murilo Mendes (1901 - 2001), organizada pelo Centro de Estudos Murilo Mendes, da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais, com a curadoria de Júlio Castañon Guimarães.
Pequeno, despojado, aconchegante, o museu vibra num compasso silencioso, e quem adivinha, olhando de fora, o aprazível jardim que ali se esconde, não imagina, contudo, que a biblioteca está lotada de leitores assíduos e que as oficinas de gravura produzem a todo vapor.
O poeta que se dizia "indisposto em relação ao sistema de vida desta civilização", criticando, em entrevistas e textos, "o culto do dinheiro, a pressa, a incompatibilidade entre uma vida cultural e a velocidade dos tempos modernos, a mecanização do homem"(*), não poderia encontrar melhor abrigo - ainda que temporário -, senão no Lasar Segall.
A exposição reúne cartas e outros documentos originais do poeta, algumas das primeiras edições de seus livros, obras de arte pertencentes à coleção Murilo Mendes e Maria da Saudade Cortesão, poemas e fotografias.
Entre 16 e 18 horas, em sessão corrida, os visitantes podem assistir ao documentário "Murilo Mendes: a poesia em pânico", com roteiro e direção de Alexandre Eulálio. O filme mostra a simplicidade da vida do poeta, escrevendo em meio aos livros, no apartamento inundado pelo sol, recebendo os amigos, circundado pelos alunos na saída da universidade, ou caminhando, solitário, sem qualquer gesto solene, pelas ruas de Roma. E também revela um Murilo insólito. "- Moro em Roma, porque aqui não há rinocerontes soltos pelas praças", afirma ele em dado momento, o olhar maroto avaliando a reação do entrevistador, pouco depois de confessar pertencer a uma sociedade secreta cujo objetivo é explodir a Fontana di Trevi...
Mas, por trás do menino peralta, estará sempre o "homem saturado de cultura", como o definia Oto Maria Carpeaux, ou, para Manuel Bandeira, o "conciliador de contrários - incorporador do eterno ao contingente".
O homem que se dizia "(...) limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo, a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação" superou cada um desses improváveis limites, deixando-os subjugados à sua condição de metáforas. Tratou como fluidas as fronteiras entre o real e o irreal, sempre se dizendo "complexo", e criou uma arte que deve muito à música, ao cinema e, principalmente, à pintura. Os medos, ele os deixou para trás, não admitindo "nem um hífen entre poesia e liberdade". Religioso, considerava-se "um espírito dialético" e buscava "a lógica oculta entre sensualidade e cristianismo". Quanto à educação, ele encontrou, na literatura, "um modo de exteriorizar a revolta diante do convencionalismo, do superficialismo e do farisaísmo".
Seus alunos de Literatura Brasileira, em Roma, o saudavam como "il professore dell'avenire" (o professor do futuro), o que, para ele, deveria soar não só como um elogio, mas como a prova de que conseguira superar a qualidade de seus próprios mestres, dos quais não guardava as melhores lembranças: "- Vi foram os professores burocratas, escravos dos programas e sem o menor entusiasmo pela obra que realizavam."
As preciosidades do fino humor de Murilo são infinitas. Poucos tiveram a coragem de afirmar, com todas as letras, o que a quase absoluta maioria sempre pensou sobre nossos poetas do período Romântico: "- São muito cacetes." Convidado a assistir, às 3 da manhã, a descida do homem na Lua, recusou-se: "- A essa hora só estou acordado, por insônia, para ler Dante ou ouvir Mozart, ou para assistir à segunda vinda de Cristo sobre a Terra." O mesmo humor com o qual, sem piedade, se referia a si mesmo: "- Eu vaio o meu busto na posteridade remota."
O acervo iconográfico da exposição coloca em relevo a dívida que a poesia de Murilo tem com as artes plásticas, dívida certamente iniciada graças à ascendência do pintor Ismael Nery, que acabou por convertê-lo ao catolicismo, e que João Cabral de Melo Neto, reconhecendo, por sua vez, a influência de Murilo na sua própria poesia, soube definir: "A poesia de Murilo me foi sempre mestra, pela plasticidade e novidade da imagem. Sobretudo foi ela quem me ensinou a dar precedência à imagem sobre a mensagem, ao plástico sobre o discursivo."
Católico livre de pieguices. Homem despojado, sem ser espartano. Poeta místico, mas recusando-se a abdicar de uma constante preocupação social. Assim era Murilo, cuja confiança na poesia extrapolava qualquer mera conotação metafísica, aferrando-se à única solidez possível, a dos signos dispostos sobre a página em branco: "A poesia para mim vence a morte porque o texto ocupa o nosso espaço intelectual, o texto é uma afirmação de vida, o texto é não só uma projeção da nossa personalidade: é também um ponto de ligação com a comunidade. O texto para o poeta é qualquer coisa de definitivo."
(*) Todas as citações de Murilo Mendes foram retiradas das entrevistas publicadas no catálogo da exposição "Murilo Mendes (1901-2001)".