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COLUNAS

Quarta-feira, 13/11/2002
Convite às memórias de um condado infernal
Rodrigo Gurgel
+ de 2900 Acessos
+ 5 Comentário(s)

O protagonista que percorre os contos de Memórias do condado de Hecate(1), um homem isolado em sua casa, no meio de um pequeno e aconchegante bosque, tentando, desesperadamente, encontrar seu caminho, perdido entre a vida social, seus dilemas profissionais - ou de consciência - e as mulheres que deseja, e, muito além de todas as suas angústias, pretendendo criar uma obra que o coloque acima da vulgaridade e da mesmice na qual ele se vê permanentemente envolvido, esse homem é o próprio autor, Edmund Wilson, cuja personalidade adivinhamos nessa equilibrada misantropia.

Muitos anos depois de Hecate County, ele descreveria sua razoável solidão, agora cristalizada como uma opção de vida, no início de seu ensaio autobiográfico, O autor aos sessenta(2): uma existência que não o impedia de "rever velhos amigos e tratar de negócios"; um cotidiano dedicado à leitura e à escrita, pois ele se negava a assistir televisão, ouvir rádio, conhecer os jovens autores norte-americanos e ir ao cinema, tentando, a qualquer custo, conseguir tempo para desfrutar dos clássicos que, até então, não lera.

Colocando-se acima das dúvidas e das ansiedades, o crítico consagrado reafirmava seu distanciamento e sua posição de observador privilegiado de uma realidade que jamais o satisfizera: "Quando, por exemplo, percorro as páginas da revista Life, sinto que não pertenço ao país ali descrito, que nem sequer vivo nele. Estarei eu então em algum bolsão do passado? Não creio que necessariamente seja assim. É bem possível que aqui eu esteja no centro das coisas - já que o centro só pode estar na cabeça de alguém - e que meus sentimentos e idéias sejam partilhados por muitos."

Seu editor durante vários anos, Leon Edel, corrobora os sentimentos de Edmund Wilson, testemunhando que "até o fim havia nele algo de distante e fechado, como se ainda estivesse tentando sair de detrás das barreiras invisíveis e obsoletas, utilizando toda a força de seu intelecto para chegar a uma trégua com a humanidade."(3)

Em Memórias do condado de Hecate, contudo, não é uma trégua o que Edmund Wilson busca, mas, ao contrário, um rompimento. Páginas repletas de sarcasmo, crítica e crueza, nas quais o erotismo surge, inúmeras vezes, como única possibilidade de escape àquele que almeja algo maior que a mesquinhez, a corrupção e a superficialidade de seus semelhantes, esses contos, apesar de não conformarem o ponto mais alto da produção do autor, representam o esforço de uma mente extraordinária para, partindo de fragmentos autobiográficos, construir uma ficção que respondesse às suas indagações. Uma resposta que ele encontraria ao direcionar suas paixões não para o mundo da criação literária, mas tornando-se um dos maiores mediadores entre esse mundo e os homens.

No conto que abre o volume, O homem que atirava nos cágados, Asa Stryker, um derrotado e medíocre professor de química luta para proteger os patos selvagens, que vivem no lago de sua propriedade, dos cágados que devoram ninhadas inteiras. De um ódio descontrolado pelos répteis, seus sentimentos, movidos por interesses comerciais, transmutam-se diabolicamente, fazendo com que Asa enriqueça graças à industrialização da sopa feita com a carne dos cágados. O imprevisível final pune o professor que, esquecendo de seus ideais, entregou-se ao enriquecimento desenfreado.

Em Ellen Terhune, uma jovem pianista supera as dificuldades e consegue transformar-se numa compositora de renome. Criando uma narrativa aparentemente contraditória, mesclando ilusão e realidade, Edmund Wilson faz a personagem sucumbir sob as neuroses de uma infância vivida ao lado de um pai egoísta e opressivo.

Wilbur Flick, personagem do terceiro conto, é o burguês desprovido de valores e ideais, fechado em seu ódio contra as pessoas e acusando-as pelas opções erradas que fez em sua vida.

Os Milholland e sua alma condenada, por sua vez, é o libelo de Wilson contra a parcela do mundo editorial que vive e se enriquece ludibriando os leitores. E em O sr. e a sra. Blackburn, em casa, o final do volume, o autor se despede do condado de Hecate, deixando para trás "os temores", "as angústias" e "as energias narcotizadas".

A narrativa central, a história melhor realizada, é A princesa dos cabelos dourados, nitidamente autobiográfica, na qual dois perfis femininos disputam o amor do protagonista. Um par de mulheres antagônicas, no qual se sobrepõe a figura de Anna, a taxi-girl e garçonete que vive nos cortiços e que luta, com imensos sacrifícios, para viver. São dedicadas a ela as páginas mais carinhosas e carregadas de erotismo, muitas delas nascidas como anotações de seus diários(4):

"Mas eu descobri, debaixo de suas roupas simplórias e esfarrapadas, a beleza branca e esguia do seu corpo (agora ela quer que eu a veja nua); e sua sede de amor renascia enquanto ela mantinha sua boca junto à minha para o deleite de um beijo após o outro ou quando retinha minha língua com ardor. A sensação confortável e ainda assim mágica da fusão das umidades íntimas quando ficamos deitados juntos por uns instantes - humanos-sub-super humanos: seus graciosos olhos negros aveludados tão indistintos nesses momentos quanto o de um bicho, tão despidos e irracionais quanto o seu corpo."

Ao ousar escrever ficção - e também poesia -, Wilson não se isolou no exercício da crítica, como se este fosse uma defesa ou a resposta de uma personalidade incapaz de criar e, por essa razão, rancorosa. Assim, ele nos concede também páginas de imensa maturidade lírica, que demonstram porque se tornou um dos grandes críticos literários modernos, comprovando ter muito mais a oferecer do que, apenas, o delicioso erotismo que, à época do lançamento, fez o grande sucesso do livro:

"Já era quase maio. Um dia em que saí pela rua 12, passando por uma fileira de casas marrons com varandas, me deparei com uma miragem inesperada: um amontoado de flores vermelhas, azuis e amarelas numa carrocinha que ia na direção da Quinta Avenida. Digo uma miragem porque a visão estava embaçada pela luminosidade intensa da manhã de abril e era como se a própria luz estivesse florescendo, ao se elevar, tomando o céu a partir do leste, para despejar sobre as ruas o seu firme esplendor. Andei atrás dessas cores simples e maravilhosas, totalmente insubstanciais, enquanto atravessavam a avenida rumo ao leste; e o cinza de Nova York ficou de repente luminoso e suave onde antes era monótono e gelado, com sua grandeza compacta produzindo prazer em vez de opressão."

Diferente do que a crítica moralista e superficial julgou, as reminiscências do condado infernal(5) de Hecate permanecem como o exemplo vigoroso do que a inteligência e a sensibilidade de um humanista singular podem criar. Páginas exemplares que, agora, estão ao dispor dos leitores brasileiros.

Notas:

(1) Editora Companhia das Letras, 2002, São Paulo.
(2) In 11 Ensaios, Editora Companhia das Letras, 1991, SP.
(3) In Wilson, Edmund. Os Anos 20, Companhia das Letras, 1987, SP.
(4) Ver Os Anos 20, op. cit.
(5) Hécate - ou Hecate - é a figura mitológica que preside os ritos mágicos, os nascimentos, as mortes, as trevas e o destino. Ela envia os demônios até a terra para atormentarem os homens por meio dos sonhos.

Para ir além






Rodrigo Gurgel
São Paulo, 13/11/2002

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
13/11/2002
14h04min
Olá, Rodrigo Na minha opinião, se o livro fosse só o conto "A princesa dos cabelos dourados" já veleria a pena. É um dos textos mais bem construídos que já li. Leveza e lirismo num clima de puro erotismo. Em todas as cenas o ambiente muda de cor ao sabor das viagens espirituais do narrador. Tudo muito bem construído, principalmente a posição do narrador num ponto eqüidistante entre Imogen e Anna. Imogen, o modelo ideal e inatingível de mulher, uma musa inefável, tem sua humanidade penosamente revelada através de um problema de saúde. Enquanto isso um mundo de contingências hostis vai se interpondo entre o narrador e Anna. A perspectiva romântica se estilhaça e o narrador sucumbe ao mordorrento cotidiano do condado de Hecate. Dos demais contos, só não consegui ler o Milholland, pois as referências literárias em profusão estavam muito além da minha humilde bagagem de conhecimentos. Saudações e parabéns pela resenha.
[Leia outros Comentários de Rogério Prado]
13/11/2002
22h04min
Prezado Rogério: Grato por suas palavras. As narrativas de EW não são, é claro, geniais; não representam um momento excepcional da literatura. Mas ocupam, na obra do autor, um espaço muito importante, pois revelam mais uma partícula, dentre tantas outras, desse homem incomum, cuja inteligência conheceu poucos limites. E, no contexto da produção editorial brasileira, tornam-se ainda mais valiosas, face ao restrito número de traduções que temos de EW. Um abraço!
[Leia outros Comentários de Rodrigo Gurgel]
14/11/2002
08h51min
Rodrigo: Seu texto é claro, leve, delicioso de ler. A leitura corre agradavelmente. E começar a resenha citando o Edmund Wilson sexagenário, para confirmar o EW de Hecate County, foi muito inteligente. Parabéns. Quando será que nossas editoras terão coragem para publicar mais EW? Por favor, escreva mais! Fernanda
[Leia outros Comentários de Fernanda]
14/11/2002
18h56min
Há tanto para ser publicado de EW, Fernanda... Devagar, na velocidade do Brasil, chegaremos lá... Obrigado por seus comentários.
[Leia outros Comentários de Rodrigo Gurgel]
18/11/2002
11h40min
Parabéns pelo texto! Ótimo!
[Leia outros Comentários de Sandro]
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