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COLUNAS

Quarta-feira, 16/10/2002
Sinapses: bases da criação literária - Parte 2
Rodrigo Gurgel
+ de 1800 Acessos

A ciência caminha, cada vez mais, no sentido de comprovar que as sinapses são a forma encontrada pelo cérebro, após séculos de seleção natural, para armazenar e dinamizar as informações obtidas através da experiência. Pesquisas recentes asseveram que indivíduos com maior treinamento profissional chegam a ter, para cada neurônio, 17% mais sinapses do que os não preparados, havendo correlação, inclusive, entre educação e ramificação de neurônios.

As sinapses ocorrem, assim, numa progressão cumulativa. Os neurônios, quando estimulados, produzem sinapses; e essas sinapses armazenam, num movimento incessante, sob a forma de novas conexões sinápticas, as informações adquiridas, qualificando sempre mais as interligações entre os neurônios, formando ciclos que se repetem numa aspiral ascendente, o que talvez explique porque muitos artistas - e tantos outros profissionais - conseguem superar-se constantemente, além de explicar também o fato da ciência - e do conhecimento humano em geral - progredir.

Esse efeito cumulativo das sinapses é muito visível no trajeto pessoal do poeta Manuel Bandeira, evocado nas páginas memorialísticas de Itinerário de Pasárgada1. Experiência após experiência, casualidade após casualidade, a começar da infância, serviram para formar a personalidade poética, o senso estético e o somatório de referenciais que desembocaram numa das mais sólidas produções literárias da língua portuguesa. Bandeira recorda seus primeiros contatos com a poesia, lendo os versos pueris encontrados em algumas histórias da carochinha; depois, as cantigas de roda, as trovas populares, as "coplas de zarzuelas", os "couplets de operetas francesas" e mais os "versos de toda sorte que me ensinava meu pai". Entre os oito e nove anos, recorda-se de procurar, no Jornal do Recife, "a poesia que diariamente vinha na primeira página". E, aos dez anos, faz quadrinhas "gracejando a propósito dos namoros" dos tios maternos.

A figura paterna é, sem dúvida, um elemento preponderante na formação do poeta: "Na companhia paterna ia-me embebendo dessa idéia que a poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas." O pai fazia-o, também, decorar poemas, além de influenciá-lo com a curiosa mania de invocar, dias a fio, com determinadas palavras.

Poeta "por fatalidade", como Bandeira se autodefine, ele publica seu primeiro livro, A Cinza das Horas, em 1917, "sem a intenção de começar carreira literária: desejava apenas dar-me a ilusão de não viver inteiramente ocioso". O homem cuja confessada ambição, semeada pelo pai, era a arquitetura, tornou-se poeta graças "às circunstâncias", transformando-se, finalmente, também segundo sua própria definição, num poeta das circunstâncias: "(...) Meus primeiros versos datam dos dez anos e foram versos de circunstância. Até os quinze não versejei senão para me divertir, para caçoar. Então vieram as paixões da puberdade e a poesia me serviu de desabafo. Ainda circunstância. Depois chegou a doença. Ainda circunstância e desabafo. Fiz algumas tentativas de escrever poesia sem apoio nas circunstâncias. Todas fracassaram."

As declarações acima, contudo, escamoteiam muito da formação intelectual de Bandeira, contradizem as explicações que ele fornece para a gestação de alguns de seus principais poemas e simplificam, exageradamente, uma criatividade em permanente reelaboração.

Dizendo-se "instruído pelos fracassos", ele confessa ter tomado consciência de suas limitações entre 1904, quando adoece, e 1917. Uma autoconsciência que emerge de processos paralelos, como se dois afluentes corressem um ao lado do outro, confluindo, subitamente, em determinados momentos, e transbordando na forma de poesia.

De um lado, Bandeira afirma ter verificado, em sua experiência pessoal, que seu esforço consciente para criar resultava somente em "insatisfação, ao passo que o que me saía do subconsciente, numa espécie de transe ou alumbramento, tinha ao menos a virtude de me deixar aliviado de minhas angústias". Após sucessivas experiências, ele diz recusar o processo de escrever em estado de lucidez, resignando-se a fazê-lo "quando Deus é servido".

Há um outro Bandeira, no entanto, complementar a este primeiro, é verdade, mas diverso. Um Bandeira que se aproxima das palavras e do exercício poético como um incansável estudioso. Alguém que afirma ter compreendido,com o tempo, "que em literatura a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com idéias ou sentimentos". Um poeta que, conscientemente, diz aproveitar-se "dos lapsos de memória" e "dos exames de variantes": "Quantas vezes, querendo lembrar uma estrofe de um poema, uma trova popular, e não conseguindo reconstituí-la fielmente, fazia da melhor maneira o remplissage, depois, cotejando as duas versões - a minha e o original, verificava qual delas era melhor, pesquisava o segredo da superioridade e, descoberto, passava a utilizá-lo nos meus versos."

Incansável, ele pesquisa e coteja versões diferentes de um mesmo poema, exercitando-se e aprendendo "a conhecer os valores plásticos e musicais dos fonemas", demonstrando conhecer muito bem a nossa fonologia: "A poesia é feita de pequeninos nadas e (...), por exemplo, uma dental em vez de uma labial pode estragar um verso."

É surpreendente como ele enumera, sem qualquer receio ou pudor, suas influências literárias e extraliterárias, citando, inclusive, os escritores e os amigos que o marcaram, recordando como, em sua infância, as pessoas comuns ganhavam aos seus olhos uma densidade inusitada - o que ele define como "o caráter de personagens homéricos" -, e ditando as lições complexas, frutos de minuciosos estudos, mas que em suas palavras ganham uma aparente e convidativa facilidade: "Cedo compreendi que o bom fraseado não é o fraseado redondo, mas aquele em que cada palavra está no seu lugar exato e cada palavra tem uma função precisa, de caráter intelectivo ou puramente musical, e não serve senão a palavra cujos fonemas fazem vibrar cada parcela da frase por suas ressonâncias anteriores e posteriores."

Portanto, aqueles que se satisfazem com o Bandeira "poeta das circunstâncias" pouco apreenderão de um processo criativo que pode, de fato, explodir em sinapses arrebatadoras, mas que só o faz por trazer uma base sólida, uma formação clássica e um penetrante conhecimento de versificação, comprovando que a criação, antes de tudo, é um processo eminentemente racional.

Acompanhar as elucidações de Bandeira sobre as diferentes gestações de seus poemas é compreender como as sinapses podem ser realmente cumulativas e como, reagindo aos estímulos da realidade, elas se imbricam, se interagem, respondendo ao apelo da vida, das emoções e, ao mesmo tempo, recriando-se a partir desses mesmos estímulos. Pasárgada leva anos para ter o primeiro verso gerado e mais alguns para, finalmente, ser concluído. Outros, nascem enquanto o poeta dorme. Outros, por fim, surgem de abrupto, e A última canção do beco talvez seja o mais curioso desse grupo: "Na véspera de me mudar da rua Morais e Vale, às seis e tanto da tarde, tinha eu acabado de arrumar os meus troços e caíra exausto na cama. Exausto da arrumação e um pouco também da emoção de deixar aquele ambiente, onde vivera nove anos. De repente a emoção se rimou em redondilhas, escrevi a primeira estrofe, mas era hora de vestir-me para sair, vesti-me com os versos surdindo na cabeça, desci à rua, no beco das Carmelitas me lembrei de Raul de Leoni, e os versos vindo sempre, e eu com medo de esquecê-los, tomei o bonde, saquei do bolso um pedaço de papel e um lápis, fui tomando as minhas notas numa estenografia improvisada, se não quando lá se quebrou a ponta do lápis, os versos não paravam... Chegando ao meu destino, pedi um lápis e escrevi o que ainda guardava de cor... De volta a casa, bati os versos na máquina e fiquei espantadíssimo ao verificar que o poema se compusera à minha revelia, em sete estrofes de sete versos de sete sílabas."

Eis o resultado, caros leitores:

Beco que cantei num dístico
Cheio de elipses mentais,
Beco das minhas tristezas,
Das minhas perplexidades
(Mas também dos meus amores,
Dos meus beijos, dos meus sonhos),
Adeus para nunca mais!

Vão demolir esta casa.
Mas meu quarto vai ficar,
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências:
Vai ficar na eternidade,
Com seus livros, com seus quadros,
Intacto, suspenso no ar!


Beco de sarças de fogo,
De paixões sem amanhãs,
Quanta luz mediterrânea
No esplendor da adolescência
Não recolheu nestas pedras
O orvalho das madrugadas,
A pureza das manhãs!

Beco das minhas tristezas,
Não me envergonhei de ti!
Foste rua de mulheres?
Todas são filhas de Deus!
Dantes foram carmelitas...
E eras só de pobres quando,
pobre, vim morar aqui.

Lapa - Lapa do Desterro -,
Lapa que tanto pecais!
(Mas quando bate seis horas,
Na primeira voz dos sinos,
Como na voz que anunciava
A conceição de Maria,
Que graças angelicais!)


Nossa Senhora do Carmo,
De lá de cima do altar,
Pede esmolas para os pobres,
- Para mulheres tão tristes,
Para mulheres tão negras,
Que vêm nas portas do templo
De noite se agasalhar.

Beco que nasceste à sombra
De paredes conventuais,
És como a vida, que é santa
Pesar de todas as quedas.
Por isso te amei constante
E canto para dizer-te
Adeus para nunca mais!

As sete estrofes de sete versos de sete sílabas não podem, certamente, ser obra do acaso. O poema é fruto da emulação do real e do desencadeamento de informações armazenadas desde o surgimento, no embrião, das primeiras conexões de neurônios; e, nelas, estão os versos das histórias infantis, os pregões dos vendedores ambulantes, os exercícios de tradução, a memória paterna, a obsessão do artista e, também, o que Ribeiro Couto disse em seu discurso, ao recepcionar Bandeira na Academia Brasileira de Letras: "(...) Trouxe-nos aquilo que a leitura dos grandes livros da humanidade não pode substituir: a rua."

O artista nada mais é senão o que, de forma prolixa, Edmund Wilson decifra: "Os maneirismos do artista, seu estilo fortemente marcado, que seus admiradores particularmente apreciam, podem na verdade, do ponto de vista de suas ambições e de sua concepção original, representar apenas as limitações do hábito, a queda no sulco do menor esforço, os estigmas lamentáveis porém inevitáveis (...) de suas peculiaridades físicas, dos fracassos de sua família e das limitações de sua nação e raça."2 Ou o que, de forma sintética, Bandeira nos diz: "Somos duplamente prisioneiros: de nós mesmos e do tempo em que vivemos".

Frágil em sua aparente perenidade, o poeta nasce do ensejo, do instante, mas também da história, da sucessão de experiências cujos resultados mais íntimos sempre nos escapam e, para os quais, o poema, a obra de arte, é, ao mesmo tempo, uma sublimação, uma escapatória e uma afirmativa, um sim irrepreensível. Solitário em seu instante, subjugado por suas sinapses e emoções, "aos olhos dos outros, um homem é poeta se tiver escrito um bom poema. Aos próprios olhos, ele é poeta apenas no momento em que faz a última revisão num novo poema. No momento anterior, era apenas um poeta em potencial; no momento seguinte, é um homem que parou de escrever poesia, talvez para sempre."3

Toda obra nasce da incerteza, ainda que alguns, após a glória e a fama terem se manifestado em suas vidas, afirmem o contrário. A angústia e a capacidade de, em meio às incertezas, refletir sobre o próprio processo de criação conformam parcela da energia que impulsiona o escritor. Contudo, toda obra está presa a essas infinitas e dessemelhantes conexões que expusemos neste breve ensaio, sempre emolduradas pelo binômio espaço/tempo, mas cujo verdadeiro nome é, apenas, fragilidade.


Notas:
1In Bandeira, Manuel. Seleta de Prosa, Editora Nova Fronteira, 2ª reimpressão, RJ, 1997.
2In Os Anos 20, Editora Cia. das Letras, São Paulo, 1987.
3Auden, W. H., "Fazer, saber e avaliar", in A mão do artista, Editora Siciliano, São Paulo, 1993.


Rodrigo Gurgel
São Paulo, 16/10/2002

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