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Domingo, 12/2/1984
Quem eu sou, e não o que eu fiz
Verônica Mambrini

Sou aquariana. Para fins práticos, isso quer dizer que leio quatro ou cinco livros ao mesmo tempo, mudo o cabelo como quem muda de blusa, sou mais curiosa que filhote de gato e me enfio em encrenca diuturnamente. Tenho boa estrela, então no final dá tudo certo.

Adoro bastidores. Comer o prato bonito, gostoso e delicado não basta: é preciso dar um pulo na cozinha para entender a coisa melhor. Essa mania tem me rendido micos inesquecíveis, como acabar na do Walter Mancini com um garçom simpaticíssimo enfiando uma garfada de talharini com camarão na minha boca, sob os olhares gozadores da cozinha inteira. Nessas você aprende, além de como funciona uma cozinha chique, em que lugares é tutti buona genti e onde é um “pega pra capar”.

Gostar de literatura é o começo de tudo: de perceber como a ficção é capaz, muitas vezes, de dar conta melhor da realidade do que livros de história ou notícias de jornal. É o olhar, é a cultura e a formação de quem está escrevendo. É a história que você escolheu. É o escritor, que está sempre exposto. Nenhum autor consegue de fato se esconder atrás de seus livros – assim como nenhum jornalista se esconde atrás da notícia que escreve. Mas os que chegam perto são grandes mestres. Por isso, tanta paixão por ler e livros. E por isso querer ser jornalista: para poder contar histórias.

Pintar é refazer o mundo a partir do nada pardo da tela, com volume, forma e cor. Brincava muito com minhas tintas e pincéis na adolescência. Estão aí, esperando eu arrumar tempo para elas de novo. Serve pra muita coisa: para entender o que o artista faz, o que ele quer e espera. E sabe o que mais? Serve pra reconhecer como tem picareta por aí. Como tem madame que, em vez de ser uma “senhora beneficente”, resolveu virar “artista plástica”. Ah, eu também estudo bastante. Muitos livros, catálogos e quando dá, aulas de história da arte.

Cinema, paixão bastarda! Quantos cursos eu fiz por ti, quantas horas de película. Quantos livros, quantos perfis de cineastas, quantas resenhas e críticas dissecadas. Tudo isso para eu te abandonar. No meio da faculdade de jornalismo, eu queria ser crítica de cinema. Paixão e entrega total, oito, dez horas de filmes por dia. Videolocadoras devassadas, cabines de manhã (as sessões de pré-estréia para jornalistas) com a boca ainda com gosto de sono. Mas a vida é assim mesmo: os melhores amores são os que vão e vem, e nunca acabam.

Vale a pena falar do meu gosto por gostos. Já entregue aos prazeres da carne (e das saladas, bebidas, molhos, massas e doces), fui parar numa assessoria de imprensa especializada em gastronomia. Ainda não me atrevi a escrever sobre isso, estou no ensaio. É difícil porque comer é coisa séria. É sentir e contar o sentido e sentimento para os outros, e de quebra dar uma perspectiva histórica e social para esse ato. Da música, não chego a ter a experiência de saber fazer para poder falar. Mas ouço com atenção, converso com músicos sempre que posso, de novo me enfio nos bastidores. Arte no mundo de hoje tem essa particularidade: é ao mesmo tempo artesanato e indústria de massa. E o artista, lá, no meio desse um torvelinho.

A verdade é que não fiz nada notável. Vivo pulando de emprego para emprego. O que mais me importa é educar o olhar. Depois de toda essa volúpia pela arte que descrevi, é fácil achar que sou uma hedonista. Mas não sou: informar é, muitas vezes, mais importante do que opinar. E a arte não se sustenta no mundo sem inquietações. Do alto dos meus vinte e poucos anos, concordo com o F. Scott Fitzgerald, que disse que “aos dezoito anos, nossas convicções são colinas de onde contemplamos o horizonte; aos quarenta e cinco, são cavernas em que nos escondemos”.

Verônica Mambrini
São Paulo, 12/2/1984

 

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