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COLUNAS

Quarta-feira, 5/3/2003
Como conhecer a literatura chilena atual?
Rodrigo Gurgel
+ de 2000 Acessos

Uma nova revista literária, cujo principal objetivo é "ser uma vitrine da literatura chilena e um espaço independente e pluralista", acaba de ser lançada. Segundo seu editor, Marco Antonio Coloma, Libros & Lectores será uma publicação "ancorada no exercício crítico e no diálogo".

Após o retorno da democracia nos anos 90, o Chile viveu um boom editorial, impulsionado pelo nascimento de novos selos editoriais e a chegada ao país de multinacionais do livro, impulsionadas pela abertura do mercado e a globalização, fatos que abriram oportunidades sem conta aos novos autores. Esse período teria propiciado o surgimento de um fenômeno editorial denominado, por alguns autores e críticos, "Nova Narrativa Chilena", tema que serve de discussão às mais variadas vozes do mundo literário chileno neste primeiro número de Libros & Lectores, que levanta, dentre outros argumentos, a possibilidade daquele fenômeno encontrar-se esgotado.

As respostas formam o tour de force da revista, congregando as opiniões mais diversas. Para uns, os novos escritores não passariam, em sua quase absoluta maioria, de herdeiros menores de José Donoso (cujo único romance traduzido no Brasil - O Obsceno Pássaro da Noite -, encontra-se esgotado há anos). Para outros, passada a tempestade, "permanece o impulso, a ambição e umas poucas páginas". "Invenção publicitária de curto alcance" ou "nova narrativa já velha, segundo a vertiginosidade destes tempos globalizados", o certo é que a discussão lança sobre o problema uma visão crítica aguçada, na qual os debatedores recordam as conseqüências do período ditatorial e a luta para se reconstruir moralmente um país que, segundo o escritor Germán Marín, "tem se edificado sobre o silêncio, o crime e a desmemória."

É de Germán Marín, que acaba de lançar Cartago, o último volume de sua trilogia - Un animal mudo levanta la vista - a entrevista que guarda o sabor da mágoa. Para ele, escritor do fracasso, do erotismo e da violência urbana, o ofício de escrever é um exercício que se assemelha à gesta - uma façanha pessoal e irrepetível. Exilado durante a ditadura Pinochet, Marín define-se como um "ressentido", dizendo guardar o "ressentimento das coisas que não resultaram, das coisas que te deixam só, de todas aquelas reações de um mundo social onde as feridas se fazem sentir."

A obra do escritor Ramón Díaz Eterovic, que se tornou famoso escrevendo romances policiais, também recebe destaque, especialmente seu último livro, El hombre que se pregunta. Para Mabel Vargas Vergara, Eterovic "rompe os espaços de Santiago, apresentando os locais onde o poder se mostra em sua própria confrontação cotidiana". E seria, segundo Marco Antonio Coloma, exatamente esse o maior mérito do consagrado escritor: "Exibir os traumas de uma sociedade, à qual custa muito levantar o tapete para olhar a sujeira que esconde debaixo."

Traduzido em uma dezena de países - menos no Brasil -, Eterovic escreve sobre sua obra neste primeiro número de Libros & Lectores, confessando ser influenciado por Georges Simenon, Raymond Chandler e Osvaldo Soriano (do qual a Relume Dumará lançou, no Brasil, o genial Uma sombra logo serás). De Simenon, ele diz ter aprendido "que a essência da novela policial não está no enigma, mas em criar personagens convincentes e em evocar ambientes que dêem cor local e verossimilhança às histórias". De Chandler, aprendeu "o sentido ético da novela policial". E do argentino Soriano, "a possibilidade de transgredir os códigos do gênero, para fazer literatura policial com um acento latino-americano."

Três poetas contemporâneos ganham espaço na revista: Raúl Zurita, com o poema "El desierto", a ser publicado no livro INRI, pela Fondo de Cultura Económica; Omar Lara; e José María Memet, argentino naturalizado chileno, de quem transcrevo o incrível poema "La influencia de las cosas":

En el vacío no existen herramientas
y es extraño, la nada debe tener um mecanismo
que contagia. Um virus que nuestra mente crea,
um fragmento del temor ancestral.

Las cosas detienen por años a la larva,
hasta que ya adulta se echa al camino.
Sólo a los jóvenes la inmortalidad les pertenece,
los años te devuelven a la nada.

Observa cada fósil, cada estrella, a toda especie
que en la tierra no ceja. ¿No es hermoso tanto
esfuerzo frente a tanta oscuridad? ¿Y el latido
de tu cuerpo martillando, no es notable?

Las cosas que hemos creado nos están matando,
hemos llenado el vacío parcialmente.
La vida es um dado que salta en el universo,
pero cuya suerte no depende del que juega.

Nada construido por el ser humano
permanece íntegro siquiera veinte siglos.
Las cosas se explican por raíces físicas,
la química del amor es capaz de matar.

Las voces que escuchamos sólo cuentan
que el cielo es infinito. La herrumbre comienza
a desgastar el eje. La tierra y su genio
se deshacen em la boca de Dios, nuestro gusano.


Lectores & Libros também abre espaço a um trecho de Carta abierta a Agustín Edwards, de Armando Uribe, recém lançado pela LOM Editores. Carta abierta tem sido considerado um verdadeiro ato de coragem, por denunciar os métodos nada elogiáveis do proprietário do jornal El Mercurio, um dos personagens mais influentes da última metade do século XX no Chile, e que é acusado por Uribe de, entre outros crimes, ter encoberto, de forma deliberada, as violações aos direitos humanos durante a era Pinochet.

A revista ainda oferece dois contistas inéditos - Ignacio Fritz e Lilian Elphick -, diversas resenhas e uma sugestiva seção, intitulada Crítica Dividida, na qual o editor justapõe - ou confronta - trechos de duas críticas diferentes sobre um mesmo livro: um exercício, no mínimo, enriquecedor.

Resposta à altura de uma das literaturas mais originais da América Latina, Lectores & Libros oferece um panorama amplo e corajoso da atualidade das letras chilenas. E sua leitura significará, para nós, brasileiros, erguer um pouco a espessa cortina que, de maneira inaceitável, nos separa da cultura latino-americana.

Para ir além

Libros & Lectores
Publicación trimestral de literatura y debate
Nº 1 / Enero - Marzo de 2003
(Artista convidada: Mirta Kupferminc)
FRASIS editores
Casilla 6
Correo 58
Santiago - Chile


Rodrigo Gurgel
São Paulo, 5/3/2003

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