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Terça-feira, 18/1/2011
Ação Afirmativa, Injustiça Insuspeita
Duanne Ribeiro

Estou prestes a concordar com racistas. Ou quase. Estou prestes a concordar com supostos racistas que foram vítimas de racismo. Ou quase. O assunto é mais complicado do que pode parecer à superfície: os estúdios Marvel incluíram, em Thor, um deus nórdico porém negro. Um grupo americano de conservadores se enfureceu: "Parece que a Marvel acredita que o povo branco não deve ter nada que é único dela. O filme (...) dará aos deuses de Asgard uma maquiagem multicultural que é um insulto". Essas pessoas estão certas.

Não totalmente certas, é claro. O assim chamado povo branco se coloca como despojado de tudo o que tem, mas esse simplesmente não é o caso. Como um manifesto antiracista dispôs no ano passado, os "brancos" possuem muitos privilégios e coisas só suas, entre elas, poder "abrir revistas e jornais e estar seguro de ver muitas pessoas parecidas", ver na "televisão pessoas de minha raça em grande número e em posições sociais confortáveis, o que me dá perspectivas" e conhecer, logo na escola, "heróis e obras feitas por pessoas da minha raça". É precisamente por esse estado social que se defende mais negros na mídia ou a inclusão da história da áfrica nas escolas, indo além de uma visão de mundo europeia. E é o que parece que os produtores de Thor estão fazendo, uma ação afirmativa. Mas não estão.

Os conservadores acertam quando falam de insulto. Considere um orixá branco aparecendo improvável em uma adaptação de Jorge Amado. Guardadas as diferenças históricas citadas, soa como se algo muito próprio de alguém tivesse sido roubado. O povo ancestral de quem surgiu essas crenças acreditava em deuses que lhe eram semelhantes. Tolo quanto possa parecer, pouco relacionados aos nórdicos quanto possam ser, é justo que esses americanos se sintam ofendidos. Se enxergamos racismo incrustrado na mídia pela onipresença branca, é porque entendemos que esse povo está espoliado de algo que é importante. Se queremos que haja liberdade de culto e reconhecimento para o candomblé e a umbanda, é pelo cárater único dessa cultura. Há algo na mitologia nórdica a que alguém possa se referir orgulhoso, e esse alguém não quer que isso seja transfigurado de qualquer forma.

Podemos, no entanto, pensar que essa é uma ação afirmativa ainda mais corajosa e potente, por esses mesmos motivos, por ousar uma mudança em algo tão consolidado. É uma ideia. Outra é que seja uma atitude quase apolítica da Marvel, benigna porque indica a passagem de um estado de coisas em que isso era problemático e agora é só uma questão de elenco. O ator que interpreta o asgardiano negro, Idris Elba, foi nesta direção: "é um sinal do futuro. Uma forma de não incluir alguém de sua raça apenas por preencher uma cota, ou para não parecer ofensivo". Quanto de verdade há nessas duas ideias?

A indústria não confronta ninguém
Nada. Não é um golpe em preconceito algum a alteração da cor de pele de um deus nórdico em um filme adaptado de histórias em quadrinhos. O caso é outro quando a arte mexe com valores estabelecidos. Em O Auto da Compadecida, vemos um Jesus negro - e essa é uma cena política, esmaecendo diferenças de raça e livrando o Cristo da aparência europeia que os séculos lhe impuseram. A história chega a dizer que o deus se veste de muitas formas, de modo a testar os fiéis. A ideia é clara: a bondade deve ser geral - humana, simplesmente.

Além disso, é de pouco valor que Hollywood inclua negros em seus elencos. A indústria do cinema não confronta a ideologia social de época, como diz João Moreira Salles: "o cinema industrial não é liberal nem conservador, pois não pode se dar ao luxo de ser nem uma coisa nem outra. A grande sabedoria da indústria do entretenimento é intuir o que pode ou não ser dito em determinado momento". Moreira Salles, por exemplo, desmente a crença de que um filme como Milk - A Voz da Igualdade, com seu protagonista homossexual, seja mesmo uma obra a lutar por igualdade. Ou que Brokeback Mountain de fato confronte o machismo e a homofobia. Ambos se encontram adequados a uma estrutura, e são feitos de tal forma a amenizar seu poder de choque, a começar pela escolha de atores - heterossexuais além de toda suspeita. No que se refere à abertura maior ou menor aos negros, o crítico afirma:

"(...) atores negros, hoje eles estão entre os mais bem pagos e mais poderosos nomes de Hollywood. Mesmo em relação a eles, porém, existe uma barreira praticamente intransponível. (...) Negros não podem tomar para si mulheres brancas, salvo em filmes militantes e independentes, como os de Spike Lee - e, mesmo nesses casos, o sexo inter-racial não é um acontecimento banal da vida, mas o centro da trama narrativa. (...) Na direção contrária a barreira racial inexiste. Mulheres brancas não podem ser seduzidas ou amadas por homens negros; já homens brancos não enfrentam a mesma proibição."

Muito mais poderia ser dito: a manutenção da "pureza" de contato entre as raças é constante desde os primórdios de Hollywood, notável em O Nascimento de um Nação (1915) ou nos filmes em que, pela Política da Boa Vizinhança, americanos contracenavam com brasileiros e latinos variados. Também se poderia citar que os negros que surgem nas telas são estrelas consolidadas, e sempre as mesmas. Thor não fere ideologia nenhuma nem foge à regra.

Monteiro Lobato, Mark Twain e Agatha Christie
A inclusão de um negro em Thor é mecânica e não significa nada em termos de afirmação de uma raça, e é cega a ponto de desprezar o que há de único em uma cultura para se por a máscara da pluralidade. De toda forma, a polêmica gerada indica tensões sempre presentes nas questões raciais; e também nos remete à problemática que há entre arte e as exigências políticas e sociais de uma época. Tivemos exemplos disso nos últimos meses: a "censura" a Monteiro Lobato pelo tratamento racista que o autor dispensa a uma personagem; a edição de livros de Mark Twain, retirando-se termos ofensivos que o autor emulou, de propósito, do preconceito de seu tempo; e a troca do nome de uma das obras de Agatha Christie - O Caso dos Dez Negrinhos já não é; agora se chama E Não Sobrou Nenhum.

Não pretendo interpretar aqui se essas ações funcionam como pretendem, ou se se encerram em jogo de cena como vimos em Thor, mas o que vocês acham? Por um lado, é necessário dar espaço a quem seja invisível em uma sociedade, ou, como Lázaro Ramos disse, retratar "os personagens não-oficiais que fazem parte da história não-oficial". Por outro, o remédio afirmativo de ontem é o gerador de injustiças insuspeitas hoje. No agora, o que é efetivo?

Duanne Ribeiro
São Paulo, 18/1/2011

 

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