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Quarta-feira, 24/5/2006
De como alguns de nós viraram escritores
Ana Elisa Ribeiro

Autores novos são pessoas jovens que ingressam na carreira de escritor depois que lançam um livro, de preferência um livro escrito em prosa. Se for romance, melhor. Se não for, paciência. Espera-se que o iniciante consiga sobreviver ao combate e aprenda a escrever histórias longas.

Tudo errado. José Saramago começou depois dos 50 anos. Não ando com paciência para pesquisar - façam isso por mim, por favor -, mas é certo que há vários exemplos de escritores novos que começaram já experientes nesse ramo das palavras à solta. Mas não se pode negar que há uma geração de brasileiros (ou duas) tentando escalar a fama de "escritor" ou mesmo lutando para conseguir transformar um suado original em livro, de preferência por editora conhecida, ainda o fetiche de muitos donos de blogs.

Nos anos 1990, vários nomes rondavam a literatura. Vários deles são os mesmos cinco ou seis consagrados pela crítica ou pelo público (talvez por ambos). Citar Cony, Trevisan e outros do mesmo saco de trigo é chover no molhado. Na poesia, Arnaldo Antunes virou clichê. Então não é deles que eu preciso falar.

Nelson de Oliveira, o ubíquo crítico de literatura, disse por aí que a "geração 90" era aquela dos Manuscritos de Computador. Pois sim. Era justo naqueles idos que os escritores abandonavam suas máquinas de escrever e batucavam os teclados e as interfaces gráficas do Windows para editores de texto. Na antologia histórica Manuscritos de Computador, saída pela editora Boitempo, Nelson elencava uns tantos nomes da nova literatura. E já estavam lá vários escritores que nos acostumamos a ver ainda por agora. Mas ainda não estavam Daniel Galera, o autor do melhor livro de todos os tempos da última semana, nem tanta gente assim do Rio Grande do Sul.

Isso é sinal de que a novíssima literatura se manifestou mesmo foi na virada para o século XXI. Não à-toa, Cláudio Daniel e Frederico Barbosa trataram logo de lançar a antologia poética Na virada do século (editora Landy). Também já estavam lá mais de meia dúzia de conhecidos atuais, que já lançaram uns tantos livros daquele ano em diante, mesmo que bancados por bolsos próprios.

Quem é novo, afinal? Em 2002 um boom de escritores aconteceu. Não porque eles tivessem saído de casulos, mas porque resolveram gastar as mesadas e publicar. Muito importante: resolveram aprender a diagramar e montaram seus próprios selos. Já que as editoras não apostavam em mais nada, era só adotar uma postura tipo do it yourself.

Foi numa dessas que eu conheci a editora Ciência do Acidente, que durante muito tempo gozou da fama de ser boa, bons livros, bem-feitos. O catálogo da editora de um homem só (o editor-ex-poeta-contista-romancista-designer Joca Reiners Terron) contava com nada menos que Glauco Mattoso e Marçal Aquino no staff. Bem, eu também fui parar lá e foi isso que me deixou a par de tudo o que acontecia no país em literatura. Pelo menos era essa a impressão que dava naquela época. Com o tempo, a gente via que o mundo era maior do que São Paulo e Rio Grande do Sul, mas que isso raramente significava alguma coisa. Também foi isso que me fez compreender como a Internet podia mudar tudo. Ou podia parecer mudar.

Depois que a Ciência do Acidente já tinha lá sua pequena fama, a Livros do Mal, editora para auto-edição de alguns gaúchos, pintou com mais expressão no mapa literário. Todos se conheceram, festinha, festival, encontro, correio eletrônico, revista e tal e coisa. E não seria nesta "profissão", a de escritor, que não existiria corporativismo, não é mesmo? As pessoas se promovem a si mesmas e aos pares. Fabrício Marques, poeta mineiro com livros vários, tem lá um poema que é perfeito para cantar essas relações. Se ele deixar, publico aqui. Me resenha que eu te edito. Me edita que eu te resenho. E assim vai a ciranda. Naturalíssimo.

Também é difícil não citar as facilidades das pessoas que moram em certos lugares e da dificuldade que é morar em outros. Onde estiver o dinheiro estará a "cultura". Vamos lá. É só seguir a história do Brasil. Que outro poeta da mesma época de Gregório de Matos você conhece? Nenhum? E onde estava o dinheiro naquela época? Por acaso não era na Bahia, onde ele mesmo morava? Então vá seguindo esse raciocínio e se verá que nem todo mundo consegue fazer a proeza que João Filho, baiano de hoje em dia, fez.

Outro jeito secular de insistir é conhecer as pessoas certas. Conhecê-las e ser amigo delas. E torcer para que elas sejam amigas de outras. Não é muito diferente do Orkut, por exemplo. Pode surtir bons resultados.

Em 2003 e 2004 a marcha dos livros autolançados continuou. Fértil. Mas o esforço valeu a pena. Estão aí os sobreviventes. Muitos porque sabem muito sobre marketing pessoal. Outros tantos porque realmente se esforçaram em aprender a escrever. Vários porque encontraram na prosa um filão muito mais atrativo do que nos versos. Ser poeta é complicado! Afora Arnaldo Antunes, que se encontra noutro estágio da tortuosa trilha dos escritores, é de se perguntar ao Fabrício Carpinejar como é complexo ser poeta. Bem, talvez ele não ache. Não sei.

Mas o enxame de poetas que o deixaram de ser para escrever contos, eu mesma incluída, foi estarrecedor. E perde-se mesmo a veia quando se migra de um gênero a outro, creiam. Mas aí os livros se transformaram, os escritores também, e de toda aquela trupe restaram os que conseguiram alçar editoras de renome. Daniel Galera estréia na Companhia das Letras. Joca Terron e muitos outros foram para a Planeta, que chegou ao Brasil apostando em tudo o que ainda amedrontava as casas editoriais nacionais. Ainda me lembro bem da época em que a espanhola procurava funcionários de alto calibre.

Uma novissíssima geração chega aí, tímida e se esgueirando pelos cantos. Algumas coleções de livros de poesia aparecem aqui e ali. Elisa Buzzo e Mônica de Aquino me vêm logo à memória. Ótimas poetas. A poesia falada em público arrasou quarteirões.

A literatura brasileira está movimentatíssima. Embora alguns nomes apareçam mais que outros, há muita gente se movendo e se editando. 2005 foi um ano de mais quietude, mas não se deixou de planejar o retorno aos palcos de vários escritores. Assim como nas novelas de tevê, certas celebridades instantâneas foram ao pico e arrefeceram logo. Outros tantos personagens se mantiveram em velocidade uniforme, embora jamais retilínea. Alguns mais espertos cumpriram ritmo de formiguinhas, trabalhando miúdo e incessantemente pela projeção. Surgiram revistas, cadernos, jornais. O que era encontro virou festa e badalação. Mas valeu.

Não posso deixar de mencionar a ferramenta mais comentada do século (pelo menos enquanto ele começa): o blog. Foi essa interface simples e gratuita que alavancou a produção, mais do que de contos, de contistas. Ao menos uma meia dúzia de nomes apareceu por conta dos espaços digitais em que escreviam seus textos, muita vez alicerçados na vida privada e no umbigo próprio. E deu certo. Houve quem quisesse dizer que estava ali uma geração autocentrada. E não é que é? Mas fazer o quê? Quem puder que se salve e trate de escrever bem.

Em alguns casos, funcionou. A Internet e as editoras portáteis para fins particulares foram parceiras. A convergência resultou em apropriação dos meios para fazer o que se desejasse. Se no cinema havia a história da câmera na mão e da idéia na cabeça, a virada do século dependeu de pouco mais. Era juntar os textos, ter um computador e saber tratar com uma gráfica. Pronto. Mas e depois? Quem iria distribuir? Problema que a Internet também resolveu, embora parcialmente.

Olhem só. Não é que deu resultado? Galgamos, alguns, os degraus das editoras conhecidas. As almas não eram, de fato, pequenas. Se a literatura será, só mesmo o tempo para dizer.

Poema do Fabrício Marques

"Mini litania da política editorial"

Me suplica que eu te publico
Me resenha que eu te critico
Me ensaia que eu te edito
Me critica que eu te suplico
Me edita que eu te cito
Me analisa que eu te critico
Me cita que eu te publico
Me publica

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 24/5/2006

 

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