A ciência caminha, cada vez mais, no sentido de comprovar que as sinapses
são a forma encontrada pelo cérebro, após séculos
de seleção natural, para armazenar e dinamizar as informações
obtidas através da experiência. Pesquisas recentes asseveram que
indivíduos com maior treinamento profissional chegam a ter, para cada neurônio,
17% mais sinapses do que os não preparados, havendo correlação,
inclusive, entre educação e ramificação de neurônios.
As sinapses ocorrem, assim, numa progressão cumulativa. Os neurônios,
quando estimulados, produzem sinapses; e essas sinapses armazenam, num movimento
incessante, sob a forma de novas conexões sinápticas, as informações
adquiridas, qualificando sempre mais as interligações entre os
neurônios, formando ciclos que se repetem numa aspiral ascendente, o que
talvez explique porque muitos artistas - e tantos outros profissionais - conseguem
superar-se constantemente, além de explicar também o fato da ciência
- e do conhecimento humano em geral - progredir.
Esse efeito cumulativo das sinapses é muito visível no trajeto
pessoal do poeta Manuel Bandeira, evocado nas páginas memorialísticas
de Itinerário de Pasárgada1. Experiência após
experiência, casualidade após casualidade, a começar da
infância, serviram para formar a personalidade poética, o senso
estético e o somatório de referenciais que desembocaram numa das
mais sólidas produções literárias da língua
portuguesa. Bandeira recorda seus primeiros contatos com a poesia, lendo os
versos pueris encontrados em algumas histórias da carochinha; depois,
as cantigas de roda, as trovas populares, as "coplas de zarzuelas",
os "couplets de operetas francesas" e mais os "versos de toda
sorte que me ensinava meu pai". Entre os oito e nove anos, recorda-se de
procurar, no Jornal do Recife, "a poesia que diariamente vinha na primeira
página". E, aos dez anos, faz quadrinhas "gracejando a propósito
dos namoros" dos tios maternos.
A figura paterna é, sem dúvida, um elemento preponderante na
formação do poeta: "Na companhia paterna ia-me embebendo
dessa idéia que a poesia está em tudo - tanto nos amores como
nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas." O
pai fazia-o, também, decorar poemas, além de influenciá-lo
com a curiosa mania de invocar, dias a fio, com determinadas palavras.
Poeta "por fatalidade", como Bandeira se autodefine, ele publica
seu primeiro livro, A Cinza das Horas, em 1917, "sem a intenção
de começar carreira literária: desejava apenas dar-me a ilusão
de não viver inteiramente ocioso". O homem cuja confessada ambição,
semeada pelo pai, era a arquitetura, tornou-se poeta graças "às
circunstâncias", transformando-se, finalmente, também segundo
sua própria definição, num poeta das circunstâncias:
"(...) Meus primeiros versos datam dos dez anos e foram versos de circunstância.
Até os quinze não versejei senão para me divertir, para
caçoar. Então vieram as paixões da puberdade e a poesia
me serviu de desabafo. Ainda circunstância. Depois chegou a doença.
Ainda circunstância e desabafo. Fiz algumas tentativas de escrever poesia
sem apoio nas circunstâncias. Todas fracassaram."
As declarações acima, contudo, escamoteiam muito da formação
intelectual de Bandeira, contradizem as explicações que ele fornece
para a gestação de alguns de seus principais poemas e simplificam,
exageradamente, uma criatividade em permanente reelaboração.
Dizendo-se "instruído pelos fracassos", ele confessa ter tomado
consciência de suas limitações entre 1904, quando adoece,
e 1917. Uma autoconsciência que emerge de processos paralelos, como se
dois afluentes corressem um ao lado do outro, confluindo, subitamente, em determinados
momentos, e transbordando na forma de poesia.
De um lado, Bandeira afirma ter verificado, em sua experiência pessoal,
que seu esforço consciente para criar resultava somente em "insatisfação,
ao passo que o que me saía do subconsciente, numa espécie de transe
ou alumbramento, tinha ao menos a virtude de me deixar aliviado de minhas angústias".
Após sucessivas experiências, ele diz recusar o processo de escrever
em estado de lucidez, resignando-se a fazê-lo "quando Deus é
servido".
Há um outro Bandeira, no entanto, complementar a este primeiro, é
verdade, mas diverso. Um Bandeira que se aproxima das palavras e do exercício
poético como um incansável estudioso. Alguém que afirma
ter compreendido,com o tempo, "que em literatura a poesia está nas
palavras, se faz com palavras e não com idéias ou sentimentos".
Um poeta que, conscientemente, diz aproveitar-se "dos lapsos de memória"
e "dos exames de variantes": "Quantas vezes, querendo lembrar
uma estrofe de um poema, uma trova popular, e não conseguindo reconstituí-la
fielmente, fazia da melhor maneira o remplissage, depois, cotejando as
duas versões - a minha e o original, verificava qual delas era melhor,
pesquisava o segredo da superioridade e, descoberto, passava a utilizá-lo
nos meus versos."
Incansável, ele pesquisa e coteja versões diferentes de um mesmo
poema, exercitando-se e aprendendo "a conhecer os valores plásticos
e musicais dos fonemas", demonstrando conhecer muito bem a nossa fonologia:
"A poesia é feita de pequeninos nadas e (...), por exemplo, uma
dental em vez de uma labial pode estragar um verso."
É surpreendente como ele enumera, sem qualquer receio ou pudor, suas
influências literárias e extraliterárias, citando, inclusive,
os escritores e os amigos que o marcaram, recordando como, em sua infância,
as pessoas comuns ganhavam aos seus olhos uma densidade inusitada - o que ele
define como "o caráter de personagens homéricos" -,
e ditando as lições complexas, frutos de minuciosos estudos, mas
que em suas palavras ganham uma aparente e convidativa facilidade: "Cedo
compreendi que o bom fraseado não é o fraseado redondo, mas aquele
em que cada palavra está no seu lugar exato e cada palavra tem uma função
precisa, de caráter intelectivo ou puramente musical, e não serve
senão a palavra cujos fonemas fazem vibrar cada parcela da frase por
suas ressonâncias anteriores e posteriores."
Portanto, aqueles que se satisfazem com o Bandeira "poeta das circunstâncias"
pouco apreenderão de um processo criativo que pode, de fato, explodir
em sinapses arrebatadoras, mas que só o faz por trazer uma base sólida,
uma formação clássica e um penetrante conhecimento de versificação,
comprovando que a criação, antes de tudo, é um processo
eminentemente racional.
Acompanhar as elucidações de Bandeira sobre as diferentes gestações
de seus poemas é compreender como as sinapses podem ser realmente cumulativas
e como, reagindo aos estímulos da realidade, elas se imbricam, se interagem,
respondendo ao apelo da vida, das emoções e, ao mesmo tempo, recriando-se
a partir desses mesmos estímulos. Pasárgada leva anos para
ter o primeiro verso gerado e mais alguns para, finalmente, ser concluído.
Outros, nascem enquanto o poeta dorme. Outros, por fim, surgem de abrupto, e
A última canção do beco talvez seja o mais curioso
desse grupo: "Na véspera de me mudar da rua Morais e Vale, às
seis e tanto da tarde, tinha eu acabado de arrumar os meus troços e caíra
exausto na cama. Exausto da arrumação e um pouco também
da emoção de deixar aquele ambiente, onde vivera nove anos. De
repente a emoção se rimou em redondilhas, escrevi a primeira estrofe,
mas era hora de vestir-me para sair, vesti-me com os versos surdindo na cabeça,
desci à rua, no beco das Carmelitas me lembrei de Raul de Leoni, e os
versos vindo sempre, e eu com medo de esquecê-los, tomei o bonde, saquei
do bolso um pedaço de papel e um lápis, fui tomando as minhas
notas numa estenografia improvisada, se não quando lá se quebrou
a ponta do lápis, os versos não paravam... Chegando ao meu destino,
pedi um lápis e escrevi o que ainda guardava de cor... De volta a casa,
bati os versos na máquina e fiquei espantadíssimo ao verificar
que o poema se compusera à minha revelia, em sete estrofes de sete versos
de sete sílabas."
Eis o resultado, caros leitores:
Beco que cantei num dístico
Cheio de elipses mentais,
Beco das minhas tristezas,
Das minhas perplexidades
(Mas também dos meus amores,
Dos meus beijos, dos meus sonhos),
Adeus para nunca mais!
Vão demolir esta casa.
Mas meu quarto vai ficar,
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências:
Vai ficar na eternidade,
Com seus livros, com seus quadros,
Intacto, suspenso no ar!
Beco de sarças de fogo,
De paixões sem amanhãs,
Quanta luz mediterrânea
No esplendor da adolescência
Não recolheu nestas pedras
O orvalho das madrugadas,
A pureza das manhãs!
Beco das minhas tristezas,
Não me envergonhei de ti!
Foste rua de mulheres?
Todas são filhas de Deus!
Dantes foram carmelitas...
E eras só de pobres quando,
pobre, vim morar aqui.
Lapa - Lapa do Desterro -,
Lapa que tanto pecais!
(Mas quando bate seis horas,
Na primeira voz dos sinos,
Como na voz que anunciava
A conceição de Maria,
Que graças angelicais!)
Nossa Senhora do Carmo,
De lá de cima do altar,
Pede esmolas para os pobres,
- Para mulheres tão tristes,
Para mulheres tão negras,
Que vêm nas portas do templo
De noite se agasalhar.
Beco que nasceste à sombra
De paredes conventuais,
És como a vida, que é santa
Pesar de todas as quedas.
Por isso te amei constante
E canto para dizer-te
Adeus para nunca mais!
As sete estrofes de sete versos de sete sílabas não podem, certamente,
ser obra do acaso. O poema é fruto da emulação do real
e do desencadeamento de informações armazenadas desde o surgimento,
no embrião, das primeiras conexões de neurônios; e, nelas,
estão os versos das histórias infantis, os pregões dos
vendedores ambulantes, os exercícios de tradução, a memória
paterna, a obsessão do artista e, também, o que Ribeiro Couto
disse em seu discurso, ao recepcionar Bandeira na Academia Brasileira de Letras:
"(...) Trouxe-nos aquilo que a leitura dos grandes livros da humanidade
não pode substituir: a rua."
O artista nada mais é senão o que, de forma prolixa, Edmund Wilson
decifra: "Os maneirismos do artista, seu estilo fortemente marcado, que
seus admiradores particularmente apreciam, podem na verdade, do ponto de vista
de suas ambições e de sua concepção original, representar
apenas as limitações do hábito, a queda no sulco do menor
esforço, os estigmas lamentáveis porém inevitáveis
(...) de suas peculiaridades físicas, dos fracassos de sua família
e das limitações de sua nação e raça."2
Ou o que, de forma sintética, Bandeira nos diz: "Somos duplamente
prisioneiros: de nós mesmos e do tempo em que vivemos".
Frágil em sua aparente perenidade, o poeta nasce do ensejo, do instante,
mas também da história, da sucessão de experiências
cujos resultados mais íntimos sempre nos escapam e, para os quais, o
poema, a obra de arte, é, ao mesmo tempo, uma sublimação,
uma escapatória e uma afirmativa, um sim irrepreensível. Solitário
em seu instante, subjugado por suas sinapses e emoções, "aos
olhos dos outros, um homem é poeta se tiver escrito um bom poema. Aos
próprios olhos, ele é poeta apenas no momento em que faz a última
revisão num novo poema. No momento anterior, era apenas um poeta em potencial;
no momento seguinte, é um homem que parou de escrever poesia, talvez
para sempre."3
Toda obra nasce da incerteza, ainda que alguns, após a glória
e a fama terem se manifestado em suas vidas, afirmem o contrário. A angústia
e a capacidade de, em meio às incertezas, refletir sobre o próprio
processo de criação conformam parcela da energia que impulsiona
o escritor. Contudo, toda obra está presa a essas infinitas e dessemelhantes
conexões que expusemos neste breve ensaio, sempre emolduradas pelo binômio
espaço/tempo, mas cujo verdadeiro nome é, apenas, fragilidade.
Notas:
1In Bandeira, Manuel. Seleta de Prosa, Editora Nova Fronteira, 2ª reimpressão, RJ, 1997.
2In Os Anos 20, Editora Cia. das Letras, São Paulo, 1987.
3Auden, W. H., "Fazer, saber e avaliar", in A mão do artista, Editora Siciliano, São Paulo, 1993.