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Segunda-feira, 24/4/2017
Inquietações de Ana Lira
Fabio Gomes

Em texto recente ("O todo é maior que a soma das partes"), relatei como concluí, a partir de reflexões durante a realização da minha exposição As Tias do Marabaixo em Belém (março-abril/17), que uma exposição, além de ser uma reunião temporária de obras de arte é, ela própria, uma forma de arte. Nesse texto, quero falar como aprendi com a fotógrafa pernambucana Ana Lira que uma exposição pode ser muito mais que uma reunião de obras de arte (sejam quadros, fotografias, esculturas) reunidas numa galeria num período X de tempo. 

Conheci Ana anos atrás, durante a realização de um Intercom (Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação) em Belo Horizonte - se não me engano numa palestra sobre pirataria musical na internet (eram os tempos da Napster), em que ao final o palestrante, que não poupara saliva para condenar o que considerava uma prática ilegal, acabou confessando que também baixava seus MP3s...Ana também chegou a me entrevistar para o extinto site Rabisco, de Recife, sobre o interesse em que o Ministério da Cultura teve, na gestão Gilberto Gil, de me incumbir de continuar as pesquisas de Bernardo Alves sobre aspectos indígenas da origem do samba. Mais tarde, foi a Ana que repassei minhas primeiras câmeras fotográficas de filme, duas Zenit, uma delas a que comprei em 1991! (e que, segundo ela me disse pelo chat do Facebook, ainda funcionava em junho de 2015!!!). Enfim, embora não nos vejamos ou falemos com frequência, Ana é uma pessoa que admiro muito, e fiquei muito feliz ao saber que meu retorno a Belém coincidia com uma estada prolongada dela por aqui, em virtude da realização da etapa Norte da itinerância de sua exposição Não-Dito. Contemplada em edital nacional (Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2015), Não-Dito ficou em cartaz de 11 de janeiro a 24 de fevereiro de 2017, no MABEU (Museu de Arte Brasil-Estados Unidos), que funciona junto ao CCBEU (Centro Cultural Brasil-Estados Unidos). 

O edital garantia a exposição em si e a edição do catálogo relativa à etapa de Belém; porém Ana entendeu necessário ir além e se programou para estar na capital paraense durante todo o período da mostra. Aliás, ela chegou ainda antes, participando de atividades na Associação FotoAtiva perto do Natal do ano passado. 



Ana Lira (de amarelo) conversa
com visitantes da exposição
- 16.2.17


A permanência prolongada da artista na cidade acabou sendo fundamental para a concretização de uma série de atividades paralelas, inserindo a proposta da exposição na comunidade local de uma forma que eu nunca havia visto, nem suspeitava ser possível. Além de algumas oficinas de confecção de máscaras, as principais atividades foram as do chamado "grupo de leitura", que se reunia aos sábados à tarde. Num deles, Ana e a equipe que trabalhou na exposição fizeram uma marcha que saiu da Praça Batista Campos e foi até o MABEU. Em outros sábados, o MABEU foi o ponto de partida para que visitantes da mostra fossem levados até lugares icônicos da capital paraense como o Mercado Ver-o-Peso e o espaço cultural Coisas de Negro, este no distrito de Icoaraci. Em outras ocasiões, o grupo permanecia na galeria, mas debatendo temas que iam muito além da exposição em si. Pessoalmente, não participei de muitos desses encontros, já que desde o final de janeiro voltei a estudar Espanhol, justamente no horário em que eles eram realizados. As ideias de Ana Lira que exponho ao longo do texto vieram desses encontros do MABEU, incluindo uma visitação especial para a imprensa, na véspera da vernissage, e ainda do Café Fotográfico da FotoAtiva de 20 de fevereiro, onde Ana foi a convidada. 

Não-Dito é uma exposição que amplia a proposta do projeto Voto!, que Ana iniciou em 2012 quando desenvolvia imagens para o filme coletivo Eleições: Crise de Representação, que não chegou a ser finalizado. Ana conta que andava pelas ruas do Recife, naquele ano de eleição, pensando: "Se as pessoas sempre manifestam raiva da política, mas seguem votando nos mesmos candidatos, para onde essa raiva está sendo canalizada?". Até que constatou que esta raiva é dirigida ao material de propaganda política, tanto os 'santinhos' (pequenos flyers com foto, nome e número do candidato), quanto os cartazes afixados nas paredes e muros. A partir daí, passou a fotografar materiais onde fosse evidente essa ação deliberada do eleitor em modificar o material original. Conta ela que geralmente primeiro são furados os olhos e rasgada a boca das fotos, seguindo-se depois intervenções variadas. Ao longo do processo, Ana passou a registrar também a ação do tempo sobre o material que, passadas as eleições, permanece esquecido nas paredes, com suas cores sumindo gradativamente (primeiro o vermelho, depois o azul, por fim o amarelo, ficando o cartaz preto-e-branco até que nada mais seja visível). A foto abaixo mostra uma parede onde havia cartazes eleitorais.




Depois de circular por cidades do Brasil e também no Porto (Portugal), Voto! teve portanto seu conceito ampliado na exposição Não-Dito, que, segundo a própria Ana, "é uma exposição-plataforma-de-pesquisa-artística criada a partir do Voto!", sendo uma "forma de reintegrar projeto e contexto, ou seja, recolocar as fotografias dos cartazes de propaganda política em diálogo com expressões do cenário que motivaram a sua produção", incluindo trechos do filme Eleições: Crise de Representação e materiais coletados para fim de pesquisa. Em Belém também foi possível ver nas paredes do MABEU diversos panfletos e manifestos distribuídos à população por movimentos sociais, não só do Recife, mas também do Pará. Isso porque, vale frisar, por política Ana entende não apenas a realização periódica de eleições, mas mesmo e até principalmente a expressão direta do próprio povo, via manifestos, marchas e outras formas de reivindicação. 

Outro aspecto que traduz a inquietação de Ana é, na maior parte da mostra, abolir o modelo 'fotografia-impressa-pendurada-na-parede'. Boa parte do espaço do MABEU estava tomada por impressões das fotos dos cartazes políticos em superfícies transparentes de acrílico, nem sempre sendo possível determinar qual seria o lado 'certo' (se é que isso faz algum sentido nesse contexto), e também possibilitando que o visitante se visse refletido na própria imagem contemplada. Em outras galerias onde a mostra foi apresentada, havia paredes de vidro, ampliando ainda mais o conceito, não só permitindo que parte da cidade fosse vista, como também o próprio espaço expositivo tinha seu aspecto modificado  ao longo do dia em função do movimento do Sol. Depois que Ana ressaltou esse aspecto da montagem, no Café da FotoAtiva, voltei ao MABEU para fazer fotos especificamente buscando apreender esse caráter único-transitório-caótico da exposição, contrastando com minha atitude na primeira visita, em que procurei fotografar enquadrando peça por peça, o que acabaria ficando redundante com o próprio catálogo da mostra. Confesso que gostei mais dos resultados dessa segunda sessão.  




A fala de Ana no Café Fotográfico me ensejou outra reflexão, mas esta fica para o próximo texto. Até lá! 

OBS: Para ver mais fotos da exposição, acesse este link.

Fabio Gomes
Belém, 24/4/2017

 

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