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Quinta-feira, 13/7/2017
Os Doze Trabalhos de Mónika. 4. Museu Paleológico
Heloisa Pait

Leia a primeira aventura de Mónika, À Beira do Abismo.

A sorte é que era no cineclube do museu paleológico, gostava do lugar. As poltronas rasgadas, baloiçantes, os tacos soltos, a luz fraca em alguns lugares e ofuscante em outros, o lugar lhe dava paz. É que em algum momento o prédio tinha sido novo, mas não naquele momento. Isso é que lhe dava paz. O museu paleológico não cobrava nada deles, estava até contente em receber visitas. E como a cobrança a matava. O Lattes, os clientes do avô, a diretora da faculdade.

Ela ia entrando na sala, o público do cinema ia saindo.

Pediu para seu orientando se sentar ao seu lado. Estava apreensiva e queria apoio. Depois pediu que ele se sentasse na primeira fila, pois queria poder ancorar o olhar em porto amigo. Mas a sala ainda estava vazia, não fazia sentido subir ao tablado tão cedo.

– Alcebíades, enquanto o debate não começa, vamos dar uma volta e tomar um café?

Alcebíades tinha dificuldade em dizer não à professora.

– Claro, professora. Onde a senhora pensa em ir?

– Sei lá, dar uma volta, pensar no que vou dizer à platéia. Não é fácil, né?

– Imagine, a senhora conhece tanta coisa, é tão segura, vai ser fácil.

Mónika tinha sempre um pé atrás quanto aos elogios dos alunos. Achava que trocavam entre si os seus comentários mais estapafúrdios, conferindo em qual insanidade a mestra acreditava. Um dia perguntou ao Alcebíades: “Escuta, aquela idéia que você teve de eu me candidatar pra deputada, aquilo foi ironia sua, né? Foi um comentário a respeito de minha arr... da minha cara de pau, algo assim? Pode falar, não há problema.” O aluno respondeu que não, que achava mesmo que a professora tinha que submeter suas idéias ao crivo eleitoral.

Verdade ou mentira, os elogios ajudavam. Ao aluno, a professora expôs com clareza e desenvoltura o que queria dizer ali ao público do debate “Jovens e Política: esperanças”. Começava, claro, com a infalível Hannah Arendt, uma espécie de Delenda Carthago contemporânea. E daí a coisa se desenrolava. Subiram escadas e desceram, se perderam no prédio e se acharam, comeram um cup cake que uma senhora vendia no andar térreo. De volta ao cineclube, um branco.

– Que era mesmo que eu ia falar, Alcebíades?

– Começava com Hannah Arendt, professora.

– E depois?

– Depois não lembro. Depois a senhora falava dos partidos.

– Ah, é isso mesmo! Os partidos! Puxa, Alcebíades, você é um menino de ouro.

A sala se enchia. As caras a assustavam. Onde estavam os meninos barbados e as meninas de chinelo? Havia poucas meninas. E os meninos estavam de terno. Que juventude era aquela? Nas salas de aula, gostava de provocar. Um dia falou: “Esqueçam essa categoria de classe social, pois isso explica pouco da vida humana.” Os alunos tiveram um treco, foi engraçado. Tinha medo de repetir ali a frase e ser aplaudida. Ia ser aplaudida. Não estava preparada. Olhou para o Alcebíades e sorriu cúmplice, como se ele lhe acompanhasse o raciocínio. “Agora devo sorrir de volta”, o aluno pensou.

O organizador do debate listava as organizações jovens que estavam participando do evento:

– Ambaíba Livre, Vem pra Rua Interior, UNE-Particulares, Negros Contra Cotas, Segunda Emenda Brasil, Campo Jovem, Amigos de Samaria, PSDB-Esquerda pra valer...

– Esquerda pra valer? Onde é que ‘tá? – O problema de Mónika era sempre essa espontaneidade.

Do fundo da sala, uma moça de bata de pano cru com um colete estampado por cima levantou a mão, sorridente:

– Estamos aqui, Mónika! Pra valer.

O rapaz ao seu lado completou:

– Pela mudança, com os mesmos valores. – Os dois se aplaudiram. E se beijaram. Eram namorados.

O moderador pediu então uma salva de palmas a todas as organizações, desfazendo qualquer mal estar pela atenção da palestrante. E Mónika começou sua fala.

Falava do liberalismo e de como a luta liberal no Brasil era fragmentada. Não porque estivesse fora do lugar. A idéia de uma idéia fora do lugar era uma idéia tão tosca que não havia o que dizer. Que idéia estava no lugar? Uma idéia se destaca de algo costumeiro, impensado. Por isso aglutina as pessoas. Uma idéia diz: “Vamos!” Puxa as gentes para algum lugar.

Mas o liberalismo aglutinava o Brasil? Ou, ao contrário, era ele mesmo algo costumeiro, que outras idéias deslocavam? O liberalismo era nossa raiz, nossa mandioca, que abandonávamos para seguir uma ou outra moda européia?

Um aluno levantou a mão e perguntou se Mónika era a favor do impeachment. Outro, do parlamentarismo. Uma discussão se sucedeu. Mónika olhava os jovens disparando certezas uns para os outros, não conseguia brecha para voltar à sua fala. Aproveitou para recuperar a respiração, olhar para a platéia. Começava a gostar deles, a lhes entender a perspectiva.

A discussão continuava. Não sabia por que tudo o que ela dizia causava tanta alvoroço. Por que nas reuniões de departamento, nas aulas, era só respirar fundo e pronto, começava aquele carnaval todo, nunca a deixavam terminar. Não sabia se isso era bom ou ruim, mas era assim. Ficou um pouco triste, também não sabia por quê. A moça do PSDB percebeu lá do alto da sala, sorriu e acenou. Ela sorriu de volta, e retomou a fala.

– A democracia brasileira... as idéias que realmente sustentam nossas instituições, nosso convívio pacífico, tolerante e progressista, são as idéias liberais de igualdade, liberdade e propriedade? Ou foi o corporativismo, o “conosco ninguém mexe” e o “a gente se entende entre nós” que impediu, em tantos momentos, que a nação brasileira descambasse no caos ou na opressão totalitária?

Os jovens voltaram ao debate acalorado. E ela não pode mais falar.

Recostou-se na cadeira e ficou assistindo ao debate como se fosse ela a platéia. Talvez um regente. Talvez só platéia. Era isso mesmo que gostava de fazer, para quê resistir? Desde criança, adorava mexer nos formigueiros e ver como as formigas se reorganizavam, frenéticas. Por que seria diferente agora que tinha cargo público e era docente? “As pessoas não mudam”, havia dito o seu pai. Nunca? “Não”, ele havia garantido. Talvez por isso fosse tão reservado, por saber que certas coisas não podia mudar nele mesmo.

. . .

Mónika caminhou sozinha até o hotel, que ficava a duas quadras do Museu. Era perto demais, por isso deu antes algumas voltas pelo bairro. Havia um congresso de evangélicos na cidade e o hotel estava lotado. Mas o pessoal adorava Mónika e não iam deixá-la na mão. A atendente é que explicou:

– Mô, tudo bem? Então, a gente até achou que você vinha, não tem mais quarto vago mas fica aqui no saguão, vou te mostrar o cantinho que arrumamos para você.

Mónika ficou tocada com o carinho dos funcionários. Lá era não era a professora, nem a estrangeira, era a apenas a Mô que a cada semana vinha para Ambaíba se hospedar. No sofá do saguão haviam feito uma caminha para ela, com lençóis, travesseiros, coberta, um pequeno abajur. Um lençol cobria o janelão de vidro para a rua. Por que cuidavam dela? Como sabiam que ela viria hoje?

– Puxa...

– ‘Magina!

Pela manhã acordou com o pessoal do congresso indo tomar café da manhã. Andavam em turma, pareciam felizes, falavam alto. Mónika se perguntou o que seria exatamente um congresso de evangélicos. Discutiam o quê? Deliberam sobre o quê? Que diversão, que prazer haveria para quem se dispusesse a vir a Ambaíba louvar o senhor? Do nada, lhe veio uma raiva e uma inveja intensa daqueles crentes que andavam em bando, começou a tossir e olharam para ela, que logo dobrou os cobertores e entrou no elevador para ir tomar banho no chuveiro da ginástica.

Um evangélico perguntou se cabia mais um no elevador. Os outros grunhiram algo. Ele entrou como se pulasse para um outro plano e louvou:

– Glória a Deus!

Os outros assentiram:

– Glória a Deus!

Mónika demorou um pouco mas logo repetiu:

– Glória a Deus.

Olharam pela ela. Pelo sono, pelo sotaque que do nada voltava, pareceu aos crentes que louvava o senhor com um certo sarcasmo. Repetiu com ênfase:

– Glória a Deus!

O elevador ainda desconfiava. Ela ficou brava:

– Glória a Deus!!!

Exigia, agora, que eles a seguissem:

– Glória a Deus!

Finalmente, o fizeram, engolindo qualquer desconfiança que restasse.

– Glória a Deus!, clamou todo o elevador.

Mas de onde tamanho sentimento de inadequação, o leitor pode se perguntar, mesmo em situações tão prosaicas como quando, tendo nascido em um país comunista, repartia um elevador lotado de fiéis? Será que algo nos escapa na trajetória de Mónika? Façamos um flashback que nos levará ao momento anterior ao encontro de nossa heroína com a cisterna radioativa.

É que Mónika desta vez havia mexido com uma bela colméia...

Esta é uma obra de ficção; qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência

Heloisa Pait
São Paulo, 13/7/2017

 

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