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COLUNAS

Quarta-feira, 30/10/2002
Criando constelações em defesa da América Latina
Rodrigo Gurgel
+ de 2900 Acessos
+ 3 Comentário(s)

A partir de 1936, quando se inicia a Guerra Civil Espanhola, forma-se, naquele país, o que Eric Hobsbawm define como "a maior mobilização internacional espontânea do antifascismo, sobretudo entre os intelectuais". Dos democratas liberais, passando pelos socialistas e comunistas, e chegando aos anarquistas, a esquerda unifica-se contra Franco e as forças que ele representa. Irmanados sob um único objetivo, os intelectuais - lutando, ou não, nas trincheiras republicanas - não pedem justificativas teóricas para seu engajamento. "Trouxesse o futuro fosse o que fosse, o fascismo era o mal, e era preciso resistir a ele." Em 1939, ao final da guerra, com a derrota dos republicanos pelos franquistas, uma derrota que se anunciava desde 1938, o variado leque de apoiadores da República sofre um intolerável revés, cujas conseqüências não se restringem à desagregação das forças democráticas, mas repercutem nas vidas pessoais desses homens, marcando-os com o signo da desilusão e provocando, em muitos, um mergulho "em seu passado, para descobrir onde estava o erro, que equívocos podiam ter cometido, ou o que havia de errado em suas grandes esperanças"1 .

Sob o impacto da derrota, milhares de intelectuais, nos mais diferentes pontos do mundo, passaram a viver esmagados por uma crise de consciência que os alertava não apenas sobre os erros cometidos na Espanha, mas para a realidade - na maioria das vezes desumana - de seus próprios países.

Não seria outro o caso do poeta Pablo Neruda.

Voltando-se a seu país, ele encontra uma realidade certamente ainda mais trágica do que a do povo espanhol. Pobreza, subdesenvolvimento, ignorância: o Chile - e toda a América Latina - viviam, desde a chegada dos conquistadores espanhóis, sob permanente opressão política e econômica. Angustiado pelas derrotas na Europa, Neruda redescobre suas raízes e, com elas, a massa de despossuídos que vivem em absoluta desesperança. Assim, sofrendo uma dupla crise, o poeta passa a buscar um reencontro com seu próprio povo.

É dessa busca que nascerá Canto Geral, livro de poemas que Neruda começa a escrever em 1938, mas que será publicado apenas em 1950, no México, durante o exílio do poeta.

Em discurso proferido em 1938, Neruda demonstrava, claramente, suas mais prementes preocupações: "No he tenido em este año de lucha, no he tenido tiempo siquiera de mirar de cerca lo que mi poesía adora: las estrellas, las plantas y los cereales, las piedras de los ríos y de los caminos de Chile. No he tenido tiempo de continuar mi misteriosa exploración, la que me ordena tocar com amor la estalactita y la nieve para que la tierra y el mar me entreguen su misteriosa esencia. Pero he avanzado por outro camino, he llegado a tocar el corazón desnudo de mi pueblo y a realizar con orgullo que en él vive um secreto más fuerte que la primavera, más fértil y más sonoro que la avena y el agua, el secreto de la verdad, que mi humilde, solitario y desamparado pueblo saca del fondo de su duro territorio, y lo levanta em su triunfo, para que todos los pueblos del mundo lo consideren, lo respeten y lo imiten."

E as repete, de forma mais clara, um ano depois: "No puedo, no puedo conservar mi cátedra de silencioso examen de la vida y del mundo, tengo que salir a gritar por los caminos y así me estaré hasta el final de mi vida. Somos solidarios y responsables de la paz de América, pero esa tarea nos da tambiém la autoridad, y nos muestra el deber de que la humanidad, com nuestra intervención, salga del delirio y renazca em la tormenta"2.

Abandonando a carreira diplomática, Neruda, filiado ao Partido Comunista, ingressa na vida política, candidata-se ao Senado chileno e é eleito senador em 1945. Com a morte, em 1946, do presidente José Antonio Ríos Morales, que formara um governo de coalizão com diferentes partidos, assume Gabriel González Videla, que instaura a censura na imprensa e desata uma onda de repressão contra os sindicatos e os trabalhadores.

Neruda não se cala. Publica, no jornal El Nacional, em Caracas, sua "Carta íntima para milhões de homens", denunciando as traições e os crimes de Videla. E, logo depois, no Senado, profere o famoso discurso "Eu acuso", no qual ataca a política e a pessoa do presidente. Em resposta, o governo requer à Corte Suprema a cassação do mandato de Neruda e sua prisão. Os magistrados acatam o pedido do Executivo e expedem uma ordem de prisão contra o poeta. Neruda passa à clandestinidade, viajando, como fugitivo, por diversos pontos do país. Mas, enquanto foge, enquanto, com a ajuda de centenas de famílias pobres, se esconde e consegue sobreviver, escreve Canto Geral.

As constantes mudanças de endereço duram cerca de um ano, ao passo que Videla rompe com os comunistas, expurga seus representantes do Congresso e proscreve o partido. Por fim, com o auxílio de agricultores e arrieiros, Neruda escapa pela zona austral da Cordilheira dos Andes, rumo à Argentina e, de lá, para a França.

Canto Geral é, portanto, a resposta poética de Neruda à traição de Videla e às injustiças históricas da América Latina, obra na qual ele transforma seu verso em arma de combate, denunciando os crimes do imperialismo americano e fazendo uma revisão histórica dos séculos de dominação estrangeira e, também, das lutas, pessoais e coletivas, de resistência.

Originalmente de inspiração épica, o livro é uma miscelânea de estilos, um conjunto de diferentes vozes que o poeta reúne para expressar não apenas sua dor ou sua decepção, mas as dores e as decepções de inúmeros povos. Todos os vilões, todos os déspotas, todos os opressores estão ali. E também todos os heróis, todos os mártires, todos os injustamente perseguidos. Pouco escapa à pena de Neruda. Ele intenta criar um canto universal, uma poesia que seja totalizadora da realidade histórica e, ao mesmo tempo, uma resposta francamente ideológica aos opressores da América Latina. Trata-se de uma poesia de denúncia, sem dúvida, mas na qual o lirismo viceja de forma, muitas vezes, extraordinária.

Neruda fala a uma América Latina marcada pela destruição, desolada, depauperada em tudo por seus colonizadores. O poeta escreve uma elegia e, ao mesmo tempo, um canto profético que anuncia um novo tempo, no qual o homem latino-americano poderá recuperar sua independência, sua liberdade e sua dignidade.

Seria impossível que obra de tal monta, escrita em situações tão adversas, não apresentasse partes de qualidade desigual - como nos dois momentos em que Neruda fala sobre Castro Alves - ou, inclusive, histórica e politicamente datadas: quando, por exemplo, o autor elogia Stálin.

Em seu conjunto, no entanto, Canto Geral permanece não apenas como um grito de alerta, uma denúncia ou o melhor testemunho - em forma de poesia - do ultraje coletivo de que a América Latina tem sido vítima, mas também é investido de uma profunda reverência à natureza, ao patrimônio cultural latino-americano e aos melhores valores que a humanidade conseguiu cultivar em toda a sua história.

Para usar a feliz expressão do poeta Severo Sarduy, milhares de "constelações semânticas"3 explodem, inesperadamente, aos nossos olhos, quando lemos Canto Geral. E, diferente do que pensam certos críticos, as conquistas estéticas que Neruda alcançara com Residencia en la tierra não estão, de forma alguma, abandonadas aqui, contribuindo para compor o que Ramón Xirau classificou como "vastos e esplêndidos afrescos"4 .

Hino, ainda atual, à América Latina, o conjunto de poemas fala ao presente. Todos podem e devem lê-lo: os oprimidos pelo toque de recolher e pelo estado de sítio na Colômbia; os aniquilados herdeiros da ditadura Fujimori, no Peru; a Argentina assolada pelo capital globalizado e pelas políticas desumanas e falsamente assépticas do FMI; e os brasileiros, que mal começam a acordar do sono mórbido que nos foi imposto por nossas oligarquias.

Como diz Pablo Neruda ao fim do livro, seu poema "nasceu da ira como uma brasa"; e devemos dizer que seu desejo se cumpriu, pois Canto Geral permanece "como uma árvore vermelha propagando a sua clara queimadura."5

Notas:
1Estas três citações do historiador inglês encontram-se no ensaio Os intelectuais e o antifascismo, de Eric Hobsbawm, presente no volume IX da obra História do Marxismo, Editora Paz e Terra, SP, 1987.
2Ambas as citações estão no ensaio Una discusión permanente, de José Miguel Oviedo, presente na coletânea América Latina en su literatura, coordenação e introdução de Cesar Fernandez Moreno, 4ª edição, 1977, Siglo Veintiuno Editores, México.
3El barroco y el neobarroco. In América Latina en su literatura, op. cit.
4Crisis del realismo. In América Latina en su literatura, op. cit.
5A edição brasileira é da Editora Bertrand Brasil, com tradução de Paulo Mendes Campos, recentemente relançada.

Para ir além





Rodrigo Gurgel
São Paulo, 30/10/2002

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
30/10/2002
19h09min
Rodrigo li com muita atenção seu ensaio Pablo Neruda parabens. Bete
[Leia outros Comentários de elizabete del porto]
30/10/2002
21h46min
Rodrigo Li o que escreveu sobre Pablo Neruda. É maravilhoso... convida, ou melhor, praticamente nos obriga, a ler Canto Geral. Parabéns Paula
[Leia outros Comentários de Paula Marcia]
1/11/2002
00h53min
Caro Rodrigo, foi uma pausa maravilhosa, gostei muito e imagino que Canto Geral deve ser belo e profundo, vem a calhar bem com os dias de hoje. Parabens! sua sensibilidade se cruza igualmente com a do Poeta, maravilhoso!!
[Leia outros Comentários de Maria Angélica Parga]
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