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Quinta-feira, 20/1/2005
Como E Por Que Ler O Romance Brasileiro
Ricardo de Mattos

"É por isso que se lê romance: para viver por empréstimo, e nesta vida emprestada aprender a viver". (Marisa Lajolo)

O interessante ensaio Como E Por Que Ler O Romance Brasileiro participa da coleção Como E Por Que Ler. Foi escrito por Marisa Lajolo, professora titular de Literatura da Universidade Estadual de Campinas, também autora de Monteiro Lobato, Um Brasileiro Sob Medida, A Formação Da Leitura No Brasil e Literatura: Leitores e Leitura. Com relação à série, os demais títulos são Como E Por Que Ler Os Clássicos Universais Desde Cedo, de Ana Maria Machado e Como E Por Que Ler A Poesia Brasileira Do Século XX, de Ítalo Moriconi.

A competência e o conhecimento de Marisa Lajolo são indisfarçáveis. Mesmo se o livro fosse ruim, sua leitura valeria pelos escritores e títulos que faz o leitor descobrir ou redescobrir. Há um eixo de orientação seguido por ela, que é a história específica do romance no Brasil. Em torno d'este eixo serpenteia uma saudável inquietude, indo e vindo a autora no tempo, mesclando estilos e comparando escritores e obras. Ela não deixa de alongar-se sobre Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, porém praticamente resgata Teresa Margarida da Silva Orta, Ana Luísa de Azevedo Castro e Coelho Neto, entre vários outros. Preferências pessoais são sugeridas: elogia bastante Capão Pecado, de Férrez, e mal menciona Cidade de Deus, de Paulo Lins.

Uma das características mais notáveis do gracioso Da Dificuldade De Ser Cão é o entrosamento de Roger Grenier com os escritores de seu país, evocados aqui e ali para ilustrar seu texto. Também é reconhecível sua falta de preconceitos. Não lhe importa o destaque do autor ou da obra diante da crítica ou do gosto dominante e sim o que respeita ao tema, no caso o amor aos cães. A mesma virtude pode ser encontrada no ensaio de Lajolo, pois discorre despreocupadamente e acolhe obras e nomes nem sempre apreciados, como O Xangô de Baker Street e Josué Montello.

Por sorte, Lajolo impediu exageros de entusiasmo. Derramá-lo causaria prejuízo imediato ao seu trabalho e mediato ao objeto defendido. Basta um exemplo. Ela diz preferir os romances brasileiros aos ingleses porque n'estes ninguém anda de jangada, faz oferendas a Iemanjá nem beija de tirar o fôlego na esquina da avenida Ipiranga com a São João. Ora, eu leio o romance brasileiro para conhecer a cultura do meu país. Conhecer a produção literária e o que foi apresentado através d'ela. O trecho citado pode ser emotivo, laudatório, mas pouco esclarece. Duvido que Capitão Rodrigo ou Lucas Procópio tenham andado de jangada ou feito oferendas.

Como ler o romance brasileiro e por que fazê-lo são perguntas melhor respondidas com a integralidade do texto. As respostas diretas são pouco satisfatórias: a ser lido de muitos jeitos, de qualquer jeito, por esta ou aquela razão mas, sobretudo, sempre com a perspectiva de uma excelente leitura.

Anos atrás comecei a ler As Seis Doenças Do Espírito Contemporâneo escrito pelo filósofo romeno Constantin Noica e reparei que eu ainda não havia lido algumas das obras mencionadas e estudadas por ele. Faltava-me ler Os Demônios - só agora traduzido diretamente do russo -, o Don Juan de Moliére, Guerra e Paz, Esperando Godot, etc. Percebendo lacunas no conhecimento pessoal dos chamados "clássicos", deixei de lado as "todetites" e "acatolias", algumas das doenças que Noica diagnosticou no espírito contemporâneo e nomeou, e dediquei-me a eles com atenção maior, ainda que variável no tempo.

Simultaneamente, lembrei-me de obras e escritores brasileiros merecedores de reparo. Há clássicos universais e clássicos "locais", ambos dignos de atenção. Em verdade, não considero vantajoso ser profundo conhecedor da literatura norueguesa do século XIII, se mal sei o que foi criado aqui no século XIX. Falando nos autores nacionais, logo vêm à mente os nomes de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Mário de Andrade. São nomes de indiscutível importância, mas deveríamos reacostumar-nos com tantos outros lembrados apenas por consideração didática: Visconde de Taunay, José de Alencar, Bernardo Guimarães, Franklin Távora, Rosário Fusco, Autran Dourado. A obra adulta de Monteiro Lobato, eclipsada pela infantil. Os atuais pretensos escritores, principalmente, deveriam caprichar n'esta busca e conhecer bastante os escritores nacionais antes de criar obsessões e copiar um ou dois estrangeiros. Creio que um bom escritor não deve dar as costas àqueles do seu país que exerceram o mesmo ofício no passado. Prova d'isto é encontrada no já comentado artigo Como Se Deveria Ler Um Livro? escrito por Virgínia Woolf.

Títulos há em profusão na biblioteca brasileira a serem lidos por quem quiser conhecer o que já se escreveu por estas terras. É correto alegar a distância qualitativa de alguns em relação aos clássicos estrangeiros, e mesmo aos locais. Todavia, dizem-nos respeito mais de perto. Devemos dedicar-nos tanto à leitura de Memórias De Um Sargento De Milícias, O Presidente Negro e Mongólia, quanto de Dom Quixote, Os Irmãos Karamázov, Gargântua e Germinal. Ao leitor brasileiro em especial deve ser lembrada a existência de três círculos concêntricos nos quais se lhe aconselha a perambular com desenvoltura: o círculo da literatura nacional, o da literatura escrita em língua portuguesa e o da literatura mundial. Falta de boas obras não há. O difícil é o espírito médio afastar-se de modismos e preconceitos, abandonar sua visão tacanha e conhecer o máximo. Este ano, o primeiro romance brasileiro que leio é Luzia-Homem, do cearense Domingos Olímpio (1.850/1.906).

Díptico: General Semprônio e Maria Cachorra
(para Cigana, 07/04/94 - 27/12/04)

I

Depois da reforma em 1.990, o General Semprônio assumiu o comando do exército de cães, pombos e aposentados assentado na praça central de Sant'Ana do Jecoaba. Somente a chuva impede-o de assumir diariamente seu posto, mesmo assim se não houver algo sério ocorrendo ou a ser providenciado. Vestindo camisa engomada, bermudão com cinta e meias na canela; calçando mocassim folgado; cabelos rigorosamente penteados para trás e óculos escuros: eis o General saindo de sua casa na Rua das Oliveiras e dirigindo-se ao "quartel". As mãos estão cruzadas nas costas um pouco abauladas pela idade. O assovio executa o Cisne Branco, melodia a qual ele tornou-se surdo pelo hábito. Tal a severidade em questões de harmonia e disciplina, que um de seus "soldados" jura tê-lo ouvido gritar com um curió engaiolado: acerte este compasso, nem parece que é homem!

Poderia compartilhar o jornal que circula entre o regimento, mas prefere adquirir seu próprio exemplar. Nem é sintoma de egoísmo, todos sabem que o periódico lido pela manhã servirá de forro para as gaiolas dos passarinhos. Aproveita para obter detalhes sobre a vida do dono da banca e sua esposa nas últimas 24 horas. Passa em revista a cachorrada, estalando os dedos e fazendo festa. Tira do bolso um saquinho de quirera e espalha-a para os pombos. Cumprimenta seus subordinados individualmente, retomando assuntos pendentes a fim de certificar-se da evolução ou estagnação dos casos. A este inquire: sua senhora melhorou da bicheira no pé? Aplicou a pomada que eu recomendei? Mantenha-me informado. Àquele questiona: resolveu o problema da aposentadoria? Descobriram do que se tratava? Mantenha-me informado. Escolhe um banco aquecido pelo Sol e senta-se para ler todas as notícias. Alguém chega à praça, dirige-se a ele com cuidado e cumprimenta-o. O General interrompe a leitura, sem levantar-se responde à saudação e faz seu breve interrogatório: seu filho já arrumou emprego? Está procurando todos os dias? Mantenha-me informado. Uma vez por semana sobe na cadeira alta do engraxate e com imponência examina do alto o campo de treinamento de ócio. Emburra-se ao ver o bispo na porta da catedral. Suas rusgas começaram no dia do falecimento da generala, quando Semprônio não obteve permissão de enterrá-la dentro da nave como era costume de sua família.

O General acompanhava com sincero interesse a execução de obras da Municipalidade na praça. Nos problemas de tubulação, por duas vezes desconcertou os operários com suas perguntas sobre hidráulica - ele é engenheiro por formação. Primeiro porque eles não sabiam responder; segundo, porque pensavam tratar-se do responsável técnico da prefeitura. Quando descobriam ser aquele senhor um cidadão como os demais, xingavam-no em pensamentos e depois em murmúrios. Certa vez, cavaram um buraco no meio da praça, mas o trabalho não pôde ser realizado no mesmo dia. Devolveram a terra sem recolocar as lajotas. Como era cova mais comprida que larga, e como a terra mal devolvida formou pequena elevação, algum gaiato notívago teve a idéia de improvisar uma cruz de madeira e uma coroa de flores para o túmulo de fantasia. O General encabeçou um destacamento para desfazer a gracinha e escreveu um ofício exigindo providências. Não foi atendido, pois não o levam a sério desde que voltou d'uma viagem ao interior da Alemanha e sugeriu a troca do nome da cidade. Queria que o atual "Sant'Ana do Jecoaba" fosse substituído por "Sant'Ana Sobre o Jecoaba". Meses depois, quando o prefeito lembrou-se de mandar terminar o serviço, Semprônio infernizou a vida de todos querendo saber se a continuidade da obra era resultado de seu ofício e o motivo da demora. Os operários respondiam-lhe tudo, soubessem ou não a resposta. Quanto mais detalhes o General pedia, mais ativava-se a imaginação zombeteira d'eles.

II

Maria Cachorra não tem pais, irmãos, marido ou filhos. Sua casa situa-se para as bandas do bairro industrial, mas não se conhece o endereço preciso. Sequer chama-se Maria, e sim, Alcina. Entretanto, se for perguntado na praça central se a "Dona Alcina" já veio, todos ficarão confusos. Mude-se para a pergunta "a Maria Cachorra já passou?" e então a compreensão será total. De onde saem seus rendimentos mensais, ninguém descobriu. Não é difícil vê-la de cabelos molhados e roupas limpas, concluindo os freqüentadores que ela é bem de vida.

Nada mais faz a pobre mulher além de tratar os cães da praça. Alimenta-os, dá-lhes água, desmonta caixas de papelão para deitarem. Por isso ela é vista revirando sacos de lixo. Procura latas, potes de plástico, panos velhos, etc. Aplica-lhes vermífugo periodicamente - ontem a cachorrada "tava" piriricando na hora que a Maria Cachorra chegou com o remédio d'eles. Ampara as cadelas prenhes no pré-natal e após o parto, bem como socorre as vítimas de atropelamento ou vandalismo. Empenha-se na busca de donos. Consola os moribundos e enterra os mortos. É vista principalmente de noite, quando a matilha festeja-lhe a chegada com latidos, uivos e tumulto. Chega bem depois de fechado o comércio e não tem prazo para sair. É hilário descobri-la atrás do banco onde namora um casal, sua cabeça aparecendo atrás do encosto. A interferência, contudo, é a mesma do óleo na água. Como a praça situa-se defronte a matriz, logo os desocupados espalharam que ela aguarda o horário sem movimento para transformar-se em lobisomem.

N'uma extraordinária perambulação noturna, o General resolveu abordá-la. Aproximou-se do canteiro onde ela encontrava-se agachada com um cachorrinho no colo e foi recebido com frieza e desconfiança: Que foi? O visitante começou a falar dos animais, mostrando conhecer alguns. Perguntou do paradeiro d'este e d'aquele e elogiou um dos recém chegados. Ela só respondeu com um pouco mais de desenvoltura quando o filhote saltou do seu colo, aproximou-se do intruso e foi bem recebido. O contentamento d'ela foi perceptível, mas não escancarado. Enganou-se quem entendeu que este regozijo referia-se ao estranho e ao afeto demonstrado. Referia-se, sim, à vitalidade da criaturinha que de tão amigável logo encontraria um lar. O General levantou-se, despediu-se e saiu. Sabe reconhecer quando certo território é de incursão inviável.

Para ir além





Ricardo de Mattos
Taubaté, 20/1/2005

 

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