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Segunda-feira, 17/3/2008
A verdade que as mulheres contam
Pilar Fazito

A história da humanidade está recheada de violência e injustiças contra o chamado segundo sexo. Violência essa acentuada pelo cristianismo e pelas religiões monoteístas em geral. Se pensarmos nos arquétipos femininos representados pelas deusas gregas, romanas, indianas, indígenas e africanas, vemos que os povos politeístas respeitavam e respeitam bem mais a mulher do que aqueles que adotam um deus único.

Enquanto deus mexeu os pauzinhos em 7 dias para criar o mundo, o caos, o homem e essa bagunça toda que se vê por aí, a energia yin constitui, no politeísmo, a base da concepção da própria humanidade. Assim, o feminino está presente na "mãe Terra" xamânica; na loba que amamentou Rômulo e Remo, fundadores de Roma; e na Titã Gaia, mãe de Zeus, o correspondente grego do Todo-poderoso cristão.

E no catolicismo, o que temos? A condenação de Eva como responsável pelo pecado original. Eva é o bode expiatório de todos os males da humanidade até os dias de hoje. A criação de Eva, aliás, surgiu como forma de execrar outra figura feminina: Lilith.

Há várias versões sobre o mito de Lilith. A grosso modo, ela sim era a primeira mulher e foi criada para aturar o sacripanta do Adão, devendo satisfazer suas vontades. Mas Lilith se rebelou. Era quase uma executiva dos nossos dias, cheia de idéias na cabeça, liberdade nos pés, muito bonita, sexy e dominadora. Ela jamais ficaria em casa, cuidando de pirralhos melequentos e cheia de bobes nos cabelos, esperando o pulha do marido voltar às 5h da manhã, com bafo de pinga e marca de batom no cangote, sem dizer onde esteve. Aliás, dizendo ou não onde esteve, ela não esperaria por ele porque tinha mais o que fazer. E se o encontrasse no meio do caminho, era capaz de devorá-lo, literalmente.

Grande garota! Mas perigosa demais para a segurança e auto-afirmação masculina. Por isso, foi preciso que a igreja católica a tirasse de cena, vinculando-a à bruxaria e a Satanás. Sai Lilith e entra a passível, submissa e tolinha Eva.

E aí vem a pergunta: quem era a loira e quem era a morena? Não precisa responder. Nenhum documento que se preze prestou atenção às mechas das moçoilas e não faço piada aqui. Mas tenho vontade mesmo de fazer uma estatística em relação ao que cada um imagina com a finalidade de analisar a formação de estereótipos.

Recentemente, a rede BBC resolveu fazer um teste por conta própria lá na Inglaterra e creio que as constatações também se aplicam ao Brasil. Foram escolhidas três mulheres: uma loira, uma morena e uma ruiva. Elas passavam por várias situações que demonstravam como os homens e outras mulheres reagiam conforme a cor de suas madeixas. Em seguida, pintaram os cabelos: a morena passou a ser ruiva; a ruiva, loira; e a loira, morena. As moças passaram novamente pelas mesmas situações para confirmarem a primeira impressão.

Além de descreverem o que cada uma percebeu, as câmaras registraram certas curiosidades. Por exemplo: uma mulher loira tem mais chances de conseguir ajuda para trocar o pneu de um carro, enquanto as outras têm que esperar a vida inteira ou se virar como podem. Por outro lado, as pessoas repetem informações para as loiras como se elas não entendessem logo na primeira tentativa. E, claro, os homens olham mais para as loiras.

As participantes do programa disseram que se sentiam mais sérias, envelhecidas e ignoradas quando morenas. Já os homens consultados afirmaram que as mulheres morenas e ruivas parecem mais independentes e não necessitariam de ajuda. A loira, por sua vez, coitadinha, passaria a imagem de uma mulher incapaz e indefesa. Um ratinho assustado que precisa de um macho por perto.

É claro que uma análise séria não poderia se basear num teste realizado pela TV. Mas isto aqui não é uma análise séria. Então, a resposta do nosso quiz é: Eva era a loira. Lilith, a morena.

E a ruiva? Seriam ruivas as Amazonas?

O mito das Amazonas também se fundamenta no arquétipo da mulher auto-suficiente. Adaptado em várias regiões do planeta, aqui no Brasil foram levadas tão a sério pelos portugueses do século XVI que chegaram a dar o nome ao maior rio do mundo.

Os colonizadores realmente temiam o ataque das filhas de Marte. Mulheres fortes, agressivas, bélicas, elas punham todo mundo para correr. Caçavam, pescavam, construíam casas, canoas e, segundo a lenda, quando tinham vontade de "dar uns pegas", invadiam uma aldeia vizinha para copular com os prisioneiros. Depois, claro, deixavam o que sobrou do sujeito para trás ou o matavam. Se dessa excursão sexual nascesse um menino, o coitado era afogado tão logo fosse identificado seu "pingolim".

Mas eis que chega a inquisição e transforma todas as mulheres independentes em bruxas ou prostitutas ― o que dava no mesmo, até então. E as fogueiras da Europa não se importavam se a mulher fosse loira, ruiva ou morena.

O número de processos de sodomia feminina (lesbianismo) registrado pelo visitador da inquisição no Brasil, no século XVI, também era grande. É claro que havia lésbicas, mas muitas das acusadas de "ajuntamento carnal" com outras mulheres o faziam por completa incompreensão de seus maridos, falta de afeto e vida cruel.

Havia ainda aquelas que eram obrigadas a esperar a volta de um marido explorador que talvez nem estivesse mais vivo. Às vezes a espera superava décadas. Se a mulher se casasse novamente, poderia ser acusada pela inquisição de bigamia. Se "pulasse a cerca" com um vizinho, era acusada de adultério. A sodomia, por sua vez, era considerada um delito menor. Menor até que o homossexualismo masculino, já que os homens do Santo Ofício não podiam conceber a idéia do "ajuntamento carnal" sem que houvesse penetração.

A função das mulheres brancas que vinham de Portugal era uma só: parir. E parir um varão, isto é, dar filhos homens a seus maridos. Essas mulheres estavam acostumadas a um mínimo de conforto na metrópole. Ao chegar aqui, encontraram o próprio inferno: calor, bichos, falta de tudo o que se possa imaginar e, sobretudo, de quem as entendesse. Elas eram escolhidas pelos homens, muitos deles degredados, e ainda tinham que providenciar o dote, uma espécie de recompensa para o sujeito que aceitasse "desencalhá-la". No fim das contas, a mulher branca valia menos do que uma vaca e a situação das chamadas "negras" (índias) e as "negras de Guiné" (negras africanas) não era diferente. Estupros e abusos eram mais comuns do que se pensa; as mulheres do século XVI não eram donas sequer do próprio corpo.

A necessidade de se casarem se explicava pela constante ameaça a que estavam expostas: era preciso um marido para garantir-lhes o sustento, defendê-la de feras e, sobretudo, do assédio de outros homens. As viúvas ficavam à mercê desse assédio e da fome, já que eram impedidas de trabalhar. Se não conseguissem se casar novamente, acabavam seguindo a predição da sociedade e virando prostitutas para garantir o próprio sustento.

Depois de tudo isso, é compreensível que as mulheres tenham queimado sutiãs, usado mini-saia e depois a tenham trocado pelo par de calças jeans. O problema foi quando resolveram trocar as calças jeans pelas de linho, acrescentando um terninho, uma gravata e uma pasta debaixo do braço. Problema porque em vez de assumirem sua independência, mantendo a essência feminina, começaram a competir com os homens e a imitá-los. A competição poderia ao menos ser mais justa, caso as regras desse jogo não tivessem sido criadas, exclusivamente, por eles.

São poucas as mulheres que ocupam lugares de destaque dentro de empresas e em cargos políticos, hoje. E são ainda mais escassas aquelas que conseguem fazer isso sem precisar vestir a fantasia de "mulher macho", para serem levadas a sério tanto por homens quanto por elas mesmas.

É impressionante como nos deixamos aprisionar pelos estereótipos propagados na sociedade e na mídia: novelas em que as personagens femininas são histéricas; revistas que ensinam 53 idéias para agradar o homem na cama, na mesa e no banho, ou 82 formas de ficar linda de morrer para o namorado; as "músicas" de axé, funk, pagode etc. que tratam as mulheres como "cachorras"... Enfim, é um bombardeio de informações que aproveita a reação feminina ao machismo histórico e a joga do lado oposto: o da masculinização.

Uma bobagem só. Somos independentes, não auto-suficientes, assim como os homens. Sempre vamos precisar deles como eles de nós.

Ao longo da história, nos obrigamos a ser aquilo que os homens queriam que fôssemos: bruxas, putas, mães, escravas, empregadas, damas, misses etc., tolerando os defeitos masculinos com a intenção de receber amor em troca. Está mais que na hora de eles quererem o melhor que temos para oferecer: companheirismo e cumplicidade.

Os homem vivem dizendo não entender o que as mulheres querem. Ora, queremos o de sempre: ser amadas. Sempre soubemos das mentiras que os homens contam, mas queremos tanto acreditar nelas que fingimos não ouvi-las. Do mesmo modo que os homens fingem não ouvir as verdades que as mulheres contam.

Pilar Fazito
Belo Horizonte, 17/3/2008

 

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