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Sexta-feira, 10/10/2003
Dez Autores, Dez Vidas
Martim Vasques da Cunha

Graças a Julio Daio Borges, que provavelmente nunca imaginou que responderia ao seu pedido de escrever sobre os dez autores que marcaram a minha formação intelectual, faço esta retrospectiva no melhor estilo "anamnesis" sobre o tópico já citado, sempre na esperança de que algum leitor entenda que literatura é experiência - e talvez a mais radical de todas porque envolve um contato profundo com a linguagem e, conseqüentemente, com aquele fundo insubornável do nosso ser (apud Ortega Y Gasset).

É bom lembrar ao leitor que a leitura é um dos maiores remédios contra esta bruxa chamada solidão (o outro maior remédio - este infalível - é ter uma moçoila ao seu lado que entenda que, afinal de contas, ler um bom livro depois do acto em questão é muito melhor do que fumar um cigarro) e cada vez que entramos em um mundo imaginado ou memorizado (porque, já dizia Joyce, imaginação é memória) a janela de possibilidades chega no limite do infinito e assim somos vítimas, amantes, amigos e confidentes daqueles sujeitos que resolveram colocar um pouco de suas experiências no papel. A leitura é o antídoto contra a solidão ("In my solitude you hauuunnt meeeee", sussurra Billie Holiday) porque vivemos mil e uma vidas, mil e uma mortes e sempre estamos com aquela chance de ressurreição que só o retorno à primeira página pode nos dar.

Por isso, quando, no meio desta "anamnesis" platônica, tento conceber uma lista de dez autores que me formaram (para o bem ou para o mal só Radamanto, Minos e Ione saberão), posso alinhá-los de forma cronológica para facilitar sua leitura, caro leitor, ou posso embaralhá-los para provar a inutilidade do seu conhecimento sem rumo, mas o mais importante é perceber que cada autor citado foi lido não como uma forma de querer ser curto numa conversa de bar e sim como uma vida que nunca foi deixada de lado - pois este é o verdadeiro poder da literatura: viver a vida dos outros, através da memória e do conhecimento dos outros, com seus acertos e erros, para aprender com ela e viver a sua vida da melhor forma possível.

Assim, volto aos tempos em que a infância e a adolescência ainda eram indefinidas e a primeira coisa que me vêm à mente é Holmes, Sherlock Holmes. Nos meus tenros doze anos, li todos os livros de Conan Doyle e aprendi logo imediatamente o que seria esta pequena questão que os teólogos de todos os tempos tentam resolver, mas não conseguem: o problema do Mal, a.k.a Teodicéia. Imaginem você estudar em um colégio jesuíta, teologia da Libertação avant la lettre, e toda vez que o professor dizia que Deus era bom, etc. e tal, a memória lhe remete para o apartamento 221B Baker Street e você se lembra do catálogo de crimes que o Professor Moriarty fez para aterrorizar Londres. Hummm, difícil, não? É provável que o meu fascínio pelo Mal tenha surgido destas leituras dos livros de Sherlock Holmes, além de uma batelada de romances noir (leiam Dashiel Hammett, leiam!) e de Georges Simenon.

De Holmes vamos para o bom e velho Bill Shakescene, como Ben Jonson (who?!) apelidou um tal de William Shakespeare, dramaturgo, poeta e famoso beberrão. A leitura de "Hamlet" aos quatorze anos foi um espanto e, se Aristóteles estiver certo ao dizer que o início do conhecimento vem com o assombro, então aí que as coisas começam a fazer algum sentido: sim, era só substituir Dinamarca pelo Brasil e, aquela sensação de ser o único são em um hospício, tinha toda uma nova forma de expressão (Não, meu pai não morreu envenenado e não há casos de incesto na família - e eles vão bem, obrigado -, apesar de já ter me relacionado com uma suicida, mas isto é uma outra história). A linguagem de Shakespeare é de uma exuberância ímpar e basta prestar atenção que você sentirá que toda aquela poesia aparentemente rebuscada lida com os assuntos centrais da existência humana: amor, morte, família, sexo, loucura, luz e trevas porque, afinal de contas, quando se trata destas últimas, uma não consegue viver sem a outra.

E por falar em "this thing of darkness that I acknowlegded as mine", confesso que dei uma de Kierkegaard e dei um salto de desespero de um depressivo príncipe para um defunto não muito brilhante chamado Brás Cubas. Não se pode falar de livros que fazem a sua formação se o nome de Machado de Assis não for citado. Quem nunca passou os olhos em uma linha escrita por Machado não conhece a língua portuguesa e, o pior, não conhece os meandros da alma humana - especialmente os meandros mais escuros. Nos quatro maiores romances que a literatura brasileira já nos deu - "Memórias Póstumas de Brás Cubas", "Quincas Borba", "Dom Casmurro" e "Esaú e Jacó" -, Machado analisa nossa mesquinhez, nossa inveja (e nunca a nossa cordialidade pois esta nunca existiu, ao contrário do que pensava Ribeiro Couto e o pai do Chico), nossa infinita capacidade de fazer o Mal. Quem quiser entender o brasileiro, leia Machado; quem não quiser fazer uma coisa nem a outra, que tome um piparote e vá para o inferno.

Dos quatorze aos dezessete anos devorei Machado de Assis. E o problema de permanecer em um autor que, por mais genial que seja, possui uma visão inegavelmente pessimista da natureza humana, é que você começa a ver tudo da mesma forma. E, como sabem, o homem não é o summum malum que Hobbes imaginou. Por mais difícil que isso pareça, há um resto de bem nele. Assim, senti que deveria procurar algo mais "iluminador" - e lá fui eu para os pubs irlandeses ao encontro de James Augustine Joyce e seu "Ulysses". Entretanto, havia um obstáculo: não tinha condições para ler "Ulysses". O romance não era complicado apenas do ponto de vista formal - aqueles longos parágrafos sem vírgula, aqueles fluxos de consciência fragmentados -, mas Joyce inseriu um catálogo enciclopédico de erudição que não possuía. Então tomei uma decisão: faria um guia de leitura e estudaria cada livro necessário para entender o "Ulysses". Aliás, aconselho este método a qualquer um que tenha dificuldades em ter uma disciplina para leitura: escolha um livro bem complicado, daqueles impossíveis de serem lidos e leia tudo o que for relacionado com ele para compreendê-lo melhor. É tiro e queda - em menos de um ano sua mente ferverá como uma panela enciclopédica.

E graças a "Ulysses" descobri uma série de autores que me ajudaram a enfrentar melhor a dureza da vida: Yeats, Eliot, Homero, Dante, Vírgilio, Thomas Mann, Hermann Broch, Proust, Chaucer, Donne - faça a lista e você terá o nome que quiser. E, sim, ao ler o "Ulysses", consegui entendê-lo porque, mesmo com toda aquela carapuça erudita e de virtuosismo técnico, é a história singela de três pessoas que, no dia 16 de junho de 1904, descobrem a importância de si mesmos em um mundo consumido cada vez mais pela anulação do indivíduo e de seus valores morais. Por incrível que pareça, "Ulysses" me ensinou o valor do indivíduo frente a uma sociedade que quer dominá-lo a qualquer custo e, se não fosse por James Joyce, nunca descobrira a palavra-chave que envolve a magia da literatura e que consiste naquele dom que Santo Agostinho afirmou que somente os verdadeiramente abençoados possuem: a perseverança.

Logo depois de "Ulysses" (e, para a sua informação, caro leitor, não li "Finnegans Wake"; fica para a próxima, viu?), chegou em minhas mãos três livros: "V.", de Thomas Pynchon, "Minima Moralia", de Theodor Adorno, e "O Jardim das Aflições", de Olavo de Carvalho. Os três têm uma visão-de-mundo completamente paranóica e me ensinaram que, afinal de contas, a paranóia sempre mantém o ser humano atiçado com as coisas ao seu redor - e isso, hoje em dia, é a coisa mais importante do mundo: to pay attention, pay attention, old pals. E cada um me levou para novos caminhos literários: Pynchon e Olavo me levaram para o estudo sério de filosofia com Eric Voegelin, um dos maiores filósofos do século XX, e injustamente desconhecido no Brasil (seu "Order and History" é essencial para se entender porque estamos na situação desoladora em que nos encontramos), além de Olavo ter me aberto os olhos para a poesia de Bruno Tolentino que, no ano passado, publicou o livro que colocou a literatura brasileira no seu devido eixo: "O Mundo Como Idéia" (aliás, vencedor do prêmio Jabuti e do prêmio José Ermínio de Moraes, dado pela Academia Brasileira de Letras). E, finalmente, por último mas não menos importante, Adorno me levou a Marcel Proust que, com seu "Em Busca do Tempo Perdido", me fez reaprender a arte da escrita e, principalmente, a íntima relação entre a literatura e a memória. Assim como a luz e a sombra, uma não consegue viver sem outra e, como já disse, a literatura é uma experiência que só pode ser compreendida pela libertação da memória. O escritor usa a lembrança da mesma forma que um médico usa o bisturi: dissecando cada momento de um fato ou cada gesto de uma pessoa para descobrir o inesperado que quebra o hábito e revela, enfim, o mistério da vida. Cada um dos autores citados e cada um dos seus livros me deram a memória e o conhecimento que nunca poderia ter em uma única vida. E espero que o leitor que leu este relatório "anamnético" possa fazer o mesmo, ao superar os obstáculos da vida, principalmente para continuar com a perseverança dos verdadeiramente abençoados.

Martim Vasques da Cunha
Campinas, 10/10/2003

 

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