Nove e meia da manhã. Já não faz o frio que fazia quando acordei. No estacionamento do Parque Ibirapuera, um solzinho tenta me convencer a tirar o blazer de lã. Não tiro. Caminho em direção ao Pavilhão da Bienal, minha namorada me agradecendo insistentemente por eu a estar acompanhando. Não sei como acabei prometendo que iria à mostra Bienal 50 Anos. Principalmente num sábado de manhã. Talvez por causa das dezenas de meninas de 18 a 20 anos, que, como minha namorada, também foram obrigadas pela professora de História da Arte do Senac a estarem lá. Não. I'm a one-girl guy. Sempre fui. Por quê, por quê? me pergunto em vão, mantendo teimosamente o blazer de lã abotoado e evitando ao máximo os bocejos que tentam se arremessar de minha boca.
Chegando perto da enorme e horrível rampa que leva a entrada da exposição, começo a ouvir um caótico cocoricar. Vejo trinta meninas espalhadas pela rampa, todas falando. Todas! Quem está ouvindo, se todas falam? Mais um mistério para minha coleção. Apesar do inevitável apelo que a presença de trinta meninas faz à imaginação de um homem como eu, o som que delas provinha me era o exato oposto da música cantada a Ulisses pelas sereias. De qualquer forma, usei o mesmo truque do personagem homérico, e taquei cera em meus próprios ouvidos.
Às dez pras dez a professora chega. Cara de professora. Óculos de professora. Roupa de professora. Jeito de professora. Subimos todos a enorme e horrível rampa e nos amontoamos em frente à porta de entrada da exposição. Tiro a cera e ouço a professora dar conselhos às meninas. Deixem bolsas e casacos no porta-volume. Prestem atenção aos guias. Não se dispersem. Fazemos uma fila e eu fumo um cigarro. Enfim, a porta abre e atravessamos a roleta como bois em direção ao abate. São formados dois grupos. Os guias usam camisetas da Folha de São Paulo. Não possuem mais que 25 anos. Provavelmente pertencem à classe dos GLS. O nosso se chama Carlos. Começa dizendo que a arte contemporânea é a mais rica das artes, pois não está presa a nenhuma lei. "Vejam e sintam as obras. Procurem a verdade dentro de cada um de vocês".
Caminhamos até um táxi, estacionado no meio de uma sala. Certamente uma obra-prima. Branco, quatro pneus, quatro portas, placa vermelha. Da Volkswagen. O guia abre uma das portas, em êxtase por tocar arte tão sensível e profunda. Se sente como aquele personagem do filme do Kurosawa, que caminha dentro de um quadro do Van Gogh. Entro na obra-prima sobre rodas com mais quatro meninas. Sugiro irmos a um drive-in. Só a minha namorada entende a piada. Paradoxalmente, é a única a não rir. O retrovisor serve como uma mini-tela, onde um pequeno aparelho colocado no teto do carro transmite um taxista contando diversas histórias. Espero que ele não cobre pela corrida, digo, mas as meninas não me ouvem: ouvem absortas a obra de arte.
Continuamos o passeio pelo maravilhoso mundo da arte contemporânea, sempre acompanhados pelo nosso guia, frequentador assíduo de importantes museus, como o Massivo e o Allegro. Passamos por um telão, onde uma boca gigante fica dizendo ininterruptamente vários nomes próprios: "Pedro. João. José. Ivan. Roberto. Jorge. Renato."
Depois somos conduzidos a uma tenda, que julgo erroneamente ser um Pula-Pula. Dentro, em vez de crianças saltando e dando gritos de alegria, vejo algumas almofadas espalhadas. Nos sentamos. Nas paredes, são refletidas sombras de figuras geométricas das mais variadas formas e tamanhos. Uma japonesa pergunta ao guia, fascinada: "Por que umas estão paradas, e outras em movimento? Qual é a idéia?"
Devido a minha idade razoavelmente avançada, e a enorme quantidade de estultices que já tive a oportunidade de ouvir, meu corpo evoluiu e criou espontaneamente um sistema de defesa para evitar que a loucura me leve precocemente ao túmulo: as pálpebras auditivas. Uma pena eu não ter total controle sobre elas. Funcionam sozinhas, quando o nível de estupidez atinge níveis intoleráveis. Espero que a evolução continue, e que meus filhos já tenham a capacidade de controlá-las quando bem entender. De qualquer forma, não ouço a resposta do guia.
Saímos do Pula-Pula e caminhamos a uma sala, ou obra de arte, chamada "Terremoto". Vários televisores espalhados pelo chão passam imagens rápidas e trepidantes. Então ouço uma explosão. Pedacinhos de corpos caem como chuva pela sala. Vejo algumas das meninas correndo em chamas - elas são realmente quentes, penso, seduzido por obra de arte tão realista. Minha introspecção é interrompida por gritos grotescos e desesperados:
- É a inquisição cultural! É a inquisição cultural!
- Ó meu deus!
- A inquisição!
- Corram!
Homens vestidos com batinas vermelhas caminham em nossa direção. O mais velho deles, talvez o líder, carrega um grosso livro nas mãos. Penso tratar-se da Bíblia, mas depois vejo serem as obras completas de Shakespeare.
Ouço um grito estridente. A professora de História da Arte foi pega pelos homens de vermelho. Ela não para de gritar e chorar. As obras de arte são impiedosamente quebradas em pedaços e levadas ao centro do pavilhão. Uma enorme fogueira é acessa.
O guia gay também é pego, assim como a japonesa. Alguns homens me cercam. Balbucio que sou inocente, e abraço minha namorada. O mais velho pergunta:
- Qual o seu escritor predileto?
Gaguejo:
- Prou-prou-proust...
- O pintor?
- Pintor?
- Sim! Pintor!
- Ver-vermeer.
- Compositor?
- Mozart. Ou Bach.
Eles me liberam. Minha namorada, assustada, caminha comigo. A fogueira provoca um calor infernal. Vejo os óculos da professora caídos no chão, parcialmente derretidos. Um dos homens de vermelho grita a plenos pulmões:
- Preparem-se, filisteus! Escondam suas poesias concretas, suas músicas minimalistas, suas instalações vazias, suas esculturas de concreto! A inquisição cultural trará calor a suas almas frias! O fogo de nossa fogueira consumirá todos os charlatões! Preparem-se, museus de arte moderna! Preparem-se bienais de todo o mundo!
Desço a enorme e horrível rampa e caminho até o carro. Atrás de mim, o pavilhão da Bienal solta labaredas como um dragão enlouquecido.
Tiro o blazer de lã. Toco pro Masp.
citação da semana
"Arte ruim é consideravelmente pior do que nenhuma arte"
Oscar Wilde, "essa maravilhosa bicha louca vitoriana"