Quarta-feira,
19/2/2003 Esboços para uma etnologia paulistana Rodrigo Gurgel
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Chinelos
Os chinelos tornaram-se uma instituição. Práticos, sem dúvida, e, talvez, quando novos, até mesmo cômodos. Multicoloridos, brilhando nos reflexos quebradiços do plástico, ou pálidos, nas cores opacas dos emborrachados, concedem aos pés o caráter do efêmero, um dos sintomas de São Paulo.
Nada pode ser mais barato, mais descartável. Fáceis de serem calçados, não exigem o esforço, o tempo e a concentração que as fivelas e os cadarços solicitam. Acorda-se na madrugada para enfrentar perto de duas horas no transporte coletivo, mudando, duas ou três vezes, de condução; sobre as costas, além da noite mal dormida, o cansaço do cotidiano; nos pulmões, os resíduos da poluição; as entranhas reclamam dos corantes, da carne enriquecida com hormônios e do excesso de frituras; o café magro espera na cozinha, onde a louça por lavar se acumula: o que pode atender mais ao anseio matinal por conforto do que os chinelos? Na madrugada repleta de sonhos abruptamente desfeitos, eles se oferecem aos pés doloridos e calejados como um refrigério, promessa mentirosa de que tudo, nas próximas horas, será suportável.
Compram-se chinelos em qualquer esquina, em qualquer um dos ambulantes que polvilham a cidade com suas bancas, esses exemplos de como é possível sobreviver fragilmente sob o capitalismo. Os pares, amarrados pelas tiras, balançam à brisa aquecida pelo asfalto ou amontoam-se sobre as bancadas, oferecendo aos compradores o prazer de mergulhar as mãos na profusão de texturas e volumes, como se, por alguns momentos, tudo lhes pertencesse. E esta talvez seja a melhor qualidade dos chinelos: seu preço. Eles inundam as lojas, os supermercados, as barracas espalhadas pelas ruas, e o que clama em cada par não são as cores ou a qualidade, mas o valor a ser desembolsado na compra. O trabalhador não pode andar descalço. Ele necessita comportar-se de acordo com os modos e os costumes da civilização. Andar descalço o confinaria à classe dos mendigos. Assim, do alto de seus chinelos, ele pisa um degrau acima da mendicância no estamento social. Mas, ao exibir a dignidade fugaz de um chinelo novo, que estala sob a luz fria do vagão do metrô, vemos emergir por entre as tiras os dedos calejados, as unhas rachadas pela umidade do trabalho insalubre, as plantas dos pés gretadas, exangues pelo sacrifício diário, e os esmaltes que se descolam ao primeiro dia de uso, frágeis cascas de beleza que não escondem as marcas dos pés maltratados.
Indefesos, à mostra, expostos à chuva, às poças de água e sujeira que coalham as calçadas, imundos ao final de mais um dia de trabalho, os pés desbordam das solas tortas e carcomidas. Ao iniciar a noite, inchados, já não cabem na forma mal feita, no padrão aviltante que a indústria cria, a moda impõe e a propaganda difunde. Recusam-se às curvas de uma palmilha que se torna, a cada anoitecer, um instrumento de tortura. No ônibus - ou no metrô - eles se acomodam, então, para fora da frágil armação, temporariamente livres sobre as tiras, mexem-se, roçando um no outro, buscando o conforto ilusório da manhã. Magoados, imploram pelas pelicas que, a essa mesma hora, pressionam os freios dos carros importados, em algum semáforo da Avenida Faria Lima. Mas imploram, numa prece cega, pelo que jamais conheceram. Sonham com aconchegos informes, vagos, diáfanos, que, em outros espaços, ganham a forma do Mulle, esse irmão antagônico do chinelo.
A mentira do bem calçar também se encontra à mão, camuflada pela propaganda que coloca os mesmos chinelos usados pela doméstica nos pés delicados da modelo seminua, que desfila à beira da piscina. No entanto, à sombra dos outdoors, os pés que calçam chinelos - desprotegidos, desamparados, indefesos às intempéries do clima e do relevo mal conservado da cidade - ecoam, nas estações dos trens suburbanos, um índice seguro para aquilatarmos a miséria de São Paulo.
As noites
Em São Paulo não há noite, pois a noite, aqui, é apenas um subterfúgio para o prolongamento do dia. Nada pára. Os exércitos de autômatos se revezam, infatigáveis, dando a impressão de que ninguém repousa. O sono é um conjunto de sobressaltos nascidos das buzinas que não cessam, das freadas que cortam alguns breves espasmos de silêncio, trazidos pela madrugada. Algo sempre se move. E o ouvido capta esse movimento, absorve-o e o acrescenta à carga diária de angústia. Há sempre um ônibus acelerando a qualquer hora. E as sirenes - das ambulâncias, da polícia, dos bombeiros - anunciam, minuto a minuto, que algo trabalha contra a tranqüilidade. Há um frêmito permanente de corpos; um culto ao movimento, à ação. As pinturas luzidias dos automóveis, resplandecendo sob as luzes de mercúrio, mesclam-se aos letreiros luminosos, aos outdoors que parecem se debruçar sobre nós e aos faróis que nos cegam pelo espelho retrovisor. Tudo brilha. As luzes nos cegam às estrelas. E, a cada esquina, ao trocarmos um furtivo olhar com qualquer passante, vem-nos a impressão de que ele é um louco prestes a anunciar o início do apocalipse.
Quando, num erro previsível, descobrimos uma borra de silêncio em um quarteirão próximo ou em algum beco aparentemente esquecido, essa miragem auditiva logo se desintegra, calcinada pelo sermão de um pastor que, aos gritos entrecortados de microfonia, convoca seus fiéis a cantarem um hino de penitência.
Nada pára, porque o trabalho não cessa. O trabalho clama pelo homem, oferece-se, regateia, seduz, e por fim obriga, humilha, escraviza. Em plena madrugada, operários enegrecidos pelo piche recapeiam uma avenida; e enquanto se arrastam pelas camadas enfumaçadas, talvez lembrem uma cena de Fellini, mas nos avisam, na verdade, sobre quanto o homem e a natureza são violentados. Mais à frente, uma lanchonete 24 horas oferece, sob uma luz oscilante, salgados e doces dormidos, emoldurados pelas olheiras e pelo cansado sorriso dos funcionários. Num telefone público, a voz fúnebre do serviço de informações denota a nostalgia de um tempo em que dormir à noite era um hábito banal e não uma condescendência.
Sob o luar enevoado por nuvens poluídas, a degradação do trabalho se acentua, enquanto as enzimas, cegas às regras do capital, extenuam-se, a cumprir a tarefa programada, desde sempre, para o descanso noturno. No início do mês, quando, ao estudar o holerite, o trabalhador se depara com os parcos valores do adicional noturno, estes lhe parecem um prêmio, mas o corpo, que desconhece o valor das esmolas, trabalha abreviando as décadas de vida dessas poedeiras que não sonham.
Nos semáforos, os vendedores de flores imploram a compra de uma rosa que durará pouco mais de um dia; malabaristas e engolidores de fogo apelam às pantomimas por uma esmola; e os pobres se revezam à beira dos vidros fechados, suplicantes. O medo faz os motoristas fixarem os olhos nas luzes dos carros que se livraram desta parada e se afastam, velozes, rumo a seus destinos. E quando olhamos o verde brilhar sobre nossas cabeças, engatamos a primeira marcha, aceleramos e, com alívio, percebemos que, ainda esta vez, não fomos assaltados. Assim, de semáforo a semáforo, a angústia e o medo percorrem nossas artérias, venenos sutis que a noite vem acentuar, obrigando que ressurja em nós a memória de nossas noites nas cavernas, ao redor do fogo, protegidos do frio e das feras que espreitavam na escuridão. Ela nos admoesta pela cidade que construímos, denunciando o quanto nosso pavor ainda é o mesmo, apesar do fogo que nos protege ser a brasa que brilha, durante a tragada, na ponta do cigarro; apesar das feras que nos ameaçam serem, agora, os nossos semelhantes.
Quando, enfim, nos deitamos, irrompem pela janela as luzes dos letreiros, inundando o quarto com falsos vestígios do dia; vozes repercutem pelo quarteirão e sobem até nós. Gritos, xingos, lamúrias e risadas nos envolvem como um áspero lençol. De pé, incomodados, olhamos para as janelas de uma Lan House próxima, onde adolescentes varam a madrugada, mantendo as mãos incansáveis sobre os teclados, lutando como heróis de mundos virtuais, absorvidos em um frenesi de imagens e numa incansável explosão de sinapses. Um olor de cansaço se desprende de seus corpos a cada batalha vencida ou perdida, enquanto a sucessão das horas e das noites acaba por derrotá-los sempre.
Mas é preciso dormir. E em algum momento, enquanto a cidade luta contra nós, o cansaço nos subjugará e, ainda no umbral dos sonhos, desejaremos jamais retornar.
Caminhar
As calçadas nos expulsam. Elas vivem, respiram, expelindo o ar em bolhas de cimento que explodem lentamente, noite após noite, dia após dia, abrindo-se na forma de buracos que nunca serão fechados. Logo, um buraco une-se a outro, interligam-se numa simbiose em que o caos chama o caos, e nos deparamos, certa manhã, com um longo trajeto arrebentado, desfeito, no qual é impossível caminhar. E é inútil perguntar quando a calçada será refeita. Os altos funcionários jamais pisam em calçadas. E os pequenos, esses, além de nada decidirem, sabem que as calçadas das cidades ricas necessitam respirar, e que cabe aos transeuntes a larga e espaçosa rua. A rua, que é disputada por carros, ônibus e ambulantes, numa concorrência desleal ao cidadão que almeja, apenas, andar, locomover-se, de sua casa ao metrô, ao ponto de ônibus, ao supermercado, ao léu.
Mas não se pode andar ao léu em São Paulo. Primeiro, porque não há o que ver, além de prédios, carros, asfalto, outdoors e milhares de belas vitrines, repletas das coisas que não podemos comprar. Segundo, por que andar com displicência resulta em ser assaltado. Há que se andar com o cenho franzido, olhando para os lados e escondendo os poucos reais que nos sobram em algum bolso cuja passagem é tão secreta que chegamos a nos esquecer dela. Terceiro, porque as calçadas, quando não estão esburacadas, elevam-se à categoria de obras de arquitetura, devendo, portanto, serem apenas admiradas. Explico: aqui, este trecho é estreito e ondulado; poucos metros à frente, ganha um surpreendente declive; logo após, antes da esquina, volta a ser plano e alarga-se; e virando à direita, bem, aqui o dono do imóvel resolveu forrar a calçada com cerâmicas multicoloridas, lindas de olhar e perfeitas para um estupendo tombo... Quarto, porque andar ao léu é próprio dos vagabundos, dos bêbados e dos poetas, e São Paulo vive apenas para os que trabalham e não para aqueles que, simplesmente, querem ser felizes. Assim, é impossível andar em São Paulo, onde o flâneur é a caça predileta do Círculo Esotérico dos Taxidermistas, uma associação secreta que seqüestra e empalha os ociosos. Há centenas desses caminhantes, conservados em seus ternos de casimira inglesa, andrajos, escandalosas minissaias ou jeans da década de 60, todos empalhados e conservados em opulentos sarcófagos, escondidos no subsolo do MASP, na Avenida Paulista. E sobre cada sarcófago, enfeitando-o como um selo - ou seria um lacre? -, uma frase de algum dos nossos inesquecíveis e respeitáveis prefeitos, prometendo transformar São Paulo em uma cidade "mais humana".
E como se não bastasse, além dos buracos há o lixo: imensos sacos de plástico negro e brilhante amontoam-se nas esquinas, abrindo-se, desfazendo-se sob a canícula do meio-dia. Às vezes, uma dúvida me assalta: não sei se são sacos de lixo ou os componentes de algumas dessas instalações da Bienal, que certo desavisado funcionário deixou cair do caminhão. Mas, ao passar por eles, vejo que fedem, e examinando rapidamente o conteúdo que já se espalha por toda a esquina, penso que nenhum artista conseguiria fazer uma cópia tão fidedigna dos variados hábitos de consumo dos paulistanos.
Mas o lixo não fica acumulado em todas as esquinas, é verdade, pois há bairros - como o Jardim Europa, o Itaim e alguns outros, raríssimos - em que os moradores, num esforço sobre-humano de cidadania, enterram a imundície, durante a madrugada, nos quintais de suas casas - ou acabam por transportá-la de helicóptero até o lixão mais próximo -, mantendo as vias públicas limpas, livres dos mosquitos e do fedor.
Mas, do que estou reclamando! Moro em um bairro onde ainda é possível sair do edifício, desviar dos sacos de lixo, saltar os buracos, fazer vista grossa às paredes pichadas de hieróglifos, resignar-se a ser expulso da calçada pelos carros que estacionam sobre ela, caminhar por entre o trânsito, cuidando para não ser atropelado, e chegar, são e salvo, à padaria. Lá, além de comprar dois pãezinhos, tomar um guaraná gelado e recompor-me, a fim de enfrentar, com galhardia e altruísmo, o percurso de volta. E ao final da aventura, na segurança do apartamento, enxugando o suor e esperando os batimentos cardíacos normalizarem, responder ao meu gato, que, debruçado na janela, olha, interrogativo, para a rua lá embaixo e, depois, para mim: - É, Puck, "a verdade está lá fora".
Sempre achei que quem mora em São Paulo não conseguisse mais perceber tudo isso...
Claro que nunca percebi as coisas com essa riqueza de detalhes. Isso só você poderia fazê-lo. Beijos...
Rodrigo gostei do texto,apesar de ficar muito triste com a descricao que voce fez da minha cidade,como paulistana eu nao consigo ver Sao Paulo com este formato cruel que vai desgastando com os sentimento dos paulistanos
É Rodrigo, deste jeito você não quer que eu fique. O texto é sombrio e olhe que você sequer abordou a frieza com que são recebidos os forasteiros. Mas nem tudo é ruim. Deve haver coisas boas. Não o chopp, é fato, mas deve haver. Depois me conta. Por enquanto, ainda estou tentando captar o way of doing.
Pois é Rodrigo,
Onde? A São Paulo da Garoa
Onde? Os versos de Anchieta
Que cantou esta terra boa?...
É tudo saudades, é tudo verdade
São Paulo, ainda lhe tenho amor...